Capítulo 128 - O buraco no caminho
Com as aves mortas no chão, o peso do confronto finalmente se dissipa.
Rubi coloca o arco nas costas e, com um bater de asas, aproxima-se na direção da árvore onde Yrah e suas coisas estão.
A minha estabilidade para atacar com o arco foi muito boa, reflete ela. Se eu conseguir masterizar essa capacidade de voar e atirar ao mesmo tempo, vai ficar um combo bem legal.
Enquanto divaga, a succubus pega a raposa e a mochila da árvore. Yrah se acolhe entre os braços dela, enrolada entre a cauda, e a diaba começa a descer ao chão, flutuando como uma folha solta.
Byron, afastado algumas dezenas de metros, caminha com calma na direção das duas.
Um excelente aquecimento, eu diria, pensa o demônio, correndo o olhar pelos corpos das aves enquanto vira a cabeça e estala as juntas.
Um pouco mais à frente, Rubi aterrissa e, assim que ela toca o chão com a ponta dos pés, a raposa, de súbito, salta de seus braços como uma mola solta.
O que?, pensa a diaba, pega de surpresa.
Yrah cai no chão e, antes mesmo de estabilizar o passo, já começa a vasculhar o ar, inquieta. “Se me der licença, já vou procurar o ninho”, diz ela, sem olhar para trás, já se focando em seu objetivo.
O cenho da diaba se curva, intrigada perante a proatividade da raposa.
“Tudo… bem. Só não se afaste muito. Vou dar uma conferida naquele bicho ali”, pede Rubi, apontando para a garra-cinza há alguns passos dali.
A criaturinha continua farejando e fuçando entre as moitas próximas. “Ele está por aqui. Dá pra sentir o cheiro no ar”, ela afirma, empolgada.
Uau. Ela parece bem animada, pensa Rubi, impressionada. É a primeira vez que a vejo assim.
A diaba aproxima-se do corpo sem vida da ave cinzenta. O sangue ainda quente escorre das feridas, manchando as penas antes de se empossar no solo da floresta.
Rubi se agacha e coleta uma das plumas, segurando-a pela ponta dos dedos, encarando-a obstinadamente. Foram três disparos pesados para matar esse bicho. Daria para ter matado um orc com muito menos do que isso, ela divaga.
Byron também se aproxima e para próximo ao corpo, ao lado de Rubi.
“O que achou?”, ele pergunta.
“Você tinha razão”, responde ela, ainda focada na pena. “Elas são bem mais duras na queda.”
Não é à toa que são os chefes da área, Rubi analisa. Comparando, um grupo de uns dez orcs poderia ser dizimado contra o grupo que enfrentamos aqui. E o Byron até sofreu algum dano considerável dos ataques deles. Então, ou eles têm alguma magia nas garras ou têm força massiva o bastante para sobrepujar a resistência demoníaca dele. O que me leva a crer que eu também posso ser ferida por eles.
A diaba solta a pena no ar e se levanta. “Evitar ir de frente contra eles foi realmente uma boa decisão”, ela conclui. “A depender dos números e do ambiente, podemos ter alguma dificuldade para lidar com eles.”
“E a tendência é encontrarmos cada vez mais desses”, ressalta Byron. “No pior dos casos, mesmo que eles não consigam nos matar permanentemente, uma morte temporária ainda seria um grande atraso.”
“É… seria”, diz Rubi, concordando, com um tom de receio.
E eu nem sei onde eu renasceria…, ela pontua, brevemente distante. Se eu acabasse reaparecendo naquelas ruínas perto de Gramina, seriam muitos dias até eu retornar aqui. Sem contar que eu não sei o que aconteceria com meus equipamentos.
De repente, a voz de Yrah ecoa alto, espalhando-se pela mata como uma brisa que chega diretamente aos ouvidos dos diabos. “Achei!”
“Olha só. Finalmente podemos conferir o que estamos procurando”, pontua Byron, curioso.
“Vamos ver o que eu deixei passar”, diz a diaba.
