— Uma Formação Mágica?

    — É. — Lavina confirmou. — Está vendo aquela árvore com um buraco no tronco?

    — Aquele que parece uma pegada?

    — Exatamente. Ela é o centro da Formação.

    Vaiola focou o olhar naquela árvore retorcida, naquele buraco em forma de pegada e repassou todos os ensinamentos que recebera da mãe em sua mente. 

    Ela tinha conhecimento sobre as Formações Mágicas, sabia que era um nome mais formal usado para denominar os círculos mágicos. Sabia que cada Formação Mágica carregava um conceito abstrato principal, aquele que seria responsável por agir assim que a formação fosse ativada.

    — É uma ilusão — disse ela.

    — Isso. O conceito desta Formação Mágica é “Ilusão”. — Os cantos dos lábios da mais velha curvaram-se. — Hahahaha! É uma Formação muito simples e fácil de quebrar, desde que não seja ativada. É impossível quebrá-la estando sob os efeitos dela.

    — Isso significa que vamos ficar nisso para sempre? — Glamich indagou, seus olhos, contraídos em frustração, passeavam pelo cenário, em busca de uma saída.

    — O que faremos, mãe?

    — Já que tudo isso é uma ilusão, tudo o que fizemos até agora foi andar às voltas naquela árvore. O resto são apenas falsas sensações. — Lavina caminhou de volta a floresta invernal, encontrou uma árvore ali perto e se escorou nela, sentando-se naquela neve fofinha. — Sendo assim, o melhor que fazemos é descansar e poupar as forças. Esperemos que alguém apareça e quebre a formação.

    — Foram os Lihyfs… que fizeram a Formação Mágica? — Lavina confirmou com um aceno de cabeça. — Por quê?

    — Para manter os humanos longe.

    — Nos manter longe? Por quê?

    — Por quê? — Glamich riu após receber um olhar da esposa que claramente dizia: “cuide você disso”, formulando uma resposta. — Acontece que os humanos são bem idiotas, sabe? — Olhou para a menor, Vaiola continuava confusa. — É que os humanos possuem o que eu chamo de “Soberba absoluta”. Pensamos que tudo ao nosso redor e todos que são diferentes são inferiores a nós. E quando entramos no assunto “Raças”, os humanos se tornam monstros predadores. — Vaiola processou a informação que recebia por algum tempo, cerca de dois minutos inteiros e pareceu começar a entender.

    — Os Lihyfs e os Hyems já tentaram fazer amizade com os humanos, mas terminou em tragédia. Os humanos fizeram o que mais sabem e traíram a outra parte, realizando uma tentativa de escravidão. Eles queriam os Lihyfs e os Hyems para si, mas acabaram descobrindo que “querer” não é “poder”. 

    — Eles não são as Hermis, afinal. — Lavina acrescentou, de repente.

    Glamich olhou para a esposa, que tinha um sutil sorriso, fez outra pausa e esperou que a filha processasse toda a informação em sua mente e continuou depois de cerca de dois minutos: — Os humanos são tão idiotas que, quando não conseguiram escravizar as outras raças, passaram a usar a cor da pele como critério para definir quem era superior entre a sua própria espécie. Começaram a escravizar uns aos outros. Você entende agora, pequena?

    — Uhum! Eu odeio tanto isso. — Assentiu com a cabeça e o seu rosto se contorceu, quando os dentes rangeram com fúria. Só de pensar na escravidão, o coração da pequena se enchia de uma furia colossal. — Pai, por que os humanos são desse jeito?

    — Essa é uma pergunta um tanto difícil de responder. — Glamich levou a mão ao queixo e elevou os olhos às árvores. — Medo, inveja e ganância… é. Provavelmente esses são os motivos.

    — Como assim?

    — O medo é um sentimento primordial dos humanos e o maior dos medos humanos é o medo do desconhecido, do estranho, do diferente. Os humanos tem medo do que as outras raças representam. — explicou lentamente, dando tempo para a filha analisar e digerir o que escutava. — Quando amedrotados, os humanos costumas reagir com hostilidade. Em segundo, os Lihyfs tem a melhor magia, os melhores guerreiros e os Hyems tem os melhores artesãos. Isso desperta a inveja do “frágil” humano sem habilidades inatas.

