Não foram necessários muitos passos, depois de sentir aquele cheiro de podridão e morte, para encontrar a fonte. O cenário mudou por completo de um segundo para a outro, como se estivessem em outro lugar distante e totalmente diferente.

    O trio não conseguiu evitar de levar as mãos ao rosto e cobrir o nariz. O cheiro naquele lugar era insuportável, como se fosse uma vala comum, onde eram jogados dejetos e cadáveres de diferentes criaturas há bastante tempo.

    O vento insistia em arrastar consigo aquele fedor que insediava os pulmões e era composto por uma umidade abafada, como se aquela área estivesse sob os efeitos de um Verão extremo.

    O cenário na frente deles estava simplesmente imundo: o chão estava molhado e lamacento, com alguns focos de água parada com tapetes de musgos verdes, vermelhos e castanhos. Dava para ver, também, por todo aquele chão, o que pareciam ser vermes se contorcendo, pedaços de pele e pêlo, e alguns ossos degradados.

    O céu voltara a ser visível, já que as árvores estavam afastadas daquela área, formando um perímetro circular de pelo menos vinte metros de raio.

    As árvores—pouquíssimas por sinal—, que permanenciam no interior do perímetro, pareciam ter sido drenadas até o seu último resquício de vida, estavam todas secas e contorcidas de forma assombrosa, cobertas por uma gosma verde-amarelada que escória pelos seus ramos, as fazendo parecer podres. Aquela gosma fedia e tinha vermes branco-leitosos nadando nela.

    Redes de teias estavam espalhadas pelo interior do perímetro, redes enormes do tamanho de um adulto, que pareciam ter sido tecidas por aranhas colossais.

    Os ventos que sopravam pelos troncos das árvores produziam sons fantasmagóricos, que reverberavam para todos os lados.

    Uuuuuuu!

    No centro de toda aquela podridão estava um pequeno lago, mas não estava cheio de água, era um cheio de uma lama tão preta e gosmenta que parecia alcatrão, cheio de galhos secos, ossos e uma cobertura de folhas secas.

    A confusão se fez presente nos olhos da nanica, ela não entendia como acabaram num lugar daqueles, como o ambiente mudou tão de repente. Ela queria respostas, por isso olhou para trás, só para descobrir que a floresta invernal com ares de primeira continuava a apenas alguns passos para trás.

    — Esse lugar é mais estranho do que dizem. — Lavina comentou, seus olhos vagando pelo pântano. — Vamos continuar.

    Lavina tomou a dianteira e guiou a sua família para o mais longe possível daquele pântano, daquela lagoa de alcatrão e ossos. Lavina não sabia onde estavam, para onde exatamente estavam indo, mas continuou seguindo em frente com a sua família.

    Alguns passos depois, a bizarrisse voltou a marcar presença. Vaiola e seus pais olharam para trás, o pântano estava a apenas alguns metros atrás deles, não mais de três, mas parecia que eles já estavam à quilômetros. O cheiro de morte e podridão não mais pairava no ar.

    Tirando a mão do nariz, a nanica Vaiola olhou surpreendida para aquele lago cheio de podridão e restos mortais. Como podia um cheiro tão fétido como aquele que ela sentira momentos atrás desaparecer tão rápido? Só uma resposta parecia plausível:

    “Magia!”— Foi o que ela pensou.

    A família não se incomodou mais com aquela visão, voltaram à caminhada sem mais demora. Em sua mente, Vaiola pensava que, depois do que já vira, aquela floresta não podia mais a surpreender.

    “O-o que…?”

    Mas a reação seguinte dela provou o contrário. Seus olhos estavam arregalados, confusos com o que viam e viajavam para todos os lados em busca de uma resposta.

    Toda a vegetação, que era quase como um símbolo daquela floresta, tinha sumido de um minuto para o outro. Ela olhava embasbacada para os seus arredores, querendo entender como aquelas árvores frondosas e imponentes tinham se transformado em troncos murchos com galhos secos. 

    Não tinha nenhuma folha verde em lugar algum, tudo o que se via para onde quer que se olhasse era uma floresta… melhor, era um amontoado de troncos e galhos secos para todos os lados, formando uma floresta com ares de terror.

    Swiin.

    Um assobio assombroso reverberou quando o vento soprou por entre as brechas nos troncos mortos das árvores. 

    Era como se uma severa seca tivesse varido aquela terra, estando acompanhada por um feroz incêndio, consumindo todo o verde da floresta.

    O que raios era aquela floresta? Era uma questão que ecoava na mente de cada um dos Hermis.

