[Sudoeste do Continente Sudoeste: Damis]

    A luz e o calor confortável do sol daquela manhã iluminava lindamente aquela floresta, dando vida às árvores e outras criaturas que pela floresta perambulavam.

    A grama no chão brilhava, preenchendo todo o chão daquela floresta, repondo-se sempre que alguma besta selvagem passava por cima dela.

    Havia pássaros voando pelas árvores, lançando cantorias similares a vários sinos com diferentes tons, o que criava uma sinfonia linda de se ouvir. Uma sinfonia que acalmava a alma.

    Os pássaros não ficavam parados, pulavam de galho em galho pelas árvores, acompanhando aquela que caminhava pelo chão.

    As raízes das árvores que espreitavam a superfície da terra se estendiam para se conectar umas às outras e formar uma espécie de passadeira, garantido que aquela que caminhava não pisoteasse a grama. 

    Aquela mulher não suportaria se uma planta morresse por culpa dela, afinal.

    Ela, uma Lihyf, não conseguia manter os seus olhos dourados como ouro—que aprisionavam um trevo azul de quatro folhas—, num só lugar, apreciava aquela floresta como se fosse a primeira vez ali, mas ela já tinha mais de sete mil anos, ou seja, já tinha estado ali muitas, muitas vezes.

    Sua pele verde-clara reluzia sempre que a luz do sol se chocava contra ela. Levantou sua cabeça para o alto, as folhas filtravam a luz solar, criando uma ilusão bela, como se o céu estrelado estivesse tão perto. Os cabelos verde-escuros, que alcançavam as suas nádegas, não balançavam com perfeição ao vento, já que estavam cobertos por lindas flores roxas de quatro pétalas, que tinham crescido ali para mostrar que ela já era maior de idade, ou seja, tinha mais de 200 anos.

    Nos ombros dela estavam sentadas pequenas criaturas do tamanho de um indicador de um adulto, nove delas no total. As criaturas tinham formas humanoides, mas, certamente, dariam medo a quem as visse pela primeira vez: a pele delas se contorcia, criando deformações horríveis e assustadoras e parecia derretida, como se as criaturas tivessem mergulhado em lava. Nem mesmo um rosto aquelas criaturas tinham, apenas uma marca que cobria toda parte da frente de sua cabecinha, as deixando ainda mais aterrorizantes. 

    Eram aqueles os nove Hayim dela.

    O sorriso dela sumiu quando ela alcançou o centro da floresta, e a face dela ficou carregada de indiferença.

    Diante dela estava um alto e majestoso edifício como nenhum outro já inventado, um edifício construído pela própria natureza, o Templo de Reuniões.

    O edifício era feito unicamente de árvores frondosas enfileiradas, seus galhos se entrelaçavam e formavam o teto coberto por folhas. Quem olhasse para o alto teria a impressão de olhar para o céu da manhã cheio de estrelas, mas o teto se fechava completamente caso fosse necessário, como em dias de chuva.

    As árvores enfileiradas serviam como pilares e os espaços entre os troncos era todo coberto por cipós extremamente resistentes, que se enroscavam para deixar nenhuma fresta, formando paredes tão resistentes quanto diamante.

    No interior havia duas árvores enfileiradas no centro, para dar maior estabilidade ao teto e entre os dois pilares de árvores estava uma grande mesa circular, formada por plantas que enroscavam os seus galhos para formá-la. E todo o lugar era iluminado por flores brancas similares as lótus, que abriam suas pétalas para revelar um núcleo que brilhava num tom azul como um cristal luminoso, ou seja, como uma lâmpada da modernidade.

    Aquelas flores, as “Linites”, estavam espalhadas pelo teto, cerca de cinco, e outras pelas paredes.

    Quando a mulher chegou no interior do Templo de Reuniões, lá já estavam seis outros Lihyfs, que se levantaram das suas cadeiras ao redor da mesa redonda assim que a viram.

    Hoyo-Hoyo, Hosikati!(Bem-vinda, Rainha!) — Todos os seis Lihyfs colocaram as mãos no peito e se curvaram em simultâneo.

    A mulher que acompanhávamos, aquela que tinha um par de asas douradas de borboleta nas costas, ela era Celyn Lovincius, a Rainha dos Lihyfs.

    Carregando a mesma indiferença que adotou minutos atrás, Celyn acenou simplesmente com a cabeça e caminhou até ao assento de honra, aquele com o espaldar mais alto, e se sentou, permitindo que todos os outros se sentassem em seguida.

    Deixando o assento de honra, havia ao todo quinze cadeiras ao redor da mesa redonda, mas apenas seis estavam ocupadas por aqueles seis conselheiros da Rainha.

    — Hosikati, requisitamos esta reunião para discutir acerca do pedido de aliança enviado pelo imperador humano. — Um Lihyf macho se levantou e ditou a ordem da reunião do dia. Ele tinha a pele amarela quase laranja, tinha um par de pequeninos chifres na testa, que pareciam pequenas navalhas pretas com degradê vermelho. Seus olhos tinham escleras douradas e da sua pupila com formato de losango partia uma fina linha que formava uma espiral em toda a esclera, assim como em todos os machos Lihyfs. Ele também, assim como todo o macho daquela raça, não tinha íris, as suas pupilas eram vermelhas.

