Capítulo 085 - O prisoneiro pharidenho!
Capítulo 085 – O prisoneiro pharidenho!
— Se isso for algum tipo de jogo… — Dissera Ayel, segurando o envelope. — Pagará muito caro, Mudamir.
O algoz ergueu o olhar e, mesmo através da máscara, era possível sentir uma certa sinceridade em seus olhos.
— Não brinco com nomes de sangue, majestade. Essa era a última esperança de Anusha de ao menos ser ouvido… No caso, lido.
O tribal encarou os algozes bem na sua frente, desdobrara lentamente o papel que repousava em sua mão, ele sentou-se novamente para ler com mais atenção.
“Escrevo essas palavras com mãos que já não reconheço mais como as minhas, com uma mente que se fragmenta entre o que fui e o que me tornei.
Sou Anusha, outrora fui mais do que um simples algoz. Fui o líder responsável pela guilda e administração de Maut Ka Mandir, o templo sagrado dos algozes.
Mas isso foi antes da canção alcançar seus caminhos sinuosos até a minha alma. Antes que eu pudesse compreender que mesmo os mais fortes podem ser quebrados.
Contarei como tudo começou enquanto ainda consigo escrever.
No início, tudo estava normal, eu cumpria minhas funções no templo com a dedicação que sempre caracterizou minha vida. Maut era mais que apenas um edifício de pedras negras, era um símbolo que eu respeitava. Como seu líder, eu supervisionava os treinamentos, administrava os contratos e garantia que todos os algozes sob as minhas responsabilidades compreendessem o sagrado peso do seu ofício.
Então, algo começou a mudar.
A princípio, comecei a escutar uma voz. Parecia com a minha, como se fossem pensamentos que atingiam a minha cabeça, coisas que eu realmente poderia ter pensado.
Depois, surgiram algumas frases sem que eu as convidasse, sem que eu buscasse como elas, soavam como ecos da minha própria consciência, mas completamente distorcidos.
Eu tentei ignorar, claro. Um algoz experiente aprende a distinguir entre os ruídos da mente e as verdadeiras vozes, mas essa voz era muito diferente, pois ela não vinha do cansaço ou estresse. Ela simplesmente estava lá, persistente, insistente, como uma melodia que eu não estava conseguindo esquecer. Só depois de muito tempo eu percebi um padrão, essa voz não era aleatória. Ela me indicava uma direção e um propósito.
Me oferecia mais poder do que eu pudesse consumir, era atrativo, era sedutor.
Sempre que eu me aproximava do Bosque das Folhas Densas, a voz se intensificava, como se estivesse me chamando.
A Canção de Crono. Esse era o nome que aprendi mais tarde, quando já era tarde demais para resistir. Um feitiço antigo e poderoso, uma melodia que atinge as mentalidades mais enfraquecidas e faz com que o aventureiro, por fim, traia os seus ideais, fazendo-o se unir ao mago dos portais: Crono.
Seguindo fielmente essa voz que encontrei com Crono pela primeira vez. Não fora um encontro físico ou algo que tenha sido planejado. Fora uma aparição, uma manifestação que surgiu diante de mim quando finalmente cedi e me encontrava no coração do Bosque das Folhas Densas. Um garoto necromante acabara de ser morto nesse mesmo bosque, mas, por um motivo, nenhum goblin havia me encontrado.
O mago dos portais… Sua presença era ao mesmo tempo imponente e perturbadora, não havia nada fisicamente intimidante em seu ser, mas existia alguma força em seus olhos que emanava poder antigo. Como se o seu conhecimento não pertencesse a esse mundo, nessas manifestações ele não me recebeu como um inimigo, mas sim, como um aliado que finalmente havia se aproximado o bastante.
Era como se a minha traição fosse inevitável, predestinada, parte de um plano maior que estava longe demais da minha compreensão.
O velho não me explicou os seus motivos… Ou me disse por que havia escolhido esse caminho. Mas ele mostrou algo que mudou tudo: outros como eu. Outros que haviam sido seduzidos pela canção, outros que haviam traído seus ideais e se unido a ele. E entre eles, havia nomes que eu não conhecia, mas que se tornaram meus irmãos.
