Quando o sol começava a pintar as nuvens de laranja, enchendo os céus com magníficos tons de vermelho, Vaiola finalmente chegou ao centro das Terras Centrais.

    Ela tinha ido até ali correndo, sem nunca fazer uma pausa. Agora, arfando, a nanica sentia um pouco de arrependimento por ter se oferecido para fazer aquela entrega. Tinha esquecido completamente da grande distância que separa o leste do centro das Terras Centrais.

    Parada no que parecia ser uma fronteira entre as duas regiões, de frente para uma pequena placa de madeira, Vaiola endireitou o corpo, regulou a respiração e leu:

    — Vilarejo Sarrak.

    Ela já tinha passado por aquele lugar algumas vezes com os seus pais, mas nunca tinha parado para apreciar melhor tudo aquilo. Naquele instante, ela notou:

    — Que diferente.

    A memória da favela do leste era vívida em sua mente; aquelas casas de pedra extremamente juntas, com paredes rachadas e “remendos” feitos de outros materiais. Tudo aquilo sempre fora especial para ela, possuindo uma beleza própria… uma beleza que estava nos olhos de quem via.

    Mas ali era diferente. Tudo no vilarejo Sarrak era distinto da favela do leste. Ela ainda estava apenas na entrada, mas as diferenças já eram gritantes. Havia uma pequena cerca ali, uma cerca insignificante de madeira branca que não chegava a lugar algum, servindo apenas como uma “fronteira”.

    Para além da demarcação, uma estrada pavimentada seguia para o interior do vilarejo — completamente diferente das ruas apertadas de terra batida e esburacadas na Favela Arco-Íris. Depois de observar o pavimento por alguns segundos, Vaiola deixou a curiosidade de lado e continuou a sua caminhada por aquela estrada confortável. Ela nem precisou pular nenhum buraco.

    Os olhos da pequena não paravam quietos. O mais provável era que terminasse aquela entrega com dores no pescoço de tanto que girava a cabeça de lá para cá, maravilhada com cada construção. 

    Não importava para onde olhasse, não havia nenhum edifício de pedra por ali, nada que pudesse lembrar a Favela do Leste; todas as casas e estabelecimentos comerciais eram construídos à base de madeira. Era uma arquitetura bela.

    — Você ouviu? Vai ter uma apresentação de um novato no teatro.

    — Você não vai acreditar, consegui um noivo para a minha filha e é um belo aristocrata.

    — Você viu aquele soldado? Ele era tão grande. Quando eu crescer, também vou virar um soldado.

    — Um soldado? Para ficar cheia de cicatrizes? Eu vou me casar com um príncipe, a minha mãe que me disse.

    As ruas do vilarejo Sarrak estavam amontoadas de gente de todas as faixas etárias. Crianças brincavam; algumas fantasiavam ser soldados e outras sonhavam em ser princesas. 

    Mas aquilo não era novidade para Vaiola. O que a fascinava mesmo era a largura das vias.

    “As ruas daqui são tão largas.” — Não se comparavam nem um pouco com aqueles becos de onde ela vinha. — “Deve até dar para passar umas dez de mim de uma vez. Heh, heh.”

    Enquanto na Favela Arco-Íris duas crianças eram o máximo que podiam passar ao mesmo tempo. Ali havia até uma praça no centro do vilarejo, onde uma árvore alta e magra, porém imponente, erguia-se como um guarda-chuva, cercada por pedregulhos azuis e roxos intercalados, criando uma sombra sobre alguns bancos e arbustos floridos.

    Enquanto procurava pelo seu destino, com a cabeça erguida em busca da placa correta, a pequena pôde ver bastante daquele lugar e até chegou a sonhar em um dia morar ali. 

    Mas aquele sonho não durou muito…

    — Anda mais rápido, seu desgraçado!!! — Quando aquele brado ecoou, um agudo e repentino Splat soou junto com a voz, assim como o som de carne rasgando e um grunhido de dor. — Você não serve nem para ser um cavalo!!

    Vaiola virou-se na direção da comoção. Vários moradores ainda passavam na sua frente, então levou cerca de sete segundos até que ela pudesse ver o que estava acontecendo.

    — Eu mandei andar mais rápido, ESCÓRIA!!

    Splat! 

    Splat! 

    Splat!

    Os olhos da nanica arregalaram-se, seus lábios tremeram e seu corpo quase tombou para trás. Aquele som continuava soando, uma, outra e outra vez. Sangue jorrava para todos os lados e grunhidos contidos de dor chegavam até ela como mãos com garras afiadas, esmagando o seu coração.

    Lá na frente, cercado por três soldados, um homem em roupas de tecido fino tinha descido da sua carruagem e descarregava a chibata, repetidamente, nas costas de um homem negro já à beira da morte. Aquele homem, usado como cavalo, puxava a carruagem ao lado de outro companheiro.