    Celyn apenas lançou um olhar para o conselheiro e acenou de leve com a cabeça, esperando que ele continuasse.

    — Eu digo que ainda é necessária uma avaliação minuciosa quanto a esta aliança, Hosikati — disse outro conselheiro, um de pele negra, o único que não possuía asas naquela sala. Ele tinha chifres grossos que cresciam para trás.

    — Concordo com o Arzel, Hosikati — comentou o conselheiro ao lado do conselheiro negro, um de pele branca, pupila castanha, cabelos pretos e longas asas pretas similares às de um pombo. —, os humanos já nos traíram uma vez, já tentaram nos escravizar, e, quando não conseguiram, decidiram escravizar a sua própria raça, chamando de inferior aqueles com pele negra. Como confiar em tais selvagens?

    — Heh, Heh. E eles ainda ousam chamar a nós de selvagens, sendo que são eles com crueldade o suficiente para levantar um chicote contra os seus semelhantes — zombou outro conselheiro, um de pele vermelha, careca, pupilas azuis, um par de pequenos chifres afunilados e um par de longas asas cinza. —, não tem como confiar naqueles.

    — Ouvi que o atual imperador está implementando novas reformas no continente humano, tanto que ele já aboliu a escravidão na capital do império, Kartumz, mas os outros nobres se recusam a fazer como ele, ou seja, mesmo que o imperador seja confiável, o império ainda não é. — Um conselheiro azul comentou, suas pupilas azuis fixas na Rainha.

    — Eu sugiro que arquivamos este pedido de aliança por agora, deixemos ele pendente enquanto observamos o andar do império Humano, depois poderemos decidir com mais clareza. — O último conselheiro falou, um de pele verde-azulada e pupilas cinza.

    — Sendo assim — a voz suntuosa da Celyn reverberou pelo salão e todos os conselheiros prestaram atenção nela. —, que deixemos o…

    — HOSIKATI!!! — Um grito reverberou pelo templo depois que os cipós que serviam de porta meio que foram “sugados” para os lados. — Ndzi tisa mahungo ya Mimoya!(Trago notícias dos Espíritos!)

    Ku humelele hini, xana?(O que aconteceu?) — A Rainha questionou, seu olhar ainda sem vida, mesmo depois de se levantar abruptamente.

    I vuprofeta…(É uma profecia…) — O Lihyf branco, que acabara de entrar, parou por um momento e coçou a garganta, antes de continuar: — Kahle, kahle…(Na verdade…) são dois fragmentos de uma só Profecia.

    Xana… — Celyn saiu da frente da cadeira e caminhou em direção ao recém-chegado, a indiferença no seu olhar sumindo lentamente. — Xana Mimoya yi hi byela yini?(O que os Espíritos nos dizem?)

    — A terra já foi preparada… — O recém-chegado Lihyf leu o primeiro pergaminho que trazia, voltou a enrolá-lo e se apressou para ler o outro. — … trazendo a promessa de uma destruição que há muito vem sendo evitada…


    [Ao mesmo tempo]

    [Centro do Continente Norte: Kansi]

    — Então, você está me dizendo que, cinco anos depois do anúncio do Rei dos demônios, os Espíritos enviaram outra Profecia? — Calmo e controlado, indagou Zaztek Kalma, Rei dos Hyems, do reino Kalmatek. Seus afiados dois pares de olhos vermelhos fitavam o Santo em sua frente.

    O uca hocha, hizocgigo!(É isso mesmo, majestade!) — O Santo respondeu, dois pergaminhos já estavam em suas mãos, sob o olhar dos dois sábios nas laterais do Rei.

    Toui, gas nimas!(Leia, por favor!) — A barba cheia e os bigodes trançados dos Rei, ambos prateados, balançavam a cada movimento da sua mandíbula.

    — Em ordem decrescente o tempo está contando… — O Santo leu o primeiro pergaminho e se preparou para ler o segundo. — … aguardando apenas a semente e os frutos destinados a abalar esta terra desesperada.

    — Hmm… — ponderou o sábio à direita do Rei, deslizando a mão superior direita pela longa barba grisalha, que alcançava a sua barriga. — Isso não faz sentido.

    Uca hia gomosui nicos cohguga!(Isso não deveria fazer sentido!) — resmungou o sábio à esquerda do Rei, sua aparência idêntica a do outro sábio, mesmo que ambos não fossem gêmeos. — E, quando isso acontece…

    — A regra é que exista outra parte para dar sentido à profecia — completou o Sábio da direita. —, ou seja…

    Gsogisohco! Mihac iDamis!(Preparem-se! Vamos a Damis!) — O Rei concluiu ao se levantar, balançando as duas tranças prateadas que caíam nas laterais da sua testa, daquele cabelo que estava amarrado num pequeno rabo de cavalo.

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