Nos chamávamos então como os Quatro Cavaleiros de Crono, mas não cavaleiros no sentido tradicional da palavra… Sim, quatro indivíduos poderosos, cada um incumbido de uma missão muito específica, cada um trabalhando em nome do mago para um propósito que ainda não havia compreendido completamente.
Treír, o Bruxo. Um homem de idade incerta, com olhos que pareciam ver através das camadas da realidade. Ele foi incumbido de sondar as fissuras na película entre este mundo e o plano etéreo. Sua missão era encontrar as brechas, os pontos fracos onde a barreira entre dimensões se tornava mais fina, mais vulnerável. Ele passava dias e noites estudando, meditando, usando magias antigas que eu não compreendia para mapear essas fissuras, para entender como elas funcionavam, como poderiam ser exploradas ou expandidas.
Kervos, o Feiticeiro. Enviado ao norte, para as terras geladas onde os ventos cortam como lâminas e o sol raramente brilha. Sua missão era decifrar os rituais esquecidos nas escrituras antigas, textos que haviam sido enterrados sob camadas de gelo e neve, protegidos pelo tempo e pelo isolamento. Ele vivia entre ruínas antigas, decifrando símbolos que não pertenciam a nenhuma língua conhecida, desenterrando conhecimentos que deveriam ter permanecido perdidos.
Yadruil, o Necromante. Talvez o mais perturbador dos quatro, não apenas por seu ofício, mas por sua missão. Ele foi incumbido de alimentar uma esfera da morte com toda a desgraça que ele poderia encontrar. Não sei exatamente o que essa esfera é, ou qual é seu propósito final, mas sei que Yadruil viajava por terras devastadas, por campos de batalha abandonados, por lugares onde a morte e o sofrimento se acumularam ao longo dos anos. Ele coletava algo desses lugares, algo que não consigo descrever adequadamente, e alimentava essa esfera, fazendo-a crescer, tornando-a mais poderosa.
E então havia eu, Anusha, o Algoz. Minha missão era impedir que o reinado bárbaro continuasse, extinguir a vida do rei com minhas próprias mãos. Era uma tarefa que, em outro tempo, eu teria considerado um ato abominável, que nunca pudesse sequer ser cogitado. Mas agora, sob a influência da Canção, ela se tornou algo diferente. Não era mais sobre justiça, não era mais sobre proteger o povo ou restaurar a ordem. Era sobre eliminar um obstáculo, remover uma peça do tabuleiro, fazer parte de um jogo maior.
Nós nos encontrávamos periodicamente para reuniões. Não em lugares públicos, não em locais onde poderíamos ser descobertos. Nos encontrávamos em locais secretos, em ruínas abandonadas, em cavernas escondidas, em clareiras no meio de florestas densas onde nenhum olho humano poderia nos observar. Nessas reuniões, Crono nos dava instruções, nos atualizava sobre o progresso de nossas missões, nos mostrava vislumbres de um plano maior que ainda não compreendíamos completamente.
Mas havia algo nessas reuniões que me perturbava profundamente. Crono falava com uma confiança absoluta, como se soubesse que nada poderia dar errado, como se estivesse seguindo um roteiro que já havia sido escrito. E às vezes, em momentos raros, ele mencionava algo acima dele, algo mais poderoso e sombrio, que havia lhe dado o poder que ele agora usava para nos controlar. Ele nunca dizia o nome dessa entidade, nunca a descrevia em detalhes. Mas havia um tom em sua voz, uma reverência misturada com medo, que me dizia haver algo muito maior em jogo do que eu conseguia imaginar. Algo que estava além da compreensão mortal, algo que existia em um plano de realidade que eu não poderia nem começar a entender.
E, enquanto isso, a canção continuava a trabalhar em minha mente. Ela não era mais apenas uma voz distante, um sussurro ocasional. Ela havia se tornado parte de mim, havia se entrelaçado com meus pensamentos de uma forma que impossibilitava distinguir onde terminava Anusha e onde começava a Canção. Eu ainda tinha meus próprios pensamentos, minhas próprias memórias, minha própria identidade. Mas tudo isso estava agora tingido, colorido, alterado pela influência da melodia que habitava minha mente.
E há algo mais perturbador ainda. A sensação de que Crono não inventou essa canção, que ele não a criou sozinho. A sensação de que ele a aprendeu de algo acima dele, algo muito mais poderoso e sombrio, algo que existe além da compreensão mortal. Eu não consigo provar isso, não tenho evidências concretas, apenas uma intuição profunda que me diz que estamos todos sendo manipulados por uma força que nem mesmo Crono compreende completamente.
