— Oh!

    — E é por isso que, apesar de serem flexíveis e darem liberdade ao Caminhante, as técnicas de vento são bem difíceis de ser executadas, e isso faz com que quase ninguém alcance o verdadeiro potencial do elemento. — Lavina disse e Glamich acrescentou logo depois dela:

    — É como sua mãe disse, o mundo sempre é justo.

    — Mas você é uma Hermis, deve sempre considerar que nada é impossível e se preparar para toda e qualquer situação.

    — Pode deixar, mãe — respondeu, exibindo um sorriso e recebeu um afago da mãe na cabeça, antes de um abraço.

    — Minha pequena. — Lavina separou o abraço e voltou a bagunçar os cabelos da menor com outro afago.

    — Ah, sim! Mãe, tenho algo para te mostrar.

    — I-isso é…?? — Os olhos da Lavina quase pularam para fora da sua cara, cheios de descrença, depois que a nanica afastou os cabelos que cobriam o seu ombro direito com o dedo. Seus lábios tremeram por um minuto, quando ela não sabia o que dizer, mas depois se curvaram para cima. — C-como…? Quando…?

    — Eu ganhei quando pescava com o papai.

    — Quê? Hahahaha!! — Lavina não conseguiu mais conter a alegria e seus olhos emitiram um intenso brilho que misturava alegria e orgulho. — Hahahahahaha!!! — Levantou a filha do banquinho com um abraço forte e se virou para o marido. — Por que você nunca me disse que a pescaria era assim tão perigosa, hein, Glamich? Eu teria permitido há muito tempo que você a levasse, Hahahaha!!

    A face do Glamich ficou escura. Por que aquelas palavras soavam tão erradas?

    — Isso é motivo de comemoração. Glamich, rápido, vá e compre alguma carne de porco! Precisamos celebrar a primeira cicatriz da nossa filha. — Enquanto a mãe falava, Vaiola era lançada para cima uma e outra vez pela sua alegre mãe, que a contagiava com aquela felicidade e animação.

    Já o Glamich, talvez por não ser um Hermis de sangue e ter apenas recebido o sobrenome depois de se casar com a Lavina, sendo o único de mente sã na família, apenas saiu para fazer o que lhe fora ordenado pela esposa, deixando as duas mulheres da sua vida alí.

    Não era segredo para ninguém que a Lavina tinha cicatrizes por quase todo o corpo, desde o tronco até as coxas, mas, em contraste com o que uma mulher normal faria, Lavina não escondia elas, pelo contrário, ela se orgulhava daquelas cicatrizes e não tinha medo de as mostrar. Eram cicatrizes diversas, cortes, perfurações, queimaduras… ela parecia uma veterana de guerra.

    Lavina não temia mostrar as cicatrizes que possuía, mas nunca contou a ninguém as histórias  por detrás delas, guardando-as como um mistério apenas para si mesma, não  contando nem para a família.

    Naquela noite, sob aquele céu, que estava iluminado como nunca, graças as estrelas mais brilhantes que a Vaiola já vira, houve festa na casa dos Hermis e ela só chegou ao fim horas depois, antecedida pela sentença proferida pela Lavina:

    — Já sei! Vaiola completa cinco anos em duas semanas. Tenho um presente perfeito.


    [Atualmente]

    E, depois de três dias e três noites de viagem, já era o vigésimo dia do sexto mês do milésimo ducentésimo quinquagésimo sexto ano da quarta Época. 

    Era o aniversário da Vaiola.

    Sabendo do tempo necessário para a viagem, Lavina organizou tudo para que chegassem na floresta exatamente naquele dia.

    — Uou!! — Os três não puderam evitar arregalar os olhos e exclamar surpresos. Eles davam voltas pelos seus próprios eixos, analisando todos os seus arredores e gravando cada detalhe.

    A surpresa se dava maioritáriamente ao fato daquela floresta ter um clima próprio. Diferente de lá fora, que estava quente, no verão, dentro da floresta era gélido, era inverno, com neve que cobria todo o chão e as árvores. Será que era por influência do Oceano Nevasco ao Sul? Bem, não importava. Mas tinha uma questão que surgiu na mente de todos.

    “Como não vimos tanta neve antes de entrar?”

