Capítulo 80 - O Terceiro Campanário
De frente para a entrada da pousada dentro de uma grande árvore, os olhos de Raisel deslizam pelas arestas da porta. Diferente das entradas que conhecia, essa é transparente como uma janela.
一 Os meio-elfos usam as janelas como portas? 一 arqueando uma das sobrancelhas com um sorriso de canto no rosto, ele encara Tejin atrás de si.
一 Isso deve ser sofisticado demais pro seu cérebro pequeno, Ray… 一 tomando a frente, o homem de cabelos negros observa o garoto de cima abaixo antes de encostar a mão sobre a vidraça.
Impondo sua vontade turquesa sobre a superfície da porta, diversas linhas e símbolos se alastram por toda a entrada; ressoando até mesmo através da madeira da grande árvore na cor do Gewissen meio-élfico dele. Nesse momento, os galhos, antes secos, começam a florescer em pétalas e folhas multicolores.
A porta abre aos flancos.
一 Existem diversas pousadas como essa por aí. É como se fosse um abrigo emergencial para nós. 一 esperando os outros passarem, ele deve continuar do lado de fora para que a entrada não se feche. Afinal, o meio-elfo que abre a pousada é registrado como “anfitrião” através de sua energia.
一 Ser meio-sangue me parece bem difícil… Obrigado, Tejin. 一 o complexo sistema faz o garoto pesar o olhar; suspirando brevemente com as narinas.
Em um breve abaixar de semblante para ele, Raisel passa para o lado de dentro. Logo atrás, Kimich e Jeanice põem os pés sobre o carpete do assoalho. Então, a vidraça fecha com o comerciante vindo por último.
一 É difícil. Não só parece. 一 sem dar mais explicações, ele retira as suas vestimentas de viagem ao ficar com seu traje mais casual; sem tantos adornos.
一 Vamos ficar aqui por quanto tempo? 一 o loiro observa as inúmeras runas na parede, assim como a decoração completamente distinta dos ambientes humanos.
一 Algumas horas. Toda manhã existe uma ronda dos Patrulheiros sobre as margens das cidades, Kanthen está inclusa nessa lista.
O salão de entrada da ‘Broto de Yggdrasil’ é bastante simples. Ao contrário das pousadas humanas, não há atendente, não há preço ou muito menos tempo máximo de estadia. Como Tejin havia dito, esse lugar é como um refúgio para os perseguidos.
Do lado de fora, apenas uma árvore morta com uma porta de vidro, mas do lado de dentro, as decorações são tão luxuosas quanto um palácio real. O nível de bordas e detalhamento é de impressionar qualquer artesão, seja pela abundância de metais preciosos ou puramente pela qualidade de cada móvel presente. Além disso, a escadaria evidencia que esse lugar possui mais andares.
“Esse lugar não duraria um dia se fosse feito para os humanos… Roubariam os móveis e destruiriam qualquer evidência.” 一 Kimch desliza a ponta dos dedos sobre os símbolos, analisando a composição deles como algo comum para si.
一 Patrulheiros? É tipo os Batedores de Balmund? 一 Raisel se acomoda sobre o sofá, desprendendo as manoplas e as espadas; pondo sua armadura parcial ao chão, mas o cabo da espada sempre apontado a sua direita.
一 Sim… E são todos Sangue Puros. Eles devem estar com uma vigilância ainda mais rigorosa depois do Nordlicht… 一 derramando um vinho em uma taça de vidro, Tejin escora a cintura sobre uma bancada.
一 Senhor Tejin, como os elfos de Sangue Puro são? 一 ainda em pé, as orelhas abaixadas de Jeanice e seus ombros soltos a acompanham ao sentar no chão.
一 Preconceituosa. Para a maioria deles, é como se o seu sangue fosse maculado pela origem humana e de outras raças. 一 com essas palavras, o vinho sobre os lábios parece perder um pouco do gosto.
Ao ouvir aquilo, a meia-elfa inclina a cabeça para a direção dos joelhos dobrados; encolhendo-se por debaixo do seu manto. Ela observa as suas cicatrizes… a sua sujeira contrastando por cima dos pisos lustrosos.
Com a calmaria e o frescor do ambiente aromatizado, o cheiro de frutas frescas transmitem a pureza de uma natureza inexplorada. As horas passaram, deixando a iluminação do lado de fora ainda mais vívida. Dessa forma, Raisel e Kimich sobem as escadas guiados por Tejin.
