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    Capítulo 088 – O respeito pela tutoria!

    A grande academia de Nox Arcana abrigava diversos salões de treinamento, cada um era milimetricamente projetado para as mais diversas formas específicas de práticas mágicas.

    Existiam salões que iluminavam-se unicamente por magias de luz, havia câmaras encharcadas para os que manejavam a água, arenas abertas para combates arcanos e salas seladas para experimentos bastante perigosos.

    Naquele momento, Amelie encontrava-se em um dos salões mais sombrios, literalmente. Um recinto projetado unicamente para testar a percepção além dos sentidos visuais.

    A bruxa se viu perdida em um salão, de chão e paredes feitas de pedras negras, para absorver qualquer tentativa de luz que ousasse penetrar naquele espaço, sem janelas, sem claraboias, sem qualquer existência de uma abertura que um simples feixe de luz poderia entrar.

    A única iluminação vinha de tochas distantes, mas estavam tão longe e tão fracas que mal conseguiam criar uma penumbra que fosse, deixando a maior parte do ambiente mergulhado no abismo.

    As pedras negras do chão eram polidas, lisas, e cada mínimo movimento ou passo ecoava e ressoava pelas paredes, reverberando e criando uma cacofonia de sons que se misturavam a ponto de confundir a sua origem.

    Amelie permanecia no centro daquele tenebroso espaço, seus pés estavam firmes sobre o chão frio, suas mãos seguravam com tamanha força o cajado, que parecera como se o mesmo tivesse se tornado uma extensão do seu braço.

    Aquele cajado era feito de madeira escura entalhada com algumas runas antigas, pulsava levemente com uma energia mágica que fluía através dele.

    Em textos arcanos muito antigos, já se registrava que o mana em si, quando não era confiado um foco adequado, se comportava tal como água derramada, espalhando-se pelo corpo do conjurador, pressionava seus nervos, ossos e espírito. Ameaçava escapar em surtos imprevisíveis.

    Dizia-se que, em circunstâncias como essas, a magia jamais se via como dócil, então diversos caminhos precisavam ser controlados ao mesmo tempo, de forma que o equilíbrio interno fosse necessário para uma conjuração externa.

    Dessa forma, então, estudiosos antigos entregaram a solução: varinhas, cajados e bastões.

    Esses foram criados, mas não como símbolos, funcionavam melhor como uma válvula, pois, assim que o conjurador conseguia empunhá-los, o arcano reunia todo o mana em um único ponto externo, impedindo que a energia se espalhasse por seus membros, a magia saía, então, exclusivamente da ponta do objeto. Concentrada e direcionada.

    Assim, o foco assumia a carga que o arcano não conseguia sustentar sozinho.

    A bruxa respirava com dificuldade, cada inspiração estava sendo um esforço consciente. Cada expiração saía como um suspiro bastante trêmulo.

    Um pequeno fio de sangue escorria do canto da sua boca, vermelho escuro contra a palidez da sua frágil pele.

    Amelie estava exausta, seus músculos queimara com a tensão constante, sua mente girava em círculos tentando processar os ataques que ela recebia, que vinham de todas as direções.

    Mesmo assim, embora na penumbra, deixava seus olhos bem abertos… Tentava enxergar através da escuridão, tentava buscar pelo seu mestre. Tentando antecipar o próximo movimento, mantendo uma postura defensiva, com os joelhos levemente flexionados e com o seu corpo preparado para agir a qualquer momento.

    Ecos movia-se pela escuridão tal qual uma sombra, seus passos silenciosos criavam uma presença quase imperceptível, parecia que o velho bruxo pertencia à Maut Ka Mandir.

    Ele havia passado diversos meses treinando Amelie, meses ensinando-a a não confiar somente em seus olhos, mas em todos os seus sentidos. Naquele momento em específico, ele estava testando tudo que havia ensinado, colocando à prova a capacidade da garota de perceber o mundo além do que era visível, sua capacidade de usar o mana não apenas para atacar, mas para sentir, para perceber… Para entender.

