Capítulo 77 - Interior de Yothergran
O sol radiante transmite alegria para todos, mas nesse lugar onde a flora possui uma escala surreal, poucos são os feixes celestes que ultrapassam pelas folhas e galhos. Ao longo do tempo, a floresta de Yothergran sofreu uma mutação: a maior parte de sua luz passou a vir de musgos, fungos e poeira brilhante expelida por essas criaturas. De vez ou outra, cristais brilhantes de variados tamanhos surgem pelo chão, mas eles são ocultos pela grama chegando a vários metros de altura.
Então, a única opção viável para transitar nesse ambiente magnífico, mas extremamente perigoso, é através das raízes aéreas. Elas se emaranham formando labirintos infinitos de túneis e trilhas que se estendem pelo horizonte.
Em um desses caminhos, o grupo de Raisel segue à todo vapor.
一 Tejin, como você sabe que estamos no caminho certo para Kanthen? Já se passaram horas e… tudo parece igual. 一 olhando para os arredores, o garoto só tem a opção de confiar plenamente nele para chegarem à algum lugar.
一 Pelo barulho do vento. Sou um meio-elfo, esqueceu? 一 em grandes saltos, o comerciante os lidera guiando o caminho.
一 Você também consegue ouvir esse “barulho do vento”, Jeanice? 一 olhando para trás, Raisel observa a mulher de cabelos negros.
一 Sim, consigo. O fluxo do vento parece diferente nessa direção… 一 parece um pouco cansada pelo ritmo por mais que estivesse propositalmente lento.
一 A audição de vocês é coisa de outro mundo mesmo… 一 direciona o rosto para frente, voltando a encarar as costas de Tejin.
O alquimista loiro, sendo o último da fila, vem a pigarrear para chamar a atenção dos demais.
一 Hmrm…~ Pode parecer incompreensível, mas não é tão difícil de entender assim, Ray. O ar vibra o tempo todo. Os elfos e os meio-elfos conseguem decifrar essas vibrações como se estivessem mapeando tudo o que se choca contra o vento. Por isso, eles raramente se perdem.
一 Então é como se eles tivessem um “Domo Sensorial” ativo o tempo todo? 一 arqueando uma das sobrancelhas, ficou um pouco mais claro como que eles estão se guiando nesse breu.
一 Tipo isso… Esperem. 一 o meio-elfo bruscamente interrompe a viagem. 一 Senti algumas criaturas mais pra frente. Vou tentar identificá-las.
Raisel pousa logo atrás dele, seguido por Jeanice e Kimich.
O rapaz ajeita o sabre negro na cintura. Apreensivo, deveria expandir o seu Gewissen para ajudar na identificação, mas assim que ele começa a aflorar sua aura para fora, alguém segura o seu ombro.
一 Sossega, Ray. Somos humanos… se expandirmos nossa energia aqui, a floresta vai nos ver como intrusos… E aí as raízes vão começar a se mover, embaralhar o caminho e nos esmagar. 一 Kimich diz com seriedade enquanto balança a cabeça.
一 Entendi… E como vamos lutar sem expelir energia? 一 relaxando os braços, Raisel afasta a mão do amigo sobre o seu ombro. A mistura de diferentes aromas, pouco a pouco, irrita as suas narinas.
一 É só expelir, mas sem tocar nas árvores ou no chão. Essa seria uma boa oportunidade para saber voar. Conseguiria ir pro alto evitando todo esse desastre, mas pena que só eu sei.~ 一 cutucou a bochecha do garoto com o dedo, provocando-o.
一 Tsc… Maldita alquimia. 一 tentou morder o dedo dele caso o cutucasse de novo.
Dessa forma, ambos observam Tejin concentrado.
Da ponta de sua varinha, um círculo de Rascunho é formado. Expelindo uma espécie de fio oscilante de energia, ele serpenteia por entre as árvores até chegar no local onde sentiu os animais nativos.
一 São… Púca. Estão pilhando alguns insetos… Têm pelo menos vinte deles. 一 diz enquanto abaixa o equipamento mágico.
一 Púca? É a primeira vez que ouço esse nome. 一 coçando a nuca em desconforto pelo desconhecido, o rapaz tenta imaginar que tipo de monstro seria.
一 Eles são comuns por aqui. Eles mudam de forma e são bem maliciosos com quem não é do seu interesse… 一 começando a caminhar em direção ao grupo de criaturas, Kimich cruza os braços atrás da cabeça.
一 Você devia explicar direito. Eles detestam humanos e meio-elfos, Raisel. 一 Tejin complementa com um tom fervente em sua voz.
Ele balança a varinha algumas vezes, distribuindo minúsculos círculos de Formel à sua volta; dando-lhe a aparência de estar constantemente rodeado de partículas.
一 Jeanice, quero que você apenas observe dessa vez. Tudo bem? 一 direto ao ponto, o homem de cabelos escuros e orelhas pontiagudas está com alguma veias saltadas pelo rosto. É nítido que há algum ressentimento antigo…
一 Certo… Obrigada. 一 suspirou em alívio, ficando para trás e deixando que os rapazes tomassem a frente.
Encarando-o de soslaio, Raisel ajeita a espada na cintura. O maxilar saltado demonstra o quão tenso está ao ver Tejin desse jeito.
