Este é o último capítulo do Arco dos Ratos.
Capítulo 95 - Nahome & Koji: O Preço da Inevitabilidade!
O sol não voltou como uma promessa… Ele não irrompeu no céu da Grande São Paulo com o júbilo prometido por Nahome, e sim se esgueirou por entre as nuvens ainda pesadas, pintando a manhã com um cinza sujo e pálido, que tornava a realidade mais dura, não mais branda. A luz fraca e difusa revelava, sem piedade, a extensão do desastre.
Horas depois do salto final de Amanda da Ponte Constante Sarti, o local havia se transformado em um formigueiro de atividade sombria. A rodovia, que na noite anterior havia sido um palco deserto para o drama e o desespero, agora fervilhava com a burocracia do trauma. Viaturas da Polícia Militar se misturavam aos veículos discretos, porém imponentes, da Torre. Agentes-humanos, com jaquetas escuras e semblantes impassíveis, circulavam com a eficiência fria de quem estava ali não para lamentar, mas para mitigar o vazamento. A falha de protocolo era palpável, um cheiro que se misturava ao diesel e à umidade ácida do asfalto.
Equipes de busca do Corpo de Bombeiros já haviam estabelecido seu perímetro. Sob as instruções firmes e distantes dos agentes da Torre, eles desdobravam botes e cabos, desafiando a correnteza traiçoeira do rio Pinheiros que corria lá embaixo. O volume de água, inflado pela chuva torrencial da noite, tornava a busca por Amanda uma tarefa quase fútil. Era o rio, agora um predador veloz e lamacento, que havia engolido o corpo, levando-o para longe, transformando a vítima em um fantasma sem sepultura. O cheiro era de terra revolvida, de orvalho pesado e de um cansaço institucional que ultrapassava o individual. Nahome não estava mais ali. Seu veículo danificado, o para-brisa quebrado pela fúria de Amanda sendo um lembrete físico do seu erro, havia sido discretamente removido.
Naquele momento, mais longe, mas não menos carregados, o agente Nahome e o jovem Koji seguiam em uma travessia silenciosa.
Eles estavam nos bancos de trás de um veículo preto e blindado da Torre, um sedã imponente cuja suspensão parecia absorver as irregularidades da estrada com uma serenidade quase insultuosa. O veículo, agora dirigido por um agente mais jovem e mudo, que parecia um espectro de foco à frente, singrava pela longa Rodovia Anchieta. Rumavam para o centro expandido da capital paulista, em direção à Unidade Secundária-Municipal da Torre, na Barra Funda – o lugar onde o luto e o fracasso seriam depositados para serem processados em relatórios frios.
Koji estava junto à janela, encostado na porta de couro escuro. O cabelo escuro, normalmente indomável, estava levemente úmido pela névoa da manhã, mas seu olhar estava totalmente seco. Não havia lágrima, nem tremor. Havia apenas uma rigidez fria em sua mandíbula e um fogo lento, subterrâneo, consumindo o tecido de seu autocontrole. Ele não olhava para a paisagem como quem a admira, mas como quem a atravessa, sendo atravessado por ela. Os barrancos verdes e cinzentos da rodovia, as carcaças de veículos abandonados à beira do asfalto e as grandes placas de publicidade desbotadas passavam pela sua visão periférica como flashes insignificantes, fragmentos de um mundo que insistia em seguir, alheio à sua dor.
Koji sentia raiva. Uma fúria que não era mais explosiva, mas metastática, se espalhando pelas veias, transformando o sangue em ácido. Era a raiva que nascia da repetição; a constatação amarga de que, não importa o quão forte ele se tornasse, o quão perto ele estivesse do centro de poder, o destino – a anulação, o desespero, a morte – sempre lhe roubava as peças do xadrez. A catarse de Amanda, seu grito final na escuridão, não havia sido um evento isolado, mas mais um martelo atingindo a sua alma já estilhaçada. Ele não se sentia apenas frustrado; sentia-se quebrado de uma forma familiar, como um osso que cura torto, só para quebrar de novo no mesmo lugar.
Ao seu lado, Nahome mantinha a postura de uma estátua de granito. O agente grisalho estava sentado com as costas retas, a cabeça ligeiramente inclinada, os olhos fixos em um ponto invisível no horizonte à frente, para além do vidro blindado do para-brisa. Ele emanava uma calma que Koji reconhecia como a mais perigosa das anestesias: a maturidade do sofrimento. Ele não podia se dar ao luxo da fúria jovem e vingativa de Koji.
