[Localização: ???]

    Os irmãos Nel já tinham deixado para trás o vagão que os transportava e iniciavam a exploração por aquele lugar desconhecido, confuso e bizarro. Não importava para onde olhavam, nada ali parecia normal. Não existia nada naquele lugar que não tivesse um pequeno toque de estranheza.

    A estrada em xadrez preto e branco se estendia para além do breu infinito, sempre ondulando ou se retorcendo de formas impossíveis. Do ponto de vista deles, havia até “criaturas” que caminhavam por ali de cabeça para baixo, sem nunca cair no abismo de escuridão que dava medo só de olhar. 

    Em algum momento, as estrelas tinham se apagado, transformadas em rochas sem brilho nenhum; então sumiram no vazio.

    Os edifícios daquele lugar eram os mais estranhos: alguns tinham formas de alimentos, outros pareciam objetos e outros pareciam criaturas impossíveis de descrever. Cada construção tinha sua dose de bizarrice, com algumas se contorcendo de formas peculiares, outras com membros, tentáculos e olhos que se remexiam, e muito mais.

    — É ainda mais bizarro do que eu tinha lido — Kramustek comentou, desviando o olhar do vazio no horizonte. Depois de olhar por tanto tempo para lá, sentia um arrepio inquietante, como se alguma coisa o estivesse observando de volta.

    — Hahaha! O que você esperava? — Morstek ainda olhava para o horizonte, para aquele vazio que o irmão começava a evitar. Ele sentia um olhar assombroso vindo de lá, mas queria ver quem desistiria primeiro: ele ou a sensação que vinha do breu. — Você mesmo disse que este lugar reúne um pouco das características de cada uma das dimensões de Heternidade. Isso… não inclui… as bizarrices… tam… bém?

    — Huh? — Kramustek sentiu um breve arrepio e olhou com desconfiança para o irmão que, do nada, começara a falar de forma lenta. — Morstek! — Virou-se para ele, com os olhos arregalados, e recuou um passo. — Para! — Não era só a fala de Morstek que estava ficando lerda; o corpo todo daquele Hyem parecia estar ficando cada vez mais lento e, como um borrão, ele parecia estar sendo apagado da realidade. — PARA!!!

    Kramustek, sentindo um medo crescente, chacoalhou o irmão, despertando-o do transe.

    — O que… — Morstek olhou para o irmão, com o olhar vago e perdido, como se acabasse de acordar de um longo sono. — O que aconteceu?

    — Esse lugar… — Kramustek olhou para o vazio no horizonte, mas logo desviou a atenção para o irmão. — Melhor cancelarmos os planos de exploração. Vamos apenas procurar o que viemos buscar.

    Morstek ainda parecia perdido. Seu olhar estava fixo no irmão, mas a mente permanecia longe, vagando em pensamentos e… dimensões distantes.

    — HAHAHAHAHA!!! — Kramustek franziu o cenho e recuou, assustado com a gargalhada do irmão que ecoava pelo breu. — Hahahahaha!

    Enquanto Morstek parecia um louco, seu irmão usava a habilidade ocular ao máximo, tentando descobrir se alguma coisa tinha se infiltrado no corpo dele.

    — Do que você está rindo? — Kramustek indagou, após não ver nada de estranho. Morstek ainda era ele mesmo.

    — É só que… hahahahaha! — Espiou o vazio no horizonte, mas logo desviou o olhar, sem nunca diminuir o sorriso. — Alguma coisa sussurrou nos meus ouvidos.

    — Quê?

    — Alguma coisa lá queria que eu usasse o Olho da Verdade naquela direção. Hahahaha! — Morstek olhou para o irmão, depois para o horizonte e voltou a focar no companheiro. — A Intersecção é bem interessante, você não acha? Hahahaha!


    Kikiki.

    A aranha gigante pausou os passos e seus quatro pares de olhos fixaram-se na Lihyf que a acompanhava há uma semana. Depois de tanto caminhar, de dias sem se alimentar sob o calor escaldante do deserto, o corpo de Hiryn começava a fraquejar. Fazia apenas algumas horas que ela tinha descido das costas da Besta Mágica, mas já estava cambaleando, precisando ser sustentada pelo aracnídeo.

