Shivana respirava com dificuldade quando outro atacante veio pela lateral. Ela já havia deixado dois outros para trás: o primeiro, um homem ansioso, tombou quando suas garras cortaram seu pescoço; o segundo havia tentado atacá-la pelas costas, levou a ponta da espada nas costelas antes que pudesse erguer seu machado.

    O ventre se contraiu antes mesmo do ataque do terceiro homem. Ela sentiu uma dor profunda, diferente de tudo que já sentira e cerrou os dentes para suportar.

    — Não agora… — murmurou.

    O homem avançou confiante.
    Ela avançou também.

    A espada desceu em um arco pesado, entrando no abdômen do humano. Ele arfou, surpreso. Shivana puxou a lâmina e golpeou de novo, desta vez no coração. O corpo caiu morto.

    O quarto surgiu logo em seguida e a dor voltou ainda mais forte. Outra contração. O calor escorreu por suas pernas.
    Mesmo assim, Shivana ergueu a espada e atacou. O golpe foi curto e direto, rasgando o peito do homem. Ele caiu sem vida antes de tocar o chão.

    O quinto e último homem se adiantou. Era mais jovem que os outros, com um olhar intenso e os dedos adornados com anéis simples de metal. Ele não empunhava uma arma, mas suas mãos se moviam em um padrão rápido e preciso.

    — Os outros podem ter te subestimado — disse ele, com um sorriso tenso. — Mas eu não. Ainda não sou capaz de usar magia corretamente… mas aprendi alguns truques.

    Com as mãos unidas, ele soprou por entre os polegares. Um jato de ar comprimido silvou no ar, invisível e afiado como uma lâmina. Shivana rolou para escapar, mas com tanto esforço que o movimento foi lento — o golpe a acertou em cheio no ombro, com o impacto surdo de um tijolo. Um grunhido de dor escapou de sua boca antes que uma nova contração a dobrasse ao meio. Vendo-a vulnerável, ele conjurou outra vez. Não mais um jato preciso, e sim uma rajada ampla que arrancou poeira, folhas e cascalho do chão, criando um redemoinho abrupto. Cega pela tempestade de sujeira, Shivana engasgou e tossiu.

    Ele gritou para se fazer ouvir sobre o ruído do vento:
    — Vejo que seu corpo já luta contra você. Vou apenas ajudar a terminar o trabalho.

    Encurralada e quase cega pela poeira, Shivana sentiu o pânico crescer. Foi então que o instinto de sobrevivência falou mais alto. Fechou os olhos, trocando a visão pelo som do ar em movimento e pelo eco da voz inimiga. Ao perceber a súbita compressão do ar que precede o golpe, ela tomou uma decisão contra-intuitiva: em vez de se esquivar, avançou diretamente contra a corrente. Passou por ela como um salmão subindo uma cachoeira, com o vendaval a empurrá-la para trás e a impeli-la para frente, desequilibrada, mas inesperadamente dentro do alcance.
    Surpreso ao vê-la emergir do seu próprio ataque, o aprendiz tentou recuar e preparar outro feitiço. Tarde demais. A lâmina de Shivana — mais um punho de determinação feroz do que um instrumento de técnica — encontrou o espaço entre suas costelas. E o vento, subitamente, cessou.

    Enquanto ele caía, Shivana ofegante sussurrou:

    — Aprendi um truque também. O último… sempre é o mais difícil.

    O silêncio retornou.

    Shivana largou a espada. As pernas falharam, e ela se apoiou na parede da cabana antes de deslizar até o chão. A respiração ficou irregular, cada contração mais forte que a anterior.

    Do chão, apoiada contra a cabana, Shivana ergueu o olhar para a clareira no instante em que outra contração a fez perder o fôlego. A visão estava turva, os olhos ardendo, mas ela ainda conseguia vê-lo. Primal permanecia de pé, mal sustentado pelas próprias pernas, o corpo coberto de sangue, um dos braços pendendo inútil ao lado, enquanto Alaric avançava com a espada erguida, confiante, como alguém certo de que bastava mais um golpe. Por um momento, o medo tomou Shivana por inteiro; ela sentiu, com uma clareza dolorosa, que ele não teria forças para recuar, que aquele seria o fim. Então Primal fez o impensável. Em vez de recuar, avançou, permitindo que a lâmina descesse próxima demais, sentindo o metal rasgar sua carne, e no mesmo movimento levantou a garra restante, cravando-a no rosto do humano com uma violência que fez Alaric gritar. Shivana viu o corpo do homem vacilar, a postura segura ruir, e então cair, pesado, inerte, no chão da clareira.

    O alívio veio como um golpe tardio, misturado à dor intensa que voltou a atravessar seu ventre, arrancando dela um gemido rouco, no exato instante em que o mundo parecia se fechar ao redor.

    … O primeiro choro ecoou fraco pela clareira, rompendo a noite. O futuro da horda havia nascido naquela noite.

    Enquanto o choro fraco do recém-nascido ecoava pela clareira, ninguém ali percebeu o que realmente havia acontecido. Em meio ao sangue, aos corpos espalhados e ao caos da batalha, a contagem nunca foi feita. Todos os homens que haviam avançado pareciam mortos, caídos onde lutaram — todos, exceto um. O batedor, o mesmo que escapara dias antes, jamais se mostrara durante o confronto. Oculto entre raízes grossas e sombras profundas, ele observara tudo em silêncio: inteligência impossível de Primal, a queda de Alaric, o nascimento em meio à morte. Enquanto Primal lutava para não perder a consciência, mergulhado em dor e exaustão, outro choro foi ouvido na clareira — mas o batedor já não estava mais ali. A floresta o engoliu novamente, levando consigo não apenas a própria vida, mas o conhecimento de que algo havia mudado naquele lugar para sempre.

    Muito longe dali, quando a noite da clareira já era apenas uma memória recente da floresta, Glartak seguia seu caminho de volta.

    Seu passo era constante, pesado, abrindo espaço entre a vegetação fechada. O corpo carregava marcas recentes de combate, mas seu ritmo não diminuía. Atrás dele, espalhados ao longo do trajeto, permaneciam os corpos das criaturas que haviam cruzado seu caminho — algumas caídas entre arbustos, outras largadas no meio da trilha, imóveis, quebradas.

    Ao seu lado, caminhava Fred.

    O lobo avançava em silêncio, o focinho baixo, atento aos arredores. Seu pelo estava manchado de sangue seco, e os olhos observavam tudo com vigilância constante. Em alguns momentos, Fred parava por um instante, farejava o ar, depois retomava o passo, sempre acompanhando Glartak de perto.

    Nenhum dos dois olhou para trás.
    Eles apenas seguiram em frente, deixando o caminho como estava.

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