    O bruxo do círculo mágico estalara os dedos e, imediatamente, um som ecoou do lado esquerdo de Amelie, parecia um ruído seco e cortante, quase como se fosse alguém se movendo rapidamente ao lado dela. A bruxa reagiu instintivamente, girando seu corpo na direção do som, seu cajado ergueu-se em posição defensiva e seus olhos tentavam penetrar a escuridão, mas não havia nada lá. Apenas o eco.

    Enquanto ela ainda estava distraída, o seu mestre então atacara no lado direito, seu movimento foi rápido e preciso, uma rajada pura de mana, que atingiu o corpo da garota que a cambaleou enquanto a força queimava a sua carne.

    — Você está pensando demais.

    Dissera Ecos, com sua voz surgindo de algum lugar na escuridão, modulada de forma que poderia estar vindo de todas as direções ao mesmo tempo.

    — Apenas pare de tentar, garota, sinta.

    A voz do homem era calma, mas bastante firme, carregava uma autoridade que Amelie aprendeu a respeitar com o tempo. Ela sabia que ele estava certo, sabia que estava tentando usar demais os seus olhos quando deveria focar em outros sentidos.

    Amelie então fechara seus olhos, tentando bloquear a tentação de confiar na sua própria intuição.

    Respirara fundo, tentava se acalmar, tentava se concentrar.

    Seu mana fluía, através do seu corpo, uma energia que ela havia aprendido a sentir desde criança, quando fizera o seu pacto.

    Porém, existia uma grande diferença entre sentir o seu mana no seu interior e expandi-lo ao mundo externo.

    Ecos estalou os dedos novamente, desta vez o som veio diretamente de trás dela, mas também da frente, criando uma ilusão de diversos atacantes se movendo simultaneamente.

    A garotinha hesitou, sua mente tentava processar os sons, tentava determinar qual era real, qual era ilusão. Essa hesitação havia sido seu erro, pois, enquanto ela tentava decidir, Ecos a atacou por cima, seu corpo desceu como uma sombra, acertando a parte superior da cabeça da garota com um toque que ao mesmo tempo foi gentil, ainda assim, firme.

    Firme o suficiente para a moça cair de joelhos, o impacto fez com que seu cajado saísse das suas mãos, rolando uns metros para longe.

    Ela tentara se levantar, mas suas pernas não respondiam. A exaustão a alcançou, finalmente.

    — Está tudo bem. — dissera Ecos, sua voz vinha de muito mais perto agora, ela acreditou que realmente viesse da sua boca dessa vez.

    — Você fez muito bem. — Ele continuou — Melhor do que nas primeiras semanas.

    Escutando novamente o som dos dedos do seu mestre estalarem, a moça observou lentamente as luzes do grande salão acenderem. Não eram tochas comuns, sim cristais mágicos imbuídos com mana e fixados nas paredes.

    Ele estava de pé, a apenas alguns metros dela, limpava os óculos e os colocava de volta em seu rosto.

    Sua expressão era um misto de seriedade e orgulho, o bruxo era alto e sua postura ereta transmitia muita autoridade e confiança.

    — Levante-se. Você merece descansar.

    Brandiu o mestre, estendendo a mão para a garota que timidamente aceitou e conseguiu se levantar. Enquanto caminhavam para fora do enorme salão de treino, ele finalizou.

    — Você merece descansar, mas primeiro preciso explicar algumas coisas…


    A porta de madeira rangera quando Celérius a abrira, permitindo que a luz do amanhecer adentrasse no pequeno compartimento onde estava.

    O som de metal rangia e ecoava suavemente pelo corredor completamente vazio.

    Veroni seguia-o, ajustava suas vestes sacerdotais novas que recebera, mas ainda lhe ficavam grandes demais.

    — Você se saiu muito bem hoje — disse Celérius, olhando-a com um sorriso discreto. — Seu progresso tem sido notável.

    Ela baixara os olhos por um instante, mas não conseguira esconder o sorriso que se formara.

    — Obrigada — murmurara ela. — Estou me esforçando cada vez mais para agradá-lo.