    Sangue tingia as costas nuas dos dois; suas pernas tremiam, assim como todo o corpo, mas eles ainda tentavam puxar aquela estrutura evidentemente pesada demais para apenas dois indivíduos. Mas até o mais forte dos homens fraquejaria sob aquela tortura. 

    De onde tirariam forças para puxar a carruagem, se a pouca energia que tinham era usada apenas para suportar a dor de ter a pele rasgada?

    A nanica, que antes estava descansada, ficou ofegante. O som do chicote com arame farpado enrolado descendo sobre as costas daqueles homens ainda ecoava na sua mente.

    Splat! 

    Fechou os olhos, mas, mesmo imersa na escuridão, ainda ouvia o carrasco balançando o chicote, rasgando a pele de quem ainda lutava para se agarrar à vida.

    — SEU IMPRESTÁVEL!!!

    Após aquele grito de raiva, os olhos de Vaiola abriram-se. O som da chibata cessara, mas ela desejou ter continuado de olhos fechados ao ver que a tortura só parara porque um dos homens negros tinha caído… morto.

    — Coloquem outro bicho aí e joguem esse inútil num buraco qualquer. — Quando o homem entregou o chicote a um dos seus soldados e retornou para o interior da carruagem, só então Vaiola percebeu as duas filas com cerca de sete homens e mulheres negras — com correntes nos tornozelos, pulsos e pescoços — atrás do veículo.

    Um dos homens nas fileiras foi desacorrentado dos demais, só para ser atado à carruagem em seguida. 

    A pequena sentiu um nó no estômago no instante seguinte…

    — Seja grato por ser o meu objeto de descarrego. Se eu não te usasse para extravasar as minhas frustrações, para que mais um preto como você serviria?

    — Pedindo comida só por ter levado os meus dois filhos para dar uma volta pela cidade? Você é um mero cavalo, seu animal, como ousa me dirigir a palavra!? Quem se importa se você não come há três dias? Acha que vou tirar do meu bolso para te dar algo? Alimenta-te dos vermes!

    — Você quase me tocou, seu preto miserável!!!

    Splat! Splat! Splat! 

    Em todo aquele vilarejo, para onde quer que ela olhasse, forasteiros torturavam homens, mulheres e crianças negras. 

    Vaiola cambaleou para trás, sentindo uma acidez na garganta e amargura na língua.

    Após cambalear mais algumas vezes, a nanica virou-se e correu para longe dali, com os olhos fechados e as mãos cobrindo os ouvidos. Lágrimas caíam e seu coração parecia murchar. 

    Se ficasse mais tempo ali, ou enlouqueceria, ou faria algo muito, muito pior.


    — Ugh! Blerg…

    Arfou, depois de colocar para fora tudo o que tinha comido naquele dia. 

    — Hunf! Hunf! Hunf!

    Ela conseguira um momento de paz, depois de tanto correr, atrás de um edifício. Parou ali para recuperar o fôlego e tentar apagar as imagens anteriores, com a mão na parede de madeira lisa e os olhos arregalados.

    “Você está bem?”

    Névoa violeta escapou pelos seus poros e construiu a silhueta de uma mulher de longos cabelos e dez chifres.

    — Vou… Hunf… ficar — respondeu, ainda lutando contra o choque.

    A silhueta semicerrou os olhos com pesar, olhou para o lado e disse, de repente:

    “Sabe, descobri recentemente que você pode me mostrar aos outros.”

    A nanica ergueu o rosto na direção de sua amiga imaginária e franziu o cenho.

    — Quê?

    “Bem… esquece! Pelo que deu para entender, nada de bom acontecerá se você fizer isso”, a mulher de névoa disse, voltando a encarar a pequena.

    — Do que você está falando, Iola? — Aquele fora o nome que Vaiola dera a ela após tantos dias de convivência.

    “Nada não, Cotoco. Vamos fazer essa entrega logo e sair daqui o mais rápido possível.”

    Enrugou a face. Foi uma breve e estranha interação e… mesmo naquela situação, a sua amiga não deixava de usar aqueles apelidos estranhos.


    Depois de muito buscar, ela finalmente encontrou o letreiro que procurava:

    “Pousada Flores Douradas”

    Poderia dizer-se que a nanica apresentava sinais de instabilidade mental após tentar, sem sucesso, evitar as ruas onde as cenas macabras e selvagens ocorriam. 

    Suas íris quase desapareciam; parecia avoada, como se apenas o corpo estivesse ali, enquanto a mente revivia tudo continuamente. Ela tremia, murmurando frases inaudíveis, com as mãos apertando as próprias coxas.

    “Vaiola!”

    — Huh!?

    “O que está acontecendo contigo, fazendeira da Farmville? Estou te chamando há um tempão!”

