A voz pertencia à outra figura masculina que surgiu caminhando de dentro da escuridão. Era um homem alto, jovem, tinha a pele oliva, cabelos escuros e curtos, utilizava da mesma roupa que Elliot, o traje e a grande capa escura por cima.

    Seus olhos eram azuis e sua postura e semblante eram calmos e serenos. Mas isso não mudava o fato de que tanto Luke quanto Sam se sentiram intimidados por ele, o homem tinha uma presença forte.

    “Identifiquem-se.”

    Luke engoliu seco e respondeu no mesmo instante.

    “Luke.”

    “Samantha.” Disse no mesmo instante.

    O rapaz se aproximou mais deles.

    “Entendi… Que estranho, duas pessoas vagando pelo território do meu grupo em plena corrolune… Por acaso isso seria alguma espécie de plano maluco para nos roubar novamente? Yakov os mandou?”

    Luke percebeu o homem se aproximando, ele também notou a espada que ele guardava por debaixo da capa.

    “Não! Eu posso explicar, nós acabamos de ser abduzidos e fomos encontrados por Elliot lá naquele lixão, ele nos mandou vir até aqui e viemos correndo.”

    Sam acrescentou.

    “Sim, isso mesmo! Ele nos disse para dizer que um tal de Kroni nos mandou aqui. Vocês tem que acreditar em nós, é sério!”

    Ao ouvir o nome “Kroni”, o rapaz parou de caminhar, ele os encarou com o rosto sério… e de repente um sorriso apareceu em seu rosto.

    “Ah! Porque não falaram de uma vez que foi o Kroni? Poderiam ter evitado o susto haha!”

    Luke e Sam se entreolharam confusos pela mudança repentina de personalidade do rapaz.

    “Me desculpem pelo susto, sério. É que nessa região, vive um pessoal que não se dá muito bem com a gente, então temos que ser cautelosos com todas as pessoas suspeitas.”

    Luke suspirou, aliviado de certa forma.

    “Desculpe, senhor. Não foi nossa intenção assustá-los.”

    “Não me chame de senhor, tenho só vinte e quatro anos. Me chame de Damian.”

    Sam também suspirou aliviada.

    “Pelo visto nós acabamos de ser abduzidos, e aí acordamos naquele lixão que o Elliot chamava de Campos corrompidos.”

    Luke acrescentou:

    “A gente se encontrou lá, Elliot me salvou de uma pantera-radar e segurou mais duas dando tempo para Sam e eu fugirmos.”

    Damian ficou um pouco sério.

    “Ele está bem? se machucou?”

    Luke respondeu:

    “Ele estava bem, só havia levado alguns arranhões. Mas estava em perfeitas condições. Bom, como ele está agora eu já não sei…”

    Damian lançou um olhar sério para Taylor.

    “Vá.”

    Taylor assentiu em silêncio e se virou para a mesma direção em que eles haviam entrado e correu. Damian voltou a olhar para eles.

    “Taylor irá encontrá-lo, ele vai ficar bem.”

    Ele apontou para um canto da caverna onde havia uma fogueira que iluminava o local, ao redor dela havia alguns assentos de pedra improvisados.

    “Sentem-se, podem ficar à vontade.”

    Luke e Sam se sentaram, Luke pegou o cantil de Elliot e entregou para Damian.

    “Isso é dele.”

    Damian pegou o cantil e guardou em sua capa.

    “Obrigado. Enfim, que azar o de vocês de acordarem logo nos campos corrompidos, ainda mais na corrolune. Se fosse durante a puranoite talvez vocês não teriam passado por tanto perrengue. Geralmente muitas pessoas usam os campos corrompidos para treinar e conseguir itens, mas quase ninguém é louco o suficiente para ir para lá sozinho em corrolune.”

    Luke franziu o cenho.

    “Olha, Damian, né? Eu tenho muitas dúvidas, mas primeiro me explica esse lance de corrolune?”

    Damian terminou de servir uma bebida quente para os dois.

    “Aqui no planeta de Automatuz não há dia. Existe a puranoite e a corrolune. A puranoite é quando a lua branca está no céu e nada de mais acontece, é uma noite comum, na medida do possível, é claro. E a corrolune é o nome do período em que a lua carmesim toma os céus. Todas as criaturas de Automatuz ficam corrompidas e mais violentas, mais fortes. Até mesmo alguns itens que são originários deste planeta podem manifestar efeitos especiais no período da corrolune.”

    Damian fez uma pausa e prosseguiu:

    “Obviamente não é recomendado sair sozinho na corrolune, dependendo do lugar, é bem perigoso até para pessoas mais fortes e experientes. Ela dura doze horas e a puranoite também.”

