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    Quando o Senhor das Garras emerge, os dois pássaros cessam seu canto. Por um breve instante, toda a floresta se aquieta, como se respeitasse, ou temesse, a presença da grande ave que acaba de deixar seu covil. 

    Silenciosamente, ele encara os dois demônios, examinando os invasores.

    Ele abre o bico e quebra o silêncio com um grunhido. Um ronco grosso que ele exala enquanto move os músculos da garganta, e suas penas coloridas, quase metálicas, brilham com a luz que o atinge. 

    O que ele está fazendo?, pergunta-se Rubi, voando ao fundo. 

    Mais adiante, Byron cerra o olhar. Algo não está certo, ele pensa. Eu esperava algo mais… agonizante. 

    As quatro garras-cinzas de pé respondem com um som contínuo, similar ao ronronar de um felino, todas as suas penas vibram ao mesmo tempo em que começam a se organizar pelo campo de batalha. 

    As duas recém-chegadas, vindas do buraco, dividem-se e correm cada uma em direção a um dos diabos. 

    As outras permanecem posicionadas, já próximas a Rubi e Byron. Com os músculos já tensionados, em uma postura cautelosa, aguardando o apoio das aves que avançam. 

    “Isso foi um comando, não foi?”, pergunta Byron, sem desviar o olhar. 

    “Pode apostar que sim”, responde Rubi.

    O grande behemoth coloca a espada à frente, a lâmina voltada na direção da ave que corre em sua direção. Cinzas e brasas flutuam ao seu redor, enquanto ele vislumbra o Senhor das Garras ao fundo. 

    É isso. O próximo empecilho na escada, ele pensa. Vamos ver por quanto tempo ele resiste antes de cair.

    A succubus rapidamente corre o olhar pelos inimigos no campo de batalha. 

    Comparado aos outros, esse bicho parece mais um dinossauro, pensa Rubi, contemplando o grande pássaro. Ele tem cara de que é bem resistente e temos que cuidar dos menores. Já sei qual encanto usar. 

    No instante seguinte, se concentra e a flecha em seu arco torna-se verde, brilhando como um cristal translúcido. Tem um tempinho que não uso esse, ela pensa, olhando para o projétil. 

    Rubi se inclina para baixo e bate asas. Velozmente se desloca, perdendo altura, até quase tocar o chão. 

    Ela mira seu arco em direção à garra-cinza mais próxima e libera sua flecha. 

    O projétil avança veloz e alcança a garra-cinza quase instantaneamente, cortando o ar como se não houvesse distância entre as duas, deixando um rastro verde, similar a uma névoa, por onde passa. 

    A ave não consegue reagir ao ataque e é atingida no peito. A flecha brilhante passa por suas penas e pela carne sem esforço, atravessando todo tecido em seu caminho como um fantasma indiferente ao meio. 

    Apesar de não haver perfuração física, a travessia ainda causa impacto interno na criatura. Uma força invisível que acompanha a flecha. A passagem é tão lisa que o corpo do pássaro sequer se move. 

    O projétil sai pelas costas, deixando apenas furos na penugem atravessada, e segue em linha reta, seguido pelo rastro verde, percorrendo o campo de batalha até alcançar a outra ave próxima a Byron.

    A garra-cinza é atingida na lateral e também acaba sendo completamente perfurada pelo disparo, sem resistência alguma. 

    Mesmo após transpassar a segunda ave, a flecha continua avançando, mas dessa vez não há mais alvos em seu caminho e ela segue até perder-se na floresta e desaparecer entre as árvores, deixando apenas o rastro luminoso para trás.

    As aves percebem o ocorrido na forma de uma dor extremamente aguda surgindo em seus corpos. De um segundo para o outro, sentem os músculos e as entranhas atravessadas.

    A primeira atingida, mais próxima de Rubi, cambaleia por um segundo e grunhe, sacolejando a cabeça, resistindo à dor de pé. 

