Capítulo 14 — 1 Quase Escalada (2/6)
Cot! Cot! Cot…
A faca continuava batendo contra a tábua de corte.
Vaiola contorceu os lábios por um segundo e virou a mão para ver o objeto redondo que exalava aquele cheiro azedo na sua mão.
Era uma cebola.
— Ótimos reflexos. — Vaiola enrugou a face quando a voz da mãe soou, ao mesmo tempo em que os sons da faca cortando ecoavam pela cozinha.
— Mãe!! — reclamou. — E se isso me acertasse na cara?
— Você teria desmaiado, provavelmente.
— É sério isso, mãe?! — Cruzou os braços, inflou as bochechas e fulminou a mãe com o olhar. — Sua filha chega animada e pronta pra te dar um abraço e a primeira coisa que você faz e lançar uma cebola contra ela?! Sério mesmo!?
— Só queria ter certeza que você não estava distraída. — Lavina se justificou e puxou um tomate para a tábua. — Você já devia estar acostumada.
Cot! Cot…
— É! Eu estou, mas… — Atirou a cebola, quase conseguindo quebrar a barreira do som como a mãe, e a hortaliça acabou atravessada pela faça da Lavina, que sequer se preocupou em olhar para trás. — eu queria um abraço agora.
— O estranho seria se você não quisesse, aí eu ia te dar alguns carolhos por não buscar o colo da tua mãe depois de tanto tempo sem me ver. — Lavina ainda estava cortando as hortaliças e legumes, de costas, mas o seu tom denunciava um sorriso. — Agora, coloca um sorriso nesta cara e vem cá! — Largou a faca, limpou as mãos no avental azul com bordados brancos e se virou para a filha, dobrou os joelhos e abriu os braços.
Toda a frustração e birra presentes no rosto da Vaiola foram rapidamente consumidas pelo gigantesco sorriso que surgiu entre os lábios. A nanica não perdeu mais tempo alí, correu e se lançou entre os braços fortes da mãe.
— Eu te amo, pequena. — Lavina confessou envolvida pelo calor da filha, seus olhos fechados e um sorriso sutil na sua face.
Glamich olhava tudo parado na entrada da cozinha e sorria por ver as duas mulheres da sua vida tão felizes.
— Agora, vá lá! Coloque um avental e vem me ajudar, vou fazer a feijoada.
— AÊÊÊ!! FEIJOADA! — Vaiola gritou depois de receber um afago da mãe na cabeça, correu até uma bacia pequena com água, lavou as mãos e levou um pequeno avental amarelo num armário sem portas ali embaixo.
Na volta, ela puxou um pequeno banco de madeira e o levantou até onde sua mãe estava, o posicionou e subiu nele para alcançar o balcão.
Glamich continuou lá, sem se intrometer no momento de mãe e filha, apenas observando a Vaiola lavando os legumes, hortaliças e algumas verduras, antes de entregar a mãe para cortar. Vez ou outra, Lavina respingava algumas gotículas de água no rosto da nanica e uma breve brincadeira era iniciada. Se lhe fosse concedido um desejo naquele momento, ele apenas pediria que nada mudasse.
— Uma pergunta hipotética, Vaiola…
— Hã?! Pergunta ipo-quê?
— Hipotética. Refere-se a uma hipótese. — Lavina esclareceu. Ela não se esforçou para explicar mais, sabia das capacidades mentais da sua filha, afinal. — Você entende?
— Uh… então, seria uma pergunta sobre… algo que pode acontecer… ou não? — indagou depois de um tempo pensando, pendendo a cabeça para o lado, o indicador no queixo.
— Exatamente. — confirmou. — Então, digamos que você está num campo de batalha aleatório e que está cercada por quatro Caminhantes Ascendidos extremamente poderosos, cada um proficiente em apenas um dos elementos. Em qual deles você colocaria maior atenção durante o combate? E por quê?
— Hmmm… — Vaiola ponderou por um bom tempo sob o olhar atento da sua mãe. Mordeu o seu lábio superior e balançou a mandíbula inferior, sua cabeça tombada para o lado e seu olhar ligeiramente perdido.
