Capítulo 94 - O Lado Humano do Abismo
Longe do silêncio ensurdecedor da anulação, o mundo real seguia o seu curso em meio aos estilhaços.
O veículo da Torre, cujo era dirigido pelo agente Nahome, e que levava Amanda para longe do depósito, se afastou do caos do extremo sudeste da Grande São Paulo, rumando para o centro da capital paulista.
Estavam na rodovia. A noite era escura e fria, com nuvens pesadas e carregadas. Uma chuvinha fraca e constante caía, e os faróis dos poucos veículos que ousavam desafiar o clima cortavam o asfalto molhado. O vento assobiava forte na lataria, e o som dos grilos, amplificado pela quietude da noite, era a única trilha sonora de um mundo que ainda não havia desabado completamente.
Amanda estava em um estado catatônico, desnorteada. Os olhos estavam fixos, cabisbaixos, com as olheiras profundas e a maquiagem borrada. O cabelo, antes bem arrumado, estava descabelado, e as roupas, amassadas e levemente tortas, carregavam o cheiro acre da pólvora e do medo.
Ela não falava. Não se movia. Apenas existia no banco de couro, um peso morto de trauma e solidão.
Nahome, por sua vez, permanecia como uma estátua de foco e controle. O cigarro, não aceso, balançava entre seus lábios, ressoando como uma âncora de hábito na tempestade. De vez em quando, seus olhos buscavam de uma maneira lateral, encontrar e fintar Amanda em um rápido escaneamento profissional, antes de retornarem à escuridão da estrada. O silêncio era tão denso que parecia preenchido de almas gritando.
— Você está planejando me levar para onde? — O tom de Amanda era monótono, sem vida, quebrava o silêncio com a voz de quem já havia aceitado a sentença.
Nahome tragou o ar, apertava o cigarro com os lábios, mas não o acendeu. Ele esperou um momento, deixando o silêncio engolir a pergunta antes de responder, para que ela soubesse que ele a estava processando, não a ignorando.
— Não se preocupe com a localização. Concentre-se no presente.
— Que presente? — Com certo escárnio amargo, Amanda questionou. — Meus pais estão mortos. Decapitados. Meu mentor, Rick, está morto. Meu chefe, Alex, está morto. Minha vida profissional virou pó. Que presente sobrou para eu me concentrar?
— O fato de você estar viva. E apesar de tudo, o sol sempre volta. Ele aparecerá no céu novamente em algumas horas.
— Eu perdi tudo… Eu estava me virando. Tinha planos. Eu era uma advogada iniciante, tentando fazer a diferença no escritório do Alex. Era uma crise, mas eu ia sobreviver. Meus pais me apoiavam. E agora… eles se foram.
Nahome apertou o volante, sentia a tensão vibrar na ponta dos seus dedos. Ele reconheceu a dor e sabia que a tentativa de bloqueio emocional não funcionaria. A catarse era necessária. Ele precisava que ela falasse.
— Então conte-me sobre eles.
Amanda soltou uma risada que era mais um soluço seco — Contar o quê?
— Sobre seus pais. Eu pouco os conheci. Por que não me conta como eram?
Ela abaixou a cabeça, encarando os seus pés sujos e sentindo sua consciência se entregar às palavras profundas e sinceras que viam sobre as raízes de sua vida – seu pai Hilário, e sua mãe Fathma.
— Meu pai era um professor de história aposentado que amava café forte e xadrez. E minha mãe era uma cozinheira de mão cheia, que me ligava todos os dias só para perguntar se eu tinha almoçado. — Da boca dela, as palavras saíam como pedras pontiagudas, pesadas e melancólicas. — Eles eram… a minha âncora. O meu porto seguro. Eu era filha única e uma esperança para eles…
O silêncio retornou. E o experiente agente, calmo, Nahome puxou o cigarro dos lábios, enrolando-o entre os dedos, e finalmente olhou para ela, fixando-a por mais tempo.
— Você estava muito ligada ao Alex, seu chefe?
— Ele era o melhor, apesar de estranho… Com ele, eu poderia crescer muito. Mesmo que eu discordasse de algumas coisas que ele fazia, era próximo dele que o meu propósito profissional estava.
— E esse propósito valeu a vida dos seus pais? — O olhar direito de Nahome, que lateralmente encarava Amanda, em um estado inquisitivo estava.
