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Capítulo 207 — Magia Profana
O corredor translúcido da barreira parecia um túnel prestes a desabar. Vell avançava às cegas, o coração martelando contra as costelas enquanto jogava o peso de um dos inimigos desmaiados sobre o ombro direito, enquanto usava a mão esquerda para arrastar o segundo corpo pelo colarinho da farda.
Ao redor dele, o mundo parecia estar se desintegrando. Cada feitiço lançado pelos desafiados explodia contra o escudo de Isaac com um estrondo ensurdecedor. Clarões de fogo escarlate, lascas de gelo azuladas e rajadas de vento pressurizado chocavam-se contra a superfície mágica, banhando o rosto de Vell em uma dança caótica de luzes e sombras violentas. A cada impacto, estilhaços de mana pura respingavam para dentro do perímetro como faíscas de uma forja.
— Mais rápido, Vell! — a voz de Isaac cortou o caos do ambiente, trêmula pelo esforço em seus músculos, mas carregada de urgência. — Eles estão quebrando a barreira! Traga-os logo!
Dando um último arranque de pura adrenalina, Vell atravessou a linha de frente e soltou os dois corpos pesados no chão, aos pés do líder do suporte. O jovem arquejou, limpando o suor que ardia em seus olhos, esperando receber a próxima ordem ou uma explicação.
No entanto, a expressão no rosto de Isaac o fez dar um passo para trás. Não havia mais a habitual serenidade do curandeiro ali; suas pupilas estavam dilatadas e a mana que começava a emanar de suas mãos não era mais o brilho esverdeado e reconfortante da cura. Era uma energia densa, cinzenta e fria, que fazia os pelos dos braços de Vell se arrepiarem de puro pavor instintivo.
— Afaste-se — ordenou Isaac, a voz estranhamente baixa, mas que ecoou com autoridade absoluta acima dos estrondos externos.
Vell hesitou por uma fração de segundo, os olhos alternando entre o curandeiro e os inimigos caídos.
— Isaac, o que você vai…
— Tire a Yssa daqui agora! — Isaac o interrompeu, sem desviar os olhos dos corpos. Ele estendeu as mãos trêmulas sobre os peitos dos dois homens nocauteados. — Leve-a para o recuo mais distante da floresta. Ela mal consegue se manter consciente. E escute bem, Vell… não importa o que você veja, ouça ou sinta a partir de agora: não cheguem perto. E, sob hipótese alguma, me toquem até que eu tenha terminado o que estou prestes a começar.
O aviso final correu pela espinha de Vell como um calafrio de morte. Sem ousar questionar mais nada, ele recuou apressadamente, passando o braço de Yssa pelo próprio pescoço para arrastá-la para trás, mantendo os olhos fixos na silhueta de Isaac, que começava a ser engolida por uma névoa escura.
Assim que Vell se afastou carregando Yssa, Isaac respirou fundo. Ele olhou para os dois desafiados estirados a seus pés. O peito deles subia e descia em um ritmo lento. Eles estavam vivos. Inconscientes devido ao contragolpe anterior, mas respirando.
Isaac fechou os olhos por um segundo, engolindo o que parecia ser o resto de sua própria humanidade, e abriu o livro de capa metálica. As páginas começaram a passar sozinhas, movidas por um vento que começava a cheirar mal, até pararem em uma seção cujas escritas pareciam sangrar no papel.
Ele enterrou as mãos espalmadas contra o peito dos dois homens vivos.
— Magia de Cura… — Suas palavras saíram roucas seguidas por um eco. — Necro-Drenagem… — a palavra escapou como um sussurro profano de seus lábios.
O efeito foi imediato e aterrorizante. Da ponta dos dedos de Isaac, gavinhas de fumaça cinzenta e arroxeada perfuraram a carne dos homens. No mesmo instante, os dois desafiados arregalaram os olhos, despertando do desmaio em um sobressalto de pura agonia. Seus corpos curvaram-se para cima, as espinhas eretas, enquanto suas bocas se abriam em gritos mudos. O ar faltava nos pulmões conforme a própria essência vital e toda a mana guardada em suas almas eram arrancadas à força.
A pele dos dois homens começou a perder a cor, tornando-se cinzenta e ressecada em questão de segundos. As veias saltaram, negras como cinzas de carvão recém queimado, antes de murcharem.