A cena descrita pela sua mãe se materializou em sua mente para melhor análise, ela viu quatro sombras cercando-a, uma vermelha, uma castanha, uma azul e uma cinza. Os quatro Caminhantes descritos pela sua mãe.
Vaiola nunca tinha visto um Caminhante, mas ela ouvira da sua mãe vários contos sobre aquelas criaturas fantásticas. Ela sabia que “Caminhantes” era como eram chamados aqueles da raça Lihyf, aqueles que podiam manipular a Energia da natureza, Ehne, com a bênção dos Espíritos, para dominar os elementos da natureza. “Caminhantes da Natureza” era a forma correta de os chamar, mas foi reduzida para apenas “Caminhantes”.
Vaiola imaginou uma sombra transformando-se numa figura humanóide de chamas, a outra numa de água, outra numa de terra e a última numa de vento.
— No de fogo — respondeu, depois de cerca de cinco minutos pensando e analisando, seus olhos mirando o azul dos olhos da mãe, esperando alguma resposta dela. —, já que, por conta do seu poder explosivo, ele seria mais perigoso.
— A sua justificativa está correta — Ela fez algum suspense ao colocar uma pausa um tanto longa na fala. —, mas é só isso.
Glamich sorriu após escutar a resposta da menor, afinal ela tinha só cinco anos. Já era perfeito para a idade dela, mas ele sabia que ela deixou de considerar algo muito importante.
— Estamos falando de Caminhantes Ascendidos, ou seja, o de fogo consegue controlar os raios também, o de água o gelo, o de terra o metal e o de vento o som — Lavina acrescentou. —, o erro que você cometeu é comum, qualquer um responderia da mesma forma, já que o mundo é justo, ou seja, ele cria limites. — Lavina abordou, toda a sua atenção agora focada apenas na filha, que escutava atentamente. — Contudo, você é uma Hermis, então não pode pensar como qualquer um. — repreendeu e iniciou a explicação. — Realmente o fogo seria mais danoso em comparação com os outros elementos, mas essa “superioridade” do elemento é destruída quando a magia é colocada no meio. Com isso, o fogo se torna o elemento mais fraco entre os quatro. Qualquer outro pode extiguir o fogo, afinal. — Sorriu. — Se descartamos locais que são abundantes em fogo, como vulcões, abundantes em água, como os mares e abundantes em terra, como a superfície e o subterrâneo, esses três elementos se tornam previsíveis, contudo, é impossível lutar num lugar sem vento, sem ar. Logo, Caminhantes de ar já tem uma grande vantagem.
— Oh! — Vaiola soltou involuntariamente, compreendendo a explicação da mãe.
— Já que esse é o caso e a hipótese colocada diz que os Caminhantes são Ascendidos e extremamente poderosos, então, quem devia ter a sua atenção é o Caminhante de ar…
— Eles não podem criar… eles dependem do que já está na natureza. — Vaiola disse, depois de compreender o que a mãe explicava.
— Isso mesmo. Os Caminhantes podem ser poderosos, mas eles não podem criar os elementos, eles só podem controlar aqueles que já estão na natureza. — Lavina sorriu orgulhosa. — Os Caminhantes de fogo, água e terra precisariam se preparar primeiro para o combate e, mesmo preparados, os seus recursos podem esgotar-se em algum momento, mas isso não acontecerá com os Caminhantes Ascendidos de vento, já que eles controlam todo o tipo de gás e o som.
— Eles tem todo um arsenal por onde quer que andem. — Vaiola pontuou e seu pai abanou a cabeça positivamente de onde estava, ela não viu, mas ele sorria orgulhoso.
— Exatamente. Bastaria um simples estalo, ou até mesmo um mero pensamento para tirar o teu oxigênio e te matar lentamente ou ele poderia simplesmente transformar o ar que te envolve em agulhas que penetrariam o seu corpo instantaneamente. — Vaiola abanou a cabeça com entendimento, imaginando as cenas faladas pela mãe. — Não tem como escapar de um inimigo que está em todo lugar, não é mesmo. Isto é, se você não for uma Hermis.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.