VOLUME 1

    ATO 1 – Teia

    A noite era fria e cruelmente linda. Mas, para Luke, seria a última. A luz pálida da lua o iluminava por completo, ele deu mais um passo em direção à borda do prédio. Sentir as leves pancadas do vento gelado da noite batendo contra seu corpo, era como sentir que algo estivesse tentando empurrá-lo de volta e impedi-lo de fazer o que estava prestes a fazer, mas ele já havia decidido. Luke olhou a lua pela última vez, respirou fundo por uma última vez e deu seu último passo.

    Em poucos segundos, tudo acabaria, mas cada segundo na queda era como uma eternidade. Alguns dos momentos mais especiais da sua vida eram recordados nestes momentos restantes: o rosto de sua querida mãe, o sabor do sorvete que tanto gostava, as músicas que ele gostava…

    Como é o pós-vida? Ele sentiria saudades dessas coisas? Ele teria consciência? Na verdade, ele devia mesmo ter feito o que acabou de fazer?

    Bem, à essa altura, já era tarde para arrependimentos.

    A cidade abaixo – que se aproximava cada vez mais dele – continuava viva e normal. E as pessoas continuavam agindo normalmente como se nada estivesse acontecendo.

    Todos agindo como se uma pessoa não estivesse em queda livre a poucos metros delas, era como se ninguém estivesse prestes a esparramar-se no chão e manchar a rua com sangue e vísceras, assustar as inocentes crianças e fazer com que algumas pessoas percam o sono.

    Sua mãe com certeza não gostaria de ver essa cena, se ela estivesse vendo nesse exato momento, provavelmente estaria tampando os olhos. Ele realmente precisava ter dado este desgosto à ela?

    Bem, à essa pouca altura, já era tarde para arrependimentos.

    O chão estava cada vez mais próximo, a última visão de Luke antes de fechar os olhos e abraçar a morte, fora apenas as luzes da cidade e um prédio cinza e sem graça do outro lado da rua.

    ‘Acabou.’

    E tudo ficou escuro.

    ***

    A dor de cabeça era infernal, porém, o som de algumas máquinas bipando e um cheiro de remédio o fez tomar consciência. Abrindo lentamente seus olhos, Luke viu que estava deitado em uma cama dentro de um quarto hospitalar. Definitivamente não era esse o lugar que ele esperava acordar depois da morte.

    “Oh! Você já acordou? Como se sente?” era uma voz madura e feminina.

    Uma enfermeira acabara de entrar no quarto, ela não parecia estar tão preocupada e nem tão surpresa pelo fato de que um jovem que acabou de se jogar de um prédio de dezesseis andares estava vivo e acordado. Na verdade, nem Luke sabia o que estava acontecendo. Ele franziu a testa e começou a checar seu corpo, não havia sequer um arranhão.

    “… O que aconteceu? Por que estou aqui?”

    A enfermeira se aproximou, checando seus batimentos e sua temperatura enquanto falava calmamente:

    “Você estava caído no chão bem na porta do hospital. Não acordava, então o trouxeram para cá. Mas não parece ter acontecido nada demais… Eu que deveria te perguntar o por quê de você estar aqui, rapazinho.”

    Seu semblante estava confuso, ele tinha certeza que acabara de se jogar do topo de um prédio, como poderia estar vivo?

    “E-eu não sei… Não me lembro de nada…” respondeu, confuso.

    A enfermeira terminou de checar seu corpo, e começou a anotar alguma coisa em sua caderneta, e logo em seguida sorriu gentilmente para o garoto.

    “Pode ser que você tenha batido a cabeça ou tenha passado por uma crise. Mas aparentemente está muito bem, então é provável que amanhã você já possa receber alta, passe a noite aqui e descanse. Se precisar de algo, é só apertar o botão ao lado da cama e alguém virá.”

    A mulher folheou sua caderneta e olhou para o rapaz novamente.

    “Por gentileza, poderia me dizer seu nome e sua idade? Se há alguém que possa vir aqui e passar a noite com você ou te buscar?”

    Luke deitou-se na cama novamente, com expressão ainda confusa, seus olhos cansados nem olhavam para a enfermeira, ele estava apenas encarando o teto.

    “… Meu nome é Luke Lones, tenho dezenove anos e não há ninguém que eu possa chamar no momento.”

    A enfermeira assentiu em silêncio, escreveu alguma coisa em sua caderneta e a fechou logo em seguida.

    “Tudo bem, então se precisar de alguma coisa, é só chamar. Boa noite, Sr. Lones, durma bem.”

    Luke não respondeu, a enfermeira saiu do quarto e fechou a porta, deixando o garoto sozinho.

    ‘Eu não pulei? Tive uma crise? Mas eu me lembro que…’

    Interrompendo seus pensamentos, a janela ao lado se abriu e um vento frio invadiu o quarto, trazendo consigo um envelope pequeno que caiu exatamente em cima de Luke.

    O garoto se levantou rapidamente e foi até a janela verificar quem estava lá. Mas, para sua surpresa, ele estava provavelmente no quinto andar do hospital, não era possível alguém ter ido até ali.

