Índice de Capítulo

    Luna coçou a cabeça. Tudo ao seu redor estava turvo, a visão distorcida como se o mundo inteiro tivesse se desfeito em névoa.

    Crack!

    O som de madeira se partindo ecoou próximo. O cheiro de poeira invadiu o ar quente, pesado e sufocante.

    “O que… que diabos aconteceu?”

    Ela tentou mover as pernas — uma sensação de dormência e tremor percorreu o corpo.

    — Ei… ei…

    A voz soava distante, abafada, como se viesse debaixo d’água. A cabeça de Luna latejava, e algo macio roçou contra sua mão.

    “Não consigo me lembrar de nada.”

    Cada piscada demorava a se completar, o tempo se arrastando até que, pouco a pouco, as cores e formas começaram a voltar.

    — Ei! Tá acordada?… Merda. — Mark murmurou, os olhos baixos, os lábios mordidos. — Diz que não morreu… não quero perder mais outro…

    Os olhos de Mark tremiam com a possibilidade; ele não queria que fosse verdade.

    —….

    Um estalo seco quebrou o silêncio.

    — Ei, Mark! Aqui

    William apontou para uma porta marrom, marcada por arranhões profundos.

    Mark ergueu Luna nos braços e correu. William abriu a porta, e os três entraram às pressas.

    Uma estranha pressão pesou sobre seus ombros assim que cruzaram o limiar.

    O interior era sufocante. Bonecos de madeira estavam espalhados por todo o chão — dezenas deles, talvez centenas — formando um mar silencioso de corpos inertes.

    O cômodo era pequeno, quase claustrofóbico, iluminado apenas por uma lâmpada azul-escura que oscilava levemente. As paredes, também de madeira, pareciam ranger com cada respiração.

    — Pessoal… — a voz fraca de Luna rompeu o silêncio, chamando a atenção dos dois.

    Mark a colocou no chão, apoiando delicadamente a cabeça dela contra a parede.

    — Tá ouvindo a gente, Luna?

    — …Sim… idiota. — Ela tentou se erguer, mas o corpo não respondeu.

    Mark soltou um meio sorriso, entre o alívio e a irritação.

    — Não se esforça demais. Ainda estamos lidando com aquelas… coisas. — William murmurou, observando pela fresta da porta.

    Luna tossiu. Mark olhou para a própria mão e notou pequenos riscos avermelhados.

    — O que… o que aconteceu lá fora, Mark? — Luna levou os dedos à testa, tentando organizar os pensamentos.

    Mark hesitou.

    Pegou um dos bonecos do chão e o girou nas mãos, hesitante.

    — Aquela pelúcia… o coelho… — ele parou, engolindo seco — virou algo. Eu nem sei explicar direito. — A lembrança o fez estremecer. — Só sei que precisamos nos esconder e encontrar os outros. Temos que voltar.

    William colocou uma pequena flor na fechadura; finos caules se entrelaçaram, trançando a porta até selá-la completamente. Ele se aproximou, o olhar fixo em algo preso à sua própria roupa.

    — Eu entendo… mas não podemos sair agora. — A voz firme, ainda que o suor escorresse pela testa. — Precisamos explorar mais… ver o que há por trás dessas folhas desse lugar. — Apesar do cansaço, seu semblante permanecia sério, controlado.

    Mark apertou os punhos, e o boneco em suas mãos caiu, partindo-se no chão.

    — Não. — respondeu entre dentes. — Vamos atrás dos outros. — O olhar dele endureceu, carregado de determinação.

    William soltou um longo suspiro.

    — …Encontraremos as respostas primeiro. Depois, veremos os outros. Isso é o mais importante.

    Mark avançou um passo e agarrou o ombro dele com força.

    — Importante? — A voz grave. — E se os outros estiverem em perigo agora? Depois do aviso sobre a tarefa, eu quero ir lá e ver eles.

    Os ombros de William cederam lentamente. Um sopro de ar agitou seus cabelos, e a luz da lâmpada oscilou entre clarões fracos e fortes. William desviou o olhar, evitando encará-los diretamente.

    — Em muitos casos… eles podem conseguir sobreviver sem nós.

    Luna observou o ambiente ao redor: símbolos de estrelas enormes preenchiam as paredes, e uma pequena estante exibida esculturas de massa — máscaras deformadas, algumas sorrindo, outras retorcidas.

    — Eles não vão sobreviver. Essa tarefa é difícil demais. Eu vou até lá.

    Ele se aproximou da porta; as vinhas espinhosas reagiram, contorcendo-se para selá-la ainda mais.

    Luna piscou devagar, tentando acompanhar a discussão.

    — Gente… não briguem… aaah, que dor… — Luna apertou a cabeça, sentindo uma pontada forte, como se um trem atravessasse seus pensamentos.

    Ela se forçou a ficar de pé, mesmo com as pernas tremendo.

    — Vamos voltar até eles… precisamos deles…

    William manteve os olhos baixos por alguns segundos, respirando fundo.

    — Certo…. Qual é o plano para sair vivos daquelas criaturas?

    Os três se entreolharam, desviando o olhar logo em seguida, como se cada um esperasse que o outro decidisse primeiro.

    Mark puxou a adaga, segurando-a com firmeza na mão esquerda.

    — Podemos atacar eles.

    — Isso não vai funcionar. — William pressionando a testa com os dedos, tentando aliviar a tensão. — Você viu muito bem o nível daquelas coisas.

    Luna deu alguns passos trôpegos em direção à porta; quase caiu, mas Mark a segurou rapidamente.