O silêncio era uma câmara de eco, onde o único som audível era o zunido suave dos pneus no asfalto molhado e, para Koji, o incessante tamborilar do seu próprio sangue nas têmporas, inflamado pela injustiça. Os dois agentes da Torre, separados por uma geração de trauma e experiência, observavam as paisagens que a velocidade do carro transformava em borrões irrelevantes. E finalmente, Koji moveu-se. Foi um movimento sutil, apenas a rotação de seu pulso que permitiu que seus olhos se fixassem em Koji, não de forma inquisitiva, mas como quem busca um espelho. Ele hesitou, apertando as pontas dos dedos no estofado macio, antes de permitir que o ar pesado e denso do silêncio se partisse.
— Ainda não se acostumou? — A voz de Nahome era baixa, grave, e cheia de uma textura que só a experiência forja. Não era uma pergunta, mas uma constatação, um convite para o abismo.
Koji não virou a cabeça. Ele continuou a encarar a rodovia, a linha interminável de concreto correndo sob a carroceria. Sentiu o olhar do agente sobre si, um peso conhecido, e respondeu com uma lentidão que enfatizava o desgaste de sua alma. A voz de Koji saiu rouca, quase uma areia movediça de frustração e amargura.
— Nem com a morte, nem com o fracasso.
Nahome inclinou a cabeça — Você está aprendendo a lidar com a morte, Koji. Ela é uma constante, é o ponto final, o único conceito honesto que essa realidade nos oferece. Mas o fracasso… o fracasso é uma variável que insiste em se repetir. Ele é o verdadeiro mestre da nossa profissão. Achei que a anulação forçada de Rick, a quebra de contrato, tivesse te dado uma casca mais resistente para isso. Você ainda permite que a fúria tome conta de você. Isso é um luxo que só os civis podem pagar.
Koji soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor, um som áspero que ecoou no interior blindado do carro. Ele finalmente girou o rosto, mas apenas o suficiente para que Nahome visse o perfil duro e a linha tensa do seu pescoço.
— Casca? O que há de resistente nisso, Nahome? Sentir a dor e fingir que não dói? Aceitar que pessoas como Amanda, que estavam apenas tentando se encaixar na teia de aranha do Alex, acabam jogadas no rio como lixo? O fracasso dela é o nosso…
— Esse é um limite… Hilário e Fathma era um peso físico para ela, e não metafísico. Eu tentei apelar para o ‘propósito’, para a ‘honra’ dos pais, para a ‘metafísica’, porque é a linguagem que nós falamos. Mas para ela, naquele momento, a realidade era um cano de 12mm na têmpora. A razão dela já havia sido destruída pela pólvora e pelo sangue. Eu atrasei o inevitável com palavras, mas nunca que eu poderia salvá-la…
— E essa inevitabilidade te conforta? O fato de que você fez o que pôde dentro do seu script, e que a culpa é do destino, te permite seguir adiante?
— Maturidade… Esta é a palavra, talvez. Você vê isso como uma quebra na sua crença de que podemos proteger os inocentes, e eu entendo. Mas isso não altera algo… Que nossa função primária na Torre é estabilizar o tecido da realidade. Meu trabalho era contê-la, convertê-la ou, no pior dos cenários, neutralizá-la sem causar mais caos. O suicídio dela foi caótico, foi público, foi uma falha profissional no quesito ‘discrição’, mas moralmente… Koji, moralmente, ela estava perdida desde o momento em que se aproximou de Alex.
— Ela era uma advogada iniciante! Ela estava tentando trilhar a carreira dela, como você disse. Acho que você só está se apegando a um pensamento seu que nem existe.
— Olha, eu não descarto isso. Mas qual é o preço da diferença no nosso mundo?
— Eu não faço ideia…
— O preço é o abandono da normalidade. Alex, Rick, eu, você… nós abraçamos o caos, o poder. Amanda apenas flertava com ele, e o caos a mordeu. O que nos diferencia é que nós assinamos um contrato para sermos mordidos. Ela não. A ingenuidade é a maior das fraquezas em nossa esfera de atuação.
Nahome desviou o olhar de Koji e voltou a fixar o horizonte. Os contornos da paisagem da Anchieta, começando a se tornar mais industrial, refletiam o contraste com a solidão da noite anterior.
— Quando você questiona o porquê de eu conseguir seguir, você está questionando a natureza do nosso trabalho. Nós somos o filtro. Absorvemos a dor para que o mundo lá fora não precise senti-la. Mas há um custo para o filtro. E esse custo é a nossa capacidade de nos chocarmos. Eu não sinto a fúria que você sente, porque a fúria é uma emoção que exige energia e esperança. Eu só sinto a lamentação velada, a tristeza profissional de quem vê um recurso precioso — a vida humana — ser desperdiçado.
— E o que é que isso diz? — Koji insistiu, voltando-se para Nahome, agora o corpo inteiro girado em sua direção, com os olhos escuros e fixos no rosto do mais velho. — Você se tornou um autômato da Torre? Alguém que mede o valor de uma vida pela sua utilidade para o status quo? Você não sentiu nada quando o aperto escorregou e ela caiu?