Meu salto era duas vezes mais alto, minha corrida cinco vezes mais eficaz, meus reflexos e raciocínio beiravam o sobrenatural, eu me sentia um homem quinze anos mais novo, a canção havia me dado um pequeno fragmento do poder, eu ansiava completar todos os objetivos propostos pelo Crono para compreender o poder total, a força absoluta.
Mas qual era o preço? Perder minha honra? Começar a perder as minhas memórias? Perder às vezes, até o controle das ações do meu próprio corpo.
Eu não seria vencido assim tão facilmente, não seria forçado para sempre.
Eu me arrependo. Deixe-me deixar isso claro, para não haver dúvidas. Eu me arrependo de cada passo que dei em direção a essa traição, de cada momento em que cedi à voz, de cada ação que tomei em nome de Crono. Eu me arrependo de ter traído minha guilda, de ter traído meus ideais, de ter traído tudo que eu havia jurado proteger.
Mas o arrependimento não é suficiente. O arrependimento não me libertaria da Canção, não me devolveria minha vontade, não me permitiria retroceder e escolher um caminho diferente. A força da Canção de Crono é maior do que eu, maior do que minha vontade, maior do que minha determinação. É como se eu estivesse preso em uma corrente que não posso quebrar, como se minha alma tivesse sido amarrada a algo que não posso controlar.
Em meus últimos atos de sanidade, quero informar que talvez exista uma forma de pará-lo. Uma forma de chegar até a fonte e enfrentar Crono em seu próprio território e forçá-lo a quebrar seu vínculo com todos nós. E é por isso que escrevo esta carta, por isso que revelo segredos que deveriam permanecer enterrados.
A Torre de Crono não é um lugar comum. Ela não existe no mundo físico da forma que outros edifícios existem. Ela está lá, mas escondida, protegida por magias antigas que a tornam invisível aos olhos normais. Mas há uma forma de revelá-la, de torná-la visível para aqueles que sabem como procurar.
Para aqueles que desejarem alcançá-la, deve ser preciso ir até um riacho turvo no Bosque das Folhas Densas. Próximo a esse riacho, há uma pedra polida de cor azulada. Não é uma pedra comum; ela brilha com uma luz sutil, quase imperceptível, como se contivesse estrelas presas em seu interior. Essa pedra é a chave, o ponto focal que permite que a magia funcione.
Você deve derramar sangue animal sobre essa pedra. Não precisa ser muito, apenas o suficiente para cobrir sua superfície, para ativar as propriedades mágicas que dormem dentro dela. O sangue deve ser fresco, ainda quente, ainda pulsando com a vida que acabou de ser tirada. E quando a pedra estiver coberta, quando o sangue começar a brilhar com uma luz azulada que parece vir de dentro da própria pedra, você deve pronunciar as palavras.
“Aperire tempus.”
Mas cuidado. Revelar a torre é apenas o primeiro passo. Entrar nela, enfrentar o que está dentro, isso é outra questão completamente diferente. Crono não está sozinho lá dentro.
Escrevo estas palavras sabendo que podem ser minhas últimas. A canção se fortalece a cada dia, e sinto que em breve não haverá mais distinção entre eu e ela. Em breve, serei apenas um instrumento, uma extensão da vontade de Crono, sem memória do que fui, sem arrependimento pelo que me tornei.
Eu não peço perdão, pois sei que não mereço. Não solicito compreensão, pois sei que minhas ações são imperdoáveis. Solicito apenas que minha traição possa servir para algo, que minha queda seja o primeiro passo para a queda de Crono, que minha história possa ser um aviso para aqueles que ainda têm escolha.
A canção continua a tocar em minha mente, e sinto que em breve não conseguirei mais resistir. Mas enquanto ainda houver um fragmento de mim mesmo, enquanto ainda houver uma voz que seja verdadeiramente minha, escreverei estas palavras, na esperança de que elas possam fazer a diferença.
Que os deuses, se ainda existirem, tenham piedade de minha alma. E que aqueles que lerem estas palavras tenham mais força do que tive, mais determinação, mais coragem para resistir à sedução da Canção e fazer o que é certo.
Com arrependimento e desespero,
Anusha”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.