Arco 3: Capítulo 70 - Guilda de Aventureiros
Os dois entraram na guilda, se deparando com um forte cheiro de carne e álcool. O lugar estava cheio, com a maioria dos aventureiros almoçando, conversando ou escolhendo missões.
“É realmente igual aos animes… Como isso é possível… Isso faz algum sentido?”, não fazia. Era apenas uma fórmula reutilizada, porque o público adorava.
— Bem, está vendo aquele balcão vazio? — Doug apontou em direção ao local, onde tinha uma entediada recepcionista sentada, só esperando o tempo passar, enquanto as outras, ao seu lado, conversavam com vários aventureiros, aprovando suas missões. — Aquela mulher é a pessoa que você deve conversar para se cadastrar como aventureiro. Felizmente a maioria dos novatos já fizeram o cadastro, então você não terá que enfrentar uma fila imensa.
— Entendi. Isso melhora as coisas.
— Eu vou pedir uma coisa pra gente comer enquanto você vai lá. Ah! Toma isso. — Entregou a ela uma moeda de prata. — É a taxa que você tem que pagar.
“Tudo tem taxa!”, reclamou, pegando a moeda e indo até a balconista.
Ao chegar na frente da mulher, a balconista abriu um sorriso genuíno no rosto, tomando uma postura para conversar com Angel.
— Com licença, estou aqui para me cadastrar como aventureira.
— Ótimo. Entre naquela sala que eu te atenderei. — Apontou.
Angel acenou positivamente e andou até o lugar. Antes de ir, ela pôde ouvir saindo da boca daquela mulher “finalmente eu vou fazer algo além de ficar sentada esperando alguma pessoa se cadastrar”.
Enfim, a garota entrou naquela sala, vendo duas cadeiras de frente pra uma mesa. Sentando na cadeira de trás, esperou aquela mulher, que veio rapidamente com dois papéis e um lápis. Sentou na cadeira e começou a atender o anjo.
— Então, antes de fazermos o seu cadastro, você precisa saber algumas coisas importantes sobre a Guilda de Aventureiros. — disse a mulher.
— Sim.
Limpou a garganta e começou a dizer.
— Primeiro, a Guilda de Aventureiros tem tanto trabalhos perigosos quanto trabalhos seguros. Então, como você é iniciante, está proibida de pegar trabalhos perigosos, apenas trabalhos normais. E se for um que exija matar algum monstro perigoso, que seja um monstro fácil ou uma praga.
— Certo. Como faço para subir de nível?
— Nós temos um especialista em combate. Dependendo do seu desempenho, você poderá subir do nível barro para o nível terra.
— Barro?
Isso era bem incomum do que estava acostumada nos animes que Dante assistia — que aproveitava para assistir com ele sem o mesmo saber —, vendo que, mesmo esse mundo tendo várias semelhanças com a ficção, tinha suas diferenças.
— Tudo que você precisa saber está neste papel — o entregou para ela —, e não se preocupe em devolver, você pode levar com você. Mas no nível terra, você vai poder enfrentar monstros que podem ferir minimamente humanos. Como uma ferroada.
— Entendi… Mas é obrigatório eu ter que lutar com esse especialista?
— Se quiser ganhar recompensas matando monstros que machucam, sim. Se não, apenas irá ficar no nível barro capinando ou matando meros biruqisus.
Do jeito que aquela moça dizia, esses tais biruqisus deviam ter o mesmo nível de peculiaridade de um bebê recém nascido. Mas se fosse isso mesmo, o único motivo para ter missões de extermínios a esses bichos deveriam significar que eram pragas.
Bem, Angel já queria se alongar. Ela não gostaria de ficar apenas fazendo missões chatas, e sim as mais capacitadas para seu nível de combate. Seu próximo objetivo, depois de concluir o cadastro, seria subir do nível barro para terra.
— Ah, e a guilda tem um plano de saúde para nossos aventureiros. Se quiser ter, precisará pagar mais uma taxa.
— Não, eu tô de boa. — Podendo regenerar até mesmo membros amputados ou outras pessoas com seu sangue, isso não era nem um pouco necessário.
— Bem, então podemos começar com o cadastro.
Após a finalização de seu cadastro, a garota saiu daquela sala e foi até o meio da guilda procurando por Doug. Pôde ver ele sentado em uma cadeira bebendo em uma caneca de madeira no canto de uma janela, olhando para uma folha.
— Ei, Doug. — Sentou-se na sua frente.
— Terminou o cadastro?
— Terminei. O que você está vendo aí? — Curiosa, olhou por cima.
— Uma missão que podemos fazer para você ter uma experiência. O que acha?
Mostrou aquele papel para ela. Era uma missão de retirar ervas daninhas de uma plantação de um fazendeiro. Algo bem simples, mas que seria demorado.
— Não parece ser ruim. Mas eu queria subir de barro para terra primeiro.
Angel deu uma olhada no papel que aquela mulher lhe entregou. Nele tinha várias informações, e uma delas era sobre os níveis da guilda, que se seguiam pela seguinte ordem: barro, terra, pedregulho, ferro, ouro, diamante e obsidiana, do menor pro maior.
— Eu acho melhor você fazer uma missão antes disso, para pegar o jeito da coisa. Essa vai ser a sua primeira vez, não é?
Angel pensou sobre isso. Ela não teria nenhum problema em fazer primeiro as missões mais simples, mas também queria logo se adiantar em subir de nível. Se missões mais perigosas dessem mais dinheiro, ela precisaria dessas missões para poder ficar um tempo nesse país, até ter grana o suficiente para partir na procura de seus amigos.
— Ooh, posso ver que temos cara nova.
