Capítulo VIII: Corrupção.
PoV: Sina Neville.
— Hey, Sina! — Ele gritava como um bobo, ficando cada vez mais pra trás! — Espera aí!
Os cabelos enrolados saltitavam a cada passo; as bochechas vermelhas e a respiração ofegante já indicavam o próximo passo que ele daria.
— Já vai sentar pra pegar um ar, Zac! — Caçoei do nosso pequeno lorde de Sarjas. — Quando o papai ficar rico você não vai poder ser lerdo assim!
As ruas de pedra da cidade sempre me davam vontade de brincar e lembrar da minha infância; as casas de alvenaria eram um orgulho à parte.
Meu irmão servia como um canalizador. Se eu estivesse próxima a ele, eu me tornava uma moça de quatorze anos!
Garoto adorável.
— Para com isso, Sina! — choramingou meu irmãozinho, parando abruptamente e fazendo carinha de triste. — Você sabe que o papai chora à noite, né?
A calçada na entrada de nossa varanda dava acesso direto à Rua LongShore. Não era comum o transitar de pedestres por aqui. Pelo menos nesse bairro, todas as famílias possuíam sua carruagem. Bem, não éramos mais tão poderosos, mas mantínhamos certo conforto.
— É… — concordei, arrependida da brincadeira, e alcancei meu irmão caçula. — Desculpa, Zac. Eu não pensei antes de falar.
Era estranho pensar que Zac era tão entendido com apenas quatorze anos. Mas a razão tinha mania de acompanhá-lo em cada reclamação fofinha!
Nosso pai foi um grande sortudo. Herdou toda a fortuna da família Neville. Após isso, iniciou uma infeliz empreitada de construir uma mineradora.
Um bom plano. Se funcionasse.
Emerus tem uma alíquota altíssima de minérios de ferro, prata, ouro e gemas.
E todos os minérios que não vêm de Karag-draan vêm de Downfire. O gasto com transporte inflaciona o valor de tudo astronomicamente — exceto por uma porção quase insignificante proveniente de minas em Lantier e nas áreas próximas às terras indomadas, que dividem nosso território com Downfire.
Uma mineradora no centro de Emerus seria como derrubar todo o comércio, entregando toda a demanda da região.
Mas…
Papai nunca bateu as metas de extração. Nem quando conseguia encontrar minério.
A manutenção das ferramentas geralmente custava mais que os lucros.
E logo veio o ápice: a quebra.
A tristeza atacou papai de forma assustadora, deixando-o calado por dias. Quase mudo às vezes.
E o quadro piorou: mamãe adoeceu logo após, e infelizmente…
Bem, tudo havia dado errado. Pelo menos até agora.
Um sócio misterioso apontou uma região ao sul, próximo à vila Cândida, e trouxe de volta o sorriso de meu pai. E não só isso…
Meu pai não tinha mais dinheiro, então resolvi trabalhar para ajudar na criação de Zac. Tornei-me algo que meu pai se orgulha muito, mas que também o fere por saber que, atualmente, a única renda da casa é a minha.
Bem, algo havia mudado. Meu pai, Thomas Neville — um homem quebrado emocionalmente — agora demonstrava uma confiança exuberante. Chegava a dar graça.
Nesses meus vinte e oito anos, eu não havia reparado essa versão dele.
Deixei meus cabelos cobrirem o rosto da minha versão masculina em miniatura enquanto abraçava meu pequeno príncipe.
Acho que me tornei uma mãe antes de me casar. Pelo menos era o que minhas amigas Rosária Ortega e Medlane LitleLand diziam quando caçoavam de mim.
Porém, Zac era tudo que me restou de uma família estruturada. Minha mãe não estava presente, meu pai não era um terço do homem que foi outrora.
E, por mais que eu quisesse ser otimista… não havia minério em Sarjas.
Eu vivia de comprar e vender gemas. Eu saberia.
Mas dizer isso pro papai seria quebrar seu espírito. Eu não diria isso.
Nem a ele, e nem ao Zac.
— Sabe, Zac… — indaguei com a voz mais terna possível, tentando consolar meu irmão, que agora caía em lágrimas. — Quando você fica grande, as coisas são muito difíceis.
Ele segurou meus braços, apertando-os contra o peito e soluçando.
— O papai vai conseguir dessa vez, Sina — gaguejou meu irmãozinho, soluçando e suspirando nos meus braços. — Ajuda ele, Sina! Ajuda o nosso pai!
Meus olhos se encheram d’água. Meu anjo pequenino era tão meigo que suas palavras solenes e sua tristeza protetora me rasgavam por dentro.
