Capítulo 34 - A vontade do Executor
Em outro lugar, longe do local onde Glartak se recuperava dos ferimentos, a noite avançava sem pressa.
A clareira permanecia como havia estado desde o início do acampamento: simples, funcional e discreta. A cabana improvisada continuava no centro. Dentro da cabana, Shivana descansava conforme havia sido ordenada. Seu corpo estava reclinado sobre camadas de folhas largas, e embora tentasse manter a respiração calma, não conseguia se entregar totalmente ao sono. A gravidez avançada tornava qualquer posição desconfortável após algum tempo, e mais do que isso, sua mente permanecia alerta. Ela sabia exatamente por que estava ali. Sabia que Glartack confiara a ela algo que ia além da própria vida: o futuro da horda.
Do lado de fora, Primal permanecia em silêncio.
Ele não patrulhava ao redor da clareira. Não caminhava de um lado para o outro. Estava parado, de pé, com o corpo relaxado apenas o suficiente para não demonstrar tensão desnecessária, mas atento a cada detalhe do ambiente. Seus olhos percorriam o espaço à frente de forma constante, analisando tudo ao redor árvores, sombras, troncos caídos, qualquer irregularidade no terreno que pudesse servir de cobertura. A postura era a de alguém acostumado a executar ordens, alguém que mesmo não tendo recebido treinamento, cumpria o papel por instinto permanecendo imóvel por longos períodos sem perder a concentração.
A floresta estava viva como sempre, mas dentro da normalidade. Insetos, folhas se movendo com o vento leve, barulhos ocasionais. Nada indicava perigo imediato.
Ainda assim, Primal sentiu.
Não foi um som específico, nem um movimento claro. Era uma sensação incômoda de que algo havia mudado no ritmo ao redor, como se o lugar que eles estavam, estivesse sendo observado . Ele não reagiu de imediato para não chamar atenção. Apenas ajustou o foco do olhar, permitindo que a visão se aprofundasse além da clareira.
A dezenas de metros dali, oculto entre raízes grossas e arbustos baixos, um homem avançava agachado. Era magro, esguio e se movimentava de forma eficaz, claramente habituado a se deslocar por terrenos fechados. As roupas que usava eram escuras, gastas, adaptadas para não refletir luz nem produzir ruído. Se Primal o observasse diretamente, reconheceria. Era o mesmo batedor que havia conseguido fugir dias antes, escapando por pouco depois de ver seus companheiros morrerem.
Quando a vegetação começou a se abrir, o homem parou.
A clareira revelou-se diante dele, e com ela, a cabana e a figura que se mantinha de guarda do lado de fora. O reconhecimento foi imediato. O corpo mais largo do que o de um goblin comum, a postura firme, a forma como permanecia parado sem parecer relaxado nem tenso demais. Tudo aquilo se conectou à memória que ele tentava esquecer desde a fuga. A lembrança dos gritos, do impacto seco dos corpos contra o chão, da força descomunal que esmagara seus amigos sem hesitação.
O medo veio rápido e absoluto.
Seu coração disparou, a respiração ficou curta, e por um instante ele quase se moveu de forma precipitada. Conteve-se a tempo. Lentamente, começou a recuar, mantendo os olhos fixos em Primal, cuidando para não produzir nenhum som. Somente quando a vegetação voltou a envolvê-lo por completo é que virou o corpo e correu, afastando-se o mais rápido que podia.
O grupo aguardava mais atrás.
Eram homens endurecidos pela estrada. Alguns vestiam couraças leves de couro reforçado, outros traziam apenas proteções parciais, mas todos carregavam marcas de batalhas passadas. No centro deles estava Alaric.
O homem de cabelos grisalhos não precisava levantar a voz para ser ouvido. A presença dele impunha respeito entre os outros. Era alto para os padrões humanos, de ombros largos, com cicatrizes visíveis nos braços e no rosto. Seus olhos eram frios e atentos, avaliando tudo ao redor com uma calma que não combinava com a situação. Quando o batedor chegou e começou a relatar o que havia visto, Alaric ouviu sem interromper, sem demonstrar surpresa, absorvendo cada detalhe.
— É ele — concluiu o batedor, ainda ofegante. — O mesmo goblin. O que matou os outros. Está sozinho do lado de fora da cabana.
Alaric assentiu lentamente.
— Então é um acampamento. — disse para si mesmo.
Eles avançaram em formação aberta, aproximando-se da clareira com cuidado. Não havia pressa. Não havia ansiedade. O objetivo não era atacar de imediato, mas confirmar e entender para ver se era uma ameaça.
