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    ‘…Tudo parece normal, como se nada estivesse fora do lugar.’  

    Se não fosse pelo quarto e pelo aviso da coruja, Leon não teria percebido que havia caído em uma ilusão.  

    Isso por si só fez um frio percorrer sua espinha.  

    O que teria acontecido se ele não tivesse sido avisado?  

    Leon apertou os lábios com força enquanto corria. Ele não sabia para onde estava indo, mas tinha certeza de que a coruja sabia o caminho.  

    Tudo o que ele precisava fazer era segui-la.  

    Assim, ele percorreu a mansão sem dizer uma única palavra.  

    Tok, tok—  

    No silêncio que dominava o ambiente, o único som que ele conseguia ouvir era o clique discreto de seus sapatos e o bater das asas da coruja enquanto avançavam por corredores vazios e mal iluminados.  

    ‘Para onde ela foi?’  

    Parando, Leon olhou ao redor antes de virar à esquerda.  

    ‘…Ah, aqui.’  

    Ele não estava familiarizado com o local, e como tudo estava tão escuro, precisou confiar em seus ouvidos para seguir a coruja, que se misturava com a escuridão.  

    “Sinto várias presenças aqui.”  

    Logo quando Leon perdeu a noção do tempo, navegando pelos corredores, a coruja parou, apontando seu bico em direção a uma certa porta.  

    “Este é…?”  

    Leon apertou os olhos para enxergar melhor.  

    [Salão de Jantar]  

    Estava escrito.  

    Segurando a respiração, ele virou-se para a coruja e perguntou:  

    “Quantas presenças você sente lá dentro? Quão fortes elas são?”  

    “Quatro.”  

    Foi tudo o que a coruja disse, seu tom tão indiferente quanto sempre.  

    “…..”  

    Leon aceitou as palavras da coruja casualmente antes de pressionar a mão contra a porta. De repente, seu corpo ficou tenso enquanto a outra mão segurava firmemente o cabo de sua espada.  

    Como a coruja não especificou a força daqueles que estavam dentro, ele se sentiu um pouco nervoso.  

    Claro, ele não achava que não poderia vencê-los.  

    Certamente a coruja não tentaria levá-lo à morte.  

    ‘Uh…?’  

    As sobrancelhas de Leon se franziram.  

    ‘Espera, agora que penso nisso, essa não é a coruja do Julien?’  

    Leon lambeu os lábios, que estranhamente haviam ficado secos.  

    Certamente não, certo?  

    Ele virou a cabeça e viu os olhos frios e indiferentes da coruja, engolindo em seco.  

    Certamente…  

    ‘Onde diabos estamos…? Não me diga que estamos perdidos. Além disso, onde estão os professores?’  

    ‘…Considerando a força deles, provavelmente foram os primeiros a serem alvejados.’  

    Foi então que ele ouviu uma voz baixa vindo de trás da porta. Suas sobrancelhas se ergueram imediatamente, e ele inclinou a cabeça para ouvir melhor.  

    ‘Ugh, verdade. Além disso, parece que estamos realmente perdidos… Tenho certeza de que seguimos o caminho certo.’  

    ‘Aparentemente não, sua vaca burra.’  

    ‘O que você acabou de me chamar?’  

    ‘Vaca burra, sua vaca burra.’  

    A expressão de Leon congelou ao ouvir as vozes familiares vindas de trás da porta antes de relaxar.  

    Sua tensão anterior diminuiu, e logo em seguida, ele empurrou a porta.  

    Clank—  

    “Eu te chamei de vaca burra. É tão difícil para você—Ah?”  

    “Eh?”  

    Quando a porta se abriu, Aoife e Kiera pararam de falar e ambas viraram a cabeça simultaneamente para olhar na direção de Leon.  

    “Leon?”  

    “Parece que você também se perdeu.”  

    Atrás delas estava Evelyn, sentada em uma das cadeiras com a palma da mão na testa. Ela parecia cansada de tudo aquilo.  

    Sua expressão parecia dizer: ‘Matem-me. Eu quero morrer. Já cansei de lidar com essas duas. Alguém me ajuda.’  

    Ela estava tão absorta em seus pensamentos que não percebeu sua presença.  

    “Leon.”  

    Andando até ele com uma expressão carrancuda, Aoife olhou ao redor.  