一 Vocês dois devem ser o suficiente pra cuidar de tudo. Eu vou ficar perto da orelhudinha caso algum venha pra nossa direção. 一 o loiro aponta para ela com o polegar e diminuí o passo.
Raisel e Tejin consentem. Em seguida, partem como vultos até os monstros.
一 Vou fazer a vanguarda por não poder usar muita energia. Você massacra eles daí, né? 一 olhando para cima, o companheiro está flutuando em cima de um disco de Formel.
一 Isso. Só tome cuidado com as mudanças de forma. Eles usam isso para fazer golpes surpresas. Embora não haja nenhuma presença forte entre eles. 一 direcionando o rosto para baixo, o menino está acompanhando a flutuação facilmente em corrida.
一 Beleza. 一 ele põe a mão direita sobre o cabo do sabre à esquerda da cintura; pronto para sacá-lo.
A diante, Raisel consegue avisar os Púca. Eles parecem humanos com pele verde bem escura e orelhas espirais, quase completamente invisíveis pela vegetação. Outro ponto curioso é que estão equipados com equipamentos rudimentares de pedra, mas instáveis como se também fossem apenas mimetizados pela sua transformação.
“Não parecem intimidadores… De qualquer forma, vai ser bom ver o quão mais forte eu fiquei!” 一 sorrindo, o garoto salta repentinamente para o alto.
Em queda, a lâmina do sabre desliza pela bainha revelando um tom preto fosco, isso traz um ressoar semelhante a uma risada aguda e demoníaca.
一 Kruk, kru kruk? 一 um dos Púca olha para o companheiro.
一 Kruk? Kruk kruk. 一 gesticulo com os ombros junto de uma negação de cabeça.
一 Kru…
Diante aos seus olhos, o amigo que havia questionado sobre ter ouvido algum barulho, é empalado na cabeça pelo sabre negro. Os lumes amarelados de Raisel encaram diretamente aquele que está à frente por uma fração de segundo. Mas o baque da perfuração em queda causa uma cortina de fumaça pela área.
一 Kruk! Kruk! 一 agitadas, as criaturas começam a circular a cratera e outras saem da poeira.
Da nuvem marrom, mais gritos desse idioma desconhecido ecoam pela área. Sem pensar duas vezes, o grupo de monstros criam arcos e bestas através de uma matéria escura excretadas da sua pele.
一 Kru! 一 a ordem de disparada foi dada.
As flechas e setas chovem por todas as direções rumo ao brilho dourado ofuscado pela poeira. Eles não param de atirar nem por um mísero instante contra o que está naquela nuvem. Mas, de repente, o número de disparos diminui…
Ao olhar para os lados, todos os Púca estão caídos na terra. Erguendo os olhos lentamente, o sobrevivente vê o feiticeiro irradiando o seu Gewissen como uma névoa fria.
一 Kruk… 一 um pingente de gelo atinge o centro de sua testa como um vulto.
E assim, o grupo de criaturas é exterminado. Da poeira dissipante, Raisel aparece ileso. Todos os projéteis lançados contra si estão no chão, desaparecendo como líquido viscoso.
一 Deu um bom exercício… 一 o rapaz desliza a lâmina de volta para a bainha.
一 Não imaginei que você pularia diretamente neles. Mas, bom, pela sua coragem que tudo terminou tão rápido… 一 Tejin está visivelmente mais leve depois de ter os matado.
一 Mandaram bem. Quanto menos trabalho pra mim, melhor.~ 一 o alquimista surge acima de uma raíz, acenando para a dupla.
O meio-elfo e o garoto entreolham-se com um sorriso, saltando para o caminho correto nesse labirinto floral.
一 Aquilo que você usou… o gelo, foi Kern, senhor Tejin? 一 com os punhos entrelaçados na altura do peito, a jovem meio-elfa o encara com admiração.
一 Sim… Se continuar praticando, vai conseguir colocar sua natureza no Formel. Assim, ele deixará de ser um Rascunho. 一 sorrindo, ele guarda o instrumento mágico na cintura; encarando o horizonte.
一 Vamos continuar? Logo mais será uma boa hora para descansar. Aqui anoitece muito mais cedo.
Eles acenam com a cabeça.
Após mais algumas horas de caminhada, a floresta não é apenas hostil. As borboletas luminescentes vagam livremente, fora de qualquer lâmpada ou gaiola. Há tantos esquilos que os troncos das grandes árvores se parecem com prédios e torres urbanos de Balmund. Os insetos desse lugar são grandes como ursos. Mas o mais maravilhoso é a mistura de luzes em meio a escuridão. A sensação é como caminhar pelo céu noturno próximo às estrelas.
De repente, as copas colossais das árvores estremecem com a brisa do vento. O farfalhar dos galhos e a queda das folhas acontecem com uma frequência inimaginável. A quantidade transforma uma simples viagem em uma batalha de resistência, onde a própria vegetação árida pune aqueles que ousam desafiar a natureza desse lugar. É uma nevasca de folhas gigantes.
一 É melhor irmos procurar algum abrigo por debaixo dessas raízes! 一 o meio-elfo se vira enquanto se segura para não ser levado para longe em meio aos fortes vendavais.
一 Concordo! Está ficando perigoso!
O capuz de Kimich se abaixa enquanto ele estende as mãos para o alto. Seu Gewissen transparente começa a envolvê-los, formando um domo perfeito flutuante e os escondendo completamente do exterior.
É a hora do prometido repouso.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.