Amanda estremeceu. O corpo dela encolheu no banco — Não… Não. Isso é sujo. Eu… eu não sabia. Eu juro que eu não sabia que tudo isso poderia acontecer comigo. Que eu estaria ao lado de agentes da Torre, portadores…
— O sucesso tem um preço, Amanda. Sempre tem. Seu mentor, Rick, nunca lhe disse nada parecido? E às vezes, esse preço é pago por quem não deve. — Nahome soltou o volante, deixando o veículo seguir reto na estrada, enquanto ele procurava por um isqueiro nos arredores internos do carro. — Seu pai, Hilário, ele parecia um homem de princípios. E sua mãe, Fathma, uma mulher de afeto. Eles não queriam esse mundo para você.
Ela colocou as mãos sobre o rosto, e o choro, que parecia exausto, reacendeu com fúria. O corpo dela sacudia com os soluços.
— Eles não queriam! Eu sei! — Ela gritou, agudo e desgastado. — Eu sinto tanta falta! Eu só queria que eles estivessem aqui para me dizer que vai ficar tudo bem! Que eles me perdoem por ter escolhido um caminho tão egoísta! Eu… Eu não consigo.
O carro acelerava pela rodovia deserta. Nahome viu a silhueta da Ponte Constante Sarti se aproximando, o ponto de parada que ele havia traçado.
— Não consegue o quê?
— Continuar… Continuar acordando todos os dias para ir a um escritório que talvez nem exista mais, sem pais, sem um mentor. Não faz sentido mais.
Nahome, finalmente, pisou no freio, parando o veículo no acostamento de um posto de gasolina e um pequeno complexo de estabelecimentos no início da Ponte Constante Sarti, na entrada para Demarchi, ao extremo sul da Grande São Paulo. A chuva lá fora havia ganhado intensidade, batendo forte no para-brisa. Ele girou o corpo para trás, encarando Amanda, e tirou o cigarro molhado da boca.
— Olhe para mim, Amanda. — Nahome virou-se totalmente para a Amanda.
Ela levantou os olhos vermelhos e inchados para ele.
— O sentido da sua vida nunca esteve no propósito profissional que você imaginou trabalhando para o Alex. Nem no amor dos seus pais. O sentido é uma escada mais metafísica, e nunca esteve perto de ninguém aqui. Você é jovem, e assim como a maioria, ainda acredita que pode criar algo que te torne alguém compreensível, ou até que sua vida faça sentido… Mas nenhuma das duas coisas está definitivamente nas suas mãos, não percebeu? Se isso fosse real, quem no mundo escolheria ser mal visto sequer por um segundo? Quem escolheria ser odiado? Se tivéssemos realmente o controle sobre o fato de termos conceitos e significados em mãos, todos seriam perfeitos, porque ninguém em sã consciência escolheria o contrário.
Ela atônita em lágrimas estagnadas estava, e continuava a ouvir Nahome.
— Você perdeu o seu caminho? Não sabe, porque simplesmente não existe resposta plausível para isso. Se tanto considera pleno o amor que sente por seus pais, e como extensão disso, sente que deve honrá-los, e ainda por cima acredita que o metafísico nasce do que você busca ou pensa… Então o que acha que seus pais querem que você faça, se não viver e ser feliz?
— Mas eu… Não consigo… — Amanda levou suas mãos ao rosto e caiu no choro sobre eles.
Ela ficou em silêncio. Tudo aquilo pareceu tocar um nervo dormente.
— Eu não… Não sei.
— Eu sei que vai entender em algum momento. Reconheço que não é algo tão fácil de ser compreendido tão rapidamente.
— Vou encher o tanque e comprar umas coisas. — A voz de Nahome era baixa, grave. Ele não estava pedindo permissão, estava apenas informando. — Você quer alguma coisa? Café, talvez?
Amanda piscou. Seus olhos castanhos, outrora cheios de vida juvenil e curiosidade, agora pareciam mais como duas lagoas congeladas sob a pressão de uma tragédia. A cabeça estava ligeiramente inclinada, e sua nuca não parecia ter força o suficiente para segurar o peso daquele olhar. Ela parecia ter esquecido como respirar.
— Água… — A palavra saiu arrastada demais. Ela pigarreou. — E uma barra de chocolate. Qualquer uma.
— Certo. Fique no carro.
Ele saiu, fechou sua porta. Através do automático, ele subiu todos os vidros, trancando as portas. Um ato de proteção profissional, de quem não confiava na estabilidade mental de sua passageira.
Nahome foi até a bomba de gasolina e pediu ao frentista que colocasse R$100 para encher o carro. Enquanto o frentista trabalhava sob a marquise, Nahome correu para o estabelecimento. Lá dentro, ele foi aos refrigeradores, pegou duas garrafas d’água mineral, e ao se dirigir ao balcão, pegou uma barra de chocolate de alto teor e, por fim, um isqueiro novo.