Eu não podia ajudar o papai. Mesmo que eu quisesse, eu não podia.
Eu sabia que essa empreitada seria mais um fracasso. Mas eu não tinha forças para dizer isso a ele.
Não seria eu que tentaria contra a motivação de ferro do papai. Seu desejo de redenção.
— Eu vou, Zac… — menti, me esforçando para não derramar lágrimas sobre meu irmão, ainda de cabeça baixa. — Eu vou.
O dia se estendeu como sempre. Levei Zac pra dentro e pedi que Alice preparasse o banho dele enquanto eu relia alguns documentos importantes de compra e venda.
Bem, de acordo com minhas informações privilegiadas, os soldados a serviço da família de Rosária iriam fazer alguma investida arriscada em Downfire, o que, de certa forma, atrasaria as rotas de transporte de mercadorias.
Ótimo. Aqui existia a lacuna que eu precisava.
Eu poderia movimentar algumas moedas de ouro para a empreitada de meu pai.
Quando a notícia se espalhasse, os olhos virariam imediatamente para ele, captando investimentos e segurança — até que descobrissem que não havia nenhum minério em Vila Cândida.
Lembrei da promessa que fiz ao Zac, porém também pensei no furo monetário que isso me daria. E, nesse caso, afetaria a forma como minha família e minha casa estavam sendo regidas.
Outro ponto que me deixava aflita era o oportunismo que eu, infelizmente, era forçada a abusar.
Bem… pelo que eu sabia, os Ortega eram uma família nobre em Downfire, e essa investida era alguma coisa relacionada à mudança de poderes, e algumas famílias estavam juntas na empreitada.
Apesar de ser a única amiga de confiança de Rosária, eu nunca prestava muita atenção quando ela falava sobre as conversas familiares com seus pais.
Planejei uma carta ao conselho da instituição Titulum: uma petição para um saque exorbitante.
Preparei uma carta informando valor e motivos da retirada. Eles não jogavam pra perder. Essa seria a fonte que espalharia a informação necessária.
Talvez isso evitasse a despesa exorbitante e chamasse a atenção dos investidores. Era uma aposta ousada, mas teria que ser assim.
Assinei meu nome e selei a carta com o selo Neville.
— James! — chamei meu mensageiro pessoal. A ansiedade era visível, mas isso seria bom. Eu não confiava nele, então isso seria um fator para ele pensar que realmente era um grande investimento. — Leve essa carta à Rocha Fluente, entregue diretamente ao senhor Erick Krisp, na Sede da Titulum!
— Sim, senhora — respondeu o rapaz de barbas espessas. Os olhos me fitavam, brilhando por cima do nariz alongado e do queixo retangular. — Algum outro recado deve ser entregue?
— Não. Apenas entregue a carta e volte — disse enquanto avaliava o rosto de nosso servo estrangeiro. Pelo menos ele falava Emeriano. Quem sabe eu não poderia usá-lo de alguma outra forma? — Tenho um trabalho especial pra você quando voltar.
Por um instante me lembrei de Endrick, meu antigo mensageiro.
Infelizmente precisei mandar ele embora…
Mas ele era um ótimo companheiro para momentos de muita tensão.
Observei atentamente enquanto James saía da sala que eu usava como escritório particular. E resolvi checar se as criadas estavam cuidando bem de Zac antes de sair para um passeio até a casa de Medlane.
A noite estava fresca. Seria um ótimo momento para uma visita à minha amiga mais íntima…
PoV: Thomas Neville
O dia ainda estava chegando ao seu fim. O sol já se adiantava para trás das montanhas nortenas.
Foi nesse momento que parei pra pensar melhor.
Isso realmente parecia fantasiado demais.
Eu via os olhares de desaprovação de minha filha e a esperança do meu filho.
Não era o que se podia chamar de um pai perfeito. Mas eu chegaria lá.
Bem… eu faria qualquer coisa pra ser o herói da minha família.
Era insuportável saber que eu era o fracasso dos Neville.
Talvez por bênção, esse misterioso homem surgiu.
Até hoje, nós nos comunicamos apenas por cartas. E essa seria a primeira vez que estaríamos frente a frente.
Peguei mais uma vez os mapas entregues a mim pelo mensageiro Stewart London.
Parecia algo improvável, mas eu precisava tentar. E, no fundo — talvez por desespero — tudo fazia algum sentido.
O vento suave que vinha dos campos distantes balançava meus cabelos.
No alto daquela colina, sentei-me embaixo de uma árvore que logo não estaria ali.
Pensamentos iam e vinham como ondas de uma praia.
Hoje eu conheceria os principais pilares do poder do meu novo mundo. Minha regeneração.