    Lavina não fez nenhum comentário acerca do lugar, nem mesmo o seu marido e filha, ela apenas afiou os olhos, desconfiada por ver uma certa árvore morta à sua esquerda, a maior dentre todas, que possuía um buraco no tronco que parecia a pegada de alguma Besta.

    Era impressão ou ela já tinha visto aquela árvore em algum lugar?

    “Hmm…”

    Ela ignorou aquilo depois de alguma ponderação, deixando para pensar naquilo mais tarde. O seu maior foco naquele momento era a escalada da filha. Se não estivesse enganada, eles logo chegariam onde as montanhas os aguardavam.

    A família caminhou mais e mais, até que mais uma hora passou voando. Glamich reclamou das pernas e a Vaiola começava a mostrar traços de fadiga, portanto, eles fizeram uma breve pausa para recuperar o fôlego, as forças e beber água.

    A pausa não durou mais de vinte minutos, a família logo recolheu as suas coisas e continuou a viagem. Poucos passos foram dados depois disso, só o suficiente para chegarem naquele ponto onde a Lavina arregalou os olhos e ficou estática. O fedor de morte e podridão tinha voltado a perfurar os seus pulmões.

    — Que merda… — Ela resmungou para si mesma ao vislumbrar o cenário na sua frente. Parecia que a floresta seca tinha os engolido, só para os cuspir de volta. 

    — Só pode estar de brincadeira. — Glamich esbravejou, assim que viu o que sua esposa via.

    — O-o que… aconteceu? — Vaiola era quem menos entendia a situação. — Estamos andando às voltas?

    — Não, não estamos. — Lavina franziu o sobrolho, alguma raiva começava a faiscar em seu coração. Ela tinha treinado o seu senso de direção e confiava nas suas capacidades, mas eles estavam de volta ali, naquele pântano, exatamente no mesmo lugar por onde saíram para entrar na floresta seca. Aquilo só tinha uma explicação… — Vamos! Vamos logo!

    Lavina ordenou, mas não parecia estar mentalmente com a sua família. Seus olhos afiados emanavam desconfiança, fixos na trilha que levava à floresta invernal. Na busca por respostas que solucionassem as suas desconfianças, levou a sua família para aquela trilha.

    Seus passos eram acelerados enquanto passava pelo chão lamacento, não levando muito tempo para chegar na entrada da floresta coberta pela neve. 

    A neve fofa e morna abraçou os pés do trio, mas não teve poder de relaxar a Lavina. Ela olhava para os lados com frequência, até que parou de girar a cabeça e cessou a caminhada.

    Ela tinha encontrado o que procurava, aquilo que confirmava as suas desconfianças. Lá na frente, perto de um amontoado de arbustos floridos, uma árvore retorcida—a menor dentre as demais—, tinha no seu tronco aquele mesmo buraco com o formato de uma pegada de alguma Besta.

    — Droga… — sussurrou entre os dentes rangidos em fúria e frustração.

    Ela já sabia o que estava acontecendo, mas precisava determinar a real situação deles.

    Depois de uma breve olhada e de nada explicar para a família, Lavina deu meia volta e retornou a passos rápidos em direção ao pântano. Não mais preocupada em cobrir o nariz, Lavina mal chegou e já estava de olho numa árvore perto do lago de alcatrão. Aquela árvore não era como as demais, não era apenas morta, era uma árvore que se contorcia de uma forma que dava dor só de olhar, uma árvore média que possuía no seu tronco um buraco com o formato de uma pata de alguma Besta.

    Para a Lavina, aquela árvore já era prova o suficiente. Já era oficial…

    — Hahahahahahaha!!! — riu, parecia feliz, mas era só isso. — Nunca pensei que fosse cair em algo assim. A idade está mesmo batendo à porta.

    — O que está acontecendo? — Glamich indagou, com alguma preocupação. Ele sentia que algo estava errado, mas não conseguia entender.

    — Vamos continuar!

    Lavina respondeu simplesmente, antes de retomar a caminhada e voltar a floresta invernal.

    — Hahahahahaha!!! — Lavina apenas gargalhou da situação, como se fosse a mulher mais feliz da Dimensão Amarela, apresentando um grande contraste com o seu esposo, Glamich, que franzia o cenho, certo de que ela sabia o que estava acontecendo. — Os Lihyfs deviam estar mesmo decididos a afastar os humanos daqui. 

    — Mãe… o que está acontecendo?

    — É bem simples, pequena. — Lavina iniciou e se virou para a árvore suspeita. — Estamos presos numa Formação Mágica.

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