Capítulo 35 - Troca Mortal
Primal permanecia de pé por pura obstinação.
Seu braço esquerdo estava inútil, os músculos rompidos incapazes de responder. Cada respiração vinha acompanhada de dor profunda, e o sangue escorria livremente por vários pontos do seu corpo. Ainda assim, ele não caiu.
Alaric observava aquilo com atenção.
— Curioso… — murmurou, caminhando lentamente ao redor dele. — Já lutei com orcs muito maiores que você. Mais fortes e mais brutais.
Ele parou à frente de Primal.
— Eles quebravam ossos com facilidade. Mas eram burros. Previsíveis. — inclinou levemente a cabeça. — Você não é.
Primal não respondeu. Respirava com dificuldade, os olhos atentos, analisando cada mínimo movimento do humano.
— Um goblin não deveria durar tanto tempo contra mim — continuou Alaric. — Muito menos depois de perder um braço funcional. Mas você não é um goblin normal, é? Parece ter passado por algum tipo de evolução…
Ele sorriu, mas agora não havia escárnio. Havia interesse.
— A sua força não é o problema. — disse. — É a sua cabeça.
Alaric avançou.
O golpe veio rápido, uma estocada direta ao abdômen. Primal girou o corpo por reflexo, sentindo a lâmina rasgar sua lateral. A dor quase o fez cair, mas ele se manteve firme e contra-atacou com um soco curto, mirando as costelas.
O impacto foi sólido, mas inútil. Era como golpear um corpo ancorado no próprio chão; os músculos de Alaric cederam apenas o suficiente para absorver o golpe, compactos demais, tensos demais. A força devolvida pelo choque subiu pelo braço de Primal como um impacto seco, e, mais uma vez, o aprimoramento corporal do humano fez o seu trabalho.
Alaric respondeu com um chute direto, acertando o tórax de Primal e o lançando alguns metros para trás. Ele caiu de joelhos, cuspindo sangue, a visão turva por um instante.
— Está acabando. — afirmou Alaric, aproximando-se com calma. — Seu corpo já decidiu isso, só falta você aceitar.
Primal se levantou com dificuldade, sentindo o corpo responder mais lento e a respiração encurtar a cada movimento. Ele sabia que, se continuasse daquele jeito, morreria em poucos instantes. Força bruta não funcionava. Resistência pura também não.
Enquanto Alaric se aproximava com confiança, Primal não avançou. Observou.
Droga… a pele dele parece endurecer antes mesmo do impacto, os músculos se contraem como se algo percorresse cada fibra do seu corpo, reforçando osso e carne. Pensou Primal.
Aquilo não era natural, eraa primeira vez que lutava contra alguém com aquele tipo de habilidade.
Mas então uma dúvida se formou na mente de Primal, o reforço corporal do humano cobria todo o seu corpo, ou quase…
Quando os olhares se cruzaram, Primal estreitou os olhos. Pensava nisso agora: será que aquele endurecimento alcançava os olhos?
Os músculos, a estrutura, a pele — sim.
Mas os olhos… ali não havia reforço algum. Apenas carne exposta. Vulnerável.
Era um risco — talvez o último que tomaria — mas também era a única abertura que a habilidade de Alaric não conseguia esconder.
A lâmina de Alaric cortou o ar com um silvo úmido, um arco prateado carregado de morte. Era um golpe perfeito, horizontal, gerado pelo torque completo de seu torso, com força suficiente para dividir um carvalho — e Primal ao meio.
Primal não recuou.
Não esquivou.
Em vez disso, ele avançou. Investiu contra o arco da lâmina num movimento de puro contra-ímpeto. O mundo se reduziu ao fino fio de metal e à brecha mortal que se abria diante dele.
O impacto não foi um estalo limpo. Foi um rasgar úmido e profundo, um trovão abafado de carne e tendão cedendo. A lâmina, destinada a clevá-lo em dois, atingiu-o de raspão no flanco, mas mesmo assim mordeu fundo. Primal sentiu o calor explosivo da dor, uma linha de fogo branco que lhe separou as costelas. O cheiro de cobre, seu sangue, encheu suas narinas.
Mas ele não parou. Usou a dor, usou o próprio corpo dilacerado como âncora. A força do golpe, combinada com seu avanço brutal, colou-o a Alaric. O braço do humano, estendido no golpe, ficou preso, a espada agora inútil, sem espaço para recuar ou girar.
No espaço de um suspiro, a distância entre predador e caçador evaporou. Primal viu os olhos de Alaric, antes frios e calculistas, arregalarem num clarão de pura surpresa. Era o instante. A fenda na armadura impecável.
Um rugido gutural, nascido das profundezas de um pulmão perfurado, saiu da garganta de Primal. Não era de dor, era de triunfo feroz. Enquanto o mundo de Alaric ainda desmoronava naquele microssegundo de choque, Primal ergueu a garra da mão que ainda funcionava — os tendões tensionados como cordas de aço, as garras sujas de terra e sangue próprio.
O movimento não foi para golpear. Foi para cravar.
Ele enterrou a garra no olho esquerdo de Alaric com a força implacável de um prego sendo martelado. Não houve o ploc delicado do cinema. Houve um estalo úmido e obsceno, o som de um ovo sendo esmagado sob um pedregulho, seguido por um rangido áspero quando as garras encontraram a órbita óssea e a furaram. A cabeça de Alaric foi jogada para trás com violência, um jato quente e viscoso pintando o ar.
Foi brutal e ao mesmo tempo íntimo. Uma troca final: uma costela partida e um flanco aberto por um único momento.
Alaric se debateu num espasmo final, a espada escapando de sua mão inerte antes de ele cair de joelhos; Primal puxou a garra para fora num movimento seco que estalou os ossos da órbita vazia, e o corpo do humano tombou para frente, batendo no chão com um baque surdo. Primal permaneceu de pé por alguns segundos, uma estátua trêmula e sangrenta, até que as pernas falharam e ele caiu de lado, seu próprio corpo finalmente cedendo ao golpe devastador. A visão escureceu nas bordas, o som da floresta se tornando um zumbido distante e abafado, enquanto a dor, total e esmagadora, o envolvia por completo. Ele ainda respirava, cada arfada um sacrifício, mas cada expiração o levava mais para longe — estava à beira, e o abismo agora era uma presença mais real do que a terra sob seu corpo.

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