    Finalmente havia completado a sua primeira década de vida e, com a permissão dos seus pais, poderia adentrar oficialmente como uma aprendiz de noviça.

    O sol ainda não havia nascido completamente, mas os primeiros raios já iluminavam os corredores do templo.

    A luz dourada filtrada pelas janelas, que eram bastante altas, criava sombras bastante alongadas naquele chão claro de pedra. O ar matinal trazia consigo um cheiro de incenso que havia sido queimado nas noites anteriores.

    Celérius caminhara alguns passos à frente, ajustava suas vestes, colocou então suas mãos atrás das costas, com a postura ereta que sempre mantivera.

    Aqueles corredores do Templo dos Divinos sempre eram silenciosos naquela hora matinal, apenas o som distante dos passos ecoava pelas pedras nas paredes.

    Algumas tochas ainda ardiam, com suas chamas dançando no fim de suas vidas.

    — Espero que continue assim — comentara o alto sacerdote de cabelos dourados, sem olhar para trás.

    Veroni acelerara seu passo para acompanhá-lo enquanto sentia seu coração bater mais forte. Era o seu sonho, o sonho de sua família. Perceber que estava começando a ser tratada como membro do clero era o melhor presente que poderia pedir em sua vida. Sua admiração pelo templo, pelo clero e pelos membros que compunham essa instituição a preenchia completamente.

    O centro do templo abria-se diante da dupla, um espaço que era amplo e completamente circular, havia diversas colunas de mármore que erguiam-se imponentes, sustentavam o teto abobadado.

    Cada uma dessas colunas trazia consigo gravuras bem antigas, com símbolos sagrados.

    Erguia-se um altar bastante majestoso no fundo, com velas já acesas, que esperavam pela cerimônia. Celérius parou no centro da sala, observava os preparativos que já estavam começando.

    Alguns clérigos moviam-se pela área, arrumando cadeiras e objetos cerimoniais, muitos deles trabalhavam em silêncio, como se sempre soubessem seus papéis nas preparações matinais.

    Parte deles carregava livros sagrados, outros ajeitavam os bancos de madeira escura de modo a estarem alinhados com o centro. A missa da manhã se iniciaria logo.

    — Altíssimo Zarui ainda não retornou da sua peregrinação, então eu irei puxar mais uma vez a missa. — Informara Celérius, voltando-se para Veroni.

    Ela parara ao seu lado, observando toda a movimentação.

    — Quanto tempo vai demorar? — perguntara ela, com preocupação em sua voz.

    O homem dos cabelos loiros pensara por um momento.

    — Em breve. O arcebispo sempre retorna quando é necessário.

    A pequena Veroni não questionaria mais, ela confiava plenamente nas palavras de Celérius, como uma lei.

    O silêncio entre eles durou apenas alguns instantes, enquanto era preenchido pelo som do templo que agia como uma cena viva, onde todos os membros se movimentavam para finalizar tudo antes do horário da missa.

    — Ser clérigo… Não é apenas servir aos deuses.

    Começara Celérius, quebrando o silêncio e fazendo com que a pequena garota olhasse para ele, atenta, com aqueles olhos infantis cheios de curiosidade.

    — É cuidar de uma cidade inteira, pequena. — Continuou ele. — Cada pessoa que entra nesse templo traz consigo todas as suas dores, as suas esperanças e as suas dúvidas. E a fé deles todos é responsabilidade nossa.

    O alto sacerdote caminhara alguns passos, com suas mãos ainda atrás das costas, a criança seguia-o com os olhos, absorvia profundamente cada uma das palavras.

    Não apenas as palavras, ela era uma criança, afinal. Ela observava como ele falava, como sua postura estava ereta e como ele mantinha a seriedade no seu rosto pálido.

    Cada uma das palavras que vinham dele carregava muito significado e, com isso, experiência.

    — E quando a fé deles acaba vacilando? — perguntara Veroni, genuinamente curiosa.

    Sua pergunta saiu quase sem querer, impulsionada pela necessidade de entender.

