Capítulo 126 - Um passo atrás
No chão da floresta, iluminado pelo sol alto no céu, Byron, Yrah e Rubi seguem caminhando.
O grupo caminha em uma fila. Rubi vem por último, com as mãos nas alças da mochila nas costas, observando a mata com olhos curiosos e atentos.
O demônio alto caminha um pouco à frente dela, com a espada empunhada na mão esquerda e apoiada sobre o ombro. Centrado, mantém seu foco na raposa, que guia o grupo alguns metros à frente.
Ao contrário dos demônios que a seguem, Yrah se mostra cabisbaixa. As orelhas baixas, a cauda arrastada e os passos lentos e desanimadores passam o mesmo semblante de um condenado indo em direção à forca.
Nós vamos ser devorados, ela pensa, preocupada. Já vi que eles têm poderes diferentes, mas eles não são daqui. Tenho certeza de que não sabem o quão perigoso é andar nessa terra. Talvez eu ainda possa convencê-los.
“Tem certeza de que precisam ir até o Senhor dessa região?”, a raposa pergunta. “O que vocês querem fazer realmente precisa envolvê-lo?”
“Sim”, respondem os diabos, de maneira quase uníssona e sem uma gota de hesitação.
A confirmação corta as esperanças da raposa como uma faca afiada. O semblante desalentado aumenta e ela balança a cabeça em negação. É… Nós vamos ser devorados e eu nem posso ir embora, Yrah conclui, aceitando seu destino com uma lágrima no canto do olho.
“Faz parte do plano”, afirma Byron.
“Você mesma disse, quando ele fica mais ativo, as garras-brancas ficam mais agressivas e saem pela floresta e precisamos delas mais calmas”, ressalta Rubi.
“É… eu sei…”, diz Yrah, com um leve tom de arrependimento.
É melhor vocês serem fortes mesmo, a raposa pensa, resignada. Não quero morrer igual a uma presa comum.
“O que me lembra…”, diz a diaba.
Rubi fecha os olhos por alguns segundos, checando seus corvos que voam pela floresta.
“Tem mais daqueles pássaros por todos os lugares onde mandei corvos, mas até que pelas redondezas está bem calmo.”
“Também percebi”, Byron comenta, examinando os arredores.
“Foi por aqui que você ficou caçando?”, Rubi pergunta.
“Não. Foi mais atrás.”
“Isso acontece porque estamos nas bordas do território delas”, diz Yrah, agarrando a atenção dos demônios. “Ainda podemos andar entre os lugares onde os grupos se reúnem.”
“Interessante. Não é algo que se percebe facilmente”, pontua Byron.
“E não é mesmo. É assim que a maior parte dos animais vira refeição por aí”, Yrah afirma. “Eles caminham achando que estão em um lugar seguro, sem saber que estão se enfiando no meio do território de dois ou três grupos.”
A raposa sobe em um tronco caído e começa a farejar o ar, decidindo o caminho a seguir. As orelhas se eriçam, aguçando-se para perceber ruídos da mata.
Byron coça o queixo, integrado. “Oh. Me pergunto se isso vem acontecendo em outras partes da floresta.”
“Pode apostar que sim. E não é só com esses pássaros”, ela afirma, orgulhosa. “Vocês têm sorte que eu sou especialista em não virar refeição.”
Rubi ouve tudo atenta. Até que não seria ruim sairmos um pouco da trilha e reduzirmos mais um pouco o número de aves na floresta, ela pondera, com a cauda serpenteando. Mas… Considerando como as garras-cinzas são mais duras de bater e que não sabemos muito sobre elas ainda, talvez seja bom reduzirmos um pouco o nosso número de encontros.
A diaba olha para a pequena raposa, que se mantém cheirando o ar, e com as mãos, mensura o tamanho dela, depois muda o foco para Byron, andando alguns passos à sua frente.
É. Se me lembro bem, as garras-brancas são um pouco maiores que ele, e olha que ele deve ter uns dois metros de altura, ela constata, comparando o tamanho dele com uma imagem mental do pássaro. Sem considerar a caudinha, a Yrah é tão pequena que poderia parar na barriga de uma daquelas aves em uma bocada só. Um momento de distração e a nossa parceria com aquela fofurinha pode acabar mais cedo.
“Mas essa calmaria não vai durar muito”, avisa a raposa.
Yrah salta do tronco e volta a guiar o caminho em terra.
“Por quê?”, pergunta Rubi.
“Daqui a pouco vamos chegar onde os espaços entre os grupos são menores e, já que vocês querem ir atrás do Senhor das aves, vamos ter que começar a olhar ninho por ninho e o número de aves soltas correndo atrás de nós vai aumentar muito.”