    — …Posso até atrapalhar… se vocês continuarem pensando nessas besteiras. — murmurou, ofegante. — Assim os outros vão morrer por pura burrice de vocês…

    As palavras agridem Mark; ele rangeu os dentes, mas sabia que era verdade. William, por sua vez, não protestou — apenas caminhou até a porta, silencioso.

    — Se é isso que vocês querem… — William tocou a maçaneta, e as plantas se retraíram. — Então, vão.

    A porta se abriu, liberando um ar frio que passou por eles como a respiração de algo oculto na escuridão.

    Mark ajustou Luna em seus braços.

    — Espera um pouco… e você, William?

    William apenas acenou, oferecendo um sorriso leve.

    — Fiquem tranquilos. Podem ir. Nos encontramos na sala principal.

    Mark hesitou, porém, mesmo com a perna rejeitando o movimento, ele deu um passo à frente. Uma aura negra envolveu Mark e Luna como um véu silencioso. Seus passos deixaram de produzir som.

    Da perspectiva de William, eles simplesmente desapareceram — viraram sombras que se dissolveram no ar, sem qualquer rastro.

    “Um alívio… mas também aterrorizante. Agora resta lidar com o resto.”

    William fechou os olhos e sentiu o próprio pulmão pulsar, como se respondesse à tensão.

    — Até quando vai ficar aí… criatura horrível?

    À esquerda da porta, uma sombra de quase três metros se comprimindo contra a parede aguardava o momento perfeito para atacar, pronta para engolir quem saísse.

    Quando William abriu os olhos, a criatura já estava com a boca escancarada, avançando. Vinhas surgiram do chão, enrolando-se em sua boca e pernas, prendendo-a com força.

    William enfiou a mão no bolso e retirou um objeto semelhante a um celular — idêntico ao que Takeshi carregava.

    A criatura se debatia. Tinha orelhas enormes de coelho, mas pendia de sua cabeça um fio de seda brilhante, como se fosse um casulo rompido. Um único olho vermelho, enorme, pulsava com uma pupila ainda mais vermelha, cheia de ódio.

    — Raiva não vai adiantar. — William disse, com frieza. — Eles já se foram. Agora é só você e eu.

    Ela possuía braços finos, porém marcados por músculos tensos. As pernas, levemente tortas, eram perfeitas para impulsos rápidos e saltos altos.

    A criatura, que antes não passava de uma pelúcia frágil e fofa, agora não tinha nada de adorável — era pura monstruosidade.

    — Vocês atacam a gente… e realmente acham que vai ficar tudo bem?

    As vinhas se apertaram ao redor do corpo dela.

    Crack!

    O som seco de ossos se partindo ecoou.

    — Eu já não estou em um dos meus melhores dias.

    William ergueu o dispositivo, semelhante ao de Takeshi, e abriu a função de verificação de conexões. Seus olhos estremeceram, os dentes se cerraram com força.

    “Quem está com o dispositivo?!”

    A tela exibia diversas versões do aparelho e registrava o horário em que cada um havia sido ativado.

    Um deles mostrava atividade… no dia anterior.

    “Será que é ele…? O miserável que arruinou a minha evolução.”

    William lembrou-se da dor com clareza — cada segundo queimando como se fosse agora.

    “Por culpa dele eu perdi minha última chance…”

    As vinhas apertaram com tanta violência que o corpo da criatura começou a retorcer, a cabeça girando sem controle.

    “Eu vou te matar. Onde quer que você esteja… eu vou te encontrar.”

    William retornou ao quarto e depositou uma semente dentro de cada boneco, guardando o dispositivo logo em seguida.

    “Eu vou encontrar. Agora isso é o mais importante.”

    Ele empurrou algumas máscaras espalhadas pelo chão, observando atentamente os símbolos de estrelas inscritos nelas.

    “O dono deste lugar é estranho… e completamente insano.”

    Começou a vasculhar os bonecos, jogando-os para os lados sem qualquer cuidado.

    — Achei.

    Dois livros estavam caídos no chão — um com listras douradas, o outro de um azul escuro profundo.

    William os pegou, sentindo o peso das capas rígidas e das páginas grossas. Colocou um deles no chão e abriu o outro com cautela.

    “Três torres… espalhadas como veios de um mesmo coração. A base só permanece intacta se as ilusões forem fortes o bastante. Leilani — fonte perfeita. Nunca imaginei que um único coração pudesse sustentar tanto. Primeira torre: emoções condensadas. Segunda: resistência moldada pela dor. Terceira… alguém deve guardá-la. Não posso permitir que descubram o verdadeiro propósito deste castelo-casco.”

    As últimas linhas tremiam no papel, como se o escritor estivesse perdendo o fôlego:

    “Se alguém forte o suficiente entrar… não haverá contenções. Ainda não sei… o que devo fazer.”

    William fechou lentamente o livro, o peito apertado. Os olhos dele se arregalaram enquanto absorvia cada frase.

    As palavras ecoavam dentro dele, vivas, pulsando como um segundo coração. Lembranças da tarefa anterior retornaram com violência, misturando-se ao medo e à compreensão tardia.

    Ele folheou o livro outra vez, mas encontrou apenas páginas vazias. Nada. Nenhuma explicação. Nenhum aviso.

    Até que, na última folha, uma única frase escrita com pressa chamou sua atenção —
    e fez o sangue em suas veias gelar.

    “Já sei. Vou criar um monstro.
    Um verdadeiro monstro.
    Ele surgirá como um animal faminto.”

    O livro escorregou das mãos de William e caiu no chão com um thump seco.

    — Que…?

    A lâmpada azul oscilou acima dele, como se algo tivesse acabado de despertar.

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