Capítulo 135 - Efeito em cadeia
Antes de puxar a corda para o próximo disparo, a diaba pondera por alguns instantes. Vale a pena eu manter a flecha de jade ou seria melhor eu mudar para uma com mais impacto?, ela se pergunta. Eu já gastei um bocado de mana com o outro encanto, um com custo-benefício melhor não seria ruim. Talvez…
De repente, a diaba sente uma ondulação em sua magia, como um sexto sentido que lhe envia um sinal. No mesmo instante, o olhar dela se franze e ela se vira para a esquerda, como se algo a chamasse, demandando sua atenção. Uma sentinela? Ativando perto assim?, a diaba indaga-se.
Mas, tão súbita quanto a primeira, uma nova ondulação mágica a toca, vinda, desta vez, da direção oposta. Outra? Logo agora?, ela se pergunta, encarando a direita. De um segundo para o outro, sua dúvida torna-se intriga. Não pode ser coincidência.
Ela fecha os olhos e começa a enxergar pela visão da primeira sentinela. O pássaro cinzento voa por algum trecho da floresta. Diante dele, uma garra-cinza corre velozmente e obstinada.
A diaba muda para a visão da segunda ave, que também se encontra voando, mas em uma região diferente da mata. Assim como a outra, ela também persegue uma garra-cinza que avança rapidamente, mas essa é acompanhada de uma garra-branca correndo em paralelo.
Elas… estão vindo até aqui, Rubi constata.
No meio da verificação, uma terceira ondulação surge. No entanto, em vez de checá-la, a succubus abre os olhos e volta a enxergar normalmente. Acho que já sei o que está acontecendo, ela reflete, com uma possibilidade ganhando forma em sua mente.
A atenção de Rubi retorna à luta, com o foco direto no Senhor das Garras. Aquele grito mais cedo não foi só para nos atordoar. Também foi um pedido de ajuda, ela conclui. Deve ser por isso que o encantamento do meu charme fica fraco nesses bichos. Eles já estavam sob algum tipo de controle.
A diaba se concentra e começa a puxar a corda do arco, criando uma nova flecha. Dessa vez, de cor vermelha e intensa. Mas isso não faz muita diferença. Quando elas chegarem aqui, já não vão ter mais nenhum senhor para proteger, ela afirma.
Enquanto isso, logo abaixo, uma após a outra, as duas garra-cinzas chegam até Byron e o atacam ferozmente no mesmo instante. Elas saltam e, com as patas erguidas, executam golpes descendentes contra o demônio.
As unhas afiadas vão juntas, quase ao mesmo tempo. Byron não faz questão de desviar. Ele ergue o antebraço direito e recebe o impacto de frente, fincando os pés no chão como um muro inamovível, suportando o peso combinado das duas aves sobre si.
Comparadas ao seu senhor, vocês não são nada além de um estorvo, pensa o diabo.
No mesmo instante, Byron tensiona o outro braço e firma o punho em torno da espada. Com um giro do tronco, a lâmina percorre um arco aberto, num golpe pesado que corta parte do peito das duas aves e as lança para trás sob a violência do impacto.
A arma do demônio chia e solta uma fumaça esbranquiçada, fervendo o sangue residual impregnado.
Na sequência, o Senhor das Garras também avança contra o demônio. Ele dá um passo veloz à frente e tenta pisotear Byron mais uma vez.
Dessa vez, o demônio reage erguendo a espada e contragolpeando as unhas da criatura, tentando aparar a investida.
Byron intercepta o movimento pela lateral. Garras e metal se encontram abruptamente, ecoando um ranger agudo enquanto as unhas raspam com violência pela lâmina.
Mesmo sob a pressão, o demônio sustenta o impacto e consegue desviar o golpe, fazendo com que as garras se choquem contra o chão e abram um buraco na terra.
Byron usa a brecha e já salta para trás com um bater de asas fortes, usando o momento para reganhar espaço, saindo do meio dos pássaros. Com as asas estendidas, sua queda é suave no chão.
Enquanto retoma a pose de combate, sua respiração sai ruidosa, com um suspiro soando como um rosnar contido, que se mistura a um olhar e um sorriso carregados de confiança. As várias feridas abertas entre os braços e o tórax não reduzem o calor que ele irradia, nem abalam sua postura sólida e controlada.
