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    Farfalha~

    “…Você está resistindo mais do que eu imaginei.”  

    Os lábios de Seraphina se curvaram ao notar que a árvore ainda resistia a ela. Embora houvesse várias dezenas de fios conectados à árvore, ela ainda não havia se submetido completamente.  

    Ainda estava resistindo.  

    Virando a cabeça para olhar na direção das muralhas da cidade distante, ela acenou levemente e pressionou a mão contra a casca da árvore.  

    “Não devo atrasar isso por mais tempo.”  

    A mana ao seu redor começou a se aglomerar rapidamente, e uma pressão intensa repentinamente explodiu de seu corpo.  

    Para que tudo fluísse suavemente, ela precisava assumir o controle total da árvore.  

    Ela estava quase lá, mas faltava apenas a última peça.  

    “Pare de resistir.”  

    Fios apareceram por todos os lados, e sua mente se concentrou em um ponto específico.  

    Na direção de onde uma figura semelhante a uma coruja estava.  

    ‘Eu vejo você.’  

    Como se tivesse notado, os olhos da coruja se abriram, mas era tarde demais.  

    “!”  

    Quando reagiu, os fios já estavam conectados ao seu corpo e, logo em seguida, várias raízes surgiram do nada, amarrando seu corpo.  

    “Peguei você!”  

    Rindo, Seraphina apertou a casca da árvore.  

    As raízes continuaram a amarrar a coruja, e Seraphina sentiu seu controle sobre a árvore começar a aumentar.  

    Enquanto isso acontecia, a coruja tentou resistir, mas foi inútil.  

    “Pare de resistir, acabou.”  

    Voom—!  

    Sua mão brilhou ainda mais, e a luta da coruja ficou mais tensa.  

    Não havia como escapar dela.  

    Estava acabado.  

    Estava…  

    “Hã?”  

    Erguendo a cabeça, Seraphina notou uma folha vermelha cair sobre ela. Outra, e então mais uma logo em seguida.  

    Gradualmente, mais e mais folhas começaram a cair da árvore, expondo seu corpo nu.  

    Seraphina encarou a cena com uma expressão vazia antes de sorrir.  

    “Parece que você finalmente está desistindo.”  

    A perda das folhas só significava uma coisa.  

    A consciência da árvore estava prestes a desistir.  

    Ela não podia mais resistir.  

    Ela então pensou em seu filho, que estava dentro da árvore, e lambeu os lábios.  

    Assim que terminasse de dominar a árvore, ele seria o próximo.  

    “…Apenas espere um pouco.”  

    Voom—  

    A mana ao seu redor espiralou ainda mais.  

    ***  

    Existir.  

    O que significava existir?  

    Não há uma resposta real para essa pergunta.  

    Todos os seres vivos têm propósitos e aspirações diferentes.  

    Para alguns, a resposta era simples: sobrevivência e reprodução. Isso geralmente se aplicava aos seres menos conscientes.  

    Mas e aqueles que tinham pensamentos mais elevados?  

    Qual era a razão de sua existência?  

    Sua resposta era algo tão simples quanto sobrevivência e reprodução?  

    Não, não era algo tão trivial quanto isso.  

    Havia mais em sua existência do que isso.  

    Coruja-Poderosa entendia isso. Tendo visto todos os tipos de memórias, ele entendia esse conceito, mas quanto mais Coruja-Poderosa via, mais confuso ficava.  

    Seus pensamentos primitivos giravam em torno de “crescimento, sobrevivência e reprodução”. No entanto, conforme a consciência de Coruja-Poderosa se expandia, ele começou a sentir que esses instintos não eram mais suficientes.  

    Quanto mais ele despertava para sua própria consciência, mais profundo se tornava seu anseio por algo além da mera existência.  

    Ele ansiava por um propósito que transcendesse o ciclo básico da vida, impulsionado por um novo senso de curiosidade e desejo de compreensão.  

    ‘Por que eu existo…?’  

    A pergunta o assombrou por toda a sua vida.  

    Ele queria entender.  

    Ele queria saber.  

    …E por essa razão, ele fez algo que nunca havia feito antes.  

    Deixar seu próprio corpo em busca de uma resposta.  

