Capítulo 26 — 1 Fúria Colossal (4/6)
Hiryn, depois de deixar as outras duas Lihyfs para trás, já estava no interior da montanha.
Aquela montanha, assim como todas as outras que estavam espalhadas por Lantus, não era apenas uma montanha, mas graças a alguns Caminhantes, aquelas montanhas tinham virado o lar e o Quartel-General das guerreiras Lihyf.
Ali dentro, o espaço era enorme, formando um campo de treino gigantesco, com pista de corrida, área para treino com espadas, lanças e outros tipos de armas. As paredes estavam repletas de cavernas, inúmeras delas, algumas servindo para o armazenamento de suprimentos, armas e armaduras, outras reservadas para o tratamento do pessoal e a maioria eram os abrigos das guerreiras.
Quatro pilares de pedra se erguiam, formando um quadrado, onde pontes de cordas eram esticadas para permitir que as guerreiras alcançassem as cavernas no alto. Como iluminação, aquele lugar tinha apenas um grande cristal luminoso transparente no teto, que iluminava tudo abaixo com um fascinante brilho azulado.
Depois de deixar a aranha numa das cavernas para receber cuidados, Hiryn passou por várias guerreiras pelo caminho — algumas correndo, outras treinando técnicas de espadas, umas numa roda de duelos, onde as guerreiras mediam forças sem depender de arma alguma.
Hiryn olhou para o alto e viu outras colegas que, sem nada para fazer, aparentemente, estavam desafiando umas às outras a pular do topo dos pilares de pedra até o chão. Aquilo tinha centenas de metros de altura.
Mas, é claro, depois de receber o desafio, treinadas para nunca sucumbir ao medo, as guerreiras davam um grito de guerra e pulavam. Já que cada uma das desafiadas revestia os seus ossos e músculos com Ehne, a aterragem era concluída sem muitos problemas. As guerreiras só precisariam de algum descanso para que as pernas e o corpo se recuperassem do impacto.
Deixando as suas companheiras para trás, Hiryn atravessou o grande campo de treino de centenas de metros quadrados, em direção à maior caverna naquela montanha, localizada nos fundos.
— Você está atrasada. — Hiryn escutou, no exato segundo em que pensou em pedir licença. A voz era calma, mas cheia de autoridade. — Entre.
A recém-chegada não perdeu mais tempo ali fora, preparou-se mentalmente para entregar o relatório que tinha, então avançou para o interior da caverna.
O interior da caverna era extremamente simples, possuindo apenas o essencial: uma cama, uma mesinha cercada por apenas um toco de madeira e um suporte para algumas roupas, armadura e espadas. Como decoração, a caverna tinha algumas peles de animais como troféus de combate, assim como suas cabeças e colares feitos de dentes e ossos.
— Então? — Hiryn escutou e olhou para os fundos da caverna, onde estava uma espécie de trono formado de peles sobrepostas e os “braços” do trono eram duas cabeças de animais, um tigre e um leão.
— Bom dia, Capitã!! — Endireitou as costas, cerrou o punho direito e tocou as costas da mesma mão na testa. O braço esquerdo estava escondido nas costas.
— Vá direto ao assunto — ordenou a Lihyf negra no “trono” de peles e cabeças. Seus cabelos pareados caíam em cascatas sobre as costas, belíssimos e brilhantes, suas íris douradas aprisionavam trevos roxos de quatro folhas e, da sua testa, dois grossos chifres emergiam e curvavam para trás e um terceiro, mais fino e curto, crescia no centro da testa.
— Certo. — Acenou com a cabeça, observando a mulher que vestia apenas uma túnica vermelha, então continuou. — Enquanto patrulhava na floresta das Terras Centrais, me deparei com uma família. — As palavras pareceram ser devoradas pelas lembranças. Tudo aquilo ainda parecia um sonho. — Era um grupo de três, que parecia normal de início; eles até caíram na Formação Mágica de Ilusão.
— Eu pensava em deixá-los ali por algum tempo e libertá-los depois — relatou, não ousando esconder nenhum detalhe do que viu e presenciou. — Mas as Bestas Mágicas lá reagiram de forma inesperada, com uma hostilidade que não deviam ter. Era como se… como se estivessem sob alguma influência.
