Capítulo 1 - Nunca ao mesmo tempo
Dividíamos o quarto, mas nunca nos encontrávamos e nem nos falávamos, a não ser quando tínhamos alguma informação para passar um para o outro, usávamos bilhetes que deixávamos em cima da mesinha. Dormíamos na mesma cama, mesmo trocando os lençóis ainda dava para sentir o seu cheiro nas almofadas e nos cobertores.
Fizemos um acordo de eu utilizar o quarto no período de manhã e ele de noite, as nossas vidas eram muito parecidas, eu trabalhava em um restaurante lá perto, era garçonete. Entrava desde das 17h e só saía pela manhã, sabia que estava sendo explorada, mas precisava daquele dinheiro.
Ganhava 900 libras e com as horas extras que eu fazia chegava a 1000 por mês, dava para pagar a escola da minha irmã e o aluguel. Ocasionalmente, restava alguma coisa para mim, a minha vida literalmente se resumia em trabalho, casa e cama.
Já fazia quatro meses que minha amiga me convidava para sairmos e se divertir um pouco, mas eu sempre dizia que estava muito ocupada. Nos meus dias de folga, eu trocava por mais horas de trabalho, resumindo, não tinha dia sem trabalho.
Mesmo se quisesse um dia para mim, eu não poderia, porque só podia usar o quarto no período da manhã. A minha vida era uma calamidade: estava me destruindo pouco a pouco, sentia que não havia esperança. Sentia que aquilo era o meu destino e que tudo que eu pudesse fazer não iria mudar em nada. Mas nada importava.
Foi num domingo, era para ser o meu dia de folga, mas troquei de novo com o John e fui trabalhar. O dia corria normal como todos os outros até quando chegou às 3h da manhã, normalmente aquele horário não ficava muito movimentado.
E naquele dia só havia um casal no fundo do restaurante conversando, o homem de casaco marrom, calças jeans e uns sapatos de couro. Ele parecia estar mesmo a fim da moça que usava um vestido azul brilhante, um pouco curto e cabelos loiros soltos. Deu para reparar na cor dos seus olhos, eram castanhos. Porém, ela parecia somente interessada na sua carteira.
São essas coisas e muito mais que você repara trabalhando na restauração. Fui ao balcão e reparei um homem negro alto e elegante entrando no restaurante, tinha cabelos curtos e bem cuidado. Usava uma camisa branca, um blêizer preto por cima, calça preta e uns sapatos formais. Parecia que ele estava vindo de qualquer evento chique.
Caminhando na minha direção reparei na sua altura e seu físico, me fez lembrar daqueles jogadores de basquete, até me fez suspirar. Ele chegou no balcão e me pediu uma bebida forte, virei, peguei uma garrafa de uísque e o servi. Ele parecia amargurado e triste.
Terminou a bebida e pediu para servir outra. Foi nessa e acabou por tomar seis doses de whisky sem parar, já havia chegado ao seu limite há muito tempo. Ficou por uns tempos de cabeça baixa e me pediu para servir mais uma, dessa vez eu hesitei. Lembrei de um cliente que havia bebido demais e me faltou com respeito.
Ao hesitar, o homem levantou a cabeça e me olhou nos olhos, ele tinha uns olhos negros penetrantes, o rosto alinhado e lábios avermelhados, realmente era bonito.
— Podes servir mais uma bebida, por favor!
Ele tinha uma voz bem doce, não muito fina, também não muito grave.
Tinha uma entonação que eu poderia ouvi-la todos os dias da minha vida sem me cansar. Foi a sensação que tive quando o ouvi: reparar nos detalhes era o meu forte. Depois voltei ao presente, afinal não se pode viver no mundo da lua por muito tempo, se não te perdes.
Respondi se já não era o suficiente, e se havia acontecido alguma coisa. Eu tinha uma mania de me preocupar com assuntos que não me diziam respeito. Poderia muito bem servir a bebida, mas eu tinha que abrir a boca.
O homem sorriu para mim, pousou o copo em cima do balcão e voltou a baixar a cabeça. O casal que estava sentado lá no fundo, se levantou, pagaram a conta e saíram. Eu estava literalmente sozinha com aquele sujeito e já eram quase 5h da manhã, normalmente era nesse horário que iria começar a me preparar para fechar o restaurante. Reparei que ele havia pegado no sono.
— Oi? Desculpa?! Já vamos fechar.
Tentei acordá-lo. O rapaz levantou, pegou na carteira, tirou 350 libras, colocou no balcão e saiu. Ele havia pagado mais do que devia, arrumei tudo, fiz a conta toda e fechei o restaurante. Estava tão cansada que só queria me jogar na cama e dormir até a tarde.
Cheguei no apartamento, joguei a bolsa no chão, tirei a roupa e fui direto para o chuveiro. Passei mais de trinta minutos no banho, a água estava tão boa escorrendo pelo meu corpo todo dolorido e cansado que nem me apetecia sair.
Eu só tinha algumas horas de descanso para mim, e passava a maioria dormindo, repor as energias gasta ou para fugir da realidade de que com o passar do tempo a minha idade estava aumentando. Embora as pessoas me diziam que eu parecia ser mais nova. Era renovador ouvir aquilo, mesmo eu sabendo que era mentira.
Depois do banho, ao sair do banheiro senti uma enorme dor no peito que me derrubou no chão, por um momento achei que ia morrer. Não conseguia respirar, eu estava apavorada, mas consegui dar uns passos em direção à cama, peguei o celular na bolsa e liguei para a emergência. Assim que terminei de passar o meu endereço, desmaiei.
Quando acordei, já estava no hospital, havia um doutor me examinado, certamente já tinha dado sinal que iria acordar e chamaram o médico. O médico era alto, a sua pele bem clara, parecia até neve, os olhos azuis e os lábios pequenos. Os cabelos eram loiros e aparentava ter uns 30 anos. Eu gostava de reparar nos detalhes, principalmente dos homens.
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