    Coruja-Poderosa observou e analisou tudo, tentando decifrar a resposta. Ele queria saber.  

    Estava desesperado para saber e chegou perto de uma resposta.  

    Seguindo Julien, Coruja-Poderosa sentiu que havia compreendido algo.  

    Estava mais perto do que nunca.  

    Mas…  

    ‘Eu…’  

    Arranha, Arranha~

    Vendo suas próprias raízes cavarem nele, Coruja-Poderosa se sentiu preso. Apesar de suas melhores tentativas de resistir, não conseguiu.  

    As raízes eram fortes demais, amarrando seu corpo.  

    ‘Não, ainda não…’  

    Coruja-Poderosa continuou a resistir, mas não adiantou.  

    Seu próprio corpo estava o rejeitando.  

    ‘Não, pare…’  

    Coruja-Poderosa bicou a raiz mais próxima com seu bico, mas foi inútil.  

    …Ele não conseguiu fazer nada.  

    ‘Ah.’  

    Um sentimento desconhecido começou a surgir dentro de Coruja-Poderosa.  

    Era um sentimento desagradável.  

    Um que não era tão desconhecido, pensando bem.  

    O que era esse sentimento?  

    “Parece que você está frustrado.”  

    A resposta veio na forma de uma voz familiar. Erguendo a cabeça, Coruja-Poderosa olhou nos olhos profundos e cor de mel de Julien.  

    “Humano…”  

    Por que ele estava aqui?  

    Coruja-Poderosa olhou ao redor e, como esperado, notou as raízes ao seu redor se agitando.  

    “…Você deveria ir embora antes que—”  

    Arranha, arranha!

    Antes que Coruja-Poderosa pudesse terminar de falar, várias raízes brotaram sob Julien, que pressionou o pé no chão e evitou as raízes.  

    Swoosh—!  

    Por um triz, ele conseguiu evitar as raízes.  

    Mas isso foi apenas o começo. Assim que ele desviou das primeiras raízes, ainda mais raízes apareceram atrás dele, girando no ar como cobras.  

    Como se tivesse olhos atrás da cabeça, Julien permaneceu calmo e apenas estalou os dedos.  

    Baque, baque! 

    Elas se dividiram em uma dúzia de pedaços antes de cair no chão.  

    “Hooo.”  

    Ar saiu da boca de Julien enquanto suas sobrancelhas se franziam. As coisas estavam longe de terminar. Olhando para baixo, para cima e para os lados, raízes apareciam por todos os lados.  

    E ainda assim, ele continuou a lutar.  

    “Por quê?”  

    Sua resistência fez Coruja-Poderosa questionar sua decisão.  

    “…Por que você continua resistindo?”  

    Estava acabado.  

    Não havia mais sentido em resistir.  

    Coruja-Poderosa estava a meros minutos de ser absorvido.  

    A essa altura, Julien também sucumbiria. E mesmo que ele tentasse fugir agora, aquela mulher estaria esperando por ele lá fora.  

    “Acabou, pare de resistir.”  

    Não havia saída.  

    Xiu, Xiu—  

    Mesmo assim, Julien continuou a lutar.  

    Coruja-Poderosa o viu agir assim no passado, durante o tempo em que se encontraram com o dragão estúpido.  

    Foi a primeira vez que Coruja-Poderosa realmente se impressionou com o humano, e o que despertou sua curiosidade, mas ao mesmo tempo o fez questionar.  

    “…Por que você luta diante de uma morte certa?”  

    “Por quê…?”  

    Ouvindo a pergunta de Coruja-Poderosa, Julien inclinou a cabeça para o lado, franzindo o rosto quando uma raiz arranhou sua bochecha.  

    Julien tinha muitas respostas, mas depois de um tempo, uma realmente se destacou das demais.  

    “Porque eu já morri uma vez.”  

    “…?”  

    “Hoo…”  

    Abaixando-se, os músculos de Julien se contraíram e seus olhos ficaram vermelhos. Ele levou o punho para frente e golpeou as raízes que vinham em sua direção.  

    Estrondo!

    “Eu costumava viver por causa do meu irmão.”  

    Relaxando as costas, os olhos de Julien ficaram afiados.  

