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    Capítulo 081 – O ego morto!

    A Morta-viva parecia ter apenas piscado os olhos, quando na verdade, acordara de um profundo torpor.

    Quase como se estivesse retornando das profundezas.

    Deu conta de que estava em seus aposentos, suas vestes haviam sido substituídas por um manto escuro mais folgado, estava sob os cuidados de alguém.

    Assim que abrira seus olhos, aquelas duas escleras brancas e vazias… Os olhos do exício… A matriarca do Mausoléu percebeu alguns movimentos, era uma das criadas, temerosa, escorregando para fora do cômodo, curvava-se em um silêncio frio.

    O som dos passos distanciara nos corredores, deixando Kassandra sozinha em seu quarto.

    Seus aposentos pareciam um santuário morto, combinava completamente com o restante do ambiente da sua guilda, diversos ossos antigos sustentavam as paredes como colunas profanadas, diversas correntes pendiam do teto e balançavam suavemente com o vento que surgia como impostor pelas frestas.

    Das janelas, que eram adornadas com algumas caveiras, a luz do sol atravessava com uma certa timidez, sendo filtrada pelos tons pálidos de tudo ao redor.

    — Que dor de cabeça… — murmurou a jovem necromante para si.

    Ela havia brincado com a orbe por muito tempo, sua energia vital fora completamente drenada, estava no seu limite, recordava do momento em que caíra desfalecida no meio dos seus subalternos.

    Isso a preocupava em diversos níveis, ela compreendia que poderia se considerar um gênio na necromancia.

    Mas, aquela orbe, que emanava uma energia morta tão poderosa, parecia um artefato que pudesse ser usado e abusado ao bel-prazer dos cabelos cobre da jovem necromante, o fato dela não ter tido êxito a deixou completamente boquiaberta.

    “Se não eu… Acredito que ninguém mais consiga domar isso…”

    Pensou, enquanto começara a sentar na sua extensa cama, talvez ela tivesse que mudar o seu método, a última vez, tentara partira orbe em duas partes… Talvez, utilizá-la na totalidade?

    Um toque breve na porta de ossos a puxou para a realidade de novo, e o rangido em sequência denunciara a entrada de Cium, sua subalterna da morte.

    — Senhora… — Cium parara de falar ao encontrar o olhar ameaçador da matriarca, então corrigiu em seguida — Senhorita…

    Ela adentrou devagar, seus cabelos loiros divididos em tranças e presos em rabos laterais eram sua marca.

    — Por quanto tempo? — indagou Kassandra, sua voz ainda estava rouca, devido ao tempo que esteve em silêncio.

    Cium inclinou o rosto, com um meio sorriso, um ar zombeteiro.

    — Que esteve apagada? Uns cinco dias.

    A líder dos necromantes ergueu-se completamente, seu manto caía bem, mas sua folga a fazia sentir a brisa passar pelo seu corpo nu.

    Seu olhar vazio pousou sobre a sua criada dos cabelos dourados.

    — E o mausoléu? — perguntou Kassandra. — Como esteve durante esse período?

    — Como sempre esteve. Sabíamos que despertaria… esperávamos.

    A garota dos cabelos acobreados deixou um sorriso escapar, era um gesto pequeno. Cium calmamente retribuiu.

    — Bom saber que nada mudou. — Murmurou a necromante superior.

    Kassandra ainda mantinha-se de pé, seus olhos percorreram pelo seu cômodo e ela encontrou, no canto, em cima de uma das escrivaninhas adornadas com ossos e cartilagens. Um véu negro cobria a famigerada orbe, a jovem do cabelo cobre sentia-a pulsar, mesmo de longe.

    Cium também conseguia sentir a pulsação, as duas compreendiam sem conversar diretamente. A cada dia que passava, era como se o artefato estivesse mais poderoso, como se sugasse a morte ao redor, a morte que repousava no mausoléu.

    — Houve algo mais enquanto eu dormia? — indagou Kassandra.

    Ela não erguera seu olhar, sua voz saía cansada, mas havia uma certa firmeza.

    Principalmente por conta da posição da orbe, considerando que a última vez que a matriarca havia visto, fora quando desfaleceu pela fraqueza, então era evidente que seus subalternos foram obrigados a interagir com o artefato maldito.

