Índice de Capítulo

    Ba Baque!

    Os tambores ecoaram alto.

    Parado na mesma fileira de antes, comecei a bater palmas.

    Palma, palma—!

    ‘…O que está acontecendo?’

    Segurei a respiração enquanto encarava a cena à minha frente. Não conseguia entender o que se passava, e ao tentar mover minhas mãos, percebi que o fio conectado aos meus braços havia ficado mais forte que antes.

    Isso…

    Olhando para baixo, também notei que, diferente de antes, agora havia um fio conectado a uma das minhas pernas.

    ‘Os fios aumentam e ficam mais poderosos com o tempo?’

    Olhando ao redor e vendo como algumas pessoas se moviam de forma rígida, senti que era esse o caso. Meu coração afundou com a percepção.

    Levantando a cabeça novamente, rapidamente observei Caius e Kaelion.

    Eles também pareciam chocados e confusos com a situação. Pensando bem, toda a situação era confusa.

    ‘Por que todas as marionetes pararam ao mesmo tempo? Por que voltamos todos para cá e quem era aquele velho? Também lembro dele dizendo algo sobre reiniciar…’

    Pensei na cena à minha frente.

    ‘Ele estava falando sobre isso?’

    Mas então…

    Como ele ainda podia se mover normalmente?

    Muitas coisas não faziam sentido para mim. No entanto, mantive a calma. A situação era problemática, mas não impossível.

    Eu só precisava entender as regras deste lugar.

    Considerando como tudo reiniciou, havia regras que as ‘marionetes’ precisavam seguir. Desde que eu entendesse as regras, seria capaz de encontrar uma saída deste lugar.

    Mas primeiro…

    “Coruja-Poderosa, Pedrinha.”

    Duas figuras apareceram diante de mim.

    Confusas, elas olharam ao redor.

    “Onde é isso?”

    “Está barulhento.”

    Ba Baque! Ba Baque!

    Enquanto os tambores ecoavam ao fundo, ambos pularam em minha direção.

    ‘Ok, bom. Parece que não estão sendo notados.’

    No início, eu me encolhi, mas logo suspirei aliviado ao ver nenhuma reação das marionetes ao redor com o aparecimento deles. Olhando para os dois, nenhuma palavra precisou ser dita entre nós, pois os dois imediatamente saíram correndo.

    Coruja-Poderosa foi em direção a Caius enquanto Pedrinha foi para Kaelion.

    Com os dois sendo feitos de energia, nenhuma marionete reagiu. Isso era bom. Pelo menos, isso garantiria que nós três poderíamos nos comunicar.

    —Uh? Isso…?

    —O que é isso?

    Como esperado, no momento em que Pedrinha e Coruja-Poderosa chegaram, eles repetiram as palavras de Kaelion e Caius em minha mente.

    “Calmem-se, sou eu.”

    Sussurrando levemente, Coruja-Poderosa e Caius transmitiram a mensagem aos dois enquanto eles me olhavam diretamente.

    Acenando com a cabeça para garantir que entenderam, comecei a falar novamente:

    “Se quisermos nos comunicar, vocês podem falar diretamente para o gato e a coruja à sua frente. Eles vão transmitir suas palavras diretamente para mim.”

    —Existe algo assim?

    Ouvindo a voz de Pedrinha, virei a cabeça para olhar Kaelion e acenei em sua direção.

    Seus olhos se arregalaram levemente e sua expressão se suavizou.

    —Certo, parece que funciona. Ninguém ao meu redor parece notar que estou falando.

    “Sim, há uma chance de que eles só reajam aos nossos movimentos, mas não tenho certeza.”

    Talvez não precisássemos de Coruja-Poderosa e Pedrinha.

    Nós três poderíamos apenas gritar um para o outro de nossas posições, mas isso era um risco que eu não queria correr.

    Além disso, com os tambores tão altos, duvidava que conseguiríamos nos ouvir.

    “Considerando o que o velho disse, tudo aqui reinicia em um determinado momento. Que horas são agora? Algum de vocês sabe?”

