Capítulo 125 - Ponto de partida
Rubi retorna voando até onde Byron e Yrah estão. Lá estende completamente as asas, freando seu movimento no ar diante deles.
“Acho que já podemos nos aprontar para ir embora”, diz a diaba. “Ainda vamos ter um longo dia.”
Byron acena, firme. “Como achar melhor.”
Yrah também confirma, acenando, mas se mantém quieta, apenas os aguardando. Para onde eles desejam ir? Não me lembro de eles terem dito algo sobre isso. Será que é longe?, a raposa questiona-se.
Enquanto isso, Rubi se foca no galho onde o demônio e a raposa pisam. Ela ainda se vê a pouco mais de meio metro de distância da base. Então… pra pousar eu só tenho que…, ela analisa.
A diaba, com cautela calculada, move as asas para trás, suavemente, empurrando-se para frente. Depois lança uma perna ao galho e se puxa até poder firmar os dois pés sobre ele, onde dobra as membranas das asas, deixando-se cair suavemente até pousar firme na base.
Quando retoma o completo equilíbrio, Rubi enfim relaxa e suspira tranquilamente.
“Foi um excelente primeiro voo”, Byron comenta.
Rubi olha para o demônio com um sorriso. “Achou mesmo?”, ela pergunta. A cauda e as estruturas das asas balançam levemente.
Byron ri. “Sim. Em minha primeira experiência, saí em linha reta e esbarrei contra uma rocha.”
As sobrancelhas de Rubi se curvam, surpresas. Eita. Até onde sei, as asas dele não conseguem frear ele no ar como as minhas. Se fosse a mesma coisa comigo, eu teria que sair esquivando das árvores no improviso, sem saber nada. Aposto que foi um momento ruim para ele, ela analisa. Ainda mais que ele é bem desastrado.
“Deve ter sido algo duro de se lidar”, diz Rubi, imaginando a cena.
“Nem tanto. Ela partiu em escombros com facilidade”, responde o demônio, com uma expressão quase nostálgica.
Rubi solta um riso curto e desconcertado, sentindo suas expectativas se estilhaçarem assim como a rocha. Esse não é o resultado que eu estava esperando, mas… faz mais sentido do que devia, pensa ela. Um brutamontes gigante, voando descontrolado, deve ser um perigo maior pra quem está perto do que pra ele mesmo…
Yrah, sentada, sente um arrepio subir pelo corpo. Ele tá falando sério?, pensa ela, inquieta.
“É… complicado quando essas coisas acontecem, né? Ainda tenho muito o que aprender”, diz a diaba, voltando ao assunto, desviando o olhar para as asas.
“Não é tão difícil”, diz ele, cruzando os braços como se dominasse o assunto.
Vai ser como aprender a andar de novo, reflete Rubi, com mais um abanar rápido.
Os dois começam a se aprontar. Rubi pega o casaco pendurado na ponta do galho e o coloca sobre o ombro. Enquanto isso, Byron recolhe a mochila, o arco e a rapieira dela, junto da própria espada, todos pendurados metros acima na árvore.
Rubi pega o arco e o prende nas costas, também prende a rapieira embainhada à cintura e Byron mantém consigo sua arma e a mochila dela. Em pouco tempo os dois se organizam.
A diaba aproxima-se da raposa e se abaixa, olhando-a nos olhos. “Quer descer comigo?”, ela oferece.
“Uhum”, diz Yrah.
Rubi estende as mãos, e a raposa se encaixa confortavelmente entre seus dedos. Então, a diaba se ergue, abraçando Yrah contra o peito.
Um calafrio recai sobre a raposa, um reflexo da proximidade da energia mágica que Rubi emana.
Rubi percebe Yrah tremendo entre seus braços. “Algum problema?”
“Não é nada.”
Ela deve estar com medo de altura, a diaba supõe.
“Daqui há pouco já vamos estar lá embaixo”, diz ela, tentando acalmá-la.
“Tudo bem”, diz a raposinha, calma.
A magia sombria é mais forte nela, mas ela não é tão esquisita quanto o outro, constata Yrah, olhando para o rosto da diaba acima do seu.
A tremedeira da raposa diminui e Rubi sente isso. Ter ela por perto já foi uma mão na roda. Só pelo que descobri eu já daria esse pacto como pago, pensa a diaba. O que me lembra…
“Ainda nem fizemos o vínculo mágico que você precisa”, Rubi comenta.
Os olhos de Byron se abrem, ao se lembrar. “É verdade”, diz ele. “Prefere que já seja feito agora?”