    — Houve… Sim.

    Cium inclinara seu corpo, suas mãos estavam cruzadas, e um pequeno brilho a percorreu nos olhos.

    — Rodrick e eu… Acabamos por estudar a orbe. Passamos algumas noites inteiras tentando decifrar as suas pulsações… Acredito que ela não seja apenas um artefato necromante, mas algo que respira e… Algo que pensa.

    O silêncio que ergueu em seguida era palpável, a jovem dos cabelos acobreados erguera lentamente o seu rosto e os olhos, ela encarava a Cium com os olhos do exício, observava friamente a sua criada, analisando a sua energia vital.

    — Que ousados… Vocês dois. — Murmurou Kassandra. — Tocar algo que me pertence.

    — Tocamos com respeito. — A loira riu baixinho, encarando a situação como algo cômico. — Não ousaríamos ir além do permitido, mas você sabe que havia algo, algo que sussurrava, ocorria mesmo com a senhora… Senhorita, inconsciente.

    A matriarca andara até a escrivaninha e retirou o véu que cobria a orbe, aquela esfera pulsava com uma luz que parecia sugar qualquer brilho ao redor. Era imperceptível ao olho nu, mas Kassandra conseguia observar detalhadamente.

    Um clarão doentio com tons roxeados e negros, a jovem estendeu a mão, mas, por fim, hesitou.

    — Sussurros… Você disse. — Repetiu. — E o que esses sussurros diziam, Cium?

    — Eles pareciam chamá-la, soavam como vozes antigas clamando a Morta-viva mais uma vez, eram vozes que diziam sobre queda e renascimento, de algo que poderia estar sendo selado sob todo o mausoléu.

    A jovem dos cabelos de cobre se manteve imóvel.

    Seu semblante mantinha uma apatia reconhecida.

    — Rodrick… Ele chegou a registrar algo? — perguntara por fim.

    — Sim. — Respondeu a Cium, ajeitando seu manto roxo sobre os ombros. — Ele anotou tudo em um grimório… Contudo, há um tempo ele não dorme… Diz que sente a orbe observá-lo quando ele fecha os olhos.

    — O poder antigo tem suas tramas. — Kassandra soltou um breve suspiro.

    — E, mesmo assim… Nós necromantes não buscamos sempre por isso?

    A subalterna arqueou a sobrancelha.

    A matriarca virou-se para ela.

    — Porque somos o que resta do que foi esquecido um dia, Cium. A magia morta teria sido completamente banida do conhecimento do mundo se não fôssemos por pessoas como nós.

    Não existiam muitos relatos de membros que conseguiam fazer a prática da necromancia por esses lados do mundo, nas Terras Verdejantes.

    Talvez um pequeno grupo que residia em Eikõ, mas nada além.

    A magia morta e o mana negro sempre foram vistos como presságios sombrios e traziam mal agouro, o preconceito era forte com raízes firmes.

    Muitos arcanos associavam o mana da escuridão a monstros e criaturas diabólicas, poucos viam a arte da morte como algo belo.

    As duas permaneceram em silêncio, enquanto a líder da guilda deixou a orbe coberta mais uma vez.

    — Traga para mim esse tal grimório do Rodrick… Desejo lê-lo antes que a lua chegue.

    Sua subalterna curvou-se em uma breve reverência. — Como desejar.

    Assim que ela se retirou, Kassandra estava novamente sozinha, não deixou de pousar novamente seus olhos sob a orbe.

    O som dos passos desapareceu lentamente nos corredores, e o silêncio persistia no seu aposento, tão pesado quanto o cansaço que ela continuava a sentir, mesmo após tanto tempo em seu sono.

    Não tardara muito para que Cium retornasse, as portas rangiam com a sua aproximação novamente no aposento da líder da guilda.

    Em seus braços, ela trazia um grimório de capa grossa e escura, que estava costurado com fibras que lembravam tendões. O cheiro era desagradável.

    — Aqui… — murmurou, colocando o tomo em cima da mesa central do aposento.

    A Morta-viva deslizara seus dedos pálidos sobre a capa do livro, então abriu o tomo.

    Enquanto ela folheava, observava diversas páginas com símbolos arcanos, alguns escritos em tinta escura, ora em tinta avermelhada, quase como sangue.