    Aquela próxima a Byron, entretanto, já sofre das feridas nas costas, advindas da Torrente Vermelha. Os danos das feridas acumulam-se, misturados à aura ardente de Byron, que agora a queima por dentro e por fora, e deixam sua visão turva. 

    As pernas perdem as forças e a ave cai inconsciente ao chão.

    Mais uma, faltam só mais quatro, pensa Rubi.

    Byron, em sequência, também move suas asas. O abanar poderoso que o ergue para o alto sem dificuldades.

    Sem perder tempo, ele se lança para o lado, em direção à garra-cinza que corre focada em Rubi. O poderoso demônio brande a espada de cima para baixo contra a ave.

    A garra-cinza reage imediatamente, saltando para longe. A espada erra o alvo e atinge o chão com força, abrindo uma fenda e emitindo um ruído abafado na terra.

    A ave aterrissa firmemente no chão com as penas tremulantes, não mais encarando a succubus, mas sim a Byron, que a encara com um sorriso. 

    No segundo seguinte, a outra garra-cinza, que corre focando no behemoth, o alcança. 

    Ela salta, lançando as garras contra o ombro do demônio. As unhas arranham a pele de textura vulcânica, fazendo mais brasas flutuar no ar, queimando-a no processo. 

    Apesar do golpe, Byron se mantém firme como uma parede e a ave recua saltando para trás.  

    Ela aterrissa ao lado da outra garra-cinza, também encarando-o em uma postura cautelosa.

    “Ei!”, grita Rubi ao fundo. “Tudo bem por aí?”

    Antes de responder, Byron acena com a cabeça. “Já deixei uma passar e a senhorita já derrubou uma das minhas. Não vi nenhum problema em pegar essa que estava no caminho.”

    Rubi deixa um riso curvo escapar. “Já que você prefere assim”, diz ela, de bom humor.

    Mesmo ferido, aquele doido ainda consegue, de alguma forma, se divertir, ela pensa.

    No breve momento em que os diabos conversam, um barulho súbito os interrompe. 

    O Senhor das Garras ruge. Um ranger grave e gutural, vindo das profundezas daquela garganta longa. Diante daquele som, todas as árvores nas redondezas reverberam, centenas de folhas desprendem-se dos galhos e começam a cair sobre o solo como chuva. 

    Ao mesmo tempo, a penugem do grande pássaro ondula eriçada em um padrão intrincado, onde as penas vibram de forma diferente, dependendo da cor.

    Os demônios franzem as feições ao ouvir o ruído que faz a floresta tremer, e qualquer vestígio de bom humor se desfaz. 

    Byron range os dentes e rosna irritado, encarando cada uma das duas aves que o encaram em prontidão com desprezo.

    Rubi, ainda segurando o arco, tapa os ouvidos, tentando amenizar a agonia que aquele grito provoca. Que barulho horrível!, pensa ela. E isso tudo é só som real. O que ia acontecer com a gente se não tivéssemos a marca da ambição?

    Naquele momento de desconcentração, a garra-cinza próxima aproveita-se da distração e da baixa altura do voo da succubus para saltar em seu ataque, indo de frente contra ela.

    Apesar de incomodada, a diaba bate as asas e move-se para o lado em uma esquiva. A resposta é ágil, mas uma das unhas afiadas ainda a acerta na canela, abrindo um corte na pele.

    Esses bichos não dão nem uma trégua, reclama Rubi, sentindo uma pontada de dor. 

    Pouco tempo depois, o Senhor das Garras cessa seu rugido e, com o olhar focado nos demônios, começa a avançar. Ele dá passos lentos e controlados, que emitem um leve som abafado no chão.

    Livre daquele ruído desagradável, Rubi imediatamente leva a mão até a corda do arco e começa a criar uma nova flecha verde brilhante. 

    Agora vai começar a parte final, ela conclui.

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