— Influência? — A Capitã indagou, ainda sem se mover da sua posição preguiçosa. Contudo, Hiryn, sem saber como responder, apenas baixou o olhar. — Continue.
— Uma das Bestas Mágicas avançou contra a família, mas, quando eu pensei em intervir… — Hiryn parou, ainda se questionando se foi tudo um sonho. — A mãe reagiu antes de mim e direcionou o ataque da Besta contra a Formação.
— Quê? — A Capitã franziu o cenho, achando difícil imaginar aquilo. — Está dizendo que uma humana reagiu contra um ataque estando sob os efeitos da Formação Mágica de Ilusão?
— Exatamente… — Hiryn tentou responder com firmeza, mas a sua voz falhou quando a capitã se remexeu no seu trono improvisado. Ela sabia que a Formação Mágica de Ilusão era algo bem simples, fácil de quebrar por fora, mas também tinha ciência de que era praticamente impossível se livrar dos efeitos dela depois de ser atingido. Assim como era impossível o corpo reagir quando a mente fosse engolida por aquela formação.
A única fraqueza da Formação Mágica de Ilusão era o seu exterior.
— O que mais?
— E-ela… explodiu… uma Besta Mágica de tier vermelho… um G-gorila Escarlate… com um… — Hiryn parou abruptamente, sem saber como continuar. Sua fala falhava cada vez mais, sempre que a capitã se reposicionava no trono. — Com um… peteleco.
— Hiryn! — A atmosfera do ambiente até mudou, se tornando bem mais tensa e densa. Hiryn, instintivamente, baixou a cabeça, seus olhos mirando no chão. Aquilo, com certeza, era inacreditável, tanto que ela não reclamaria se a capitã achasse que ela estava apenas inventando tudo aquilo como desculpa, mas… era a realidade. — Olhe para mim!
Hiryn tremeu de leve, mas não ousou desobedecer à ordem. Elevou a cabeça e, quando seus olhos se encontraram com os da capitã, ela sentiu-se tonta, como se algo invadisse a sua consciência. Foi quando notou: os trevos nos olhos da Capitã estavam pretos.
“Minhas… memórias.”
Diferente dos Lihyfs “coloridos”, Lihyfs negros não manipulavam elementos; eles tinham… outros tipos de “manipulações”.
Aquela diante da Hiryn, por exemplo, manipulava… memórias.
…
Alguns segundos de silêncio passaram correndo. Hiryn sentia seu corpo cada vez mais fraco, mas ainda mantinha os olhos fixos nos da capitã, como se alguma força invisível a obrigasse a continuar olhando aqueles trevos feitos de escuridão. Passado mais um segundo, Hiryn finalmente piscou e caiu de joelhos, arfando.
Bam.
Bam.
— Hunf! Hunf! Hunf!
— Hunf! Hunf! Hunf!
Seus olhos se arregalaram enquanto ofegava, notando que não era a única que não conseguia segurar o ar nos pulmões.
— C-capitã!!
Ela sequer viu quando a capitã tinha levantado do trono, mas, por algum motivo que desconhecia, a capitã estava de joelhos também, ofegante. Tentou se levantar para ajudar a sua superior, mas o mundo ainda estava girando.
— Não pode ser… — Os olhos da Hiryn tremiam. Ela não entendia o que estava acontecendo, mas a voz da capitã, antes cheia de autoridade, estava agora carregada de… desespero. — Como é possível…?
— Elas não estavam extintas…?
— Como? Quando Elas voltaram? Por quê?
Hiryn escutava a capitã murmurar falas incompreensíveis, ainda sem entender o que se passava. O que ela tinha certeza naquele momento era que aquele “Elas” que a capitã dizia não era normal, já que, mesmo em desespero, aquela mulher na qual se inspirava, sempre reservava um tom respeitoso para aquela palavra, muito similar ao tom que os humanos usavam para se referir aos seus… Deuses.