    Sam fez uma pergunta:

    “Quando fomos abduzidos, aquele Alienígena disse que nós iríamos encontrar uma grande cidade que abriga muitas pessoas. Onde ela está?”

    Damian deu um gole na bebida e respondeu:

    “A cidade de Automatuz não fica muito longe daqui, nós a chamamos de Automata. Eu vou precisar ir até lá resolver algumas coisas depois que a corrolune acabar. Eu deixo vocês passarem a corrolune aqui, quando acabar, eu os levo até a cidade. Pode ser?”

    Luke e Sam se entreolharam e assentiram para Damian. Sam falou novamente:

    “Claro! Muito obrigado por deixar a gente passar a noite aqui, Sr. Damian. Eu posso fazer mais algumas perguntas?”

    Damian se levantou e deu um sorriso.

    “Por favor, não me chame de senhor… Eu não sou velho.”

    Ele suspirou.

    “Hehe, eu estou sendo interrogado? Informações não são dadas de graça neste lugar, garota. Elas são a principal moeda de troca. Depois dos Salis, obviamente…”

    Luke ergueu uma sobrancelha.

    “Salis?…”

    Damian suspirou e olhou para o garoto.

    “É o dinheiro desse mundo. Enfim, caso vocês queiram aprender mais sobre este lugar, procurem as alas de ensino em hotéis da cidade. Por sinal, vocês já sabem o que querem fazer? Se querem avançar os mundos, viver estagnados em Automtatuz?…”

    Luke e Sam pensaram por alguns segundos, e finalmente, Luke respondeu:

    “Podemos realizar o desejo que quisermos pelo que o alien falou, então eu acho que quero avançar. E você, Sam?”

    “Eu também quero.”

    Damian sorriu.

    “Bom, entendo que o fato de ter um desejo onipotente realizado é tentador, mas espero que vocês estejam dispostos a passar pelo inferno, não esperem pouco deste lugar.”

    Barulhos de passos surgiram no túnel que levava até o local onde os três estavam. Taylor e Elliot acabaram de chegar.

    Taylor estava limpo, com sua beleza impressionante intacta. Mas não o mesmo poderia ser dito sobre Elliot… Ele estava ensanguentado, coberto de suor, com o cabelo desgrenhado, coberto por arranhões e hematomas. Ele se virou para Damian.

    “Eai, mano… Cheguei.”

    Damian foi andando até ele.

    “Meu Deus, cara. Parece que você acabou de cair de um barranco. Eu falei que não era uma boa ideia fazer uma ronda em plena corrolune.“

    Elliot se soltou de Taylor e se sentou no chão.

    “Relaxa… eu estou bem, acho que as panteras foram atraídas pelo barulho da explosão, e eu acabei tendo que lutar com muitas no caminho. Por sorte o Taylor chegou para me ajudar. Valeu aí!”

    Taylor apenas assentiu com o semblante sério, sem falar nada. Luke e Sam foram até Elliot. Sam rasgou pedaços da capa dele e começou a amarrar em algumas feridas mais feias. Luke estava olhando impressionado para ele.

    “Cara, com quantas você lutou?”

    Elliot apertava os dentes quando Sam amarrava e apertava as bandagens improvisadas contra suas feridas, ele se virou para Luke.

    “Sei lá… Não contei, talvez umas dez ou quinze. Elas não são as coisas mais fortes daqui, mas são bem chatinhas de lidar na corrolune.”

    Ele deu alguns espasmos de dor.

    “E vocês dois? Estão bem?”

    Sam olhou para ele.

    “Explodimos quatro panteras de uma vez, corremos pra caramba e fomos rendidos pelo seu amigo mudo, mas estamos bem.”

    Sam terminou de amarrar as tiras de capa nas feridas mais sérias de Elliot.

    “Valeu aí, garota. E relaxem, o Taylor é assim mesmo. Ele é só um cara reservado, mas é uma boa pessoa.”

    Ele olha para Taylor.

    “Não é, amigão?”

    Taylor permanece taciturno, ele encarou Elliot e se virou, indo em direção à outro canto.

    Damian estende a mão para Elliot se levantar. E se vira para todos.

    “Bom, já que todo mundo está bem, vocês vão descansar enquanto eu e Taylor vigiamos a entrada. Quando a corrolune acabar, eu os levarei para a cidade.”

    ***

    Luke e Sam foram colocados para dormir no mesmo cômodo, havia alguns cômodos usados como quartos pelos três rapazes. Luke não conseguia dormir, pois sua cabeça estava lotada de questões e preocupações.

