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    Diante de uma grande árvore com enormes raízes sobrepostas no solo, está um grupo de cinco garras-cinzas. 

    Ao redor, dezenas de outras árvores circundam a região, todas com copas largas que bloqueiam parcialmente a luz do sol da tarde. 

    Apenas filetes de luz iluminam a região que é abundante em silêncio, sem os sons distantes e variados que normalmente se escutam pela mata. A quietude é rompida apenas pelos ruídos das aves. 

    Todas as cinco garras-cinzas são grandes, possuem cicatrizes visíveis nos bicos e nas pernas. 

    Três delas estão sentadas, aninhadas próximas, descansando no chão, com os pescoços e as cabeças estirados sobre a terra. As outras duas travam um cabo de guerra com um pedaço de carne ainda gotejando sangue, cada uma puxando com o bico como se quisesse rasgar a presa inteira para si.

    A grande árvore no centro possui arranhões na madeira, similares aos cortes de lâminas. Os arranhões percorrem a madeira desde as raízes até meia altura do tronco, variando entre ranhuras finas e fendas profundas.

    O ambiente que passa um ar monótono e calmo de repente se quebra. 

    As aves deitadas abrem os olhos e as que brigavam pela carne deixam-na cair ao chão. O silêncio tenso toma aquele trecho da floresta. 

    Todas as garras-cinzas erguem os pescoços e voltam sua atenção ao sul, sentindo um alerta inaudível que ecoa de seus instintos.

    Do meio da mata, sons pesados crescentes ressoam, como passos de uma grande criatura que caminha rumo às aves. 

    Pássaros cinzentos se levantam e logo avistam um colosso surgindo do sul. 

    E quem chega é Byron, já transformado. O grande demônio passa entre as árvores, com as folhas que tocam sua pele de aparência vulcânica queimando como se tocassem uma forja quente.

    Ele sorri confiante, trazendo consigo a espada na mão esquerda. Os filetes de luz que penetram pelas copas, quando a tocam, fazem a lâmina brilhar mais que uma tocha.

    Atrás dele, Rubi o segue com seu arco dourado empunhado na mão esquerda e as asas já semiabertas.

    Quando Byron visualiza completamente seus alvos para a caminhada. 

    As garras-cinzas encaram os demônios com olhos estreitos e as pernas rígidas, prontas para saltar a qualquer instante, mas ainda contidas, esperando apenas um único estímulo para disparar o confronto.

    Entre os dois grupos, a tensão silenciosa flui pelo ar, quase visível, como uma fina corda próxima do rompimento.

    “É como pensamos”, comenta Rubi. “Essas não são caçadoras, são guardas.”

    “Posso ir contra eles agora?”, pede Byron, a voz sombria ansiando pelo embate.

    “Se sente preparado?”

    Byron ri. “Mais do que nunca”, afirma ele, sem um grama de dúvida.

    “Então pode ir, mas… vai com calma”, diz Rubi, levemente receosa. “Ainda não sabemos quantas outras podem sair do chão.”

    “Manterei a cautela o tempo todo.”

    Tem muitas coisas nesse plano que ainda são apenas especulações, ela pensa. 

    “E se alguma delas se desgarrar de você, só siga em frente”, Rubi adverte, uma última vez. “Vamos manter como na ideia inicial.”

    “Como desejar”, responde o diabo, diligente. 

    O diabo, antes de avançar, gasta alguns segundos correndo o olhar entre as aves, escolhendo seu alvo. Quando fixa sua atenção em uma delas, arrocha os dedos ao redor do cabo da arma.

    As asas do demônio se abrem e, em contrapartida, as garras-cinzas flexionam a parte inferior do corpo, prontas para tomar impulso.

    “Agora, se me dá licença…”, diz o demônio. 

    Em um bater de asas poderoso, que levanta terra e folhas, ele se lança para frente, rumando em direção às aves. Rubi também bate as asas, porém, ao invés de ir adiante, voa para cima, rapidamente ganhando altura.

    Em resposta imediata, o grupo de garras-cinzas também começa a correr em direção ao demônio, batendo suas pernas fortes contra o chão úmido, criando um eco similar ao de um tambor abafado que declara o início do confronto.

    “Podem vir!”, grita Byron, como uma exigência carregada de empolgação.