No veículo da Torre, no entanto, Amanda encarava sem piscar a vista pelo vidro da frente.
A Ponte Constante Sarti, imponente e úmida, estendia-se à sua frente. As poucas luzes pareciam isolar mais aquele cenário, quase irreais. Ela estava ali, no ponto de transição entre o inferno e a metrópole, mas não conseguia sair do limbo. A chuva, que só aumentava, afundava mais aquela região em um aprofundamento na contrastação entre rodovia, ponte e áreas florestais,
O rosto dos pais, Hilário e Fathma, voltou à sua mente. O sorriso de sua mãe ao fazer a sua comida favorita. A voz calma de seu pai a ensinando a ler clássicos. As memórias futuras, agora não vividas, encheram-na de uma saudade e tristeza lancinantes. Ela abaixou a cabeça, sendo este um gesto de rendição, chorando. A solidão a engoliu no banco de trás, e o aperto no coração era insuportável.
Todos os bons pensamentos e propósitos coesos que Nahome tentou incutir foram varridos por uma onda de desespero que era forte demais. Amanda foi engolida por prantos fortes e cheios de choro.
— Não… Não posso…
Em um rompante, o descontrole tomou conta. Ela começou a chutar o vidro do seu lado, o do passageiro da frente, com uma fúria selvagem, tentando quebrar o vidro. O impacto dos chutes aumentava gradativamente. No meio do ataque histérico, ela se virou ligeiramente para a esquerda e mexeu no porta-luvas.
Seus dedos encontraram a textura fria e familiar de uma arma. Uma pistola 12mm de backup dos agentes…
Com a arma em mãos, o desespero se traduziu em força. Ela aumentou os chutes com mais violência. CRASH! O vidro estilhaçou, mas não de forma limpa, deixando mais espaços quebrados nas partes de baixo e no meio.
O frentista, que estava terminando de abastecer o carro, ouviu o barulho de vidro quebrando. Ele se virou, tentou ver o que havia ocorrido, mas o teto do posto e a chuva forte o impediram de ter uma visão clara. E, sendo um civil precavido na noite e, extremamente próximo do sudeste da Grande São Paulo, ele não quis se molhar nem arriscar a curiosidade.
O frentista ouviu, então, a porta do carona ser aberta.
Era Amanda.
Seu braço esquerdo inteiro estava ensanguentado e cortado pelos pedaços de vidro que ela havia atravessado para abrir a porta. O sangue escorria em meio a água da chuva que já entrava no carro. Com a pistola 12mm na mão direita, a arma fria e letal que seria o seu fim, ela começou a correr.
Ela correu para longe do posto, em direção à via expressa que passava por cima da ponte.E lá dentro do estabelecimento e pagando as compras, Nahome foi chamado a atenção pelos gritos dos frentistas e dos demais motoristas assustados.
— Ei! O que está acontecendo?! — A atendente perguntou para Nahome, ao mesmo tempo que tocou no antebraço direito dele.
Ao perceber a agitação, Nahome soltou o isqueiro novo no balcão e saiu correndo do estabelecimento. Seus olhos profissionais e frios analisaram a cena em um microssegundo.
Ele viu Amanda.
Ela estava atravessando a rodovia da ponte, quase sendo atingida por uma van que passou buzinando. A van freou bruscamente, deslizando no asfalto molhado. Mas ela conseguiu chegar ao outro lado, mancando. As duas pernas pareciam estar com fortes dores devido aos chutes violentos, mal conseguindo sustentá-la. Nahome notou a pistola 12mm em sua mão direita.
— Amanda! Parem o carro! PAREM! — Nahome gritou, gesticulando para os carros.
Ele correu ligeiramente para a via, arriscando a própria vida para atravessar o fluxo caótico de veículos. Chegando à calçada oposta, ele correu para se aproximar dela, que estava agora encostada no último cerco de concreto da ponte, antes do vão e da queda livre.
A chuva era absurda, não cessava, apenas aumentava, transformou a rodovia em um rio lamacento.
— Amanda! Solte a arma! — Nahome a passos lentos, tentava se aproximar sem assustar. — Eu sei que dói. Mas não complique as coisas.
Centenas de pessoas pararam seus carros e motos, saindo em meio à chuva para assistir e, ingenuamente, tentar “ajudar”, falando um por cima do outro.
— Moça, não faça isso! Pense na sua vida! — Um motoqueiro implorou.
— Calados! SILÊNCIO! — Nahome trovejou, virando-se brevemente para a multidão, que recuou em choque, entendendo a autoridade do seu tom.