一 Ei, Kimi, aquele espaço que você fez antes, também faz parte da Alquimia? 一 segurando a espada com a mão esquerda, o garoto olha para as costas brancas do sobretudo.
一 Faz. Se chama “Prática Interna”, ou “Alquimia Interna”… É algo bem mais novo do que a “Prática Externa” que você me viu usando. 一 tendo as mãos nos bolsos da vestimenta, o loiro olha com cuidado os degraus conforme sobe.
一 Parando pra pensar, a Prática Externa da Alquimia e Feitiçaria com aqueles discos do Tejin se parecem bastante. Tem algo a ver? 一 a ponta do dedo indicador esquerdo encosta sobre o queixo.
A pergunta de Raisel fez os dois olharem para ele de soslaio e cessarem a caminhada. As sobrancelhas unidas acompanham o balanço breve de cabeça; com ambos dizendo:
一 Não. É totalmente diferente. 一 após responderem ao mesmo tempo, eles se encaram.
一 O que esse cara faz, é se intrometer nas coisas, desmontar e montar elas. 一 usando o polegar esquerdo, ele aponta para o loiro.
一 E o que esse cara faz, é praticamente frescura com elegância. Padronizar liberações de energia e maximizar o desempenho com bla-bla-bla. 一 de maneira semelhante, aponta para o moreno.
Eles se encaram de soslaio. No outro instante, eles grudam as testas enquanto rangem os dentes. Empurrando-se um ao outro, parece uma briga eterna de “cão e gato”.
一 Me intrometer é o caramba… Tudo é uma bagunça, o que eu faço é facilitar as coisas pra você estudando a matéria, seu ingrato.
一 Facilitar? Se não fosse por mim, você nunca conseguiria compreender o Gewissen tão bem para criar a Prática Interna, seu charlatão.
De repente, do lado de fora, um vácuo de vento tão intenso estremece tudo. Kimich e Tejin se desequilibram, escorando com a mão nas paredes da escadaria. Como um susto, Raisel inclina o torso para frente e leva a destra até o cabo do sabre.
一 Nos acharam!? É um ataque?! 一 os olhos dourados esbugalhados monitoram os arredores.
一 Não, não! Calma! 一 abanando as mãos para a direção do garoto, ele ajeita os óculos com o pulso. 一 Deve ser o Terceiro Campanário que passou em cima da gente.
一 Campanário? 一 aos poucos, a postura começa a relaxar enquanto a sua pergunta reflete o seu semblante.
一 É… Você vai ver quando chegarmos no observatório lá em cima. 一 voltando a subir, Tejin acelera os passos.
一 Ei, eu vou descer. A Jeanice tá sozinha lá embaixo. Se ela acordou, deve ter se assustado. 一 abrindo espaço para o Raisel passar, Kimich inclina o pescoço para a direção do salão de entrada.
一 Beleza. 一 o garoto acena com a cabeça e segue rumo ao topo.
Após poucos minutos, eles finalmente chegam no outro cômodo desse ‘Broto da Yggdrasil’. É um espaço vazio, mas vasto. As paredes, teto e piso, diferente dos outros cômodos, estão totalmente imersos na madeira dessa árvore. Com as runas entalhadas no casco, o meio-elfo estende a mão até a parede.
O sol parece penetrar em seus olhos amarelados. O fascínio sobre a tecnologia élfica cresce genuinamente no peito de Raisel.
“Tudo se tornou… transparente.”
Mediante ao vasto território dessas terras naturais abundantes, a pousada se revela acima de uma montanha com uma vista fenomenal do horizonte. Entre riachos que se estendem como serpentes, árvores enormes de tantas cores e as estradas como linhas de terra, o que mais chama atenção é aquilo que está no céu.
Uma ilha voadora que sustenta um imenso pilar de mármore. O som do seu sino ao topo, não balança causando alerta nas pessoas, mas sim vibrações aéreas que penetram até mesmo nesse lugar. A sensação é acolhedora, como um verdadeiro abraço da mãe-natureza.
O silêncio do garoto não é pleno de boas emoções. O suor que desce da sua testa é um misto de preocupações… aquilo é uma força que vai além da sua compreensão.
一 Aquilo é o Terceiro Campanário, a Torre dos Patrulheiros. 一 os olhos azuis se tornam afiados enquanto a ilha se afasta no sentido anti-horário; sumindo entre as nuvens.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.