— Capi…
— Hahahahahahaha!!!! — Hiryn tomou um susto quando a capitã desatou a gargalhar. Parecia que a loucura tinha substituído o pavor. — Hahahahaha. Quanto tempo…? Quanto tempo já deve fazer que não vejo uma Hermês!!? 1? 5 milênios? Hahahahaha!
— Ca-pi-tã? — Aquela cena toda tinha ficado ainda mais confusa para a Hiryn. Era difícil entender o que a capitã sentia, já que ela gargalhava como alguém alegre, mas sua face se contorcia e suava como uma pessoa tomada pelo medo.
— Oh, Hiryn. Hahahaha. Você está aí.
— Capitã… o que está acontecendo?
— O que está acontecendo? — Deu de ombros, as mãos levantadas como uma balança. — É só que… ainda estou decidindo se fico empolgada… ou apavorada. Hahahaha.
— Hahahahaha. — A Capitã limpou uma lágrima solitária que tentava cair e suspirou, pousando seu olhar na Hiryn. — Haaa. Você não deve estar entendendo nada, não é mesmo?
— Eu… — Ela realmente não entendia. — Quem são… as Hermis?
Mesmo que a capitã tenha dito com uma sonoridade diferente, Hiryn lembrava daquela mulher na floresta mencionar aquele nome… ou título, enquanto dava as suas “lições”.
— Não, Hiryn, não. Essa não é a questão que deve ser feita agora, criança. — A Capitã se levantou, seus olhos com aquele mesmo brilho que a Hiryn tinha visto naquela mulher um segundo depois de bloquear aquele golpe. Um olhar cheio de interesse. — A verdadeira questão agora é: como você conseguiu?
— Quê?
— Como… — A Capitã apontou o dedo e sorriu. — Conseguiu bloquear o golpe de uma Hermês?
— Eu… — Aquela pergunta de novo… por que aquela pergunta importava tanto?
— Você não faz ideia de quem são as Hermês, não é? — Hiryn balançou a cabeça negativamente. — Oh. Então deixa eu te explicar usando uma questão. Entre os guerreiros dessa geração e das gerações anteriores, quais os mais poderosos?
— Os mais poderosos? — Ela já tinha uma resposta. — A antiga geração.
— Exato. Agora, você sabe qual era o maior objetivo daqueles guerreiros? O que cada um deles mais almejava? — Hiryn ficou em silêncio. Como ela saberia? — Bloquear um mísero golpe de uma daquelas mulheres.
— Quê?
— Estou dizendo que se você tivesse nascido naquele tempo, criança, você seria uma lenda agora e muitos ergueriam estátuas em sua homenagem. — A Capitã sorriu, lembrando daqueles tempos difíceis, porém… empolgantes. — É das Hermês que estamos falando, criança, o ápice da força em Heternidade.
Hiryn não respondeu nada, apenas permaneceu ali, imóvel, os olhos vidrados sobre as mãos trémulas e a mente recuando para aquele dia na floresta.
Como ela conseguiu bloquear aquele golpe?
A Capitã, no entanto, não se calou. Num misto de reverência e empolgação, continuou: — Muitos já tentaram explicar o que são as Hermês e outros até chegaram a especular até onde a sua força poderia ir.
— Nessa tentativa de descobrir a origem daquele grupo de mulheres, muitas lendas foram criadas, a maioria delas descrevendo as Hermês como entidades de escala divina — A Capitã narrou, seus olhos fechados e a mente passeando entre as memórias da Hiryn e as suas próprias. — Dentre tantas lendas, a mais aceita descreve as Hermês como uma tribo antiga composta apenas por mulheres, uma tribo de guerreiras que nunca se movia sem um objetivo, tanto que nasceu a frase: “Hermês significa mudança”.
— Se uma Hermês se movia, então o mundo passaria por uma mudança drástica.
A Capitã parou por um segundo, submersa em pensamentos e memórias distantes. Então, um sorriso desenhou-se entre os seus lábios e uma risada escapou.
— Contudo, o que tornou as Hermês verdadeiramente populares é a história que elas têm com a nobreza huma… Huh!!? — Seus olhos se arregalaram de supetão e seu corpo paralisou. — É claro… a nobreza.
Ela pareceu, finalmente, entender alguma coisa.

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