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Capítulo 203 — A Capacidade de Ser Um Rei IV
— CAAAASS!!! — Helick gritou, a voz falhando de puro desespero ao ver o irmão desabar sobre uma poça do próprio sangue.
A Pantera-Chicote, com seus instintos assassinos aguçados, aproveitou o milésimo de segundo de desatenção. A besta forçou o corpo contra a prisão de gelo que Helick lutava para manter, e que já não possuía a mesma densidade de antes. Trincas e rachaduras profundas estalaram pelo bloco congelado, seguidas pelo rugido eufórico do monstro, que conseguiu erguer o tronco por um breve instante.
— Merda! — Helick xingou entre dentes, forçando toda a sua atenção de volta às correntes. Ele canalizou o resto de sua mana para regenerar o gelo, obrigando a cabeça da pantera a colidir violentamente contra o solo outra vez.
Rossander observava a cena de relance, mas não desviou o foco de Cassian por um único segundo.
— Ousado — murmurou Rossander, aproximando-se lentamente do príncipe caído.
Cassian estava com as costas no chão, submerso no calor do próprio sangue que insistia em escorrer. Seus braços estavam esticados para os lados, inertes, lembrando a figura de alguém preso a uma cruz. A dor inicial, que antes era inimaginável, começou a diminuir gradativamente. Cassian, no entanto, percebeu o perigo real: não era a dor que estava sumindo, era a sua consciência que batia em retirada. O mundo ao redor estava se tornando um borrão gélido, e a única coisa que ainda o ancorava à realidade era a voz pausada de Rossander.
— Verdadeiramente um plano ousado… — continuou o espadachim, parando a poucos passos dele. — Espalhar seus aliados em grupos estratégicos para reunir os inimigos mais poderosos em um único quadrante. E logo em seguida, atrair uma Besta Mítica com forte instinto territorialista para que ela lidasse com os oponentes enquanto vocês avançavam até o portão da próxima muralha.
Rossander inclinou levemente a cabeça, os olhos fixos no príncipe semi-inconsciente.
— Você deduziu que o portão só abriria para quem vencesse o desafio imposto. Sendo assim, a Pantera-Chicote faria o trabalho sujo: ou mataria seus adversários, ou os deixaria fracos o suficiente para que vocês os limpassem depois. De fato… um plano brilhante.
Rossander fincou a ponta de sua espada pálida no solo, apoiando as mãos no pomo da arma. Olhou para o príncipe com uma mistura genuína de respeito e desdém.
— Sabe, Cassian… talvez, em um futuro não muito distante, você realmente pudesse ter se tornado um bom rei, no final das contas. Você tem a mente tática, tem o sangue e tem o poder bruto.
Ele fez uma pausa, o silêncio sendo quebrado apenas pelos estalos do gelo de Helick ao fundo. O tom de Rossander mudou, tornando-se uma lâmina gélida e desprovida de qualquer empatia.
— Mas você vai falhar aqui. E agora. E todo esse seu plano brilhante terá sido em vão.
Cassian tentou mover os dedos, mas seu corpo parecia feito de chumbo. A escuridão continuava a fechar sua visão, mas as palavras de Rossander começaram a perfurar o nevoeiro de sua mente como agulhas incandescentes.
— Assim que eu arrancar a sua cabeça, vou me sentar ali naqueles escombros e assistir. Vou ver a Pantera-Chicote estraçalhar o seu irmão, que neste momento está gastando até a última gota de vida para mantê-la presa. Ela vai devorá-lo vivo, Cassian. E ele vai morrer olhando para o seu cadáver, sabendo que você caiu primeiro.
Um eco de pânico reverberou no âmago de Cassian, mas ele ainda não conseguia reagir. Rossander inclinou-se para a frente, a voz mansa, destilando uma crueldade cirúrgica.
— E depois? Depois eu mesmo guiarei a fera. Vou levá-la exatamente até onde seus outros aliados estão lutando. Vou soltá-la nas costas deles. E vou assistir, do camarote, enquanto aquela Besta Mítica destroça cada uma das pessoas que você jurou liderar. Cada morte, cada grito de agonia daquelas pessoas… será por sua causa. Porque você foi fraco. Porque o “futuro rei” que seu pai tanto se orgulhou em anunciar não passou de um garoto orgulhoso morrendo na própria poça de sangue.
Não.
A palavra não saiu pelos lábios de Cassian, mas explodiu dentro de sua mente.
A menção ao pai, o rosto pálido de Helick, a imagem de seus amigos sendo dilacerados por sua culpa… O choque de realidade atingiu seu coração como um desfibrilador. A letargia da morte foi violentamente substituída por uma descarga de adrenalina pura, alimentada por um ódio e um desespero que ele nunca havia sentido antes.
Nas profundezas de sua consciência, a sala branca que estava prestes a se apagar foi subitamente reacesa por uma faísca dourada. O sangue em seu peito começou a borbulhar.
Sua própria pele começou a chiar, o calor extremo cauterizando as fendas por onde o sangue vazava, forçando a vida a permanecer dentro de seu corpo.
Ele não deixaria que tudo acabasse ali. Os rostos de seus companheiros emergiram em sua mente: Marco, Redgar, Tály, Any… Seu pai. O Capitão Haras. Todos eles contavam com o dia em que ele finalmente assumiria a responsabilidade; o dia em que seria capaz de se erguer como um rei quando o mundo precisasse.
Com tantas vidas em jogo, a verdade finalmente se cristalizou. Aquilo era infinitamente maior do que qualquer desejo pessoal que ele possuía ou achava que queria. Era um dever que pertencia a ele, e que só ele poderia cumprir.
Helick havia sido agraciado com uma visão que prometia guiá-los na guerra que se aproximava a passos largos. Cassian não podia permitir que o irmão caísse ali. Não… ele não permitiria que ninguém caísse.
Esse era o fardo. Essa era a responsabilidade da qual ele havia tentado fugir a vida inteira, por não compreendê-la e por se recusar a aceitá-la. Mas o destino era uma força implacável. Aquele era o motivo exato pelo qual Cassian Havillfort havia nascido, e ele finalmente entendia. Ele nasceu para liderar e proteger. Ele nasceu para ser rei.
— Nã… o… N… ão… NÃO! — os murmúrios romperam a garganta de Cassian.
Seus dedos responderam ao comando de sua vontade, fechando-se com força absoluta ao redor do cabo da espada.
Cassian fincou a ponta do ARGUEM no solo e forçou o joelho direito contra o chão. A cabeça ainda pendia baixa, mas seu corpo, contra todas as leis da física, começava a se erguer.
— Essa determinação… — murmurou Rossander.
Sua voz oscilou em uma mistura genuína de incredulidade e admiração, e um pequeno sorriso satisfeito surgiu no canto de seus lábios.
Mas aquele sorriso não era nada comparado ao que se desenhava nas arquibancadas. Assistindo a tudo do alto, Blando exibia uma expressão dez vezes mais escancarada, os olhos brilhando de pura excitação ao ver o despertar do príncipe.
Ele se inclinou para a frente, incapaz de conter a euforia, e rugiu para a arena:
— ISSO! É EXATAMENTE ISSO QUE EU QUERIA VER!

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