    A diaba, do alto, enquanto cria uma flecha em seu arco, observa o demônio se aproximar, voando como um projétil contra seus alvos.

    Se alguma delas vier na minha direção ou for embora, talvez seja até melhor, Rubi analisa. Byron é um excelente combatente na linha de frente. Com base no que ele já mostrou, eu não diria que ele tem habilidades para cumprir a função de um tanque completo. Mas já posso dizer que ele é um bruiser perfeito. Um muito melhor do que eu poderia ser.

    Quando sua flecha fica pronta, ela mira o arco para o alto. A flecha alaranjada muda seu tom para um vermelho vibrante. 

    “Torrente vermelha!”, Rubi pronuncia e libera o projétil.

    A flecha avança e logo se divide em várias outras menores, organizadas em um círculo. Elas se movem velozmente pelo ar em um arco, acertando logo acima das três garras-cinzas mais ao centro. 

    A chuva de projéteis perfura as penas e penetra na carne. As três aves alvejadas perdem a velocidade e cambaleiam em sua corrida.

    As outras duas mantêm seu trajeto sem hesitação. Uma delas encaminha-se diretamente contra Byron. Quando consegue proximidade o bastante, ela imediatamente salta contra o demônio, com as garras afiadas para frente. 

    Byron abre as asas, freando o avanço como se abrisse um paraquedas, e posiciona sua espada na frente para se defender. 

    O impacto entre as unhas e a lâmina acontece. O demônio firma os pés no chão e bloqueia com facilidade o golpe. A ave é repelida e aterrissa alguns passos diante dele. 

    Não irá ser fácil me derrubar, Byron pensa.

    A segunda garra-cinza circunda o demônio, ignorando-o como se ele fosse uma pedra no caminho, e segue correndo obstinadamente contra Rubi. 

    É como da outra vez, pensa a diaba. Mesmo aqui do alto, elas ainda vão tentar lidar comigo. Ela se vira e bate as asas para trás, aumentando a distância entre si e a ave. 

    Mas mesmo sem chegar rente à succubus, o pássaro cinzento aproveita a proximidade que conseguiu e mira o bico na direção dela. Seu peito estufa e a criatura crocita em sequência. Um som alto e agudo que caminha como uma onda invisível em direção a Rubi, fazendo até os galhos próximos reverberarem.

    O barulho atinge os ouvidos da diaba e faz seus ouvidos tremerem e seu rosto se curvar em rugas devido ao incômodo. Mas o estrago para por aí. Para a surpresa da garra-cinza, Rubi se mantém flutuando e se volta contra a criatura, encarando-a com um olhar irritado.

    Não consigo discordar do Byron. Esse barulho é muito ruim, ela reflete, chateada. Mas, um pensamento que surge em sua mente a faz curvar os lábios em um sorriso sutil. Ainda bem que isso não vai ser mais um problema.

    Diante da postura irredutível da succubus, a garra-cinza próxima dela cerra o olhar e cautelosamente recua um passo.

    Mais à frente, Byron ergue a espada contra a ave que o interceptou, preparando um golpe pesado. O pássaro sente nas penas a aura quente que o demônio emana. A pele escondida lentamente começa a arder. 

    Antes do demônio executar o ataque, a garra-cinza reage. Suas penas grisalhas se eriçam e começam a vibrar uma atrás da outra, indo do longo pescoço até a ponta da cauda, em um padrão ordenado e hipnótico.

    A lâmina desce firme como uma rocha, sem uma gota de perturbação ou misericórdia no movimento. A espada atravessa o ombro da ave, fazendo o sangue espirrar no chão, ao mesmo tempo em que queima a carne viva. 

    Byron vê com alegria o tremular das penas, sem ser afetado pela habilidade atordoante. 

    O demônio ri, a voz grave soando como um trovão abafado. Ele fecha o punho livre, confiante e satisfeito. 

    No dorso da mão, está a Marca da Ambição, traçada sobre a pele como a de Rubi. No entanto, ao invés de roxas, as linhas do desenho brilham em laranja incandescente, como as demais rachaduras de sua pele vulcânica.

    Sou grato pela oportunidade, pensa Byron, em uma prece breve. Agora posso lutar com tudo o que tenho.

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