De todos os quatro homens que eu iria conhecer, um era diferente.
Entre as mensagens passadas, as ordens sempre vinham dele.
Hoje, eu iria conhecer o chefe.
O som de passos enredando o mato alto me removeu do meu transe quando vi chegar um homem de cabelos curtos e brancos, com o físico de um lutador clandestino de Dracavi.
— Senhor Thomas! — O homem de cabeça branca e roupas empoeiradas falou com voz firme. — Lorde Íon, Lorde Charles e o Forasteiro já estão a caminho. O batedor da comitiva já chegou. A casa já está completamente preparada e arrumada para a reunião.
— E os servos e criados? — perguntei, usando um ar de superioridade. Meu pai me ensinou que sempre se deve demonstrar superioridade pra manter as coisas em ordem.
— Todos encaminhados às suas casas, senhor — ele falava como um militar. Reparei que, apesar da aparente idade, tinha um físico melhor que o meu. — Levados pessoalmente por meus homens.
— Arredores? — indaguei, ainda com o mesmo ar.
— Limpos, senhor, assim como o ordenado — a retidão audível na voz do velho homem não deixava lacunas para dúvidas. Eu sabia que ele tinha feito tudo que foi exigido. — Todos os moradores da vila ganharam dez cem coroas de ouro como o ordenado, e meus homens ganharam trezentas coroas de ouro.
— Certo. Está dispensado, Sir Henderson.
— Sim, senhor. Em três dias estarei em sua casa em Rio Vivo, como combinado, na metade do dia.
O homem acenou com a cabeça antes de se virar e sair sem dizer mais nenhuma palavra.
De fato, as exigências eram excêntricas. Mas com certeza existia uma rede clandestina de informações privilegiadas. Então isso explicaria o sigilo.
Mas eu não me importava. Homens tão poderosos não jogam pra perder.
Alguma coisa eles sabiam que eu não sabia. Eu precisava deles, do dinheiro deles.
E eles precisavam de mim: do meu rosto, do meu nome.
Cheguei não muito depois à casa selecionada a dedo por mim, de acordo com as instruções recebidas.
Alguns coches já estavam estacionados. E alguns soldados se postavam ao redor da casa. Incólumes, imóveis. Como estátuas.
Alguns com estandartes conhecidos em Emerus, outros com flâmulas que nunca vi.
Fui recepcionado por um sujeito estranho. Baixinho e misterioso. Usava uma túnica grossa cobrindo o rosto, e a má iluminação das velas não permitia ver muita coisa além disso e de suas mãos negras.
“Um Riveriano? Daqueles chamados de nascidos do barro?”, pensei antes de seguir até a sala de reuniões.
Eu já conhecia o interior do imóvel, mas preferi manter a postura de convidado e ser encaminhado até lá.
Os corredores de paredes brancas ganhavam um tom amarelado conforme as chamas dançavam acima das tochas e castiçais dispostos por todo o longo corredor.
Por um instante achei que tínhamos pego o caminho errado.
Estranhamente, o corredor estava muito longo.
Mas devia ser efeito do meu nervosismo.
A sala de reuniões era marcada por uma portaria dupla maior que eu, bem decorada com gravuras precisas que, ao que me parecia, retratavam a batalha de Arslan contra o Dragão.
Ao chegarmos em frente à grande entrada, pude ouvir o barulho da madeira estalando e a porta se abrindo como mágica.
Ninguém a estava abrindo.
Era estranho de se perguntar, mas aquela casa não lembrava nem de longe a casa que eu verifiquei mais cedo.
Alguma coisa muito errada estava acontecendo.
No interior, onde deveria haver uma sala de reuniões de tamanho médio, com uma mesa de mármore quadrada no centro e uma lareira na parede de fundo, havia agora uma ampla sala circular, ornamentada com cortinas vermelhas por toda a extensão das paredes.
Castiçais de ouro iluminavam o ambiente, que exalava um aroma doce de vinho.
Eu conhecia bem o cheiro: era vinho downês, talvez do sul.
Uma fortuna.
A porta dupla de entrada ficava praticamente centralizada com um assento que mais parecia um trono, por trás de uma mesa bem trabalhada em metal e no novo produto que os Riverianos desenvolveram derretendo a areia. Não lembro o nome, mas realmente parecia cristal muito bem trabalhado.
À minha direita estavam dois assentos um pouco menos luxuosos.
Em um deles, estava Lorde Charles Lancaster, de Arden, com um sobretudo formal ornamentado com ombreiras e adornos prateados. Seus cabelos, que iam do grisalho ao branco, denunciavam seus mais de sessenta anos.