    Talvez a ficha dele ainda não tenha caído, talvez isso tudo fosse um sonho, um sonho que talvez… ele não gostaria de acordar.

    Ele estava olhando para o teto. Samantha estava dormindo do outro lado do quarto, tinha apenas uma lamparina fraca que iluminava tudo. Luke estava deitado e imerso em seus pensamentos.

    ‘Isso é sério?… Isso realmente está acontecendo?’

    Ele colocou a mão na perna como se estivesse procurando um bolso ou seu celular, mas não havia mais nada lá.

    ‘acho que agora eu só consigo me comunicar com você por pensamentos. Se realmente for verdade aquele lance do desejo… Mãe, eu posso-‘

    “No que você está pensando, Luke?”

    A voz doce e suave de Samantha invadiu os pensamentos de Luke novamente, ele se assustou ligeiramente, se sentou e olhou para ela que estava do outro lado.

    “Você também não consegue dormir, Sam?”

    “Não… São muitas coisas passando pela cabeça, impossível dormir assim.”

    Luke demorou um pouco para responder.

    “Até que esse lugar não é tão ruim, né?”

    Samantha deu um sorriso

    “Cara, quase fomos esquartejados por um bando de robôs do mal, acordamos em um lixão, fomos rendidos por um garoto propaganda de marca de xampu e ainda estamos dormindo no chão de uma caverna usando tapetes dobrados como colchões…”

    Ela suspirou e prosseguiu:

    “Mas eu concordo realmente com você, só essas últimas horas foram mais intensas e divertidas do que minha vida estava sendo nos últimos tempos, eu gostei desse lugar. Pelo que o Damian falou, nem todo lugar aqui deve ser tão perigoso assim, a gente só deu azar de acordar lá mesmo.”

    Luke assentiu sorrindo.

    “Meus agradecimentos aos alienígenas… Ei, quantos anos você tem?”

    “Dezenove, e você?”

    “Dezenove também.”

    Sam se aproximou de Luke.

    “Aí, já que a gente não vai conseguir dormir direito, vamos nos conhecer melhor, me faz uma pergunta aí.”

    Luke coçou a nuca, pensando em algo.

    ‘eu não quero ser indelicado e perguntar algo sensível pra ela…’

    “O que você gostava de fazer? Lá na terra?”

    Ela desviou o olhar e sorriu sutilmente.

    “Eu gostava de música. Eu era baixista de uma banda formada por amigos, mas todos eles morreram por causa de drogas e um foi espancado até a morte em um beco por causa de dívidas. E você? Gostava de fazer o que?”

    Luke se arrependeu de perguntar instantâneamente.

    ‘puta merda….’

    “Eer… Eu sinto muito pelos seus amigos, eu… Ah… Eu gostava de…”

    ‘pensa, Luke. Pensa! Acaba com esse climão!’

    “Eu gostava de caminhar, andar, vagar por aí… Meu passatempo era andar.”

    Sam deu uma risada baixa.

    “Andar? Que simples, mas eu acho que te entendo um pouco.”

    Samantha suspirou.

    “Bom, fazer um interrogatório não faz muito sentido mesmo, a gente vai se conhecendo com o tempo. Mas aí, tem uma coisa que tá na minha cabeça há um tempo…”

    Luke levantou uma sobrancelha.

    “O que é?”

    “Você já escolheu um codinome?”

    “Não, mas eu pensei em um, e você?”

    “A mesma coisa, que tal a gente colocar ele agora?”

    Luke nem respondeu, apenas invocou o painel e abriu a opção de escolher um codinome.

    [ Insira seu Codiname aqui:

    (ele não poderá ser alterado): ]

    Sam olhou com curiosidade. Luke também olhou de volta.

    “Primeiro as damas.”

    Sam deu um sorriso e começou a digitar seu codinome, ela esperou alguns segundos e finalmente confirmou logo depois de dar uma risada animada.

    “Agora sua vez.”

    Luke suspirou e olhou para a tela.

    ‘Bom, eu tecnicamente renasci, recomecei… E na minha vida as coisas sempre foram assim, tudo desmoronava, até às coisas mais estáveis. Mas minha mãe me ensinou que para tudo tem uma saída, esse codinome é uma homenagem a ela. E também um juramento de que nunca mais vou desistir de mim, sempre podemos recomeçar do…’

    Luke terminou de digitar e finalmente confirmou. Ele olhou para Sam.

    “Olá, Scarlie.”

    Ela sorriu e o respondeu de volta:

    “Eai, Zero.”

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