Capítulo 18 — 1 Quase Escalada (6/6)
Vaiola estava estática, sem saber como reagir àquele movimento rápido do gorila. Ela estava tão atordoada que esqueceu todos os ensinamentos que recebera da sua mãe até aquele momento.
O gorila de frente para ela exalava uma aura fervilhante, a atmosfera ao seu redor estava em chamas, dificultando a sua respiração.
Ela viu toda a sua vida passar pelos seus olhos lentamente, o punho coberto de fogo se aproximando cada vez mais do seu peito.
Ela não tinha como reagir a tempo.
Seu pai, ao seu lado, não teve nem tempo de puxar a nanica para perto de si, tempo de mantê-la protegida. Seus olhos arregalados estavam fixos na filha, seus dentes cerrados e sua mão estendida para tentar alcançar a pequena.
Seu coração não mais pulsava durante aquele segundo tortuoso. Ele queria tanto salvar a sua filha, mas sabia que não seria mais rápido que aquele gorila, sabia que a sua mão chegaria tarde demais, que a sua mão só chegaria no seu destino depois que a Vaiola tivesse sido lançada longe, em chamas.
Precisava evitar aquilo, mas como?
“Outra vez!! Está acontecendo outra vez! Por que as Bestas Mágicas continuam atacando a minha filha!!!?”— A indignação era tanta que gerava lágrimas gélidas que escoriam pelo seu rosto. —“Por quê!!? Por quê!!?”
BAAAAMMM!!!
O chão tremeu quando o gorila acertou o seu alvo e rachaduras se formaram no chão, naquela leve cratera circular que se formou.
— Preste bem atenção, pequena! — A voz da Lavina despertou os sentidos do Glamich e da pequena Vaiola, que tinha fechado os olhos momentos antes da sua mãe se colocar entre o punho em chamas do gorila e a nanica.
Os olhinhos da Vaiola cintilaram, orgulho e admiração se fazia presente neles, a mãe dela tinha parado a investida do gorila usando apenas o indicador direito.
— Você é uma Hermis, deverá ser capaz disto.
O gorila saltou para longe depois de vislumbrar o sorriso da Lavina, depois de notar que aquela mulher nem prestava atenção nele depois de receber o seu mais forte soco.
Não era uma mulher normal.
— Não desvie o olhar nem por um segundo. — Lavina lançou um olhar ao esposo e ele logo abraçou a filha e se distanciou da mulher, se escondendo atrás de algumas árvores, num lugar onde a nanica poderia ver tudo o que estava prestes a acontecer.
— Me digam! Branca? Amarela? Laranja? Qual a vossa Classe?
Se era atenção o que as Bestas Mágicas queriam, elas tinham conseguido a da Lavina. A mulher tinha se colocado de fronte para as três Bestas Mágicas, tombando com rigidez a cabeça para os lados, estalando os músculos do pescoço.
Roooaaaarrr!!
— Ah, é mesmo! Vocês não falam, hehehe. — Não, não era um riso de ameaça. Aquele era um riso sincero e um riso de empolgação e animação. Aquele era o riso que dizia: “Lavina Hermis saiu da jaula.” — Já faz um tempo que eu não me mexia.
Ela deu um passo para frente, a atmosfera mudou na mesma hora. O ar se tornou mais denso e parecia que uma força estava forçando tudo e todos a se curvarem perante a presença daquela mulher. As árvores se entortaram, não suportando a pressão, as pedrinhas no chão viraram pó e a leve brisa começou a dar início a um vendaval.
— Vocês são tão patéticos. — Lavina deu outro passo e as Bestas Mágicas deram três passos para trás, usando de todas as suas forças de vontade para não se curvar. Era evidente o receio delas. — Ainda não fiz nada e vocês já estão fedendo a desespero. — Outro passo. — Já disse que adoro o cheiro do medo?
Um arrepio percorreu toda a criatura que viu o sorriso psicótico que surgiu entre os lábios daquela mulher. Toda.
— Virão? — Outro passo da Lavina e outro recuo das Bestas Mágicas. — Ou precisarei ir até vocês?
Grrr…!!
As Bestas Mágicas não mais se encolheram, sabiam que morreriam, lutando ou fugindo.
O gorila não recuou mais, ele inflou as bochechas e estufou o peito, seus punhos cerrados e cotovelos recuados.
ROOOAAAR!
VOOOSSH!
Fogo saiu da boca do gorila como uma forte rajada, voado com ferocidade contra a Lavina, enquanto derretia a areia no chão e transformava em nada as folhas, galhos e pequenos arbustos no caminho.
— Primeira lição! — Lavina levantou o indicador direito durante a fala, sem se importar com a rajada de fogo que ia contra ela. Vaiola, que estava atenta a todos os movimentos da mãe, logo viu uma barra roxa no pulso da mão levantada. — Uma Hermis que teme magia não é digna de ser uma Hermis. — Lavina disse, abrindo a palma da mão. — Diante de uma Hermis, magia não é diferente de uma mosca irritante, portanto, apenas a enxote.