    Ele passou mais alguns segundos olhando em todas as direções e não encontrou nada, então foi até sua cama e checou o envelope; era pequeno, no centro, estava escrito “Luke Lones”. Dentro dele havia uma carta.

    “Para mim?…” perguntou a sí mesmo.

    Abrindo o envelope e pegando a carta, Luke ficou ainda mais confuso com o conteúdo da mesma.

    [ 01/10/2023, Praça Esmeralda, 08:00AM, ônibus 0009. É sua única chance de recomeçar. ]

    Ele franziu a testa e encarou o papel por mais alguns segundos.

    “O que? Como assim “recomeçar”? Dia primeiro de Outubro… É amanhã? Não é?”

    Luke procurou seu celular e o encontrou na superfície do criado ao lado da cama, e logo checou a data e hora.

    [01/10/2023, 01:23 AM]

    ‘É hoje, daqui algumas horas… Recomeçar?…’

    Ele continuou encarando a carta, depois de pensar por mais alguns momentos, uma expressão de surpresa apareceu em seu rosto.

    ‘Espera! Eu realmente pulei daquele prédio e fui salvo por alguma coisa?! Quem fez isso?…’

    Ele ficou inquieto e acabou se levantando da cama, começou a andar em círculos pelo quarto, imerso em seus pensamentos.

    ‘Uma segunda chance… Uma segunda chance… Ok, eu não tenho nada a perder mesmo, então talvez não faz mal dar uma olhada, certo? O que poderia acontecer de tão ruim?’

    Luke abriu a caixa de mensagens de seu celular, não havia tantos contatos, apenas alguns grupos e contatos não salvos.

    Mas o que realmente interessava, era o primeiro contato fixado, que tinha a foto de uma mulher bonita, de aproximadamente quarenta anos de idade, tinha a pele pálida e um cabelo preto muito bonito e brilhante, junto com ela, havia um menino que aparentava ser seu filho, ele deveria ter cerca de doze anos de idade, os dois pareciam estar em um parque e o garoto segurava um sorvete de casquinha na mão.

    Luke entrou no contato, e lá havia diversas mensagens dele mesmo, não havia nenhuma resposta da mulher, este contato parecia ser usado como um diário. Ele abriu o teclado e começou a digitar:

    {Me mandaram uma carta para ir à Praça Esmeralda daqui algumas horas, você deve se lembrar desse lugar… Eu vou até lá para ver do que se trata, falaram algo sobre “recomeçar”.}

    Luke enviou a mensagem e começou a digitar outra.

    {Me desculpe por ter tomado aquela decisão, tomara que você não tenha visto. Sei que não é isso que você queria para mim… Bom, eu vou lá dar uma olhada, vou ficar bem. Eu te amo, mãe. Vou me cuidar.}

    ***

    Eram sete da manhã, a Praça Esmeralda estava vazia, empoeirada, inúmeras folhas secas e lixo jogado no chão. Bom, era de se esperar, afinal, essa praça ficava em um bairro pobre e quase abandonado da cidade.

    Era bem longe do bairro em que estava situado o hospital em que Luke fora socorrido, o garoto conseguiu fugir de lá de madrugada e foi correndo até à praça.

    O suposto ônibus possivelmente estava chegando, faltavam poucos minutos para dar oito horas. Na praça havia mais algumas pessoas que também aparentavam esperar algo, mas não tinham muitas. Apenas um garoto alto com mechas roxas no cabelo, acompanhado de uma jovem parda, alta e esguia, de cabelos castanhos e longos.

    Perto de Luke, estava um jovem alto e ruivo, vestindo roupas bem escuras e maiores do que ele, possuía uma cicatriz em formato de ‘x’ na bochecha.

    Luke estava com frio e cansado, além de estar coberto por suor que estava se secando aos poucos, lhe dando um cheiro um tanto quanto desagradável.

    Ele não comeu e nem bebeu nada desde a hora em que fugiu do hospital. Além de não ter conseguido dormir nem por dez minutos.

    Mas, o que é só mais uma noite sem dormir? Suas olheiras já eram bem visíveis através de sua pele pálida, seus olhos eram escuros e caídos, seu cabelo preto não era cortado há um bom tempo, ele também possuía uma mecha branca na parte da frente que fez para disfarçar alguns fios grisalhos, o que era muito incomum, principalmente para um jovem de dezenove anos.

    Seu corpo era esguio e suas roupas sujas eram bem maiores do que ele, era como se tivesse perdido muito peso e elas tivessem deixado de servir. Seja lá o que aconteceu com Luke nos últimos tempos, o deixou em estado crítico para uma pessoa de sua idade.

    Um som de motor quebrou o silêncio da Praça Esmeralda, anunciando a chegada de um ônibus comum, era cinza e suas janelas transparentes, o motorista também podia ser visto, era um homem alto, gordo e com um bigode tão grande que cobria sua boca, ele tinha uma expressão neutra. O ônibus parou ao lado de Luke, e ao parar, um número brilhante apareceu em seu letreiro.

