Capítulo 137 - Reagrupando após a caçada
O sol, no entardecer, tinge de laranja a floresta, há poucas horas de sumir no horizonte. Yrah, ainda dentro da mochila, olha para o pé da árvore com as sobrancelhas arreganhadas.
Isso não é bom, ela pensa.
A mais de uma dezena de metros dali, no chão, uma garra-branca encara a pequena raposa no alto. A expressão apreensiva da raposa se reflete nas pupilas ferozes da ave, que a vê como fruta madura, apenas aguardando ser recolhida.
A criatura flexiona as pernas para baixo e rapidamente se empurra para cima, saltando alto em direção à mochila.
O bico se abre, pronto para abocanhar, e Yrah congela vendo as entranhas da boca faminta vindo em sua direção.
Mas o pulo acaba sendo em vão, pois não chega nem a metade da distância entre a raposa e o solo.
A garra-branca aterrissa no chão com um barulho abafado, dobrando os joelhos para amortecer a queda.
Enquanto no alto, Yrah solta o ar preso nos pulmões. Ufa, ela pensa, aliviada, mas ainda com o coração disparado.
A raposa olha para o corvo cinzento que a observa estaticamente no fim do galho. “Ei! Não vai fazer nada?”, ela questiona, demandando.
Mas, mais uma vez, tudo que recebe do pássaro é o mesmo silêncio que uma estátua inerte daria.
No chão, a garra-branca, insistente na caçada, ao invés de dar um novo pulo, muda sua tática. Ela se aproxima da base da árvore, ergue uma pata e chuta o tronco com força.
O som do impacto ecoa próximo e toda a planta treme. Como um efeito em cadeia, folhas e galhos fracos começam a cair e a mochila que mantém Yrah pendurada balança de um lado para o outro.
Ele quer me derrubar!, a raposa pensa, sendo chacoalhada.
Novamente, Yrah se volta para o corvo. “Ela disse que, se aparecesse algum pássaro, você iria avisá-la! Eu preciso de ajuda!”, cobra ela, quase em desespero.
Enquanto ela fala, a garra-branca golpeia o tronco mais uma vez, repetindo o balançar da árvore.
O corvo não reage nem responde à raposa. Desalentada, Yrah olha para baixo. “Eu não sou fruta! Vá embora!”, braveja ela, mesmo não acreditando nas próprias palavras.
A ave ignora o grito e ergue a pata mais um golpe, mas, antes de chutar, para completamente. Ela desce o pé ao chão novamente, enquanto olha para trás, atenta.
O quê?, pergunta Yrah, achando aquilo estranho.
Não demora muito e a raposa também sente algo mudando no ar. Um calafrio sombrio, vindo da mesma direção que a garra-branca encara em alarde. Mas, em vez de tremer de medo, Yrah sorri. São eles!, ela conclui, com o ânimo renovado.
Sem hesitar, a ave começa a correr na direção oposta. Com passos velozes, se enfia na moita mais próxima e sai vagando pela floresta.
“Isso mesmo! É bom correr para longe!”, brada a raposinha, mais confiante do que nunca. “Se você ficasse aqui, íamos ver quem iria parar na barriga de quem!”
A garra-branca desaparece no verde da mata e tudo se acalma próximo à Yrah.
Momentos depois, Rubi e Byron chegam, caminhando calmamente e sem alarde entre as árvores, indo diretamente na direção da raposa.
“Vocês voltaram mesmo!”, diz a raposa, ao vê-los com os próprios olhos. As orelhas levantadas e a cauda balançando dentro da mochila.
“É claro que voltamos. Foi o nosso acordo”, afirma Rubi, caminhando até parar logo abaixo de Yrah.
“É que… eu achei que… vocês demoraram… e o corvo não falava nada… e…”, admite Yrah, com as orelhas abaixadas.
Enquanto elas conversam, o demônio segue até chegar à base da árvore. “Cogitou uma derrota”, comenta ele, não conseguindo conter um riso ao final. “Chega a ser engraçado só de pensar.”
Byron fecha o punho e, subitamente, gira o braço, golpeando o tronco pela lateral. O barulho ecoa alto, a madeira trinca e a árvore inteira estremece, dessa vez com muito mais violência.
“Ahm?”, murmura Yrah, balançando na mochila. O galho que a mantém suspensa chacoalha muito, tanto que a alça da mochila se desprende e cai.
A raposa despenca no ar, mas, antes que alcance o chão, a diaba agarra a bolsa com os braços estendidos, suavemente amortecendo a queda.
Resguardada nos braços da succubus, Yrah a encara, ainda atordoada. “Então, vocês mataram mesmo o Senhor dos Pássaros?”, ela pergunta.
“Uhum”, confirma a diaba, segura.
Byron aproxima-se das duas. “Foi uma boa batalha, se me permite acrescentar”, pontua ele, depois olha para a raposa. “E foi bom você não ter ido com a gente. Teria sido bem perigoso pra você.”
Mesmo com a proteção da marca da ambição, Byron e eu ficamos um pouco atordoados com aquele grito potente. Sabe-se lá o que teria acontecido com a Yrah se ela estivesse por lá, pensa Rubi, imaginando um cenário bem ruim.
“Ainda bem”, diz a pequena criatura, aliviada. “Mas foi difícil para mim aqui também. Até apareceu uma ave….” O focinho se torce em desagrado e ela lança um olhar incriminatório, carregado de desdém, para o alto da árvore, onde o corvo cinzento ainda a observa, imóvel. “E ele não fez nada para me ajudar…”
Diante do sentimento tenso da raposa, Rubi esboça um meio sorriso desconcertado. “É… mas, de toda forma, eu… ele estava de olho”, ela comenta, desviando o olhar por um instante, antes de recompor. “Mas nada aconteceu, então tudo bem. Não é?”
“Acho… que sim. Vocês chegaram no momento certo”, diz a raposa, mais calma.
Eu até vi aquela garra-branca, mas já estávamos tão perto que nem valia a pena criar alarde. Mesmo durante a batalha, ela nunca esteve em perigo real, Rubi constata.
“Bem, já não temos mais o que fazer aqui. Então…”, a diaba comenta.
As orelhas da raposa erguem-se novamente e a atenção vai diretamente na direção da succubus. “Já vamos sair dessa região?”, ela pergunta, com o ânimo retornando.
“Sim”, confirma Rubi.
Mesmo Byron sorri, alegre. “Finalmente iremos retornar para um ambiente um pouco mais sossegado”, diz ele, com um notável bom humor. “Fico até curioso para saber como anda o seu campeão.”
Os lábios da diaba se dobram em um sorriso calmo, enquanto ela olha brevemente para o corvo no alto. “É… Também quero vê-lo”, comenta ela, tranquila.
Por aquele segundo, Rubi divaga para longe, contemplativa. Você vai ficar bem surpreso quando souber das coisas que ele fez, pensa ela.

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