    —É 00:09 da madrugada.

    A voz plena de Coruja-Poderosa entrou em minha mente enquanto ele transmitia as palavras de Caius. Olhando para o céu escuro, achei que fazia sentido.

    “Se for esse o caso, então o horário de reinício é provavelmente meia-noite.”

    Mais ou menos dez minutos se passaram desde que nos vimos de volta ao pátio. Calculando o tempo, essa era a possibilidade mais provável.

    —Mas quem era aquele velho?

    “Não faço ideia.”

    Respondendo a Kaelion, só pude balançar a cabeça.

    Eu estava tão confuso quanto eles. Vendo como todos presentes estavam sendo controlados pelos fios, incluindo nós, o velho parecia suspeito.

    Ele era quem controlava as pessoas?

    …Ou ele também era uma vítima dos fios?

    “Considerando sua aparência, é plausível que ele seja o líder da família Astrid. Com seu nível de poder, há uma possibilidade de que ele consiga resistir ao controle dos fios.”

    Não estava muito certo, para ser honesto.

    Se alguém tão poderoso quanto ele pudesse estar em tal situação, isso só aumentava minha apreensão sobre a força do mandante por trás disso tudo. 

    Quão poderoso eles eram?

    —O que devemos fazer, então? O velho parece suspeito, mas que outra escolha temos além de ir até ele?

    —…Você pode pedir ajuda usando essa Coruja?

    Ouvindo a sugestão de Caius, olhei para Coruja-Poderosa.

    Pensei em enviá-lo para avisar Leon e os outros, mas antes disso, queria estabelecer um ponto de comunicação entre nós três.

    “Sim, parece possível.”

    Ou pelo menos, parecia possível.

    Se era realmente possível ou não, eu não tinha cem por cento de certeza.

    Só saberia depois de tentar.

    “Mas mesmo se eu fizer, o que eles podem fazer? Eles estariam tão indefesos quanto nós. No máximo, conseguiriam mais reforços da Academia, se é que têm algum para enviar, mas isso levaria tempo.”

    —E a Casa Myron?

    “Eles provavelmente estão muito ocupados lutando contra monstros para se importar conosco. E mesmo se tivessem forças sobrando, duvido que se importariam em nos ajudar.”

    Olhei especificamente para Kaelion.

    “…Nós quebramos a regra deles, afinal.”

    Isso era conosco.

    Bem, eu não culpava Kaelion. Na verdade, fiquei surpreso com suas ações. Não o via como alguém que mostraria tanto nível de compaixão. Ele me parecia mais uma cobra. Uma cobra que faria qualquer coisa por si mesmo.

    Esse evento…

    Mudou minha percepção dele um pouco.

    ‘Acho que até cobras sentem alguma compaixão.’

    Isso me fez pensar.

    Haveria mais em Kaelion do que eu sabia?

    —Certo… É minha culpa.

    —É.

    Caius não economizou nas palavras.

    Isso provavelmente se devia à sua falta de emoções, mas ele era bastante direto em tudo que dizia. Também não era de falar muito, diferente de Kaelion.

    Senti o olhar de Caius enquanto ele olhava para o céu escuro.

    —Vale a pena tentar. Mesmo se não puderem ajudar, pode ser bom avisá-los.

    “Você está certo.”

    Acenando com a cabeça para Coruja-Poderosa, que entendeu minha mensagem, vi ela bater as asas e voar para o céu, se misturando com a escuridão acima.

    Ao mesmo tempo, lembrei: “Diga para não fazerem movimentos bruscos. Diga que estamos bem por agora. Vou atualizá-los sobre nossa situação e é melhor se informarem os Professores.”

    Já podia dizer que estaríamos em muita encrenca quando tudo acabasse, mas já estava acostumado com isso.

    ‘Não é a primeira vez que me meto em encrenca.’

    Encarando a coruja que desaparecia, suspirei e olhei para minhas habilidades.