    Eles deram uma boa vista de olhos pela floresta antes de a adentrarem, mas não viram nenhuma mancha branca em nenhum lugar. Entretanto, bastou um passo para o interior da floresta para eles se depararem com aquele frio.

    — É mesmo mágico. — Vaiola apreciava os seus arredores, vapor branco saindo junto com as suas palavras e suas pernas, aquecidas dentro de botas de couro, afundavam na neve fofa que engolia todo o pé até a metade da panturrilha.

    — Parece que sim. — Glamich disse em seguida.

    — Pois é. As Terras Centrais costumam ter um clima compartilhado. Não pensei que teria um lugar com um clima único. — Lavina mencionou, descartando a possibilidade de influência do oceano de gelo, o Oceano Nevasco, já que toda a área Sul das Terras Centrais estava em contacto com o Oceano Nevasco, mas não sofriam tal influência como aquela floresta.

    Eles estavam cercados por árvores frondosas que bloqueavam os céus com os seus grandes galhos e folhas, aquecidos depois de vestirem casacos de couro, tanto que não sentiam as partículas frias de neve caindo neles e derretendo sem demora.

    Eles pareciam formigas perante às imponentes árvores. Era estranho, as árvores não eram assim tão grandes vistas do lado de fora da floresta. Mas também era aquilo que dava um ar mágico ao lugar.

    A floresta se tornou ainda mais  mágica aos olhos da família depois de alguns passos, quando o vento gélido desapareceu. Levada pela curiosidade, Vaiola se agachou e recolheu um pouco da neve na mão.

    — Que estranho. — Ela murmurou, chamando a atenção dos mais velhos.

    — O que foi? — perguntou Lavina.

    — Não é fria. Está quente. — Vaiola disse, estranhando, tirando os sapatos.

    — Quente? — Os mais velhos indagaram em simultâneo e também se agacharam para recolher um pouco da neve. — É mesmo. É quente.

    — Hahaha! Isso é gostoso. — Vaiola estava sentada e com as costas um tanto inclinadas para trás, seus pés e mãos afundados na neve, no seu rosto um sorriso.

    A neve abraçava os seus pés e mãos, transmitindo um calor reconfortante.

    Logo, a família despiu as vestes de couro e seguiu pela floresta sem sentir frio, mesmo quando a neve continuava caindo, afinal a neve era quentinha.

    Naquela floresta, onde a neve aquecia os pés como um forno numa temperatura constantemente confortável, onde o vento era morno como num Verão leve, mas espalhava o cheiro verde para todos os cantos como na Primavera, a família seguiu sem nenhuma pressa.

    Para explicar a situação mágica da floresta, Lavina só conseguia pensar nos Lihyfs, já que era no fundo daquela floresta onde estava a Ponte Rúnica que conectava as Terras Centrais com o continente Sudoeste, a terra dos Lihyfs, os maiores detentores de magia.

    A família seguiu sobre a neve quentinha enquanto admirava a floresta e algumas Bestas Selvagens que apareciam de vez em quando. 

    Eles não estavam alí à turismo, tinham um objetivo: Escalar as montanhas no extremo Oeste da Floresta. Era aquele o presente de aniversário preparado pela Lavina para a filha, uma escalada que tinha tudo para ser perigosa.

    Era simplesmente… perfeito. Pelo menos era para uma Hermis.

    Glamich tentou fazer a esposa mudar de ideia, mas como discutir tais assuntos com duas Hermis sedentas por adrenalina, ainda mais quando uma era tão fofa?

    Para a Lavina, era importante que a filha estivesse preparada para tudo e mais ainda que ela soubesse raciocinar sob pressão, em situações de vida ou morte. Portanto, onde mais a nanica ganharia experiência se não escalando uma montanha com o risco de cair a qualquer instante?

    Haaa… isso soou tão louco.

    A família não perdeu mais tempo, parou de apreciar tudo pela floresta e seguiu para o Oeste, para onde as montanhas aguardavam por eles.

    Eles caminharam por cerca de uma hora sem cansar, até que o mágico ficou mais bizarro, quando o vento arrastou até eles um cheiro nauseabundo de podridão e… 

    … Morte

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 0% (0 votos)

    Nota