VOOOSH!
A rajada de fogo se aproximou, com violência, da Lavina, contudo, como se nada daquilo estivesse acontecendo, lavina permanecia plena, girando a mão para lá e para cá, como se seu pulso doesse, mas aquele não era o caso.
Quando as chamas chegaram perto o suficiente para transformar qualquer humano em cinzas, lavina apenas estendeu o seu braço e, como enxotasse uma mera mosca, ela agitou a mão de leve, bem leve mesmo, ao ponto de que, mesmo se atigisse um recém-nascido, o atingido gargalharia, achando fofo o toque.
Todavia, entretanto, com um repentino Pof!, as chamas simplesmente sumiram, depois que foram atingidas pela mão da mulher, transformando-se em finíssimas partículas de Ehne.
O sorriso da Vaiola quase rasgou as suas bochechas, quando ela viu a sua mãe suspirar com decepção e desânimo. Não parecia que a mulher tinha acabado de dispersar, com extrema facilidade, uma rajada de chamas capazes de fazer até a areia derreter.
Tinha areia derretida na trilha deixada pela rajada de chamas.
— Segunda lição! — Lavina levantou dois dedos, quando o gorila percebeu que a rajada de fogo sequer aranhou a mulher e decidiu apostar no combate corpo-a-corpo. — Todo e qualquer usuário de magia é similar a uma peça de porcelana diante de uma Hermis. — O gorila avançava com os punhos e os dentes cerrados, a chama em seus olhos crescendo a cada segundo. — Portanto, lembre-se de não usar mais de 0,000001% da sua força total… se não quiser fazer estragos.
Thud!
Thud!
Thud!
Enquanto o gorila avançava na força do ódio e do medo, lavina apenas estendeu o braço direito, sua palma aberta. Então, quando o gorila chegou mais perto, ela apenas dobrou o dedo médio e criou uma pressão bloqueando-o com o polegar.
Roar!!!
O gorila rugiu e, então, Voosh!, lançou o seu punho usando tudo o que tinha de força e magia. A chama que cobria aquele punho enorme era tão densa que parecia algo pastoso.
Vendo o soco chegar, Lavina teve até tempo de suspirar desanimada, de tão lento que o gorila era da sua perspectiva, então deu dois passos para o lado, podendo assim ver o instante em que o punho do gorila passou ao seu lado. A chama naquele punho, que parecia lava, concheguiu tocar os cabelos da mulher, mas não conseguiu causar nenhum dano sequer.
Quando o gorila deu mais um passo, a mão da lavina alcançou a bariga dele, então, ela deu o peteleco mais suave da sua vida.
BOOOOOOMMMM!!!
Sangue e carne vôo para todos os lados, pintando o chão, as árvores que estavam num raio de dois metros e a própria Lavina.
O gorila tinha explodido, como se tivessem implantado uma bomba dentro dele.
— Correção! — Lavina gritou, baixando o braço. — É melhor que use uma força abaixo de 0,000000001%. — Ela baixou a cabeça, parecia pensantiva. Então, sem que ninguém pudesse ouvir, murmurou: — Eles são tão… fracos…
— LAVINA!!! — Glamich gritou enquanto a esposa ainda estava pensativa, seus olhos arregalados e a boca escancarada.
— Huh!? — Lavina virou o rosto naquela direção, mas parecia que não era aquilo que o seu esposo queria que ela fizesse.
Voosh!
Swing!
No segundo seguinte, Lavina apenas escutou o assobio de algo cortando o ar, algo que parecia bastante afiado.
BAAM!!
Glamich cerrou os punhos quando sequer pôde ver quando a esposa foi atingida, de tão rápido que foi o golpe desferido. Antes ele sequer tinha conseguido acompanhar os movimentos da Lavina e do gorila, aquilo tinha acontecido instantaneamente para ele e, naquele momento, aquilo estava se repetindo. Ele só tinha visto a aranha gigante chegar perto da Lavina e levantar a sua grande foice, então, uma densa cortina de poeira foi levantada.
— Terceira lição! — Glamich levantou as sobrancelhas ao escutar aquela voz. — Não existe usuário de magia capaz de machucar o corpo de uma Hermis.
Krikikriki!
Um alto grunhido dolorido ecoou pela floresta, então a cortina de poeira se dissipou, revelando uma Lavina intacta e a aranha se lamentando enquanto recuava, sua foice direita estava destruída e jorava cachoeiras de sangue, depois de atingir a muralha que era o corpo da Lavina.
— Quarta lição! — Lavina disse em seguida e, de um segundo para o outro, quando pai e filha viram, a mulher não estava mais onde estava um segundo atrás. — Uma Hermis deve ser capaz de se manter atenta aos seus arredores, mesmo sob poderosas distrações.