    Ao escutar, Celérius parou, encarou-a mais uma vez e se aproximou um pouco.

    — Então… devemos ser a luz que os guia de volta… Mas não podemos forçar ninguém, a fé deve vir do coração.

    Veroni acenou com a cabeça, pensativa. Estava aprendendo.

    Inclusive, ela voltava sua atenção aos clérigos que trabalhavam, imaginando-se se um dia faria o mesmo. Ela via um deles carregando um livro antigo, outro ajoelhando-se em uma oração silenciosa.

    Era como se cada gesto tivesse um propósito, uma conexão com algo maior.

    Veroni se sentia tocada.

    — É um peso enorme… — Ela comentou, quase para si mesma.

    Suas palavras saíram como se fosse um suspiro, como se estivesse acabando de compreender a sua mais nova descoberta.

    — É sim. — confirmou Celérius. — Mas também é uma honra.

    Ele a encarou com uma expressão que a pequena e inocente garota não conseguia decifrar completamente.

    — Você sabe sobre a Madre Altíssima de Althavair? — perguntara ele.

    E isso fez com que Veroni hesitasse por um momento, obviamente ele já a fez devorar diversos livros sagrados.

    Ela pensara rapidamente, tentando organizar o pouco que sabia.

    — É ela quem coordena o treinamento das sacerdotisas… — respondeu a garotinha, tentando soar confiante.

    Sua voz, entretanto, trazia uma incerteza que ela tentava esconder, mas falhava.

    — Correto. — dissera o alto sacerdote com um largo sorriso. — Mas o que mais você sabe sobre ela?

    — Ela… vive em Althavair. — Arriscara ela, incerta.

    — E qual é o seu papel exato na hierarquia?

    A mente da garota correra através dos livros, através das conversas, mas nada surgia além do básico que ela já havia dito.

    Celérius acenou positivamente, mas claramente não estava satisfeito.

    Veroni se sentiu exposta.

    Era como se cada uma das perguntas dele fosse um teste.

    E ela sempre falhava.

    — Ela doutrina as mulheres. — Tentou a garotinha.

    — Sim. Mas como ela exerce esse poder?

    Veroni balançara a cabeça, admitindo a ignorância.

    — Não sei — murmurou.

    Sua cabeça abaixou em tristeza, mas ao voltar a encarar seu tutor, percebeu que Celérius não parecia desapontado, ele apenas continuou.

    — Quantos templos ela coordena diretamente?

    Ele mantinha o seu tom didático, fazia com que Veroni voltasse a pensar, embora não conseguisse encontrar qualquer resposta.

    Sua frustração começava a crescer, mas ela não sabia explicar esse sentimento.

    — Não tenho certeza — admitira ela, a voz mais baixa.

    A admissão de ignorância doera mais do que ela esperara.

    — Ela coordena todos os templos de Althavair. Mas cada um age como uma instituição independente. — explicou Celérius.

    Veroni acenou rapidamente, tentava memorizar aquilo a todo custo.

    — E fora de Althavair? — questionara o homem, mais uma vez.

    E Veroni, mais uma vez, hesitou, sua confiança era drenada a cada tentativa de Celérius, ele conseguia se sobrepor a ela e ela não conseguia reagir.

    — O treinamento é entregue aos sacerdotes de cargo superior. — Ela arriscou, completamente incerta.

    A resposta parecia fazer sentido, mas a própria menina não tinha confiança nisso.

    — Parcialmente correto, se não ela, as sumo sacerdotisas credenciadas por Althavair.

    Veroni sentia-se um pouco melhor, mas ainda insuficiente.

    — Qual é a diferença entre uma noviça e uma sumo sacerdotisa? — perguntara Celérius, mantendo o ritmo das perguntas.

    Veroni pensara, mas não soubera os detalhes específicos.

    A hierarquia do sacerdócio era complexa, com muitos níveis e distinções.

    Ela conhecia apenas o básico, o superficial.

    Mas Celérius ensinaria tudo que ela precisaria saber.


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