Algumas dezenas de metros atrás, Rubi desloca-se, circundando o núcleo onde Byron e as aves lutam de frente. O arco vem tensionado, carregado com uma flecha vermelha, brilhante e espessa.
“Se prepara!”, avisa ela, sua voz ecoando alto.
Byron acena e, cautelosamente, já começa a abrir as asas.
A diaba mira o arco contra o grande pássaro. Se o efeito secundário der certo, isso vai causar um estrago, ela pensa, soltando a flecha.
Em menos de um segundo, o disparo acerta as costas do grande pássaro. O impacto da flecha é avassalador e o empurra para trás na mesma hora, jogando-o metros pelo ar.
A imensa ave acaba sendo arremessada diretamente contra as duas garras-cinzas feridas. A colisão acontece de súbito, um estalo seco ecoando entre os corpos num atropelamento truculento, tudo se passando diante de Byron.
Tenaz, o Senhor das Garras estabiliza-se, fincando as pernas no chão e usando as unhas como âncoras. Enquanto isso, as aves menores, pela diferença de massa, são arremessadas e capotam descontroladamente pela terra.
Quando finalmente param de rolar, é onde ficam. Os ossos quebrados, a carne rasgada e queimada são demais para suportar. Os corpos, já enfraquecidos, sucumbem aos ferimentos.
A cauda de plumas do Senhor das Garras começa a brilhar lentamente. Ele se volta na direção da succubus e o olhar dos dois se encontra.
A luz tênue nas penas começa a se intensificar, ao mesmo tempo em que Rubi começa a puxar a corda do arco. Durante um segundo que parece durar uma eternidade, o clima de um duelo torna-se palpável no silêncio carregado.
No entanto, antes de o pássaro ter a chance de atacar, um outro movimento esquenta ainda mais a atmosfera.
Byron avança voando contra o pássaro. “Não dessa vez!”, proclama o demônio, estocando-o com a espada.
O golpe chega pela lateral, acertando na asa. A ponta começa a penetrar pelas penas, apresentando alguma dificuldade, pois a cobertura da criatura se mostra resistente como uma armadura natural. Mesmo assim, a força e a ferocidade do diabo forçam a espada até ela atingir a carne.
O sangue escorre pela lâmina quente e, como um efeito em cadeia, as penas da cauda perdem a luz, conforme o foco do Senhor das Garras muda para Byron.
Ele se empurra para longe da espada com uma pata, ao mesmo tempo em que ataca o demônio na lateral com um movimento similar a um coice desesperado.
Byron recua com um pulo de asas abertas para trás, deixando o pássaro livre, com as garras acertando o ar.
Durante a troca de golpes, o Senhor das Garras passa a ignorar totalmente a existência da succubus.
Rubi aproveita essa brecha criada por Byron e voa para o alto, até quase tocar a copa da grande árvore que os cobre.
Com uma flecha vermelha em prontidão, ela mira para baixo. O casaco balança enquanto ela se estabiliza e, uma última vez, contempla o pássaro.
Até que essa foi uma boa luta, ela pensa, soltando a corda.
O projétil desce rápido, indo de encontro com a ave em solo.
A flecha o atinge nas costas e, mais uma vez, a flecha vermelha o empurra após perfurá-lo. Dessa vez jogando-o contra o chão, como se um martelo gigante se chocasse com ele.
Dois estalos ecoam entre as árvores. Um quando a flecha acerta a ave e outro quando a ave acerta o chão. Uma nuvem de poeira sobe, seguida de um silêncio mórbido.
A quietude seguinte acaba não sendo exclusiva do trecho onde os demônios estão. Uma cadeia de eventos começa a se desenrolar por vários locais da floresta.
As aves brancas e cinzentas, que correm desesperadas na direção de seu senhor, de repente param. Todas começam a observar os arredores e a trocar olhares entre si. O instinto que vinha os guiando some de um segundo para o outro e cada indivíduo parece perdido, como se não soubesse o que estão fazendo por ali ou para onde ir.
No centro de tudo, Rubi aterrissa ao lado de Byron e o demônio volta à sua forma humanoide. Juntos, a dupla observa o Senhor de Todas Garras morto no chão.
Fim do volume 09: Cortando as garras

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