Os dois se viraram para o lado, vendo três homens andando até eles com um sorriso no rosto. Doug, ao perceber quem era aquelas pessoas, estalou a língua e se virou para o lado, não querendo fazer contato visual.
Angel percebeu isso, e viu que ele estava com uma expressão irritada no rosto, deduzindo logo que aquelas pessoas não eram boas companhias.
— Doug, meu mano! Você conhece essa gostosa com você? — Quem disse isso foi o homem que vinha pela frente, sendo ele o líder do seu grupo. Um rapaz com o rosto mal encarado, barba malfeita e cego de um olho.
— O que você quer, Earl?
O homem pegou a caneca de Doug, e começou a beber seu suco, enquanto estava com o braço em volta de seu pescoço.
— Tem dinheiro aí não? — falou, logo após bater a caneca, agora vazia, em cima da mesa e arrotar na cara do rapaz, o deixando irritado.
— Quê? Nem ferrando que eu vou te dar dinheiro! Se quiser alguma coisa vai trabalhar!
— Aaah, não faça por mal, Doug. É por uma grande necessidade.
— Olha, caso esteja passando fome ou sede eu posso pagar algo pra você. Mas fora isso, quero que você se dane.
— Deixa de ser chato. Eu e meus manos precisamos de sua grana pra uma necessidade sim! Não é mesmo, rapazes. — Virou-se para os dois caras atrás dele, que concordaram com rostos chorosos.
Angel olhou pros lados, vendo que toda a atenção da guilda estava na mesa deles. As pessoas olhavam para essa direção com olhares de desgosto.
“Então esse cara é alguém bem odiado, hein… Tô com fome.”, mesmo percebendo isso, a garota decidiu permanecer calada, vendo no que isso ia dar. A situação não parecia que ia acabar em briga, então não precisava se preocupar.
— O que vocês querem? — Doug perguntou, já perdendo a paciência.
— Então, eu e meus manos estamos cansados depois de mais uma missão. O problema é que algum desgraçado pegou a recompensa da nossa missão.
— Bem, se isso aconteceu, vocês têm que contatar a guilda.
— Já fizemos e o que nos resta é esperar. Mas sabe, a grana tá curta e a gente quer relaxar. Tem como emprestar uma grana pra a gente se encontrar com umas damas da noite?
— Não! — Rejeitou na hora, vendo que o que eles queriam não era nenhuma necessidade.
Os três não ficaram tão decepcionados com essa resposta. Esperavam por isso, na verdade. No entanto, o líder do trio não queria desistir de molhar o biscoito. Sendo assim, olhou para Angel, mais especificamente, para seus peitos.
— Deixa eu perguntar, mulher. Você faz parte do grupo desse zé ruela? — Apontou para seu amigo. — Por que não se junta conosco? Podemos fazer várias missões e se divertir por aí o quanto quisermos.
Ele chegou mais perto da garota, indo até o seu ouvido e sussurrando:
— E se você quiser três picas pra aproveitar, cada uma nos buracos, você vai aproveitar muito.
Ao imaginar a cena, Angel acabou sentindo nojo, mas não demonstrou isso pessoalmente. A mulher preferia fazer isso apenas com uma pessoa que amava ou considerava amigo, não com um estranho. Ponderando mais sobre esse assunto, acabou imaginando ela e Dante fazendo esse tipo de coisa. Foi algo completamente abrupto que passou pela sua cabeça, e que a fez dar uma risada de nervoso, imaginando uma situação tão estranha que seria isso.
Bem, ela só podia afastar o homem, dar um soco nele, mas isso seria fácil demais. Angel queria fazê-lo passar vergonha, tanto por ser grosseiro, quanto por fazê-la imaginar coisas estranhas. Então, com seu conhecimento de internet vinda do Planeta Terra, ela tinha uma carta perfeita na manga.
— Tá, mas você conhece o Mário?
Sem entender a pergunta repentina da garota, Earl apenas perguntou:
— Que Mário?
— Aquele que te comeu atrás do armário.
De repente, um silêncio ensurdecedor pairou sobre a guilda, com todos olhando incrédulos, e aquele homem parecendo estar extremamente surpreso.
O silêncio foi quebrado por uma risadinha no fundo, que acabou se tornando algo coletivo por parte da guilda. Todos, até mesmo os amigos de Earl, estavam rindo dessa grande revelação, e o rapaz, ainda incrédulo, estava com o rosto tão vermelho quanto um tomate.
“Não achei que um meme antigo iria funcionar tão bem aqui. Que bom que funcionou.”
Earl começou a olhar para os lados, vendo todas aquelas pessoas rindo dele. Depois de processar o que a garota tinha falado, gritou:
— O quê? Você tá maluca, garota? Ninguém me comeu não!
— Oras, você não se lembra do que fizeram com o seu bumbumzinho atrás daquele armário? Foi o Mário.
— Que Mário?! — gritou furioso.
— Aquele que te comeu atrás do armário, ora bolas.
Earl ficou ainda mais furioso com essa afirmação, saindo da guilda completamente envergonhado, e sem dizer mais nada, seguido pelos seus dois amigos, que continuavam rindo.
“Mas que cara frágil, não aguentou a brincadeirinha.”, pensou, com felicidade, já que seu plano havia dado certo.
— Haha, você é realmente uma pessoa divertida, Angel — disse Doug, ainda rindo com o que aconteceu.
A garota abriu um sorriso no rosto.
— Obrigada. Bem, você pode me pagar algo pra comer e depois a gente vai numa missão? Estou morrendo de fome.
— Sem problemas — respondeu o rapaz, levantando a mão para chamar a garçonete.

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