Mas a magia profana não tinha fundo. Ela estava faminta.
Ao sentir o banquete de energia, o feitiço expandiu-se como uma onda de choque invisível e gélida. A barreira dourada de Isaac estourou de dentro para fora, espalhando uma névoa da morte que avançou como uma praga sobre os desafiados que bombardeavam a defesa.
O primeiro a ser pego foi o guerreiro que empunhava um machado. Ao ser tocado pela névoa, seu grito de guerra transformou-se em um ganido agudo de puro pavor. Ele largou a arma, levando as mãos ao pescoço enquanto sua pele começava a colar nos ossos. Seus olhos esbugalharam-se antes de secarem nas órbitas.
— O que é isso?! O que está acontecendo?! — uma das mulheres do grupo inimigo gritou, tentando recuar, mas a força de atração da magia era implacável.
O chão sob os pés dos atacantes morreu; a grama verde transformou-se em cinzas negras instantaneamente. Em um raio de poucos metros ao redor de Isaac, o abatedouro desordenado virou um cenário de pesadelo. Os desafiados começaram a definhar em massa. O som na floresta tornou-se um eco horripilante de ossos estalando, carne retraindo-se violentamente e gritos que iam enfraquecendo, tornando-se sussurros roucos conforme as gargantas dos guerreiros secavam até virarem couro esticado.
Os ecos daquela agonia chegaram aos ouvidos de Marco e Haron, mas o desafiado de Blando sequer pareceu se importar. Ele estava ocupado demais se deliciando com a humilhação que impunha a Marco, aproveitando-se do corpo deteriorado e no limite do soldado para encurralá-lo contra as árvores.
À distância, um a um, os inimigos de Isaac caíram de joelhos, transformando-se em cascas esqueléticas e grotescas, com roupas largas demais para os corpos que haviam acabado de murchar. Esferas de mana de cores desalinhadas eram arrancadas da boca e do peito de cada um dos cadáveres frescos, flutuando no ar como almas penadas antes de serem violentamente sugadas para dentro do livro metálico de Isaac.
O líder do suporte permanecia no centro daquele redemoinho de morte. Seus olhos agora emanavam um brilho verde-esmeralda intenso, sem íris, enquanto ele absorvia a herança de sangue que acabara de colher para salvar os seus.
Sua boca se moveu, e ele proferiu as palavras como alguém que dá ordens à própria Morte:
— Que a vida que foi tomada seja transformada… para poupar as que para mim importam.
O livro de capa metálica começou a folhear suas páginas violentamente, até que um brilho dourado e cegante emergiu de suas escritas. As esferas de essência e mana que haviam sido arrancadas dos desafiados ressurgiram de dentro do ARGUEM, circulando rapidamente em órbita ao redor de Isaac como pequenos planetas de energia pura.
— NecroHeal! — decretou o curandeiro.
Ao comando, as esferas dispararam em uma velocidade infinita, cortando a penumbra da floresta em direção aos aliados reunidos. Os curandeiros da equipe de suporte, Vell, Yssa e o próprio Isaac sentiram a exaustão evaporar instantaneamente, suas forças sendo completamente restauradas por aquela energia roubada.
Duas esferas cruzaram os céus em direção ao centro da arena distante, enquanto uma terceira procurava e penetrava diretamente pela lateral das costelas fraturadas de Marco.
No mesmo milésimo de segundo, as feridas do Soldado Copiador fecharam-se e os ossos quebrados soldaram-se com um estalo perfeito. A dor que o subjugava desapareceu.
Haron, alheio à transformação interna do adversário, desferiu mais um golpe com suas lâminas flamejantes, rindo da suposta vulnerabilidade do lyberiano. Mas, desta vez, o corpo de Marco respondeu com a precisão de um raio.
Com um movimento limpo, firme e avassalador, ele interceptou o corte das lâminas incandescentes com sua própria espada espelhada, bloqueando o ataque sem recuar um único milímetro. As chamas de Haron colidiram contra o aço e dispersaram-se no ar.
Marco encarou o inimigo por trás do reflexo da lâmina, os olhos frios e a postura perfeitamente reestruturada.
— Vamos começar isso de verdade, Haron.

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