    “…É bom que você esteja aqui. Acho que há algo errado com este lugar. Evelyn percebeu primeiro, e por isso nós três conseguimos ficar juntas, mas temo que todos os outros estejam perdidos.”  

    Aoife relembrou suas experiências, e seu rosto ficou ainda mais fechado.  

    “É como se o lugar estivesse constantemente mudando. Não consigo dizer onde nada está, e toda vez que tento refazer meus passos, acabo em um lugar completamente novo.”  

    “É isso que está acontecendo?”  

    Leon não havia notado isso de verdade.  

    Ele seguiu a coruja o tempo todo, então não precisou se preocupar em refazer seus passos ou seguir o caminho errado.  

    No entanto, quando pensou melhor, parecia realmente ser o caso.  

    ‘É quase como se estivesse tentando nos prender aqui. Quanto mais tempo ficamos, mais perigoso será para nós depois.’  

    Logo quando Leon abriu a boca para contar o que sabia, seu rosto congelou.  

    ‘Espera um segundo.’  

    Suas sobrancelhas se ergueram enquanto ele olhava ao redor da sala.  

    “Um, dois, três…”  

    Leon sentiu um aperto no coração ao virar a cabeça bruscamente, escaneando o ambiente com maior alarme.  

    Sua mudança repentina chamou a atenção das garotas, que o olharam com expressões carrancudas.  

    “Você está bem?”  

    “…Aconteceu alguma coisa? Por que está agindo estranho?”  

    “Leon? Desde quando você—”  

    “Shhh.”  

    Leon pressionou a mão contra os lábios e puxou sua espada. Ele ainda se lembrava distintamente das palavras da coruja antes de entrar, e seu coração afundou ao revivê-las em sua mente.  

    ‘Quantas presenças você sente lá dentro? Quão fortes elas são?’  

    ‘Quatro.’  

    Leon olhou ao redor e contou.  

    ‘Um, dois, três…’  

    Onde estava o quarto?  

    Não havia um quarto.  

    “Leon?”  

    “Está tudo bem? Você está agindo estranho. Será que—”  

    Estrondo!

    O teto desabou de repente, lançando grandes pedaços no chão. As expressões das garotas mudaram rapidamente quando uma grande raiz surgiu do chão, espetando em direção a elas.  

    “Desvi—Hiek!”  

    Mas era tarde demais.  

    Antes que Kiera pudesse reagir, a raiz agarrou seu pescoço.  

    Seus movimentos eram tão rápidos que até Leon teve dificuldade para reagir.  

    Mas isso não foi tudo.  

    Estrondo, estrondo!  

    A sala inteira tremeu quando as paredes se estilhaçaram e ainda mais raízes apareceram. O rosto de Leon empalideceu ao ver aquilo, e ele rapidamente ergueu a espada para revidar, mas…  

    Estrondo—

    Ele não era páreo para aquilo.  

    Com um chicotada, Leon foi lançado para trás, suas costas batendo contra a parede enquanto ele cuspia uma boca cheia de saliva.  

    “Ukeh.”  

    Assim que sua mão trêmula pressionou o chão para se levantar, algo frio e pegajoso tocou seu tornozelo.  

    Esguicha!

    Sua respiração parou quando ele olhou para baixo e viu uma raiz escura subindo por ele, sua superfície venosa pulsando enquanto se enrolava firmemente em seu pé.  

    Esguicha… Esguicha…  

    O som ficou mais alto, mais nojento. O pânico tomou conta dele enquanto mais raízes emergiam das sombras, se contorcendo como serpentes.  

    Antes que pudesse reagir, uma se enrolou em seu braço.  

    “Ah…!”  

    Leon sentiu o ar ser sugado de seu corpo no momento em que a raiz o agarrou.  

    “Ukh!”  

    Ele se debateu, seus músculos queimando enquanto lutava contra as raízes que o prendiam como correntes vivas. Seus dedos agarravam desesperadamente o ar, procurando algo para se segurar.  

    “Não… isso não pode estar acontecendo”, Leon engasgou, sua voz rouca.  

    Por fim, seus olhos pousaram na coruja, e ele esticou a mão.  

    “A-ajuda.”  

    Ele alcançou a coruja na esperança de que ela o ajudasse, mas tudo o que recebeu foi um olhar frio e indiferente.  

    Uma raiz grossa e nodosa surgiu, enrolando-se em seu pulso com um som úmido e nojento.  