    Em particular, olhei para [Olhos do Vidente], que ainda estava obscurecido. Fazia um tempo desde que usei a habilidade, e ainda não podia usá-la. 

    ‘Por quê?’

    Quanto tempo ainda duraria o tempo de recarga?

    Um mês? Alguns meses?

    Olhando ao redor, sabia que precisava da habilidade. Para sair dessa situação, precisava que ela funcionasse.

    Só através da habilidade saberia se o velho estava conosco ou contra nós.

    Não apenas isso, mas também precisava encontrar um método para evitar ser detectado pelas marionetes.

    Era por isso que a habilidade era vital para mim.

    …Um único passo errado e estaríamos perdidos.

    Não podia me dar ao luxo de correr tais riscos.

    Então…

    “Ah.”

    Um pensamento me ocorreu e meu corpo tremeu.

    ‘Se for assim então…’

    Apertando os dentes, lancei um olhar para Pedrinha, que pareceu entender meu comando e começou a se mover em minha direção. A expressão de Kaelion vacilou brevemente com surpresa, mas ele rapidamente a disfarçou, seu olhar firme e focado em mim.

    Pouco depois, dois itens apareceram em minha mão enquanto Pedrinho os pegava.

    Tique, taque—

    Um relógio de bolso e um pequeno frasco vermelho.

    Sim, um frasco.

    Dentro dele estava o sangue de Oracleus.

    Meu sangue.

    Após os eventos na mina de ouro, coletei alguns frascos com o sangue de Oracleus. 

    Lembrando do que aconteceu quando o Papa injetou o sangue de Oracleus em mim, tive um pressentimento de que isso poderia ser o que eu precisava para quebrar o tempo de recarga da habilidade.

    Abrindo a boca, Pedrinha abriu o frasco e derramou o sangue em minha boca.

    Shhh—

    Um gosto metálico e afiado inundou minha boca, fazendo-me franzir o rosto enquanto grudava em minhas amígdalas. Meu corpo começou a se contorcer incontrolavelmente por causa do gosto.

    Superei o nojo e rapidamente engoli o sangue. Quase imediatamente, uma sensação quente se espalhou pelo meu peito.

    “….!”

    Inundou todo o meu corpo, me deixando completamente imóvel.

    Antes que percebesse, o mundo ao meu redor começou a se distorcer em uma longa espiral que quase me fez perder o equilíbrio.

    Mas dentro da espiral, consegui ver algo…

    Uma figura.

    Não, eram duas.

    Elas estavam cara a cara, suas figuras obscurecidas.

    Quem…?

    ‘Ei, ei…!’

    A voz parecia aguda, quase como a de um adolescente. Parecida com a do meu irmão, mas diferente.

    Ainda assim, sentia que a pessoa falando tinha alta consideração pela outra, que eu não conseguia ver.

    ‘O que foi, Toren?’

    ‘Hehe, eu… finalmente pensei em um nome para mim.’

    ‘Um nome?’

    ‘Sim, tipo um apelido.’

    ‘Oh? Qual é…?’

    ‘…Sithrus. Sim, vou me chamar assim. Soa bem foda, né?’

    Meus olhos se arregalaram quando a outra figura lentamente se virou, fixando os olhos em mim. Congelei, enraizado no lugar, incapaz de me mover sob o peso de seu olhar. Ele analisou meus arredores com uma calma perturbadora, então acenou com a cabeça em compreensão.

    Pouco depois, baixou os olhos, focando no garoto com uma expressão que não conseguia decifrar.

    ‘Sithrus…? Não é ruim. Ele—’

    “Huaa…!”

    Tudo terminou ali.

    Recuperando o fôlego, o mundo voltou ao normal e a espiral desapareceu de minha vista.

    Com suor escorrendo pela minha cabeça e meu peito subindo e descendo descompassadamente, olhei para minha página de habilidades e fixei [Olhos do Vidente].

    De fato, meu palpite não estava errado.

    O sangue ajudou, mas…

    ‘Aquilo…’

    O que foi que eu acabei de ver?

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