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    Na entrada do acampamento dos Crek’Thra, a tribo observa seu líder em silêncio incômodo. Brok se mantém firme, sólido como uma montanha, mas isso não basta para dissipar a inquietação nos olhos dos orcs.

    Mindinho, ao lado do chefe, o encara com a feição franzida. “O que é essa força maior?”, ele pergunta, perdido.

    Brok suspira fundo, com o ar barulhento saindo pelas narinas. “Foi… a mesma coisa que me fez ganhar de Estoratora”, responde ele. “Ele e o dragão… confiantes demais! Subestimaram o que a floresta jogaria em cima deles. No final… foram fracos.”

    As palavras convictas do chefe trazem alguma compreensão aos membros da tribo, mas a parte vaga da resposta ainda mantém a névoa de dúvida pairando na forma de murmúrios confusos.

    “Então…”

    “Mas… como…?”

    “Ele era tão poderoso.”

    Brok acena confiante a todos. “Sim. Eles… eram fortes, mas fizeram questão de nos expulsar da nossa terra! Não tinha mais ninguém vivendo nos arredores de Cahjia. Eles estavam sozinhos e todo mundo sabe o que acontece quando se fica muito tempo sozinho nessa floresta”, afirma ele, bufando no final. “Enquanto eu duelava, o dragão ficou desguarnecido. Algo… foi atrás dele. Por isso… ele morreu.”

    A lógica é real e os orcs a captam. Um a um, eles começam a acenar tanto para Brok quanto entre si, concordando, atrelados a comentários baixos. 

    “É verdade.”

    “O tempo das garras-brancas está chegando por lá. Todos sabem disso.”

    “Por isso não caçamos sozinhos.”

    Isso. Eles estão começando a entender, pensa Brok, com a confiança renovada.

    “No tempo em que estive fora, percebi que essa terra…”, continua ele, com a voz grave. “Precisa de nós. Sem isso… nem mesmo o mais poderoso da floresta pode ficar em paz.”

    As palavras do chefe carregam peso e não alcançam apenas os que o questionam, mas todos ao seu redor.

    “E não só da nossa tribo, mas de todas as outras. Cada orc importa. Por isso…” Durante um breve momento, antes de continuar seu anúncio, Brok encara Mindinho. “Vou pedir para enviarem corredores às outras tribos, avisando que elas poderão voltar para suas terras.”

    A notícia pega a tribo de surpresa, como um soco súbito em suas expectativas, causando feições enrugadas e boquiabertas. 

    “O quê?!”, questiona Midinho, tão abismado quanto os demais orcs. 

    Outros guerreiros, atônitos, também tomam a frente. 

    “Vai dar a terra a eles?”

    “Sem um duelo?”

    “Você se arriscou muito só por ir sozinho até o centro da floresta!” 

    O chefe bate o pé no chão, impondo-se e aquietando os humores. “Nós… não somos como a tribo de Estoratora”, afirma ele. “Nunca quisemos a floresta só para nós e precisamos das outras tribos ao redor de Cahjia.”

    Mãe Verde coça o queixo, intrigada. “Isso nunca aconteceu antes. Quando diz que precisamos deles, você tem algo em mente, não tem?”, pontua ela, vendo algo que ninguém mais parece enxergar. 

    O chefe olha para ela e confirma balançando a cabeça pesada. 

    “A morte do dragão… nos abriu uma chance. Uma chance única”, responde Brok. 

    A anciã ergue lentamente o queixo, com os olhos antigos brilhando à luz do sol. “E que oportunidade é essa?”, pergunta ela, a curiosidade e o presságio misturados na voz.

    Antes de responder, Brok, tomando coragem, fecha os punhos e engole seco a hesitação. “Nesse momento, se… as outras tribos voltarem às suas terras… teremos a chance de uma vida melhor… a chance… de viver em Cahjia.”

    Os orcs ficam em choque, com expressões arregaladas. A ideia de morar na terra sagrada no centro da floresta os cativa de imediato, mas, ao mesmo tempo, o peso de sua história e da maldição que a assombra lhes traz calafrios.

    Apesar disso, uma orc dá um passo à frente, rompendo o miasma de apreensão. “Chefe… isso é verdade?”, pergunta ela, querendo acreditar.

    “É mesmo possível?”, questiona outro orc mais velho ao fundo.

    “Faz muito tempo desde a última vez que nossa tribo participou de uma incursão àquela terra”, diz Mãe Verde.

    “Se… as coisas forem como o planejado, essa… vai ser a última vez que uma tribo terá que fazer uma incursão para lá”, completa o líder.

    “Entendo… Você parece muito seguro, Brok”, comenta Mãe Verde. “Imagino que tenha visto muita coisa em sua viagem.”

    Midinho leva a mão ao ombro do chefe. “Mas Brok, o tempo de conquista já acabou”, ele afirma, em um misto de ceticismo e preocupação. “E sem o dragão na capital, aquelas ruínas já devem estar tomadas de garras-brancas. Se formos até lá, nós vamos…”

    O chefe o interrompe com um olhar cortante, que faz o orc hesitar. “Midinho, antes de qualquer coisa… me diga se mais alguém foi atacado pelas garras-brancas enquanto estava longe.”

    “Bem… Não”, responde ele. “Ouvimos elas perto do rio nos primeiros dias, mas ninguém foi atacado.”

    Isso é bom, pensa Brok. …Ninguém morreu.

    “Chegaram a escutá-las ontem ou antes de ontem?”, Brok pergunta.

    “Não. Ninguém que voltou da floresta contou sobre algum sinal delas”, diz Mãe Verde. 

    “Fizemos como você disse e evitamos o rio. Não vimos mais nada”, diz Midinho.

    “O avanço delas… foi atrasado. Por isso, elas não chegaram aqui”, declara o chefe. “Há outros caçando elas no centro da floresta.”

    “Quem?”, Midinho indaga.

    O chefe se volta à multidão diante dele. “Uma parte… é a tribo de Estoratora. Mandei que eles ficassem por lá, defendendo a terra até que chegássemos. Também… vi sinal dos elfos por lá. O dragão mexeu com eles”, declara ele, seguro. “Por isso, o tempo de conquista não importa… essa é a nossa chance.”

    A tribo finalmente começa a enxergar a possibilidade real. Os olhos brilham, com as expressões dos orcs cada vez mais confiantes. 

    “Chefe, então, nós vamos mesmo…?”, começa um deles a perguntar.

    Brok confirma com um aceno firme. Ele ergue o machado ao alto e o sol da manhã faz a lâmina reluzir. O grande orc catalisa a atenção totalmente sobre si. 

    “Tragam os que estão na floresta e arrumem suas coisas… vamos sair daqui o mais rápido possível!”, ele comanda. Enquanto fala, o líder orc mantém o machado erguido, imóvel, assim como sua voz, resoluta e irredutível.

    A hesitação ainda pesa, mas a promessa de algo melhor fala mais alto. Orc a orc, a tribo decide acreditar. As mãos se erguem, imitando o chefe, e o acampamento explode em urros.

    Vendo Brok pelas costas, um calafrio atinge Mindinho. Isso tudo está ligado com aquilo que você viu naquele dia, não é? É tudo parte dessa força maior?, ele se pergunta. 

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