Capítulo 132 - Uma das formas certas
Enquanto os demônios lutam, em um ponto claro da floresta, onde as árvores são espaçadas, com troncos mais retos, a calmaria reina.
No alto de uma copa, está a bolsa de Rubi, pendurada pela alça em um galho a dezenas de metros do chão.
Na ponta do galho, um corvo cinza como uma rocha a observa fixamente.
De repente, a bolsa começa a balançar sozinha. Algo ali dentro começa a se mexer e a tampa se abre, movida por algo do interior.
De lá sai a cabeça branca de Yrah, abrindo a boca e respirando profundamente. Ela olha para o corvo, que não esboça nenhuma reação.
“Hey! Já começaram a lutar? Aquele lugar era mesmo o ninho principal?”, ela pergunta, curiosa e preocupada.
O corvo, que mais se assemelha a uma estátua do que a uma criatura viva, se mantém quieto e calado, encarando a raposa sem nem piscar os olhos.
Yrah fica inquieta. “Hmm… você se comunica com a Senhora Rubi… não é? Ela está me ouvindo? As coisas… estão indo bem?”
Não há nenhum tipo de resposta, há apenas o silêncio que toma conta do ar na ausência da voz da raposa.
Eles disseram que só estaríamos em uma situação ruim se esse pássaro sumisse, mas não sei se ficar sozinha sem nenhum tipo de resposta é bom, pensa Yrah, ainda mais apreensiva. Suas orelhas se abaixam, junto de seu olhar. Espero que eles não morram.
No outro trecho da floresta, onde a batalha acontece, do alto, Rubi foca sua atenção em Byron, confiante após resistir com sucesso ao atordoamento.
Foi como no teste com a Yrah, funcionou certinho. Ele parece tão resistente à alterações mentais quanto eu, ela avalia, com ânimo, enquanto apronta uma nova flecha. Considerando que esse pacto drenou a magia da auréola no lugar da minha, talvez essa seja uma das formas certas de usar os poderes da coroa.
Mais adiante, as três garras-cinzas afetadas pela chuva de flechas anterior, após se recuperarem do ataque, voltam a avançar contra Byron.
A que vai mais à frente, quando chega a alguns metros dele, reduz sua velocidade, infla o peito e grita contra o demônio.
O estrondo agudo chega ao demônio, potente como um trovão.
As outras duas aves, em embalo, saltam contra ele, mirando suas unhas, semelhantes a facas.
Apesar do ruído exatamente desconfortável em seus ouvidos, o sorriso do demônio não some e ele tenta se defender.
Byron se volta contra as aves que o atacam e, com um movimento da espada, acaba interceptando uma delas, bloqueando completamente as garras.
Contra a outra, apesar de não poder usar sua arma para se defender, Byron amortece o ataque usando o próprio braço livre.
As garras penetram o antebraço, atravessando a carne escura do demônio.
A ferida aberta exala um calor intenso, que misturado à aura de Byron, queima a ave que o toca.
Após a rodada de ataques, ambos os pássaros aterrissam no chão, posicionados a um passo de distância de Byron.
“Podem vir!”, exclama o demônio, com o ar de um guerreiro feroz, encarando cada um dos pássaros sem uma única gota de hesitação.
A ave cortada e queimada pela espada de Byron, como se entendesse a sua demanda, avança contra ele.
Mas, antes de atacá-lo, uma voz ecoa pelo campo de batalha.
“Voleio arcano!”, diz Rubi, conjurando um feitiço, lançando uma flecha logo em seguida.
O projétil se divide em vários outros, espalhados um ao lado do outro, como um leque que silva contra as aves em alta velocidade.
As flechas alvejam a garra-cinza queimada, junto de outras duas aves alinhadas, onde cada projétil as perfura profundamente.
Além das feridas físicas, a aura ardente e incessante de Byron também as queima, lentamente piorando ainda mais sua situação.
O demônio não perde tempo. Como uma ordem dada de maneira silenciosa, assim que as flechas acertam seus alvos, ele ataca com sua espada em um movimento pesado e circular que almeja varrer toda sua frente.
As penas de todas as quatro aves começam a vibrar em seu padrão coordenado e estonteante, porém, nada faz a arma do demônio vacilar.
A ave que não foi alvejada pelo voleio arcano salta para trás, evitando completamente a lâmina. As outras três, entretanto, são cortadas em sequência. A espada corta e queima, uma atrás da outra. A fumaça que carrega o odor de carne e penas cremadas se espalha pelo ar.
Quando Byron para de se mover, apenas duas garras-cinzas restam de pé, uma diante dele e outra próxima à Rubi. As demais tombam ao chão sem vida.
Três já foram, concluí a diaba.
No chão diante dela, a garra-cinza olha para trás, preocupada, vendo os demais membros de seu grupo caindo um após o outro. Mesmo seu companheiro de pé está ferido pela Torrente vermelha anterior.
Sentindo-se sem escolha, o pássaro infla o peito novamente, mas, ao invés de olhar para Rubi, seu foco é para trás.
Ele vai soltar aquele ataque sonoro de novo? Mas quem é o alvo dele? O Byron?, a diaba se questiona, vendo a preparação do pássaro.
Ele grita, mas o que sai de seu bico não é o crocitar agudo e estridente costumeiro. O que sai de lá é um ruído mais grave, mais similar a um uivado.
Isso é novo, pensa Rubi, já preparando uma outra flecha.
O outro pássaro, próximo a Byron, o acompanha no canto. Os demônios ouvem aquele som estranho, que, diferente do outro, não é desagradável em seus ouvidos.
O chão começa a vibrar e as folhas se desprendem das árvores.
Byron percebe a terra tremendo sob seus pés. Está vindo, conclui ele, cerrando o olhar e aprontando sua postura.
Das moitas escoradas nas raízes da grande árvore ao fundo, outras duas garras-cinzas emergem correndo em direção ao demônio, mas o chão não para de tremer.
O grande tronco range e o arbusto denso na base da árvore se dobra ao solo, derrubado por uma grande ave que sai de um buraco e aparece na superfície.
O perfil do pássaro é similar a uma garra-cinza e a uma garra-branca, uma ave com asas curtas e pescoço alongado, porém duas vezes maior. Sua penugem é alongada e colorida, com as cores azul e verde, quase metálicas, se misturando ao branco. Em especial, as penas da cauda são bem mais longas e com cores mais vivas, similar à cauda de um pavão.
Ele sai abanando as asas, que também possuem garras na dobra, e exala um grito alto, que acompanha o canto das garra-cinzas, como uma resposta ao pedido de socorro.
Rubi observa a criatura e arrocha os dedos sobre o arco. Finalmente… o Senhor das Garras, ela conclui.

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