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    Tak—

    Assim que derrotei o monstro, o mundo mudou e, antes que eu percebesse, me vi de volta no vazio branco. Parado não muito longe de mim estava o velho.

    Embora tentasse parecer calmo, seu sorriso oscilante traía seus verdadeiros pensamentos.

    “Então…?”

    “Então, o quê?”

    Olha ele virando a cabeça para longe de mim.

    “Deixe-me adivinhar, você não esperava que eu fosse tão rápido, certo?”

    “….”

    Seu silêncio era tudo que eu precisava saber.

    Quase soltei uma risada novamente. Por mais lunático que esse cara fosse, ele também era muito fácil de ler. Era muito tímido para dar elogios.”

    Sim, tímido.

    “Não gosto da expressão que você está fazendo agora.”

    “Como é?”

    Sentei no chão e estiquei os braços.

    “Não vou cair nessa de novo. Não estou fazendo nenhuma expressão. Você está pensando demais. Há apenas um pensamento em minha mente no momento.”

    “Que é…?”

    Franzindo a testa, o velho se inclinou um pouco para frente. Parecia curioso.

    “Bem…”

    Arrasei por um segundo antes de dar de ombros.

    “…Só estava pensando em como você ficou surpreso e satisfeito com minha conquista. Você deveria ter visto seu próprio rosto. Não me deu nenhum elogio, mas eu os senti.”

    “Esse moleque.”

    A expressão do velho caiu e ele levantou a mão.

    Não me encolhi e apenas sorri.

    “Vá em frente, me bata.”

    Eu sabia que ele não iria me bater.

    Não estava mentindo sobre seu rosto. Ele realmente parecia bastante surpreso e satisfeito. Alguém que podia fazer aquela cara não iria me matar por algumas piadas.

    “Aigoo.”

    E eu estava certo.

    Coçando a nuca, o velho baixou a cabeça.

    “…Você tem sorte, garoto. Se fosse o eu do passado, eu teria te matado sem fechar os olhos.”

    Pensei em minha primeira visão e concordei com a cabeça.

    Ele parecia que faria isso.

    O velho franziu a testa ao ver minha reação enquanto tocava o próprio rosto e resmungava: ‘É tão fácil ler minha expressão assim?’

    Balancei a cabeça e fechei os olhos.

    ‘Faz um tempo que Coruja-Poderosa não entra em contato. É por causa deste espaço?’

    Normalmente, eu seria capaz de sentir Coruja-Poderosa, mas era quase como se tivesse perdido completamente a conexão. Estava um pouco preocupado, mas, novamente, poderia ser tudo por causa do espaço estranho em que estava.

    Ao abrir os olhos, finalmente notei um par de projeções que não estavam longe do velho.

    “Isso é…?”

    Olhando mais de perto, vi Kaelion e Caius.

    Assobiei baixinho diante da cena que me cumprimentava.

    Os dois…

    Estavam tendo uma dificuldade e tanto.

    ‘Não é à toa que perderam para mim.’

    ***

    Monstros existiam.

    Alguns estavam à vista, outros se escondiam nas sombras.

    Na mente.

    Tapa—!

    A chuva caía lá fora.

    Caía forte, como se o céu estivesse chorando.

    Debaixo da chuva, dois indivíduos estavam parados.

    Tapa, Tapa—!

    “Por que você selou suas emoções?”

    “Porque sou um lixo sem talento e sem emoções. Livrei-me das minhas emoções porque tenho medo da dor.”

    “Bom, repita de novo.”

    “….Sou um lixo sem talento e sem emoções. Livrei-me das minhas emoções porque tenho medo da dor.”

    Caius repetia as mesmas palavras sem pensar.

    Mesmo com a chuva encharcando suas roupas e cabelo.

    Tudo que ele podia ouvir era o som distante da chuva, sua própria respiração constante, o som de sua própria voz e…

    “Continue.”

    A voz cruel e indiferente do ‘monstro’.

    “Sou um lixo sem talento…”

    Quanto tempo havia passado?

    Caius já havia perdido a conta há muito tempo.

    Ele apenas ficou parado na chuva, repetindo as palavras do monstro vez após vez.