    “Ukh… Não!”  

    A raiz puxou seu braço para baixo com força brutal, prendendo-o ao chão frio e úmido.  

    Esguicha… esguicha…

    O som ficou mais alto, mais implacável, enquanto incontáveis raízes brotavam do chão, envolvendo seus membros e torso. Elas subiam por suas pernas, apertavam seu peito e enrolavam-se em seu pescoço.  

    O ar parecia mais frio, mais pesado, enquanto seus movimentos ficavam mais fracos.  

    O pânico foi substituído por um temor entorpecedor enquanto as raízes o envolviam completamente.  

    A escuridão invadiu sua visão enquanto seu corpo ficava imóvel, e os ecos abafados de seus gritos se dissipavam junto com os das garotas.  

    No fim, as forças de Leon se esgotaram, e o silêncio tomou conta do ambiente.  

    “…..”  

    Observando tudo em silêncio, os olhos indiferentes da Coruja-Poderosa fitaram Leon por um momento antes de se virar e partir.  

    Esguicha~

    Seu trabalho estava feito.  

    ***  

    “Quantos anos vocês disseram que tinham?”  

    Esta provavelmente era a quarta vez que a ‘Anciã Principal’ nos fazia essa pergunta. Logo após sua aparição e a situação se esclarecer, fomos levados a uma sala privada, onde a Anciã Principal nos recebeu.  

    Ela, assim como os outros, tinha a mesma expressão de surpresa ao ver nossos rostos reais.  

    “…Vinte anos.”  

    Respondendo novamente, seu rosto enrugado não pôde evitar se contrair um pouco enquanto murmurava: ‘Que impressionante. Eu teria pensado que eram mais velhos, considerando sua força, mas…’  

    Ela nos olhou novamente e suspirou.  

    “Parece que subestimamos as pessoas dos Impérios. Eles não estavam ociosos.”  

    “…Obrigado.”  

    A única coisa que pude pensar em fazer foi agradecer pelo elogio.  

    Ela apenas acenou com a mão.  

    “Não se preocupe, nós é que devemos agradecer a vocês. Considerando tudo o que fizeram por nossa casa, os únicos que deveriam estar agradecidos somos nós.”  

    Enquanto dizia isso, ela olhou para a janela, onde o céu estava visível.  

    Um sorriso discreto surgiu em seus lábios ao ver o céu.  

    “Sempre quis ver o céu que vocês tanto exaltam nos Impérios. Não posso dizer que estou desapontada.”  

    Baixando a cabeça, uma tristeza sutil pairava em seu sorriso.  

    Eu entendia aquele sorriso muito bem.  

    Enquanto o céu significava libertação, também significava luto.  

    Eu não sabia qual era a relação entre ela e o velho, mas tinha certeza de que era próxima.  

    Apoiando a mão na mesa, ela respirou fundo e nos olhou.  

    “Ouvi uma versão resumida do que aconteceu com a Kora, mas gostaria de ouvir seu lado da história. Como exatamente vocês se encontraram e como resolveram toda a situação?”  

    À sua pergunta, eu escolhi responder.  

    Eu sabia a situação melhor do que qualquer um e, assim, expliquei tudo a ela. Do começo ao fim.  

    Levou cerca de meia hora para eu explicar tudo, e quando terminei, a sala ficou em silêncio enquanto a Anciã Principal parecia perdida em seus pensamentos. Ela continuou murmurando coisas para si mesma, sentada ali, alheia ao mundo.  

    Até que finalmente voltou a si e olhou para nós três.  

    Seu olhar…  

    Parecia ainda mais caloroso do que antes.  

    Se antes ela nos tratava bem porque éramos seus salvadores, agora parecia que ela nos via quase como membros de sua própria casa.  

    Quando seus lábios se abriram para dizer algo, sua expressão mudou de repente.  

    “….?”  

    Ela ergueu a cabeça, olhou para a janela e seu rosto ficou tenso.  

    Virando minha cabeça também, encontrei-me encarando os altos muros ao longe. A princípio, não notei nada anormal, mas então aconteceu.  

    Estrondo—

    Uma explosão terrível, mas abafada.  

    Seu som reverberou por todo o ambiente, abafando todos os outros ruídos do mundo.  

    Estrondo!

    O barulho persistiu mais uma vez.  

    E então…  

    Estrondo—!

    Os muros desmoronaram.

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