Capítulo 37 - Mudança
A floresta seguia a mesma — densa, úmida, silenciosa demais —, mas Glartak não.
Ele caminhava sem pressa, avançando entre troncos retorcidos e raízes expostas como se o tempo, pela primeira vez, estivesse do seu lado. Não havia perseguição. Nenhum inimigo imediato. Apenas o som ritmado de seus próprios passos e o farfalhar das folhas sob seus pés.
Às vezes avançava por horas seguidas. Em outras, parava.
Quando parava, treinava.
Escolhia clareiras pequenas, trechos de terreno aberto entre árvores antigas, e ali testava seus limites. Não como antes, de forma instintiva e desesperada, mas com intenção. Com controle. Glartak fechava os olhos, imaginava o fluxo da magia percorrendo seu corpo — não mais como um turbilhão bruto, mas como um rio que ele começava, finalmente, a compreender.
O aprendizado que havia tirado de lição ainda estava gravado em sua mente: força sem controle era desperdício.
Ele repetia os mesmos movimentos dezenas de vezes. Conjurava pequenas manifestações de magia, interrompia antes do limite, sentia o consumo exato. Às vezes errava de propósito, forçando um pouco mais, apenas para entender onde o custo começava a aumentar de forma desproporcional. Outras vezes, buscava o oposto: reduzir o gasto ao mínimo necessário, manter a magia ativa pelo maior tempo possível sem que ela colapsasse por faltas de pontos.
O resultado não era imediato, mas era constante.
A cada dia, Glartak percebia que o cansaço vinha mais tarde. Que a sensação de esgotamento deixava de ser um golpe abrupto e se tornava um aviso gradual. Ele começava a reconhecer até onde poderia ir e suas limitações.
Era diferente de simplesmente ficar mais forte. Era eficiência.
Durante as caminhadas, ele testava esse controle em situações simples: usava passos no vácuo por breves instantes para saltar obstáculos, sustentava o campo gravitacional até o esgotamento. Usava implosão em criaturas que eram ousadas o suficiente para ficar em seu caminho.
O instinto bruto ainda estava lá, latente, pronto para explodir se necessário. Mas agora havia algo novo sobre ele.
Disciplina.
Em uma de suas pausas após esgotar todos os seus pontos de magia, quando o sol filtrava-se entre as copas altas e o ar estava estranhamente tranquilo, Glartak sentou-se sobre uma raiz grossa, respirando fundo. Sentia-se centrado pela primeira vez desde que despertara naquele mundo
Foi então que o som da notificação do sistema ecoou em sua mente:
Glartak abriu os olhos imediatamente.
A tela familiar se projetou diante de sua visão.
< Seus Pontos de Magia aumentaram em +5 >
< Requisitos cumpridos: o tempo de espera de sua regeneração de Pontos Mágicos diminuiu de 25 minutos por ponto para 20 minutos por ponto. >
Uma surpresa agradável como da última vez. Sues pontos de magia agora totalizavam 30. Dessa vez ele havia colhido frutos verdadeiramente maduros e doces. Seu controle sobre sua magia havia melhorado consideravelmente, seus gasto de pontos ao usar magia pela mesma forma. Antes ao usar passos no vácuo o gasto era de 2 pontos de magia por uso, agora gastava somente 1 ponto por uso. Já o campo gravitacional ele conseguia mantê-lo ativo por somente 3 segundos agora conseguia mante-lo ativo por 10 segundos antes de esgotar todos os seus pontos, uma média de de 3 pontos gastos cada segundo que mantém a habilidade ativa. Já a magia de implosão o custo de pontos ainda era enorme conseguindo usá-la somente duas vezes.
Glartak permaneceu imóvel por alguns segundos, absorvendo a tela não apenas como números, mas como confirmação de que o progresso existia mesmo que fosse lento. Com tempo, repetição e treinamento ele iria conseguir aumentar seus pontos e diminuir ainda mais o gasto de pontos.
E, pela primeira vez, Glartak teve a nítida sensação de que não estava apenas sobrevivendo naquele mundo.
Ele estava aprendendo a dominá-lo…
O sol já se entranhava sob a copa das árvores quando Glartak finalmente avistou a clareira à distância. Por um breve instante, tudo pareceu normal — até que seus olhos captaram os sinais. Seu corpo reagiu antes mesmo do pensamento consciente: os músculos se contraíram, a postura mudou, e a guarda foi erguida.
Havia marcas de luta.