    “Eu não tinha mais ninguém além dele. Ele era a razão pela qual eu vivia. Costumava ser assim mesmo após a morte, mas agora é diferente.”  

    “Diferente?”  

    “Eu aprendi a parar de viver com medo de viver. Agora comecei a viver e perder a sensação de apenas existir.”  

    Perder a sensação de apenas existir?  

    Algo formigou no peito de Coruja-Poderosa.  

    O que o humano queria dizer com isso?  

    “Sim.”  

    Swoosh!  

    A perna de Julien ficou tensa, e sua figura ficou borrada, aparecendo alguns metros adiante. Seu rosto ficou um pouco pálido quando ele ergueu a mão, e mãos roxas irromperam do chão, agarrando as muitas raízes que vinham em sua direção como um tsunami.  

    “Você não acha estranho como tantas versões de mim existem neste mundo? Para Leon.. Haa… Eu posso ser um mestre irritante que nem é seu verdadeiro mestre. Uma pessoa irritante em geral.”  

    O rosto de Julien ficou um pouco mais pálido.  

    “Para você, eu posso ser apenas uma ferramenta projetada para ajudá-lo a entender emoções.”  

    Recuando, as raízes diante de Julien desaceleraram.  

    “Alguns me veem como um ser frio e indiferente que eles não podem tocar ou esperar alcançar, enquanto outros me veem como um cara arrogante que nasceu com uma colher de prata na boca e abençoado com talento.”  

    Fazendo uma pausa, Julien girou o pulso e todas as raízes se dividiram.  

    “Mas essas versões de mim são o verdadeiro eu?”  

    Coruja-Poderosa pensou por um momento antes de balançar a cabeça.  

    “Elas não são.”  

    “Certo.”  

    Julien sorriu.  

    “Elas são apenas fragmentos moldados pela forma como as pessoas me percebem através das pequenas interações que tiveram comigo.”  

    Elas não eram realmente ele.  

    “A soma de todos esses fragmentos é o verdadeiro eu?”  

    Mas e se a impressão de alguém sobre ele estivesse totalmente errada?  

    Aquele fragmento contaria?  

    “…Ou o verdadeiro eu é o eu que eu mesmo percebo?”  

    Coruja-Poderosa ficou parado, sem conseguir responder.  

    “Eu não acho que seja isso também.”  

    Julien continuou.  

    “Meu julgamento é falho, tendencioso, e o mesmo vale para os fragmentos do que os outros veem em mim.”  

    Quanto mais ele falava, mais suas palavras ressoavam na coruja.  

    “Eu sou indefinível…”  

    Não definido.  

    “…E é isso que me faz existir.”  

    Fazendo outra pausa, Julien olhou diretamente para a coruja, cujo olhar parecia tão intensamente focado nele. Com um sorriso fino, os lábios de Julien se separaram uma última vez.  

    “Floresça.”  

    “Faça sua existência ser conhecida pelos outros.”  

    “Floresça.”  

    “Crie os pequenos fragmentos que definem você.”  

    “Floresça.”  

    “Pare de perguntar, comece a ser.”  

    Julien fez uma pausa e olhou diretamente para Coruja-Poderosa, cujo olhar parecia tão intensamente focado nele. Com um sorriso fino, os lábios de Julien se separaram uma última vez.  

    “Floresça.”  

    “Não desista de existir.”  

    …E um breve silêncio caiu logo em seguida.  

    Foi um silêncio que durou apenas alguns segundos antes que Coruja-Poderosa fechasse os olhos.  

    Uma mudança ocorreu a partir daquele momento.  

    “Uh?”  

    Seja Seraphina ou as pessoas dentro da cidade.  

    “O que está acontecendo?”  

    Todos notaram as mudanças.  

    “O que está acontecendo?”  

    Era difícil não notar.  

    Afinal, naquele dia, uma árvore floresceu.  

    Era uma árvore alta.  

    Uma árvore muito alta.  

    Uma que parecia tocar o céu e as mentes de todos os presentes.  

    Naquele dia, fragmentos foram criados.  

    Naquele dia…  

    Coruja-Poderosa começou a verdadeiramente existir.

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