    — Por fim — continuou depois de uma curta pausa. —, humanos sempre querem mais e mais, mesmo já tendo tudo.  Os humanos querem sempre estar no topo, nunca estão satisfeitos com apenas “tudo”, eles querem “tudo e mais um pouco”. Os humanos quiseram a magia dos Lihyfs, as habilidades dos Hyems, quiseram tudo pertecente a eles. Para isso, tentaram dominar as outras raças.

    Concluiu, seus olhos sobre a nanica durante a pausa para ela analisar tudo o que ele dissera.

    — Você entende?

    — Entendo. — Ela fez uma longa pausa depois da resposta, como se ainda tivesse algo para acrescentar, mas ainda estivesse pensando em como colocar como uma questão. — Se os humanos queriam tanto o que os outros tinham, por que não fazer uma aliança e aprender com eles?

    — Hahahaha! Vejo que você está no seu modo curiosa hoje, hein. — Seu sorriso estava enorme, assim como seu orgulho e afagava a cabeça dela. — Como eu respondo isso…?

    — Me responda, Vaiola. O que é mais fácil? Menosprezar ou fazer amizade? — A questão veio da Lavina. — Pedir ou tomar?

    — Uh… — Vaiola não respondeu por um bom tempo, não porque não tivesse a resposta, mas porque não sabia se era a correta.

    — É assim que os humanos pensam. Por que fazer amizade com um ser que posso dominar? Por que pedir por algo se posso simplesmente tomar para mim. — Lavina continuou. — É assim que são os humanos desde sempre. Não eram os Lihyfs nem os Hyems que eles queriam, muito menos a magia e habilidades deles. O que os humanos queriam era uma vida fácil, queriam se esforçar o mínimo possível. Eles só viram nos Lihyfs e Hyems o jeito mais rápido de viver sem fazer nada.

    — Hmmm… os humanos são bem idiotas. — Vaiola disse em seguida, estava tão fofa imersa em pensamentos, com as bochechas infladas, olhos fechados e braços cruzados, que arrancou risadas dos pais.

    — Huh!? — Lavina se levantou de supetão. Ela não precisou falar nada para que o seu marido e filha também olhassem para onde ela olhava: a pequena árvore retorcida em meio a arbustos floridos.

    A árvore retorcida começou a tremer violentamente, parecia enraizada num terreno sob os efeitos de um terremoto. O tremor foi tanto que a árvore passou a ganhar rachaduras cada vez mais profundas.

    — Mãe!?

    Vaiola viu as rachaduras na árvore se espalharem por todo o cenário que a cercava, partindo as árvores nas redondezas em várias partes, mas nenhuma das partes caía no chão, como se fosse um reflexo em cacos de espelho flutuante.

    Aquela realidade foi recebendo mais dano a cada segundo, as rachaduras passaram das árvores para o chão e logo todo o cenário se estilhaçou, transformando-se em finíssimas partículas de Ehne.

    ROOOAAARRR!!!

    Uma rajada poderosa de ar se chocou contra a família, quase os soprando para longe. Com a rajada, um bafo fervilhante.

    Três. 

    Era aquele o número de criaturas gigantescas que estavam em frente a família.

    A Besta que rugia era um enorme gorila de quatro metros de altura, penugem vermelha e olhos de fogo, literalmente. 

    Tinha uma gigantesca giboia à direita do gorila, coberta inteiramente de musgos e flores silvestres brancas, com dois metros de altura e dez de comprimento. E à esquerda estava uma gigante aranha vermelha, devia ter cerca de três metros de altura e as suas patas dianteiras pareciam foices afiadas.

    Bestas Mágicas.

    Bam! Bam! Bam!

    O gorila já demonstrava hostilidade, batendo no seu peito com ferocidade, ao mesmo tempo em que rugia.

    A aranha se mexeu para lá e para cá em apoio e a giboia apenas balançou a longa língua.

    A família Hermis não tinha se movido daquela posição desde o surgimento das Bestas Mágicas e apenas observavam tudo com alguma calma, para não atrair a hostilidade das Bestas. Contudo, foi em vão.

    O gorila desapareceu de um segundo para o outro e só foi reaparecer em frente a Vaiola, seu cotovelo puxado para trás e o punho emanando uma chama escaldante.

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