A pergunta acertou Nahome com a força de um soco no diafragma. Ele fechou os olhos por um momento, e sentiu a tensão na mandíbula se acentuar, e antes de abrir novamente, revelou um brilho melancólico e maquiado.
— Senti o cheiro de sabão no meu antebraço, Koji. Senti a chuva fria batendo na minha nuca e a dor lancinante da falha técnica. Senti, e sinto, o peso do fracasso, não o moral, mas o de não ter conseguido cumprir a missão. Você quer que eu chore? Quer que eu grite, como ela? Isso a traria de volta? Isso faria o rio entregar seu corpo? Não. Nada que podemos sentir ou forçar a sentir, faz diferença…
Nahome se ajeitou no banco, aproximando-se ligeiramente de Koji. E seu olhar era agora de mentor, de alguém que tenta transmitir uma lição brutal.
— O que te quebra, Koji, é a sua teimosia em acreditar na singularidade do trauma. Você acha que essa dor, essa raiva, é nova. E simplesmente não é. Ela é o mesmo ciclo. Você perde alguém por quem se importa, a causa da perda está ligada à Torre ou ao nosso mundo de poderes, e você se culpa por não ter sido rápido, forte ou esperto o suficiente. É o que aconteceu com Alex, com Rick, com sua família, e agora com Amanda. Você internaliza a falha de cada um como se fosse a sua própria. A própria morte no nosso mundo é interligada à essência dos humanos serem fracos, e dos portadores se colocarem em risco.
— Mas é a minha! — Koji irrompeu, batendo a mão espalmada, porém controlada na coxa. — Eu sou um agente-portador da Torre, Nahome. Eu tenho o poder de…
— O poder de quê? — Nahome interrompeu, com a voz firme e cortante. — A diferença entre nós é que eu aprendi que o maior fracasso de um agente é permitir que a falha profissional se torne uma falha pessoal. Se você internalizar cada perda como sua, você se anula de dentro para fora. Você se torna inútil para a Torre, e inútil para si mesmo. Você se tornará um fantasma, Koji.
Koji absorveu as palavras e mastigava a dureza da verdade contida nelas. Ele não podia negar a lógica fria de Nahome, mas a aceitação parecia um crime contra sua própria humanidade.
— E como é que você faz isso?
Nahome sorriu levemente, um movimento quase imperceptível nos lábios, um sorriso que não era de felicidade, e sim de uma profunda e antiga ironia.
— A náusea é o preço da consciência. E a consciência é o único recurso que não podemos perder. Se perder, como os humanos normais, que se tornam frequentemente em seres inconscientes, vão encarar você, o pilar que eles amam venerar. Eu nunca vi o sentido da vida em nada que possa ser tocado, que possa ser perdido, ou que possa ser criado por mim… No caso da Amanda, o propósito dela era trabalhar com Alex. Ele morreu, e o propósito dela ruiu. O propósito dos pais dela era vê-la feliz. Eles morreram, e o propósito dela se tornou impossível de realizar.
Nahome inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos em um gesto mais íntimo e revelador do que qualquer confissão.
— O sentido é uma coisa tão vasta, tão incompreensível, que jamais pode estar contido na opinião de um pai, no sucesso de um chefe ou na eficiência de um agente. Se eu atrelasse minha razão de viver a salvar você, e você caísse, eu cairia com você. E o mundo precisa de filtros.
O carro saiu da Anchieta, asfalto liso sob uma rampa que os levava para o caos urbano e denso de São Paulo. A paisagem de concreto e vidro começava a dominar a vista, uma floresta de ambição e indiferença.
— Então, o que é que nos resta?
— Resta o dever. Ele é a melhor âncora que funciona na tempestade, porque ele não depende de amor, de sucesso, nem de felicidade. Apenas da sua vontade de continuar se movendo. Seus pais te amaram? Cumpra o dever de honrar esse amor, não morrendo por ele, e somente vivendo apesar dele.
— Eu não consigo desligar o ódio, Nahome. Não consigo aceitar a paz profissional que você aceita.
— A raiva… A raiva é o que te mantém quente, e não significa algo ruim. É o que impede o frio da Torre de te congelar completamente. Não a desligue, nunca. Mas você precisa controlá-la. O momento em que você permitir que essa raiva te consuma, ela te tornará tão caótico quanto a própria anulação. E então, você terá perdido tudo. Você se tornará apenas mais um nome em uma linha de relatório que eu terei que assinar.
Koji não respondeu. Ele fechou os olhos, sentiu o tremor da fúria sob a pele, e internamente, lutava para reprocessar a dor através do prisma impessoal de Nahome. O agente mais velho havia lhe dado uma arma, mas essa arma era feita de aceitação e dever, e praticamente nunca de vingança.

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