Vaiola olhou para cima e viu a sua mãe suspensa no ar, parecia que a gravidade não tinha mais poder contra ela, mas bastava olhar com alguma atenção para ver a Lavina chutando repetidas vezes o ar.
Gruuuu!!
O chão tremeu um segundo depois e, de onde a Lavina estava antes, a enorme giboia emergiu do chão, subindo aos céus com a boca escancarada.
Lavina viu aquilo e esperou a giboia chegar perto, então parou de chutar o ar e deu um giro mortal para trás, atingindo a mandíbula superior do réptil, o obrigando a fechar a boca, por fim… ela apenas se soltou.
BAM!
Uma leve cortina de fumaça levantou, depois de um leve tremor de terra, leve o suficiente para que pai e filha pudessem ver a Lavina parada sobre a cabeça da giboia. Ela foi como um meteoro e esmagou até a morte a pobre Besta Mágica.
— Nooossa! — Vaiola olhou fascinada para a cratera que tinha surgido sobre a cabeça da grande cobra. — Huh!?
A nanica arregalou os olhos em seguida, quando a sua mãe voltou a sumir.
Thig!
Um som metálico soou, parecia o choque entre dois metais, mas, depois de virar a cabeça na direção da grande aranha, Vaiola viu que uma das partes era o punho da Lavina e a outra parte era uma espada longa.
“Interessante.”— Lavina sorriu, depois de ver a criatura que tinha bloqueado o seu ataque.
Era uma Lihyf.
A Lihyf mantinha um olhar determinado e inabalável, vestia uma armadura branca com detalhes dourados, seus longos lóbulos caíam sobre as ombreiras e seus cabelos alaranjados contrastavam com a sua pele negra.
— Vão embora! — A Lihyf imperou, o trevo de prata em suas íris douradas fitava a Lavina com alguma raiva.
— Heh, Heh! — Lavina retraiu o punho e a floresta ao seu redor se moveu até criar uma trilha de saída. — Você segurou o meu punho com uma mera espada?! Nada mal. — Lavina sabia que venceria se enfrentasse a Lihyf e nem precisaria se esforçar, mas também sabia que não ganharia nada com isso. — Mesmo que eu tenha usado quase nada de força naquele golpe, ainda é impressionante que você tenha conseguido segurar, afinal é do meu punho que estamos falando. Nada mal mesmo. — O sorriso da Lavina continuava lá, assim como a determinação inabalável nos olhos da Lihyf. Sem querer arrumar confusão, a humana apenas deu as costas à Lihyf e se virou para a sua família. — Vamos!
Glamich se levantou com a sua filha no colo e seguiu a esposa para fora da floresta.
Quando a família já estava longe, a floresta voltou a se mover até esconder a trilha.
— Kugghh! — As pernas da Lihyf tremeram e cederam. Os joelhos dela foram ao chão, as costas arquearam-se e ela começou a vomitar sangue. Da sua perspectiva, tudo ficou borrado e parecia rodar.
“Mesmo que eu tenha usado quase nada de força…”— As palavras da Lavínia reverberam em sua mente. —“Aquilo foi… quase nada???!”
— Q-que…
— Tipo…
— De monstro…
— Era…
— Aquele?
Seu corpo não parava quieto, estava tremendo todo, como se estivesse acontecendo um terremoto no seu organismo. Então sangue desceu dos seus olhos, nariz e orelhas.
— Cof! Cof! Cof!
Sangue continuou a sair da sua boca.
A Lihyf largou a espada no chão, o metal se transformou em estilhaços e o mesmo aconteceu com toda a armadura dela, a deixando com apenas aquilo que parecia ser uma túnica castanha, que estava por baixo da armadura.
Ela desmaiou em seguida, precisando ser ajudada pela aranha gigante ferida.
[Algures no Oceano Escarlate]
Os irmãos Nel estavam mais uma vez na cabine do capitão no Liberdade.
Uma simples vela no centro de uma mesa de madeira iluminava fracamente o lugar.
Sobre a mesma mesa estava um grande e detalhado mapa da Dimensão Amarela, marcado com inúmeros “X’s” em vários pontos, excepto no extremo Leste, na região ao redor da Ilha dos Esquecidos.
— Nós finalmente conseguimos, capitão! — Kramustek anunciou com alegria, incapaz de segurar os sorrisos.
Ele pegou uma caneta tinteiro vermelha e a aproximou do mapa, marcando um grande círculo na região Nordeste da Ilha dos Esquecidos.
— Não temos a exata localização, mas temos certeza que a Interseção está nesta região do oceano. — Kramustek concluiu e o capitão sorriu.
— Finalmente. — O capitão disse, a felicidade em suas palavras. — Finalmente encontramos… a ponte entre as Dimensões.

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