Capítulo 535: Retorno [1]
“Consigo ver as muralhas da cidade ao longe.”
Fiz uma pausa para contemplar as muralhas distantes, suas superfícies escuras e rachadas parecendo cicatrizes de tamanhos variados. Além delas, torres e edifícios imponentes se erguiam em direção ao céu, perfurando o agora azul acima.
Era uma vista que contrastava fortemente com a que tive quando cheguei pela primeira vez à Kasha Oriental.
“É até onde posso ir, humano.”
A voz da Coruja-Poderosa ecoou em meus ouvidos, suas raízes se estendendo profundamente sob o solo, afundando cada vez mais.
“…Acho que você poderia muito bem me seguir.”
Com razão, a Coruja-Poderosa era cautelosa para não chamar a atenção dos chefes das famílias principais na Kasha. Isso levaria a mal-entendidos desnecessários.
Por esse motivo, não tinha escolha a não ser esperar do lado de fora.
‘Agora que penso nisso, levar a Coruja-Poderosa de volta para a Academia também pode ser um pouco problemático.’
Suspirei com o pensamento.
Não havia como Delilah ou Atlas não perceberem.
Se a Coruja-Poderosa ainda fosse uma ‘Vontade’, as coisas seriam diferentes, mas esse não era mais o caso e então eu tinha que pensar em um jeito de contornar essa questão.
‘Tanto faz, vou me preocupar com isso depois.’
Havia assuntos mais urgentes a tratar.
Tipo…
“Eles perderam ou eles venceram?”
Levei um tempo para voltar da Dimensão Espelho. Embora tenham me assegurado que a área estava limpa e ninguém viria atrás de mim, eu sabia que era melhor ficar do lado cauteloso.
Por essa razão, me movi com extremo cuidado, viajando devagar e fazendo o possível para garantir que ninguém estivesse me seguindo ou espionando. Com minha nova habilidade, somada à percepção elevada da Coruja-Poderosa, estava quase confiante de que ninguém me havia seguido.
Com tudo resolvido, dispensei o [Lamento das Mentiras] e segui em direção às muralhas distantes.
A distância não era grande, e quando caminhei por vários minutos, cheguei diante das muralhas quebradas, os gritos distantes dos trabalhadores chegando aos meus ouvidos.
“Esse lugar precisa de conserto!”
“Aqui! Rápido!”
Parecia bem animado lá dentro.
Tanto que nem sequer notaram minha presença. Os guardas estacionados no topo das muralhas, no entanto, notaram. Deram uma breve olhada em mim antes de me deixarem passar — claramente, ainda se lembravam do meu rosto.
Entrando na cidade, meus pés pararam por um breve momento.
“Peguem sua comida aqui!”
“…As segundas porções só virão depois que todos tiverem recebido sua parte. Por favor, aguardem com paciência.”
A cena parecia drasticamente diferente da primeira vez que estive lá.
O ar de tristeza e desespero havia desaparecido, substituído por uma sensação de esperança. Embora todos permanecessem dolorosamente magros e desnutridos, seus olhos não tinham mais aquele olhar vazio e sem vida.
Eles pareciam vivos…
‘De certa forma, eles me lembram do velho em seus últimos momentos.’
Pensando no velho, senti uma leve pontada no peito enquanto olhava para o céu.
O céu era o começo da mudança — o símbolo de esperança para este lugar.
Sem ele, a Kasha teria permanecido o mesmo lugar doente e sombrio de antes.
‘É uma pena que as pessoas aqui não saibam sobre aquele que as libertou.’
Balancei a cabeça e continuei andando, indo em direção à Casa Astrid. Ela ficava perto do centro da cidade, sua estrutura alta e dourada se destacando das demais.
Por ora, o mais importante era saber o resultado da luta.
“Espero que não tenham perdido…”
Enquanto murmurava essas palavras, me vi involuntariamente acelerando o passo.
***
Casa Astrid.
Em uma sala espaçosa, todos os cadetes de Haven estavam reunidos, seus corpos banhados pela suave luz do sol que entrava pelas janelas.
A atmosfera era agradável, com vários deles exibindo bons sorrisos.
“Kekeke.”
Rindo sozinha, Kiera recostou-se, sua risada ficando mais alta conforme continuava.
Sentadas ao lado dela, Aoife e Evelyn a olharam com expressões estranhas antes de olharem uma para a outra e balançarem a cabeça.
“Ela pirou.”
“…Sim.”
“Calem a boca, perdedoras.”
Kiera ergueu a cabeça, olhou para as duas antes de escanear a sala. Seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso enquanto inclinava levemente a cabeça para cima, fazendo parecer que seu nariz estava crescendo.
Ela então apontou para si mesma.
“Vocês, imbecis, deviam todos me chamar de Messias. Sem mim, vocês não teriam vencido essa coisa toda. Esta que vos fala é a única e exclusiva salva—”
“Você está ficando muito convencida.”
Aoife a interrompeu no meio da frase enquanto revirava os olhos.
“Eu entendo que você conseguiu derrotar o último membro, mas devo lembrar como todos fizemos a mesma coisa?”
Se não fosse óbvio, eles haviam conseguido sair por cima contra os maiores talentos da Kasha. Não foi um conflito fácil, com aqueles da Kasha sendo extremamente fortes.
Infelizmente para eles, havia vários monstros em seu time.
Nem preciso falar de Leon… Caius, Amell e Kaelion eram aberrações da natureza — indivíduos tão poderosos que até mesmo os da Kasha tiveram dificuldade para enfrentá-los.
Isso era especialmente verdade para Caius1, que parecia ter ficado ainda mais forte do que antes.
Os quatro conseguiram nocautear seus respectivos oponentes, derrubando os próximos também antes de finalmente saírem, exaustos.