Primal percebeu quando cruzaram o limite da clareira.
Ele não se moveu de imediato. Apenas endireitou levemente o corpo e falou, a voz firme, clara, ecoando entre as árvores.
— Saiam daí quem quer que sejam. — A voz de Primal ecoou firme pela clareira, grave, carregada de autoridade. — Este território não pertence a vocês.
Por um breve instante, apenas o som da floresta respondeu. Então, passos calmos romperam a vegetação.
O homem de cabelos grisalhos surgiu primeiro, avançando sem pressa, como alguém que não se sentia ameaçado. Usava uma armadura simples, gasta pelo uso constante, mas mantida com cuidado. Seus olhos cinzentos varreram a clareira, a cabana improvisada, e então se fixaram em Primal com um misto de interesse e curiosidade.
Um sorriso lento surgiu em seus lábios.
— Então é verdade… — disse, com um tom carregado de desprezo divertido. — Um goblin que fala.
Ele inclinou levemente a cabeça, observando Primal como quem analisa uma ferramenta defeituosa.
— Já vi centenas da sua raça — continuou. — Gritando, chorando, implorando com os olhos enquanto morriam. Mas você… — o sorriso se alargou — …você é o primeiro que articula palavras como gente.
Os outros homens surgiram atrás dele, espalhando-se com cuidado, formando um semicírculo natural. Nenhum deles parecia apressado. Era como se fosse uma caçada que já consideravam ganha.
Primal não se moveu. Seus olhos permaneceram fixos no grisalho.
— Não avance mais. — disse, em tom controlado. — Não estou aqui para conversar com vocês.
Alaric soltou uma breve risada nasal.
— Conversar? — repetiu. — Você realmente acha que estamos aqui para negociar com um monstro?
Ele deu mais um passo à frente, propositalmente invadindo o limite invisível da clareira.
— Sabe o que você é, goblin? — perguntou, sua voz era baixa e venenosa. — Uma anomalia. Um erro da natureza que ainda não foi corrigido.
Os olhos de Primal se estreitaram.
— Sou executor de um rei. — respondeu. — Minha existência não precisa da sua aprovação.
Por um segundo, houve silêncio.
Então Alaric riu de verdade. Uma gargalhada arrogante e carregada de escárnio.
— Rei? — disse, limpando o canto dos olhos como se tivesse ouvido algo ridículo. — Agora vocês têm reis?
Ele deu uma volta lenta, mantendo os olhos sempre em Primal.
— Vou ser honesto com você. — continuou. — Quando voltarmos ao reino, vão nos pagar muito bem por você. Um goblin que pensa, que fala, que obedece ordens… — estalou a língua. — Os magos vão adorar abrir você em camadas lentamente.
Primal sentiu o ar ao redor pesar, não por magia, mas pela intenção assasina crua por trás das palavras.
— Se tiver sorte — Alaric prosseguiu — talvez não acabe morto de imediato. Pode servir nas minas. Ou como atração para os nobres. Eles adoram monstros exóticos acorrentados, sabia?
Os outros homens sorriram discretamente. Um deles cuspiu no chão.
— Última chance. — disse Primal, a voz mais grave agora, carregada de aviso real. — Saiam daqui.
Alaric parou.
O sorriso desapareceu.
Quando falou novamente, sua voz estava fria como aço.
— Não. — respondeu. — Você é quem vai sair daqui, e não será inteiro.
Ele ergueu a mão lentamente, os dedos marcados por cicatrizes começando a brilhar com uma energia opaca, pesada.
— Ajoelhe-se, goblin. — ordenou. — E talvez eu decida como você vai servir.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Então Primal avançou.
Enquanto o choque entre Primal e Alaric fazia o chão da clareira vibrar, um dos homens do grupo humano se desprendeu da formação lateral e avançou contra a cabana improvisada. Era rápido, confiante, a espada curta já estava erguida quando rasgou a vegetação e surgiu diante de Shivana.
Ela não gritou, nem recuou.
O primeiro golpe veio de cima, um corte direto, feito para matar rápido. Shivana girou o corpo no último instante, sentindo o vento da lâmina passar a poucos centímetros do seu rosto. Antes que o homem pudesse recolher a arma, ela avançou como um animal acuado, as garras cravando-se no antebraço dele.
Um grito curto irrompeu de sua garganta.
Shivana puxou com força, quebrando o equilíbrio do atacante, e o arrastou para perto. A testa dela colidiu contra o nariz do homem, o impacto seco foi seguido pelo estalo de ossos se partindo. Antes que ele caísse, ela cravou as garras no pescoço exposto, rasgando carne e traqueia.