    Piscou, saindo do transe. Foi impressão sua ou a Iola a chamara, pela primeira vez, pelo nome?

    — Eu… — Chacoalhou a cabeça, subiu a escada de cinco lances e passou pela porta aberta do estabelecimento. — Estou bem.

    Ela era uma Hermis.

    Um pequeno corredor silencioso veio em seguida; não era longo, então foi atravessado rapidamente.

    — Que inúteis, não servem nem para nos entreter — escutou assim que deu o primeiro passo para o salão principal.

    — Hahahaha. Já que as duas morreram ao mesmo tempo, isso significa que as apostas serão anuladas? — perguntou uma mulher, com olhos que irradiavam um brilho de alegria e excitação que até alcançava a distante Vaiola.

    — Claro. O erro foi nosso por usar peças lixo numa competição de resistência — um homem respondeu.

    — Mas, agora, sejamos sinceros, essa coisa que veio comigo foi a que deu o último suspiro, não? — A mulher voltou a perguntar, apontando para uma mulher negra desfalecida numa cruz no canto do salão.

    Ao lado dessa mulher estava outra, em outra cruz, também sem vida. Seus corpos nus, cobertos de ferimentos profundos e sangue, pendiam inertes. E os joelhos ainda lutavam para alcançar o chão.

    Um grupo de homens e mulheres cercava as cruzes em semicírculo, sorrindo e balançando notas de dinheiro. Aqueles nobres de vestes luxuosas estavam protegidos por cerca de vinte soldados, além de haver cerca de trinta homens, mulheres e crianças negras, acorrentados e amedrontados ao redor. 

    Ninguém sabia quando seria a sua vez.

    — Vocês viram o quanto aquelas duas se agarraram à vida quando ouviram que a vencedora seria liberta? — um homem falou, animado.

    — Pois é. Tolos irreversíveis. Como se um dia fôssemos dar liberdade a algum deles — uma mulher respondeu, seu olhar desdenhoso passando por cada negro ali presente. — Só se fôssemos acometidos pela mesma tolice deles. Hahahaha!

    Aquelas palavras arrancaram gargalhadas.

    — Por que não vamos para mais uma rodada? Coloquem mais dois aí nas cruzes. Foi muito divertido.

    “Morte!!!!!”, Vaiola escutou. A voz, que parecia um sussurro, despertou-a. Ao olhar para o lado, a nanica viu Iola transformada no que parecia um acúmulo de névoa roxa, quase preta. 

    Lágrimas densas, como lava roxa reluzente, escorriam pelo rosto distorcido da amiga imaginária. 

    Sem perceber, a pequena também chorava.


    — Hã? Por que, do nada, você mencionou os nobres humanos, Capitã?

    — Existe uma lenda sobre as Hermês, a mais sangrenta que existe, uma que os próprios nobres usam para amedrontar as suas crias.

    — Lenda sangrenta? Que lenda é essa?

    — Dizem que as Hermês são o Juiz, o Júri e o Carrasco da nobreza humana. Mas tem um problema…

    — Que problema?

    — Elas têm um ódio mortal pela nobreza humana.


    Zooom.

    Todos no salão viraram-se para a entrada, onde encontraram uma pequena menina fechando a porta. 

    Um dos nobres acenou e um soldado aproximou-se dela.

    — Ei! O que você está fazendo? — A menina não respondeu, apenas continuou a trancar a porta. Tinha um saco de papel ao seu lado que fedia a peixe. — Estou falando com você! Por que está fechando a porta!?

    O soldado segurou o cabo da espada e aproximou-se mais.

    Crak.

    — GAAAAAHAAHHHHHH!!!!! — O grito desesperado do soldado ecoou, obrigando todos a olhar naquela direção. O soldado estava caído, com o joelho esquerdo estraçalhado. 

    Foi apenas um chute.

    Quando Vaiola fez um movimento rápido com o punhal, rasgando a garganta do homem, os outros sacaram as espadas. Os nobres, sem entender, levantaram-se enquanto o corpo caía, jorrando sangue.

    — O-oh… 

    A nanica murmurou. Seus lábios tremiam e a cabeça pendia, lentamente, para o lado. 

    — N-não… não precisam se preocupar…

    Sua voz era um sussurro calmo e suave, como se para acalmar a todos. Um sorriso surgira em seus lábios — um sorriso trêmulo, que se esforçava para não desmoronar. Sua face e vestes estavam manchadas de sangue.

    — Eu vou só…

    Levantou o punhal contra a lateral do próprio pescoço e o sorriso ficou maior. 

    O que ela sentia nunca experimentara antes: era uma raiva… uma fúria que consumia até os ossos

    … Uma fúria colossal.

    — Matar todos vocês. Heh, heh.

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