Os dois seguem na direção da voz da raposa e a encontram diante de uma moita espessa, ao pé de uma árvore alta, com raízes grossas, cheias de marcas e tortuosas, expostas sobre o solo.
Rubi vasculha os arredores, procurando por qualquer coisa semelhante a um ninho, porém não vê nada que se diferencie do restante da mata.
“Onde está?”, pergunta ela.
Byron olha para o alto, focando-se nas folhas na copa. “Seria no alto?”
“Não. É aqui”, diz a raposa, apontando o focinho para a moita. “Atrás dessa planta.”
Os demônios curvam o cenho, intrigados.
Byron dá um passo à frente. Leva as duas mãos ao cabo e executa um ataque contra o arbusto.
A lâmina corta, sem resistência, a base da planta e os galhos caem esparramados ao chão.
Sem as folhas bloqueando a visão, um buraco largo, abaixo da grossa raiz da árvore, torna-se visível. Dentro da fenda, penas soltas se misturam com ossos partidos e manchas cinzentas de fezes secas. Ao centro, um ovo branco do tamanho de um melão repousa quieto.
Byron e Rubi arregalam os olhos, surpresos com a revelação.
“Um ovo!”, diz a raposa, animada, quebrando o silêncio. “Eu sabia que teria um!”
Como eu deveria saber que essas coisas eram assim?, pensa Rubi, beirando a indignação. Isso não é um ninho, é uma toca.
Byron se abaixa na entrada e começa a examiná-la. “Fascinante”, comenta ele.
É claro que você pensa isso. Você vivia em uma toca, Rubi infere, também se aproximando do buraco.
“Devemos ter passado por uma dezena dessas to… desses ninhos e nunca saberíamos”, pontua a diaba.
“Eu disse que eles ficam escondidinhos”, Yrah ressalta. A cauda felpuda da raposa balança e suas patas dianteiras fazem menção de dar um passo hesitante, em uma inquietação incomum. “Ei! Sobre aquele ovo ali… bem…”
Byron vira o rosto para ela. “Você quer?”
“Só se vocês não forem usar… ”, responde a raposa, desviando o olhar na tentativa falha de esconder o entusiasmo.
Sem fazer cerimônia, o demônio estende a mão, retira o ovo da toca e o deixa de pé ao lado dela.
A cauda de Yrah dispara em alegria, abanando como se tivesse acabado de receber um tesouro. “Obrigada!”
Rubi dá um riso curto diante da cena. Ah… então era isso que ela estava esperando, pensa ela, vendo a raposinha quase vibrar de felicidade.
“Eu não sabia que você precisava comer”, diz ela.
“Eu não preciso comer todo dia, mas como toda vez que posso”, diz a raposa, focada em seu alimento.
Yrah morde a parte superior do ovo e racha a casca. O interior gelatinoso começa a escorrer para fora e a raposinha começa a consumi-lo com lambidas curtas.
Os demônios voltam a atenção em totalidade para o ninho.
A raiz é grossa, tanto, senão mais do que os troncos de algumas árvores menores por perto. E a fenda na terra é larga, com os caules da moita cortada crescendo logo em seu entorno.
Na madeira, na parte de cima da raiz, estão entalhes secos e longos, cravados profundamente.
Rubi passa os dedos por eles, tateando cada uma das marcas, enquanto Byron examina o ambiente no entorno.
“É. Sabendo que aqui é um ninho, dá pra saber que isso aqui vem das garras daquelas aves”, ela comenta.
“De fato”, diz o diabo. Ele volta o olhar para a raposa. “Elas sempre usam esse tipo de árvore?”
“Uhum”, confirma Yrah, quase enfiando a cabeça por completo dentro da casca. “Raízes grandes… esparramadas… é o que elas preferem.”
Byron volta a olhar para Rubi. “Já é o bastante para você procurar?”
A diaba, antes de responder, examina novamente a árvore, as raízes e a fenda no solo. Bem… vai dar um pouco mais de trabalho do que eu cogitei… mas…, ela pondera.
Um sorriso surge em seu rosto. “Vai dar certo”, ela afirma. “Vamos encontrar o que viemos buscar.”

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