Capítulo 23 — 1 Fúria Colossal (1/4)
A noite acabava de cair, quando a enorme aranha com as patas dianteiras no formato de uma foice deu o seu passo para fora da Ponte Runica.
A Besta Mágica parou por alguns segundos para recuperar o fôlego e olhou para trás. Aparentemente, não havia nada de anormal naquela região do mar, que era o exato local onde o Oceano Escarlate se unia ao Oceano Nevasco, contudo, quando os ventos agitavam um pouco o mar, era possível ver pilares de pedra enfileirados até onde os olhos não podiam ver. Todos aqueles pilares tinham Runas entalhadas neles, Runas que criavam a invisível Ponte Runica que conectava as Terras Centrais e o Continente Sudoeste.
A Besta estava ofegante após seis dias correndo sobre a Ponte Runica na sua velocidade máxima. Nas suas costas, uma Lihyf desacordada jazia ali, com manchas de sangue nos cantos da boca, orelhas e rosto.
A aranha gigante voltou a olhar para frente, era de noite, as duas luas já estavam visíveis nos céus — A vermelha já estava no centro e a azul se aproximava dela, vindo do horizonte Norte —, mas ainda era possível ver o brilho dourado daquele oceano de areia.
O deserto de Lantus era o seu próximo desafio.
A aranha pareceu suspirar por um segundo, olhou para a Lihyfs nas suas costas e continuou a sua caminhada pelo deserto.
Suas patas pontudas afundavam na areia até quase a metade, dificultando a sua movimentação, mas a Besta Mágica se mostrou determinada e seguiu sempre em frente, nunca pensando em desistir.
Ela se viu mergulhada numa profunda escuridão, as trevas a abraçavam de todos os lados, tentando imobilizá-la quanto mais ela se debatia. Ela tentava de todos os jeitos se libertar, mas era como se o breu tivesse infinitos tentáculos, que se enroscavam nela, tirando-lhe o ar.
Nenhum pensamento dela se formava devidamente, sempre rastejados pela sua mente, fragmentados e sem nenhuma lógica. Ela também se sentia tonta, chegando a ver a escuridão se contorcer e formar vórtices distorcidos, que pareciam querer roubar a sua sanidade.
Crak.
Contudo, vindos do absoluto nada, rachaduras começaram a se formar na escuridão, como se ela fosse feita de vidro, por onde escapavam fios e mais fios de sangue. O sangue escorreu pela superfície das trevas como tinta corrompida, deixando manchas retorcidas por onde quer que passasse, manchas que mais pareciam os escritos de alguma divindade herética da antiguidade.
— HÁaah!
A Lihyf despertou de supetão do seu longo e demorado sono. Estava deitada de barriga até segundos atrás, mas rolou por aquela superfície aveludada que a levou a uma queda vertical até o chão.
Uma sutil cortina de poeira foi levantada após a sua queda, bem quando o seu corpo se afundou na areia dourada e morna do deserto.
— Hunf! — Suas mãos se apoiaram firmes no chão, engolidas pela areia, e, com algum esforço, a Lihyf conseguiu levantar a sua cabeça e puxar o ar, com necessidade. — Hunf! Hunf!
Sua íris dourada e o trevo de prata de quarto folhas nos seus olhos estavam tão pequenos que pareciam desaparecer dali. A Lihyf continuou ofegante por um bom tempo, sua mente voltando para dias atrás, para aquele momento em que ela pensou ter bloqueado o golpe de uma mulher humana, um golpe de mãos nuas defendido por uma espada.
— Hunf! Hunf! Cof! Cof!
Tentou levar a mão de encontro com a boca, mas, antes que conseguisse, um bocado de sangue escapou e manchou a areia dourada.
Tinha se passado tanto tempo, ela sabia disso, seu corpo, mesmo inconsciente, entendia o passar do tempo. Ela era uma Lihyf, uma raça mágica desde o berço, circular o Ehne pelo corpo era algo que acontecia naturalmente, algo que o corpo fazia por instinto, mesmo quando o cérebro estava desligado, contudo, mesmo após tanto tempo circulando o Ehne, ela ainda não tinha conseguido se recuperar dos danos internos que recebeu de um golpe que bloqueou.