Como a luta seguia um formato ‘Rei do Ringue’, o time com a última pessoa de pé em seu canto levaria a vitória. Os da Kasha trouxeram vários monstros, alguns fortes o suficiente para forçar aqueles quatro a recuar.
No entanto, no final, eles ainda conseguiram sair vitoriosos.
Foi apenas uma pena que Kiera teve que ser a última de pé no ringue.
Com o último oponente cansado, tudo que ela teve que fazer foi lançar um feitiço antes de vencer.
“Kakakakaka.”
Sua vitória só alimentou seu ego já inflado.
“Eles deviam começar a fazer uma igreja só para mim. A igreja de Kiera~”
A expressão de Aoife ficou contorcida, e a de Evelyn e de várias outras pessoas também. Antes que as coisas pudessem escalar ainda mais, um certo som de toque chamou a atenção de todos.
Quando todos os olhos se viraram, pousaram sobre a pequena figura curvada no canto, seus olhos injetados de sangue fixos no pequeno dispositivo à sua frente, seu dedo batendo repetidamente na tela.
“Não… está funcionando,” a pequena criança murmurou para si mesma, levando o polegar à boca e mastigando nervosamente suas unhas.
“Como isso pode ser…?”
Ao mesmo tempo, ela coçou o lado do pescoço.
Isso…
A expressão de Aoife mudou enquanto franzia os lábios.
‘Isso está ficando fora de controle.’
“Você precisa fazer algo sobre isso,” disse Evelyn, seus olhos pousando sobre a criança curvada. Ela não parecia diferente de uma viciada lutando contra seus próprios demônios.
“Você acha que eu não sei?”
O estado atual de Theresa era preocupante.
Sem as transmissões do ‘Homem Justiça’, Theresa entrou em espiral em um lugar sombrio. Ela agora lembrava um gato selvagem, pronto para atacar qualquer um que ousasse chegar perto demais.
“Meu… precioso.”
“??”
De qualquer forma…
“O que vocês acham que vai acontecer agora que vencemos?”
Aoife perguntou de repente, virando sua atenção para Leon, que havia ficado quieto, encarando a janela o tempo todo.
“Hm?”
Como se percebesse que ela estava falando com ele, ele piscou os olhos antes de responder,
“Não sei. Eles provavelmente nos contarão depois.”
“Já se passaram várias horas desde as lutas.”
Aoife checou a hora.
Três horas exatamente.
“Sei lá, pra ser honesto.”
Leon deu de ombros.
“Eu diria que eles provavelmente estão discutindo entre si agora. Vamos saber em breve.”
“Acho que é justo.”
Considerando quanto tempo a última reunião havia se arrastado, isso até que fazia sentido. De qualquer forma, eles haviam provado sua força. Agora, cabia a eles cumprirem sua promessa.
Ela já havia enviado uma mensagem de volta para a Academia. Eles viriam buscá-los em breve.
Era por isso que ela não estava excessivamente preocupada com a segurança deles.
Tok—!
De repente, uma batida ecoou pela sala, e todos os olhos se voltaram para a porta.
“Eles chegaram?”
Enquanto todos ficavam tensos e se preparavam para se mover, a porta se abriu, revelando um par de olhos avelã.
Atordoados, ninguém falou uma palavra, ficando paralisados no lugar, incapazes de reagir à sua aparição repentina. Havia algo nele que parecia diferente do passado.
Ele era forte, todos sabiam disso.
Na verdade, ele era provavelmente o mais forte em toda a sala. No entanto, o atual dele parecia diferente do passado. Sua presença por si só quase parecia sufocante.
‘O que aconteceu?’
‘…Ele ficou mais forte de novo?’
O pensamento fez as expressões de alguns mudarem.
“Hmm.”
Alheio aos pensamentos deles, Julien escaneou a sala, seu olhar caindo primeiro em Leon, e depois nos outros.
Todos estavam olhando para ele com a mesma expressão atordoada e confusa.
Ele coçou a nuca.
“Imagino que vocês perderam.”
Julien fechou os olhos e balançou a cabeça.
“…Isso é decepcionante, honestamente.”
Suas palavras apenas aprofundaram o mutismo, deixando os cadetes já pasmos totalmente sem palavras.
“Por outro lado, também é minha culpa por ter perdido.”
Não tinha jeito. Problemas simplesmente adoravam encontrar um caminho até ele.
Sentando-se ao lado de Leon, Julien olhou para ele e balançou a cabeça.
“Estou mais decepcionado com você, honestamente.”
Um ponto de interrogação surgiu sobre a cabeça de Leon enquanto seu rosto mudava de uma forma que parecia dizer, ‘O que eu fiz?’
Então ele entendeu, e sua expressão caiu.
“Deixa eu adivinhar, perdi valor de mercado? Você está decepcionado porque perder significaria que eu perco valor de mercado, certo?”
“….”
Julien inclinou a cabeça para trás, parecendo surpreso.
Ele estava prestes a falar novamente quando Leon o interrompeu.
“Como eu sei?”
Mais uma vez, Julien pareceu surpreso.
Leon estava lendo completamente sua mente.
“É porque você é previsível. Tudo que você faz é reciclar suas piadas e insultos antigos. Você não é original, e eles estão ficando velhos.”
“….”
A sala ficou silenciosa então, todos os olhos se voltaram para Julien, que piscou os olhos.
Sentindo o olhar de todos, Julien franziu os lábios e desviou o olhar, seu rosto parecendo indiferente.
Ele parecia completamente inabalável pelas palavras de Leon.
Uma pena que eles não pudessem ver sua visão.
∎| Nível 4. [Tristeza] EXP + 0,2%
…Ou o sutil tremor de seu lábio inferior.
- Goat é assim mesmo[↩]

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