    — Est-estou bem — Hiryn respondeu, com o rosto pálido e contorcido. Após sete dias, ela finalmente conseguira se livrar dos resquícios de Ehm que estavam em seu corpo, o que permitiu uma circulação acelerada de Ehne, apressando a recuperação.

    Todavia, a Lihyf via-se obrigada a concentrar a energia que começava a se acumular não só na cura dos danos internos, mas também para manter o organismo estável sem alimentação. Ela agarrou-se à foice da aranha e levantou-se. No estado em que estava, enfrentar as tempestades de areia, os ventos fortes e o calor abrasador tornava-se uma tarefa que beirava o impossível. Mas ela não desistiu; seu corpo ficou ereto e, usando a aranha como apoio, continuou a jornada.

    Na hora que se seguiu, a Besta precisou reduzir a velocidade para apoiar Hiryn, que cambaleava instável, com os pés afundados na areia dourada e quente.

    — Haaa. Finalmente. — A Lihyf suspirou aliviada, relaxando o corpo ao ponto de quase desabar de joelhos.

    O deserto ainda se estendia até onde a vista alcançava, com cortinas de poeira castanha formando muralhas onde os céus se conectavam com o oceano de areia. Porém, o que Hiryn procurava já estava à vista, a apenas alguns metros de distância. Seus olhos foram para a esquerda, depois para a direita, observando cada milímetro da muralha de montanhas que se erguia à frente como uma silhueta mergulhada na poeira.

    Foi só depois de avistar aquela barreira natural que ela sentiu grande parte do peso em seu peito sumir. Estava com tanta saudade.

    Krikukiku.

    O aracnídeo pareceu reagir ao sorriso da companheira de viagem, soltando um som agudo com um toque de… alegria.

    — Pois é, nós chegamos. — Seu sorriso ficou ainda maior e o dourado das íris brilhou com mais intensidade. Até a palidez no rosto pareceu diminuir, assim como a fraqueza. — Bem, você não conhecia, então deixa eu te apresentar. — Fez uma pausa, deixou a aranha para trás e caminhou até a borda da duna onde estavam. — Estas são as Cordilheiras Rivoni, lar da Legião Branca, a primeira linha de defesa do nosso continente.

    Um vento repentino soprou, chacoalhando de leve a pelugem aveludada da aranha e os cabelos alaranjados da Lihyf. O vento levou um bocado de areia para o alto, como se quisesse apresentar aquelas terras às linhas de defesa do continente sudoeste. Atrás das Cordilheiras Rivoni, com uma separação de algumas centenas de quilômetros, outra fileira de montanhas se erguia, embora menos densa. Mais atrás, outras cinco montanhas solitárias elevavam-se no horizonte.

    — Finalmente — Hiryn escutou enquanto se aproximava. — A Capitã já estava cogitando enviar alguém atrás de você.

    — Cadê a sua armadura e por que você está tão acabada? — Outra voz invadiu os ouvidos da Lihyf quando a Besta Mágica a ajudou a se posicionar. — Até parece que um Encko passou por cima de ti.

    — Eu preferia que tivesse sido assim — respondeu, já de frente para as donas das vozes: eram outras duas Lihyfs negras, uma de cabelo azul e outra de cabelos âmbar, posicionadas nas laterais de uma enorme pedra no formato de uma roda.

    Com a ajuda da aranha, Hiryn estava, finalmente, diante de uma das entradas da Cordilheira Rivoni.

    — Do que você está falando? — perguntou a de cabelos azuis, com uma sobrancelha levantada.

    — Depois eu explico. Agora podem, por favor, me deixar passar? Preciso relatar algo importante para a Capitã.

    As duas guardas, notando a urgência no tom de voz da recém-chegada, trocaram olhares. A de cabelos âmbar afastou-se da grande pedra e a outra a empurrou com um leve esforço, revelando uma passagem para o interior da montanha.

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