“O vínculo, né…”, Yrah comenta, voltando a atenção a Byron. “Bem, é que…”
A raposa fica pensativa por um breve instante. Quanto mais cedo eu o fizesse, melhor seria… mas…, pondera ela, com algo a incomodando.
Ela sente a magia fria de Rubi pulsando ao seu redor, ao mesmo tempo em que consegue perceber uma sensação similar emanando, um pouco mais fraca, de Byron, afastado há pouco mais de um metro.
É muita magia sombria. Não sei se vai fazer bem manter um vínculo de longa duração com eles, analisa Yrah, sentindo a ponta dos pelos da cauda arrepiar.
“Eu preferiria fazê-lo só quando deixarmos essa área”, responde a raposa, num tom vago de quem desconversa algo. “Enquanto ficarmos por aqui, eu consigo ficar bem.”
“Já que prefere assim”, diz o diabo.
“Por mim tudo bem”, diz a diaba, concordando.
Ufa, suspira Yrah, aliviada. Ao menos por enquanto, eu devo ficar bem.
Pronta para ir embora, Rubi encara o chão, dezenas de metros abaixo. “Hora de ir”, diz ela.
Com um passo à frente, a succubus se joga da árvore. A diaba despenca em queda livre por um segundo, mas logo abre as asas, quase por completo, e reduz a velocidade com que passa pelo ar, mantendo uma descida controlada.
Descer assim é beeem mais legal, pensa Rubi, admirando o voo.
Byron, atrás, também desce da árvore, mas, em vez de voar, ele salta de um galho para o outro, com a mochila nas costas e a grande espada em uma mão. Cada pulo do demônio faz a árvore tremer sob os baques secos de suas aterrissagens brutas.
Na metade da queda, Yrah volta o rosto para Rubi. “Ei”, diz ela.
“Pode falar.”
“Para onde vocês precisam que eu os leve agora?”
“Antes, você disse que aqueles pássaros têm um chefe ou algo assim, não foi?”
“Uhum”, confirma a raposa. “É o senhor deles.”
Enquanto conversam, Rubi começa a preparar a aterrissagem, conforme chega ao solo. Suas asas abrem-se mais, reduzindo mais ainda a velocidade da descida, e ela flexiona suavemente as pernas, aprontando-se para o momento em que for tocar o chão.
“Tem algo que eu queria saber sobre ele”, diz ela.
“O que?”
“Ele vive por aqui, não é?”
“Sim. Toda essa região é domínio dele. ”
Excelente, pensa Rubi, determinada.
Quando elas finalmente chegam ao chão, a diaba aterrissa sem dificuldades, dobrando as pernas com destreza, como uma mola amortecendo um impacto.
Rubi se abaixa e solta Yrah no chão. A raposa dá alguns passos e se chacoalha, ajeitando os pelos amassados pelo toque da diaba.
Enquanto ela se ajeita, Rubi desvia o foco momentaneamente para suas asas. Agora eu só tenho que…, ela pensa, concentrando-se.
As membranas e as estruturas se dobram, brilham em vermelho e roxo e começam a reduzir de tamanho. Em poucos segundos, elas retornam ao seu estado original, um par de marcas arroxeadas sobre a base das costas de Rubi.
Prontinho. Bem prático, ela pensa, logo voltando a se focar em Yrah.
“E como seria esse senhor?”, a Rubi pergunta, vendo a pequena criatura se arrumar.
“É uma criatura muito forte e horrível”, Yrah afirma, com apenas por pensar nele. “Ele e os pássaros que ele comanda comem tudo o que se mexe, e ele espalha os pássaros maiores para caçar tudo na redondeza e trazer comida para ele às vezes.”
“E… você saberia onde ele reside?”
“É claro que sei!”, declara Yrah, com um certo orgulho. “Eu tenho que saber para poder ficar longe. Inclusive, vocês deram sorte de terem me encontrado. Se vocês seguissem naquele rumo mais um pouco, vocês chegariam no lugar onde as coisas começam a ficar feias com os pássaros. Chegar muito perto é pedir por problemas.”
Rubi esboça um meio sorriso, seguido de um riso fraco. É. Ela não vai gostar nada disso, ela pensa.
“Então, é nesse lugar que queremos chegar. Precisamos que você nos leve até lá”, a diaba pede, serena, ignorando os avisos.
Yrah trava. Em seu choque, seu orgulho e ânimo desmoronam diante de Rubi. Eu… achei que… achei que… tinha me livrado dos meus problemas. Não que eu estivesse me metendo em mais, ela conclui, aterrorizada.

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