Ele voltou-se para Amanda, que tinha as costas grudadas no concreto úmido. Seu braço esquerdo sangrava livremente, a chuva lavando o ferimento.
— Amanda, por favor. O seu luto é real, mas a sua vida é um recurso precioso. Não gaste isso! Solte a arma! Vamos conversar!
Amanda não respondeu. Seus olhos castanhos, vazios de qualquer brilho, estavam fixos em Nahome. Uma lágrima final, não mais de dor, mas de decisão, escorreu pela bochecha. O semblante dela era de uma alma que havia sido quebrada em pedaços e não via mais razão para continuar.
Lentamente, Amanda levantou a arma.
Ela a levou à própria têmpora, o cano frio em contraste com sua pele ensanguentada. O som do clique seco ecoou por sobre o rugido da chuva, mais alto que a voz de qualquer motorista ou do próprio Nahome.
CLICK! Nada saiu. Nada foi disparado. A arma não tinha munição na câmara. Uma falha de protocolo de Nahome, que mantinha as armas de backup descarregadas por segurança, mas que agora se revelava um milagre irônico.
Amanda ficou em choque. A pistola caiu cerca de um metro, batendo no chão. Seus olhos arregalaram-se em total confusão. Ela olhou para a arma, para a própria mão. O destino, ou a sorte, a havia negado em seu último pedido.
Nahome, vendo a janela de oportunidade, partiu como um raio para cima dela, na tentativa de surpreender e agarrá-la, tirando-a de qualquer risco de impulsividade.
“AMANDA!”, mas Amanda, que estava nervosa, em choque, com as pernas doloridas, reagiu instintivamente. Ao ver Nahome partindo em sua direção, o susto a fez tentar dar uns passos rápidos para trás, instintivamente, como um reflexo de quem está sendo acuado.
Sem forças nas pernas, sem sustentação na dor, ela não se equilibrou direito. Seu pé esquerdo pisou no vão, o espaço vazio no cerco da ponte, projetado para esvaziar a água.
A perda de equilíbrio a levou de vez.
O corpo dela se inclinou para trás, a outra perna logo a acompanhando. Nahome, em um movimento desesperado, encaixou sua mão direita no antebraço direito de Amanda. Mas os dois estavam inteiramente molhados, a chuva intensa havia transformado a pele em sabão. O atrito era zero.
O aperto escorregou…
Amanda caiu ponte abaixo, gritando. O som da voz, vasta, de uma alma inquieta e desamparada, foi abafado pela distância e pela água agressiva do rio que corria rapidamente lá embaixo.
O grito cessou.
A frente dessa cena, Nahome acabou deitado. De barriga para baixo, seu rosto no vão da ponte. Seus olhos estavam fixos, recaídos na queda dela e no fim de seu grito ao tocar a água. Ele ficou estagnado, sem reação. Ele permaneceu assim por minutos. A chuva batia na nuca, escorrendo em seu colarinho. O cigarro, ainda molhado, estava em seus lábios, agora uma pasta úmida de papel e tabaco. O cheiro de seu próprio cigarro era a única coisa que ele sentia.
Lentamente, um civil o puxou pelo ombro, ajudando-o a se levantar. O caos da multidão correndo e ligando para a polícia era ensurdecedor, mas Nahome estava em um estado de silêncio profundo.
Ele se levantou. Em silêncio, o cigarro molhado desintegrou-se gradativamente, caindo pedaço a pedaço no chão, sob o peso da água e da gravidade. Ele atravessou a via inteiramente parada, cheia de carros, motos e pessoas. De volta ao posto de gasolina, Nahome ignorou o frentista, que perguntava se ele estava bem, o que havia acontecido e o que deveria fazer com o tanque cheio e as compras. Nahome apenas abriu a porta do motorista, entrou e a fechou, novamente.
Ele manteve os vidros fechados, olhando para o para-brisa. Ele não chorava. Não tinha a cara de choro. Era uma lamentação velada, e o sentimento, ao mesmo tempo empático e apático estava com um peso do fracasso profissional e da inevitabilidade do destino humano. Ele havia falhado em estabilizar, em proteger e, o pior, em converter a dor e instabilidade de Amanda, em calma e razoabilidade mental para uma pessoa que não podia ser razoável nesse momento…
Ele ligou o carro. O único som era o do motor silencioso e do limpador de para-brisa lutando inutilmente contra o dilúvio que caía sobre a região. Um agente experiente, grisalho, compreensivo, não havia vencido — salvar uma vida —, este era um fracasso que podia destruir alguém, mas ainda não… Apesar de doloroso, era mais um erro que não poderia derrubar alguém como Nahome.

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