— Merda!!! — Rangeu os dentes, sua face contorcida pela dor e pela raiva e a pele um tanto pálida. Não era da humana de dias atrás que ela sentia raiva, era de si própria. Ela sentia tanto ódio de si mesma por não ter conseguido sequer se defender de um punho nu de uma humana.
Como ela poderia pensar em defender o seu povo daquele jeito?
— Hunf! Merda! Hunf! Merda!
Enquanto uma leve dor começava a se alastrar pelas suas gengivas, lágrimas caíram na sua face e rolaram até pingar no chão, deixando seus rastros naquela face cheia de poeira. Sob aquele vento morno que soprava de vez em quando, seus lóbulos esticados e cabelos alaranjados balançavam num ritmo lento e melancólico, ao mesmo tempo em que os punhos cerravam-se e as unhas cravavam-se na carne.
Sua cauda fina, com o formato de uma flecha na ponta, também acompanhava a tristeza da Lihyf, se mantendo caída sobre a areia dourada.
O corpo dela por inteiro doía, mas não era nada que ela não pudesse suportar depois de dias de lenta recuperação, mas aquela frustração profunda que só crescia em seu peito… aquilo ela não conseguia suportar.
Ela jurou proteger o seu povo, a sua raça, foi por aquele objetivo que ela se juntou ao exército de guerreiras Lihyf, foi por aquilo que ela tinha se juntado a vanguarda defensiva da sua raça, mas como ela poderia pensar em proteger os seus de ataques de exércitos inimigos, se não conseguia sequer se proteger de uma única mulher humana.
Seus olhos se ergueram aos céus claros, limpos e azuis, o sol já se aproximava do ponto mais alto, expelindo uma onda de calor que só ficava mais intensa.
Tentou acelerar a circulação de Ehne em seu corpo, queria fazer aquela energia mágica partir do seu Núcleo no abdômen e se distribuir por todo o seu corpo com mais intensidade, para ver se podia acelerar, nem que fosse só mais um pouco, a sua recuperação. Contudo, ela tossiu assim que executou a tentativa e cuspiu outro bocado de sangue.
— Aquela… mulher… Hunf! Hunf!
Aquela humana certamente não era uma pessoa comum, já que a Lihyf ainda sentia, mesmo após passado tanto tempo, os resquícios de Ehm dela. Aquilo só podia significar que aquela humana era uma Campeã com um Ehm tão denso e puro, que apenas alguns resquícios daquela energia eram suficientes para dar trabalho a uma guerreira Lihyf como ela.
Se sentou sobre as pernas e olhou para as suas mãos, para o sangue que ainda escapava dali, para os calos e cortes que tinham tirado, há muito, a sensibilidade feminina. Ela treinou tanto, mas, mesmo após 184 anos de treino árduo, parecia que ainda não era o bastante… ainda não era o suficiente para proteger os seus.
Kaka…
A Lihyf olhou para o lado, encontrando de imediato os quatro pares de olhos da aranha gigante, que a encaravam com preocupação.
— Haaa. Você também está ferida, mas, ainda sim, me trouxe até aqui e não desistiu mesmo com as dificuldades. — Mesmo ainda estando levemente pálida e com a face se contorcendo de dor, a Lihyf sorriu. — Muito obrigada.
Os enormes olhos da aranha se fecharam, parecia que ela estava… sorrindo?
— E, a propósito, me chamo Hiryn. — A Lihyf se apresentou e viu a aranha abrir os olhos e acenar com a cabeça, mostrando que tinha entendido. Hiryn sorriu novamente, se apoiou na foice estendida pela aranha e se levantou. — Vamos continuar! — Olhou para o caminho adiante, para o vasto deserto que se estendia até o horizonte, e para as várias dunas do mesmo. — Preciso relatar isso à Capitã.
Assim, as peças importantes para esta história se conectam mais ainda.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.