    — Isto… — começou a Cium, hesitando por um instante enquanto observava sua senhora ler as anotações — Não é uma magia comum… Não é necromancia ou algum rito que já conhecíamos… A orbe não é um artefato, Kassandra. É um olho. Literalmente um olho.

    — Um olho… — repetiu a jovem de cabelos acobreados. — Um olho de quê?

    Kassandra manteve seu semblante frio, mas estava claramente inquieta.

    — De algo que não pertence a esse mundo… Acreditamos que o que repousa na orbe é uma brecha, um fragmento de algo aprisionado… Talvez… De alguma vontade que nunca pudesse ter sido despertada.

    A jovem necromante encarou mais uma vez o véu, enquanto escutava sua subalterna falar.

    — Rodrick chamou a orbe de Olho do Abismo… Inclusive. — A loira finalizou.

    O vento soprou pelas fendas da janela, a matriarca permaneceu imóvel por longos instantes, os Olhos do Exício refletiam a luz que emanava do grimório aberto.

    — Eu poderia conversar com alguém sobre isso… Bruxo Negro, talvez.

    A Morta-viva desejava compreender um pouco mais, embora ela não fosse a pessoa mais próxima dos arcanos, era notável que o líder de Nox Arcana sabia mais do que ela, talvez fosse o momento de diminuir o ego e procurar por ajuda.

    Mas ele provavelmente iria tentar impedir que ela concluísse o seu objetivo.

    E ela foi longe o suficiente para parar.

    — Cium… Eu preciso dividir essa orbe.

    — Mesmo depois disso, ainda acha que é prudente? — Ela arqueou as sobrancelhas.

    Kassandra deu-lhe as costas, os cabelos acobreados ainda moviam-se com o vento.

    — Essa orbe tem uma força tremenda… O suficiente para que eu consiga reanimar os corpos do Espúrio e do Pútrido… Eu quero dar vida a eles, consciência a eles… Não apenas movimento.

    Desde a perda de Phellege, essa sensação de uma lacuna gigantesca afrontou o peito da necromante, ela sentiu a vulnerabilidade da vida e da impotência.

    Ironicamente, sua proximidade com a morte a deixou completamente fria sobre o assunto, mas a forma como o seu subalterno foi morto a afetou completamente.

    — Kassandra… Fazer isso exigirá mais do que magia. Vai fazer com que você se entregue… Esse olho a observará.

    — Eu estou pronta para finalmente vencer esse maldito artefato… Ou olho.

    A loira hesitou um pouco mais, mordia os lábios enquanto pensava em como prosseguir.

    Ela apenas engoliu seco e falou.

    — Há mais uma coisa…

    Kassandra estranhou a forma dita e ficou claramente curiosa.

    — Diga.

    — Enquanto dormia, você foi convocada… — A voz da criada da morte soou mais pesada. — O imperador bárbaro exige a sua presença no salão principal do castelo… Quer que você compareça diante dos líderes da guilda e do conselho dos nobres e… demonstre que tem o poder de dominar a orbe.

    O silêncio durou um bom tempo até Kassandra responder.

    — Domar a orbe… Querem me ver como um espetáculo? Um monstro domesticado…?

    — Eles temem o que não compreendem… E o imperador teme perder o que não controla… Tanto que, se você recusar a ir… Vai ser considerada traidora da coroa. — Cium abaixou o olhar.

    — Então é uma armadilha… — murmurou Kassandra. — Ayel joga suas redes com cuidado… Ele deseja medir quanto o poder da morte ainda me pertence.

    A jovem matriarca caminhou até a janela, observara o horizonte.

    — Mesmo assim… Devo ir. Honro o trono que sustenta o reino… Se é meu destino ser testada, então não há muito o que possa ser feito.

    A Morta-viva sentia que tinha algumas dívidas com o Alvorada, desde receber o território para a construção do mausoléu, até mesmo ter recebido a orbe após o incidente nas planícies de Katze.

    — Irei preparar a sua partida ao alvorecer…

    Cium dissera, observava sua superior assentir lentamente, voltando a atenção para o véu que cobria a orbe.

    Enquanto sua criada se retirava, a matriarca dos necromantes não conseguia tirar algo da sua cabeça.

    “Serei obrigada a dominar você… mesmo sem saber como farei isso.”


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