    Ele também sabia que isso era falso.

    Sabia que era uma ilusão.

    E ainda assim…

    Não conseguia parar de repetir as palavras.

    Por quê?

    Por que não conseguia parar?

    Se apenas fechasse a boca, qual seria o pior que poderia acontecer? Um tapa mais forte? Embora dolorosos, os tapas Caius aguentava.

    Mas…

    Não.

    Essa não era a resposta.

    “Por que parou de falar?”

    Tapa!

    Nem doeu.

    Tapa—!

    “Por que parou?”

    Mal fez cócegas.

    Mas…

    “Você perdeu totalmente a cabeça?”

    Tapa——!

    Por que seu peito doía?

    Essa dor… Era um pouco diferente de qualquer dor física que ele havia sentido no passado. Na verdade, tinha certeza que sabia o que era essa dor, mas não conseguia nomeá-la. Apenas sentia a resposta na ponta da língua.

    “Não vai dizer nada?!”

    Tapa———!

    A cabeça de Caius foi jogada para o lado pela força do tapa.

    Virando a cabeça e encarando o homem diante dele, os olhos de Caius se clarearam um pouco.

    Ainda assim, apesar de ver o homem claramente, seus traços pareciam estranhos para ele.

    Ele parecia…

    ‘Monstro.’

    Sim, parecia um monstro.

    “Por que não está falando?! Perdeu totalmente a cabeça? Você entende que posso me livrar de você como fiz com seus irmãos. Posso fazer um novo quando quiser. Você só está vivo porque ainda tem um fio de esperança de me suceder!”

    Caius sentiu seu corpo ser levantado quando o monstro agarrou sua gola, tirando-o do chão.

    “Por mais sem talento que você seja, posso torná-lo melhor! Então ouça o que tenho a dizer e comece a praticar. Entendeu?”

    “…..”

    Caius acenou com a cabeça.

    “Bom.”

    Finalmente soltando Caius, o homem deu um passo para trás.

    “Agora, repita depois de mim: sou um lixo sem talento e sem emoções. Livrei-me das minhas emoções porque tenho medo da dor.”

    “Sou um…”

    No meio da frase, Caius parou.

    “O que há? Você—”

    “Eu realmente não tenho talento?”

    “….Uh?”

    “Eu sou melhor.”

    “Que tipo de absurdo…?”

    “Eu sou melhor.”

    Caius repetiu.

    Essas eram as palavras que costumava repetir para si mesmo no passado. Apesar de dizê-las, nunca realmente sentiu que era melhor. Afinal, ele era um lixo talentoso.

    Era apenas que todos os outros eram ainda piores que ele.

    Em um mundo de lixo, ele era o lixo melhor.

    Portanto:

    “Eu sou melhor.”

    Era apenas uma forma de reafirmar seu status.

    Pelo menos, era assim que costumava ser no passado. Mas e agora? Caius pensou em Haven; o lugar que tinha os maiores talentos de todos os Quatro Impérios.

    O lugar de onde Julien — o cara que o derrotou — vinha. Passando tempo na Academia, Caius entendeu algo.

    Ele era melhor.

    Seja em exames físicos, de mana, mentais ou teóricos, ele sempre estava no topo ou perto dele. Não havia ninguém que se aproximasse dele em todos os quatro aspectos.

    Nem mesmo Julien, que o havia derrotado, estava perto dele nesses aspectos, exceto no mental.

    Nesse sentido, Caius começou a questionar as palavras do monstro.

    Ele era realmente um lixo sem talento?

    Tapa!

    “Por que não está falando de novo?”

    Caius levantou a cabeça e olhou para o monstro mais uma vez.

    Sob a chuva torrencial, sua imagem parecia aterrorizante, mas para um Caius que não conhecia o medo, ele não parecia tão imponente quanto antes.

    Na verdade, eles tinham a mesma altura.

    Ele costumava ser mais alto.

    …As rugas que ele tinha também não apareciam mais, e seu rosto ficou mais claro na mente de Caius.

    “Vou dizer mais uma vez. Repita depois de mim. Sou um l—”

    “Eu não tenho talento?”

    “Ah?”