Mesmo que o tempo tivesse começado a apagá-las e a vegetação insistisse em nascer novamente, os sinais ainda estavam ali. Troncos quebrados, galhos partidos de forma antinatural, sulcos rasos no solo. Manchas de sangue seco escureciam a terra úmida, espalhadas o bastante para confirmar que um confronto havia ocorrido naquele local.
O pensamento de Glartak foi imediato — Primal e Shivana grávida.
No mesmo instante, sua mente começou a turbilhar. Ele estava sozinho. Primal e Shivana eram os únicos que haviam restado do ninho, os últimos goblins que carregavam algo além do instinto bruto. Os únicos que haviam sobrevivido junto com ele quando tudo o mais fora destruído.
E mais do que isso.
Eram os únicos que poderiam caminhar ao seu lado. Os únicos capazes de compreender, ainda que parcialmente, o que ele pretendia erguer a partir daquele mundo hostil. Sem eles, seus planos não passariam de intenções vazias, fragmentos de um futuro que não se sustentaria. Sem Primal, sem Shivana, não haveria continuidade. Não haveria base. Não haveria o reino que ele queria criar.
A ideia de encontrá-los ali, caídos e esquecidos, fez sua atenção se afiar ainda mais.
Ao seu lado, Fred, o enorme lobo, percebeu a mudança no comportamento do mestre. Seus pelos se eriçaram, o corpo se enrijeceu, e ele também assumiu uma postura defensiva, atento a qualquer sinal oculto na floresta.
Glartak avançou com cautela. O chão da clareira revelava rastros de combate intenso: marcas de deslocamento, pontos onde a terra fora revolvida sob peso e impacto. Em um dos cantos, armas haviam sido cuidadosamente amontoadas. Ao lado delas, roupas e armaduras também estavam reunidas, retiradas e preservadas, não abandonadas de forma caótica.
Esse detalhe fez seu raciocínio desacelerar.
Se as armas e as vestes haviam sido recolhidas daquele modo, não se tratava de uma fuga desordenada nem de um massacre sem controle. Havia intenção. Organização. E isso indicava uma possibilidade clara: Primal e Shivana poderiam ter saído vitoriosos do confronto que acontecera ali.
Foi então que ele ouviu o som. Um leve estalo, quase imperceptível, vindo da borda oposta da clareira.
Glartak reagiu de imediato.
Seu corpo se moveu antes do pensamento, girando na direção do ruído, sua postura mudou pronto para explodir em ação caso necessário. Ao seu lado, Freddie avançou um passo à frente, o enorme lobo expondo as presas, bloqueando o caminho do mestre como um escudo vivo.
A figura emergiu entre as sombras das árvores.
Por um instante, Glartak se preparou para atacar — então reconheceu aquele corpo, aquela presença.
Primal.
Ainda assim, algo estava errado.
Não era o mesmo goblin que Glartak havia deixado de guarda na clareira quando partira. A diferença era visível à primeira vista, e ainda assim difícil de definir em um único detalhe. A postura estava diferente — mais firme, mais ereta, sem a curvatura típica dos goblins comuns.
Os espinhos que antes se projetavam de alguns lugares do seu corpo haviam desaparecido. No lugar da pele áspera e irregular, havia agora uma superfície mais lisa, de um verde mais claro, menos opaco. O rosto também não carregava mais as feições grotescas de antes; os traços estavam mais definidos, menos animalescos, ainda duros, mas estranhamente equilibrados.
Primal estava mais alto.
Muito mais alto do que Glartak se lembrava. Aproximava-se de um humano de estatura média, talvez cerca de um metro e oitenta. O corpo era forte, sólido, musculoso na medida certa — não exagerado, mas claramente moldado para o combate. Os músculos eram bem definidos, funcionais.
Quando se moveu, não houve pressa nem rigidez. Os gestos eram contidos, precisos, e transmitiam controle. Não parecia alguém tenso ou à beira de um ataque desordenado, mas alguém pronto para reagir no instante exato.
Glartak observou em silêncio, absorvendo cada detalhe.
Primal ainda estava ali. Reconhecível. Mas o goblin que ele lembrava não existia mais da mesma forma.
Havia algo novo ali. Algo elevado.
Glartak ergueu a mão lentamente.
— Pare — ordenou, sem desviar os olhos.
Freddie hesitou por um segundo, rosnando baixo, antes de recuar meio passo, ainda atento. Glartak manteve o olhar fixo em Primal, analisando cada detalhe daquela transformação com um leve sorriso no rosto.

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