Charles Lancaster era o herdeiro do reino de Lancaster antes da unificação. Seu título ainda é usado na Cidade Real de Ardente, antiga capital do reino.
O outro assento estava vazio.
À minha esquerda estavam Lorde Íon Grunwald, de KajHan. Antiga capital do reino de Hanfell. Outra figura importante no cenário geral de Emerus.
Porém, esse não era herdeiro. Lorde Íon construiu seu poder com o comércio, vendendo de tudo: armamentos a escravos Riverianos.
Após o rei Arslan banir a escravatura, Íon passou a confrontá-lo politicamente, ganhando seguidores inconformados com a unificação. Assim se estabeleceu politicamente como Lorde das terras noroeste de Emerus, cobrando tributos pelo comércio que vinha de Karag-draan e Downfire.
Sujeito frio e cruel, de acordo com os murmúrios do Reino.
Ao seu lado, com a mesma distância que Lorde Charles da cadeira vazia que calculei ser minha, estava um homem de rosto diferente.
O Forasteiro.
Ele estava sentado com os pés acima da mesa de mármore posta à frente de todas as cadeiras, como se o assento o houvesse escolhido, não o contrário.
A luz das velas projetava recortes duros sobre o rosto dele, ressaltando o maxilar quadrado e as sombras acumuladas sob os olhos.
Havia algo de pedra em sua fisionomia: imutável, frio, mas com uma solidez que impunha silêncio.
O cabelo, escuro e pesado, caía em mechas desalinhadas, denunciando mais o descaso de um homem acostumado ao vento e à poeira do que qualquer vaidade.
A barba cerrada e irregular cobria parte das cicatrizes que subiam do queixo até a lateral da face.
Seus olhos, âmbar turvo, observavam os outros com uma calma que não era pacífica.
Era a quietude que precede uma tempestade.
Quando se movia, o brilho do olhar revelava mais julgamento do que interesse, como se pesasse o valor moral de cada palavra dita ali.
Mesmo sentado, ao lado de sua lâmina curva. Que só poderia ser uma cimitarra Riveriana. Parecia ocupar mais espaço do que os outros.
O corpo não se movia; apenas o olhar, preciso, calculado, dominava o ambiente com a autoridade de um general em um campo de batalha.
Aquele era Motaz Azaiza.
De acordo com as cartas, um aliado vindo de Riverdeep.
— Olá… — sibilei, um pouco envergonhado por ser o único fracasso presente na sala. — Me cham—
— Sabemos quem você é — Bradou Lorde Íon, ajeitando-se no assento. — Só não sabemos por quê você.
— De fato, ele deve ter alguma serventia — Disse Lorde Charles sem subir o tom de voz. — Aliás, estamos todos aqui pelo mesmo comando.
— Comando não! — Resmungou Íon, coçando a barba. — Proposta!
— Acredito que o senhor poderia ser mais paciente — Respondeu Charles. — Vamos ouvir o que viemos ouvir.
— Ouvir? — Bravejou Íon. — Ouvir de você, rei deposto? Ou do empreiteiro fracassado? Ou querem falar com o forasteiro que nem fala nossa língua?
— O rei deposto que tem autoridade suficiente para decidir sobre sua vida, Lorde Íon — Ameaçou Charles, com a voz mais baixa, forçando silêncio total. — Cuidado com as palavras.
— Senhores… — Chamei educadamente a atenção. — Por favor, eu peço que esperemos a chegada de nosso mentor e sócio principal.
— Não ouse me cobrar silêncio! — Bravejou Íon mais uma vez.
— O intuito aqui é abrir uma mineradora lucrativa pra todos nós — disse enfim. — Não temos por que iniciar uma guerra aqui!
— Do que diabos esse fracassado está falando? — Disse Charles com desdém.
— Eu não tenho tempo para fundações — Dizia Íon. — Estou aqui pelo plano de derrubar a dinastia Fierun e tomar o poder Emeriano para nós!
— Derrubar a dinastia? — Perguntou Charles, agora um pouco mais agitado. — Foi-me passado que estaríamos aqui para discutir uma aliança militar com os downeses. Estou aqui para reerguer o reino de Lancaster!
— Downfireanos! — Corrigi, já sem entender o real intuito da reunião. — Aliás, pelo que me parece, cada um de nós tem um objetivo pessoal a ser tratado aqui. Mas acho que os objetivos de vocês são um pouco profundos…
— Como ousa me corrigir! — Gritou Charles, impaciente com minha correção. — Você não é nada mais que massa de manobra!
— Askti! Kalamuk muqrafun! — Berrou o homem estrangeiro, agora de pé e com sua cimitarra em mãos. — Wabitatakalam ktir!