    Caius encarou o monstro e seus lábios se separaram.

    “Não há ninguém melhor que eu neste Império ou em qualquer outro.”

    Ele estava no topo de tudo.

    “Que tipo de—”

    Acadêmicos.

    “…Você mentiu para mim.”

    Físicos e mentais.

    Dificilmente havia alguém tão bom quanto ele.

    “Eu perdi, mas isso não me torna sem talento. É normal perder.”

    Perder não significava o fim.

    …Apenas significava que se podia ser melhor.

    Caius sabia que podia ser melhor.

    Ele era, afinal…

    Melhor.

    “Eu não selei minhas emoções porque tenho medo da dor.”

    Caius levantou a cabeça e olhou bem para o monstro diante dele.

    Pela primeira vez em muito tempo, Caius conseguiu ver sua forma completa. E foi então que percebeu.

    ‘…Eu sou meu próprio monstro.’

    Aquele que o pressionava o tempo todo.

    O monstro assombrando sua mente.

    Era…

    Ninguém além dele mesmo.1

    Piscando os olhos, a figura diante dele ficou cada vez mais clara. A única coisa que restou foi a chuva e ele mesmo.

    Era como no passado.

    Ele sempre estivera sozinho.

    Seu pai nunca havia se importado com ele.

    Quando treinava ao ar livre, estivera sozinho.

    Quem o esbofeteava sempre fora ele mesmo.

    Quem falava sempre fora ele.

    Ele…

    Pinga, Pinga—

    “Ah, entendo.”

    Foi então que Caius compreendeu.

    O ‘Monstro’ nunca fora real.

    Era apenas uma forma de lidar com o fato de que estava sozinho.

    Era seu verdadeiro companheiro.

    E…

    Sua obsessão.

    Levantando a cabeça, o monstro apareceu novamente.

    “….”

    Banhado pela chuva, Caius se virou e foi embora.

    Obrigado, e adeus.

    Monstro.

    *

    Tak—

    Quando a chuva parou de cair, Caius se viu em pé no meio de um vazio branco.

    Sua mente se sentia livre e seus pensamentos mais claros.

    Apesar de tudo isso, ele ainda não sentia suas emoções.

    Segurando o peito, ele hesitou.

    ‘Quando vou recuperar minhas emoções?’

    Sentia que estava perto de alcançar um avanço nesse aspecto, mas ao mesmo tempo, também parecia incrivelmente distante.

    ‘…Vou recuperá-las algum dia?’

    Enquanto Caius estava perdido em seus pensamentos, de repente ouviu uma voz ao longe.

    “Isso foi incrível. Fantástico. Você foi impressionante.”

    Levantando a cabeça, viu Julien ao lado do velho, que olhava para Julien com uma carranca inconfundível.

    Foi então que Julien apontou para ele.

    “É o que ele quer dizer, mas é tímido.”

    “Sabia!”

    O velho encarou Julien.

    “O quê? Seu rosto entregou.”

    Entregou?

    Caius não estava prestando atenção.

    “Isso é bobagem.”

    “É?”

    “…..”

    O velho abriu a boca, apenas para fechá-la novamente, cruzando os braços com um suspiro. Julien olhou para ele brevemente antes de voltar seu olhar para Caius.

    ‘Ele é tímido.’

    Sussurrou baixinho, fazendo o canto dos lábios de Caius se erguer.

    Ele não percebeu, mas Julien notou, arqueando uma sobrancelha por um breve momento antes de relaxar.

    “Nada mal…” Murmurando para si mesmo, Julien virou a cabeça e olhou para a última projeção. Sua expressão logo ficou um tanto complexa. O mesmo aconteceu com o velho, que clicou a língua.

    “Inesperado.”

    Quando Caius seguiu seu olhar, seus olhos pousaram na projeção que estavam observando e seu rosto parou.

    Porque…

    ‘Vermelho.’

    Tudo que ele podia ver era a cor vermelha.

    No meio do mar vermelho, havia uma única pessoa.

    Kaelion.

    Era um massacre.

    1. NÃO TEM JEITO, FÃ NÚMERO 1 DO CAIUS AQUI PQP[]

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