    [ 0009 ]

    Luke, ainda sentado, olhou para o ônibus e respirou fundo.

    “E lá vamos nós….”

    Ele se levantou do banco de pedra da praça e caminhou até o ônibus, antes de entrar, o motorista já estava na porta, ele sequer olhou para Luke, mas sua voz grave soou:

    “Nome?”

    Luke franziu o cenho, mas respondeu:

    “Luke… Luke Lones.”

    Depois que disse seu nome, o motorista ficou em silêncio por cerca de cinco segundos parado na mesma posição, olhando para o nada, até que enfim disse:

    “Entre.”

    Luke franziu o cenho, achou estranho o comportamento do grande homem, mas não o questionou. Ele entrou no ônibus e algumas pessoas já estavam lá dentro, dentre elas, uma belíssima garota de óculos que possuía olhos claros como o céu e cabelos lisos de tom preto azulado, um garoto com um vídeo game portátil na mão, com o volume no máximo, e um grupinho de meninas que estavam conversando entre si.

    Uma delas era loira e usava roupas caras, parecia ser a líder. Luke apenas seguiu até o fundo do ônibus sem falar com ninguém.

    Os jovens que ele havia visto na praça esmeralda também subiram logo depois dele e tomaram seus assentos em silêncio, e quando o ônibus estava prestes a partir…

    “Espera!”

    Uma garota acabara de virar a esquina e estava correndo na direção do ônibus, era uma jovem usando roupas escuras, vários acessórios como pulseiras, anéis e correntes. Ela tinha um cabelo curto, tingido de vermelho.

    Ela conseguiu chegar no ônibus antes dele partir, o motorista sequer olhou para ela, apenas falou a mesma coisa que havia falado pra todos os outros:

    “Nome?”

    “Arf… arf… Samantha Paris.” respondeu, ofegante.

    Depois de alguns segundos de silêncio do motorista…

    “Entre.”

    Samantha entrou no ônibus e se dirigiu até a parte de trás do mesmo, sentou-se rapidamente no primeiro assento vazio que viu nos bancos do fundo e suspirou em alívio. Ela sequer notou que Luke estava sentado ao lado dela, a garota também estava coberta de suor e nitidamente cansada.

    Enquanto ela passava, o grupinho de garotas esnobes olhou com certo desdém para ela, assim como também olharam para Luke. Ele ficou surpreso ao ver que alguém sentou-se ao lado dele. Notando o olhar de Luke em sua direção, Samantha olhou de volta e se assustou.

    “Oh! Me desculpe, eu não vi que você estava sentado aqui, nem perguntei se o lugar estava reservado! E eu estou toda suja, mil perdões!”

    A garota começou a se levantar e rapidamente Luke a respondeu enquanto levantava a mão:

    “Ah, não se preocupe! pode ficar, não estou esperando ninguém, e eu também não estou tão limpo…”

    A garota se sentou no banco novamente, aliviada, e estendeu sua mão para cumprimentar Luke.

    “Ah, ufa, obrigada! Eu sou a Sam, prazer!”

    Luke apertou a mão da garota e tentou dar um sorriso para parecer amigável, mas o máximo que conseguiu foi dar um sorriso fingido, que ele se esforçava para fazer.

    “Eu sou o Luke, o prazer é meu.”

    A garota sorriu de volta, diferente de Luke, o sorriso era bonito e parecia sincero, era de certa forma radiante.

    A viagem seguiu e os dois não conversaram mais, Luke até queria, mas não tinha assunto. Sam parecia gentil e aparentava gostar de conversar, mas ele não tinha a aparência mais amigável de todas e ficou com medo de incomodar a jovem garota.

    Depois de um tempo de estrada, o motorista entrou em um estacionamento vazio localizado em uma área pacata da cidade e estacionou o ônibus em uma vaga qualquer, Luke estava confuso.

    ‘O que viemos fazer aqui? Será que todas essas pessoas do ônibus também receberam a carta?’

    Sam interrompeu os pensamentos de Luke. Cutucando o braço dele e mostrando uma carta, exatamente a mesma carta que ele havia recebido.

    “Ei, você também recebeu isso?” a garota perguntou.

    Luke olhou surpreso para a carta da garota e também pegou a sua carta que estava em seu bolso e mostrou para ela.

    “Sim, olha! Eu recebi ontem.”

    “Ontem? Eu recebi a minha há umas duas semanas!”

    Mais conversas começaram a surgir dentro do ônibus e todos ficaram em silêncio quando o motorista se levantou de sua cadeira e ficou imóvel de frente para todos e olhando para o nada.

    Uma garota que estava sentada em um dos bancos da frente se levantou e ergueu a mão para fazer uma pergunta ao motorista.

    “Senhor, o que nos esta-“

    Interrompendo a pergunta da garota, o motorista colocou o dedo indicador em seu ouvido, como se houvesse um aparelho situado lá, e então disse:

    “Pode realizar a abdução.”

    E tudo ficou escuro.

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