Se alguém entendeu a frase de Motaz, eu não sabia.
Mas todos se calaram e se sentaram, visivelmente amedrontados com a pressão da voz do homem.
Alguns minutos se passaram até que Íon quebrou o silêncio:
— Se cada um de nós tem um motivo pra estar aqui… — Murmurou o baixote gordo de bigodes esticados. — Isso é uma salada.
Íon se levantou bruscamente, tropeçando no assento e se precipitando em direção a mim e à porta.
Todos apenas observaram o senhor escravista ficar pálido quando a porta dupla subitamente se selou sozinha.
Por poucos segundos. Que pareceram uma eternidade. inguém falou.
Até que uma voz estranha surgiu da escuridão de um ponto mal iluminado da sala:
— Sejam todos bem-vindos — Dizia a silhueta baixa, com um capuz cobrindo toda a face. Lembrei imediatamente do homem que me conduziu até a entrada da casa. — Pelo que presenciei, todos têm suas dúvidas e seus motivos próprios. Vamos dar início à nossa reunião.
— Qualquer coisa seria melhor que continuar escutando esses vermes emerianos sem poder matá-los. — Vociferou o forasteiro.
Porém, estranhamente, eu e todos os presentes podíamos entender seu idioma.
— A língua dos Emerianos é tediosa para assuntos de poder, Azaiza. — A voz da silhueta era metálica, estranhamente sem eco, como se viesse de um poço profundo. — Mas é a que eles entendem. Sentem-se. Todos vocês.
Todos perderam três segundos se entreolhando até se sentarem e assistirem Lorde Íon caminhar com as pernas trêmulas de volta à cadeira.
— Você está aqui, Thomas Neville, porque você é o fracasso mais público de Emerus. — A voz se dirigiu diretamente a mim. — Ninguém suspeitará de um homem que perdeu tudo por ambição estúpida. Seu nome e seu desespero são o nosso escudo.
— Você está aqui, Íon Grunwald, porque sua rede de corrupção será uma de nossas maiores armas — A voz prosseguiu, dirigindo-se a Íon, que olhava com uma mistura de raiva e medo. — Todos os seus contatos corruptos serão entregues a mim, e eu os usarei com sabedoria.
— Você está aqui, Charles Lancaster, porque seus apoiadores serão meu exército — Disse o ser, saindo vagarosamente da escuridão e se dirigindo ao assento principal, parecido com um trono pesado talhado em ouro, com joias que pareciam brilhar sozinhas. — Usarei eles com sabedoria em nossa real empreitada.
— Você está aqui, Motaz Azaiza… — Falou com tom mais sério enquanto removia lentamente o capuz. — Porque eu preciso de um general.
Tentei falar, mas, por algum motivo, me faltou qualquer ímpeto.
Fiquei forçado a apenas ouvir e observar.
O misterioso líder removeu completamente o capuz, mostrando finalmente seu rosto.
Minha primeira sensação foi o pavor absoluto, somado a uma vontade incontrolável de fugir dali para qualquer lugar muito distante.
Mas minhas pernas e braços estavam completamente paralisados.
Olhei para os outros. Todos imóveis, se entreolhando — mas ninguém falava nada.
Imaginei que todos estávamos sob algum feitiço.
Seria um feiticeiro Riveriano?
Suas orelhas pontudas eram como nas histórias de elfos.
Nunca vi um pessoalmente, mas sempre me diziam que eram brancos, e que o simples vislumbre já parecia mágico e apaixonante.
Esse… não era.
Sua pele era negra como a noite.
Seus olhos brancos, com pupilas vermelhas como sangue.
Os cabelos, brancos e tempestuosos, não envelheciam sua face demoníaca.
A orelha direita era repleta de argolas na parte superior, assim como ambas tinham argolas menores na parte inferior.
— Podem manter a calma — disse com tom suave a besta medonha à nossa frente. Todos observavam, mudos pelo feitiço imperceptível. — Todos os nossos acordos serão cumpridos, desde que sigam meu plano.
A pressão atmosférica começou a aumentar.
O medo já dominava meu corpo por completo.
Eu não sabia aonde aquela reunião iria chegar.
Por algum motivo, o desespero era tangível dentro de mim — e também no rosto de todos os presentes.
Em especial Motaz Azaiza, que parecia em um ataque de furor causado pelo pânico total.
Por algum motivo, aquela presença o apavorava muito mais do que a qualquer outro na sala.
Porém, eu não tinha muito tempo para pensar nisso com o turbilhão de outras coisas que vinham à memória.
— Zac… — sibilei de forma agonizante, retomando aos poucos minha voz. — Sina…

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