O corpo tombou aos pés dela, convulsionando.
O cheiro de sangue tomou o ar.
Shivana respirava com dificuldade, o ventre pesado limitando seus movimentos, mas os olhos estavam firmes. Sem hesitar, ela se abaixou, arrancou a espada manchada de sangue ainda quente da mão do morto e a segurou com força. A lâmina era pesada, mal equilibrada para alguém como ela — mas servia.
Ela se posicionou à frente da cabana, deixando claro que qualquer um que avançasse morreria.
Ao mesmo Alaric avançava novamente contra Primal.
O humano firmou os pés no chão e, por um instante, algo mudou. O ar ao redor dele pareceu se comprimir, como se a própria clareira estivesse sendo puxada em sua direção. Veias saltaram pelo pescoço e pelos braços, e um brilho sutil percorreu sua pele, quase imperceptível — mas Primal sentiu a pressão.
A força de Alaric explodiu.
Ele avançou em linha reta, o solo rachando sob seus pés, a espada vindo em um golpe horizontal tão rápido que deixou um rastro no ar. Primal mal teve tempo de reagir. Cruzou os braços e girou o corpo, tentando absorver o impacto.
Foi inútil.
O golpe o lançou para o lado, o corpo rodando no ar antes de se chocar contra o chão. Primal rolou, sentindo o impacto reverberar até os ossos. O mundo girou por um segundo.
Aprimoramento corporal… Esse humano não lutava como os outros, pensou Primal.
Alaric não deu espaço.
Veio de cima, descendo a lâmina como um martelo. Primal se arrastou para fora do alcance por um triz, sentindo a lâmina cravar o solo e abrir uma fenda profunda. Ele avançou no mesmo movimento, o punho vindo em um arco fechado, mirando o rosto do humano.
Alaric ergueu o braço e bloqueou.
O impacto soou como pedra contra aço.
Primal sentiu os ossos da mão protestarem. O braço do humano não cedeu um centímetro.
Alaric respondeu com um soco direto no tórax.
O ar foi arrancado dos pulmões de Primal. O golpe o levantou do chão antes de jogá-lo para trás. Ele caiu de costas, o gosto de sangue subindo pela garganta.
Forte demais.
Primal se levantou ainda em movimento, ignorando a dor, e avançou novamente, desta vez baixo, tentando agarrar a perna do humano. Alaric recuou meio passo e desceu o joelho com força brutal, atingindo o ombro de Primal.
Algo estalou.
A dor foi imediata, aguda, mas Primal não soltou o alvo. Ele girou o corpo e bateu o ombro contra a perna de apoio de Alaric, forçando-o a perder o equilíbrio por um instante.
Um instante era tudo o que Primal precisava.
Ele subiu com o cotovelo, acertando o queixo do humano com força total. O impacto fez Alaric recuar dois passos, o sangue escorrendo do canto de sua boca.
Alaric limpou o sangue com o polegar.
E sorriu.
— Excelente. — murmurou. — Você aguenta mais do que parece.
A pressão ao redor dele aumentou.
Os músculos se contraíram ainda mais, o corpo parecendo crescer, se tornar mais denso. Cada passo agora deixava marcas profundas no chão.
Primal sentiu o peso daquela presença esmagando seus sentidos.
Ele avançou mesmo assim.
Punhos e lâmina se encontraram em uma sequência brutal. Primal atacava sem forma, sem pausa, usando tudo o que tinha: garras, joelhos, cabeçadas. Alaric respondia com precisão cirúrgica, cada golpe calculado, cada defesa economizando movimento, explorando cada falha mínima.
Um corte abriu o flanco de Primal.
Outro rasgou sua coxa.
O sangue escorria livremente agora; o corpo gritava por recuo, mas Primal avançou de novo. Pensou em Shyvana, nos filhotes e em Glartak. Recuar não era uma opção.
Alaric girou a espada e desceu com um golpe vertical, carregado de força aprimorada. Primal cruzou os braços e recebeu o ataque de frente.
O impacto o fez afundar os pés no chão.
Os braços tremeram.
Os joelhos quase cederam.
A dor explodiu no ombro já ferido, algo quebrou de vez. O braço esquerdo perdeu força, pendendo ao lado do corpo inutilizado.
Por um segundo, Primal teve certeza:
se aquele golpe descesse de novo… ele cairia.
Alaric percebeu.
— Está no limite. — disse, com a voz firme, satisfeita.
Eles ficaram frente a frente, respirando pesado, sangue pingando no chão entre os dois.
Aquela troca de golpes não se estenderia muito mais. Um deles cairia logo.

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