O cenho dos diabos se curva, pegos de surpresa.
“Não sabe onde fica o ninho dele?”, Byron questiona, quase severo.
“Sei onde ficam as redondezas da região onde ele vive, mas eu não tinha motivos para entrar nela, muito menos para ir de encontro com a criatura mais forte daqui.”
“Hum…”, Byron murmura, chateado. “Isso pode levar mais tempo do que achei.”
O demônio volta o olhar para trás e vê Rubi parada, pensando.
Ele logo também para de caminhar e Yrah, assim que percebe, também cessa seus passos.
“Há algo errado?”, Byron indaga.
“Isso é um problema… até um pouco maior do que parece”, Rubi comenta pensativa. “Nesses dias eu já lancei vários corvos pela região e até agora, mesmo vendo várias garras, cinzas e brancas, não vi nada que parecesse um ninho perto delas.”
A linha de raciocínio exposta também deixa Byron inquieto. “Brok também não conseguiu dar nenhuma instrução específica sobre como seriam esses ninhos.”
“Ele não vivia por aqui. Provavelmente não sabe como são também”, ressalta a diaba.
“Não pensei que essa informação pudesse se tornar algo relevante”, fala o demônio, com a pontada de frustração.
Rubi olha para a raposa. “Estava começando a achar que haveria um ninho gigante em algum lugar, mas, pelo que você acabou de dizer, não é bem assim.”
Yrah se aproxima, com a cabeça balançando em negação. “Não é não. Esses pássaros têm vários ninhos espalhados por aí, mas eles ficam escondidinhos e, se não souber bem como é um, é bem difícil vê-los. Não sei como sua magia funciona, mas se está esperando ver Senhor das aves andando por aí, vai ser algo bem difícil, ele também fica escondido dentro do ninho sendo alimentado pelos menores.”
Byron arregala os olhos, compreendendo. “Então é por isso que Brok também não sabia confirmar a existência dessa criatura.”
Isso muda um pouco as coisas, pensa Rubi. Mesmo tão perto do nosso objetivo, ainda parece que precisamos achar uma agulha em um palheiro.
“Byron, acho que precisamos dar um passo atrás no nosso avanço”, diz a diaba, decidida.
“Em que sentido?”
“É bem possível que eu já tenha até lançado algum corvo para onde precisamos ir, mas como não sei exatamente o que procuramos, eu nem percebi.”
“Uhum. Entendo”, diz o diabo, acenando com a cabeça. “Uma mudança de estratégia talvez se faça necessária.”
“E… o que vão fazer agora?”, pergunta a pequena raposa.
Será que eles vão querer voltar?, ela se questiona, com um fio de esperança.
“Saberia nos guiar até onde tem algum desses ninhos escondidos?”, pede Rubi. “Ou ao menos me explicar como são eles.”
As orelhas dela se abaixam, transmitindo dúvida. “Bem… eu… é difícil explicar como eles são se vocês nunca os viram…”, diz a raposa, incerta, mas um pensamento logo lhe vem à mente, acendendo o ânimo. “Mas, se eu não me engano, tem um deles por perto.”
“Excelente!”, comemora Byron.
“Mas tem aves por lá também daquelas maiores”, ela avisa, cheia de cautela.
Apesar disso, os dois diabos se encaram sem nenhuma ruga de preocupação.
“Tudo bem por mim”, afirma Rubi.
“Também não vejo problemas”, ressalta Byron.
O demônio acena concordando e lança um olhar firme e decidido para a raposa.
“Nos guie até lá”, declara Byron. A lâmina da espada repousa sobre o ombro e brilha sob o sol, refletindo um lampejo dourado nas sombras da floresta. “Quando estivermos na iminência de adentrar no território onde os pássaros começarão a nos caçar, me avise e eu tomarei a frente.”
Yrah engole seco, acanhada pela presença imponente do diabo. “Bem… não é muito longe”, diz ela, virando à esquerda.
A raposa novamente toma à frente do grupo.
Byron e Rubi dão espaço, deixando-a ganhar alguma distância antes de voltar a segui-la.
“Mesmo que demoremos um pouco mais, talvez seja até melhor assim”, diz a diaba, animada.
“Também não é uma ideia que me desagrada”, pontua o demônio.
“É uma boa hora para começar a testar os limites das habilidades que ganhei da coroa”, Rubi comenta, com a cauda balançando sutilmente atrás.
“E eu não poderia estar mais ansioso por isso”, afirma Byron, exibindo um olhar e um sorriso afiados.

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