Todos entraram na grande e luxuosa mansão de Pawell, se por fora já era bonita, por dentro era ainda mais. Suas paredes eram enormes e texturizadas com placas brancas e azuis brilhantes, havia diversos autômatos de todos os tipos trabalhando lá, alguns deles eram pequenos e redondos e limpavam o chão, outros ficavam flutuavam pela casa enquanto soltavam uma espécie de ar úmido e cheiroso, e havia também os humanóides que estavam organizando coisas, ou ficavam apenas parados de pé, esperando receber ordens.

    Luke estava perplexo, nem mesmo o Hotel stella era tão luxuoso, pelo menos não a parte em que recém chegados -como ele- ficavam.

    Pawell os guiou até uma grande mesa de jantar, após todos se sentarem, ele deu uma ordem à um autômato humanoide para trazer comida para eles. Luke demorou um pouco para se sentar, enquanto a bela garota que havia os recebido, estava de longe e parecia receosa em se juntar à mesa.

    “Venha, Yuri, sente-se conosco também.” disse Pawell, enquanto a chamava fazendo um gesto com a mão.

    A jovem assentiu em silêncio, com seu semblante neutro e olhar distante, e então se sentou em uma cadeira perto de Pawell.

    Sean pegou a bolsa que continha os radbats solicitados e entregou ao anfitrião.

    “Pode conferir, estão todos aí, como pediu.” afirmou.

    Pawell apenas deu uma olhada rápida na bolsa e sorriu.

    “Prestativos como sempre, muito obrigado!”

    Após olhar um pouco mais, acrescentou:

    “Estou planejando criar um novo protótipo para utilizar em treinos, se der certo, talvez eu possa dar uma remuneração simbólica para vocês… Vai ser um novo produto de sucesso, eu sei que vai!”

    Luke franziu o cenho, confuso.

    ‘Produto?… Esse cara faz máquinas e vende? Isso explica a riqueza…’

    No início, Luke pensou que todas as máquinas em Automatuz eram feitas pelos alienígenas ou pelos seres que controlavam este plano, mas depois de alguns dias, ele descobriu que boa parte das máquinas e androides eram construídas pelos próprios humanos, que reutilizavam peças de máquinas originais do planeta, ou peças dos campos corrompidos e alguns minérios.

    ‘Esse cara deve ser um grande inventor.’ pensou.

    Clara estava olhando para o grupo de Sean e para Pawell, até que disse:

    “Vocês já se conheciam?”

    “Todos somos grandes amigos.” Sean dizia, enquanto olhava para Nicollo e Zaina.

    “Nós nos conhecemos graças ao Pawell, raramente nos vemos, mas sempre que temos a oportunidade, aparecemos aqui para dar um oi.” acrescentou, sorrindo.

    Pawell respondeu:

    “Haha, me lembro de tê-los encontrado há pouco mais de um ano, quando chegaram aqui. Eu os treinei e os incentivei a enfrentar Astryx-X, mas até hoje, esses três estão estagnados aqui.”

    Luke ficou surpreso, por mais que Pawell fosse uma muralha em forma de homem, e claramente muito poderoso, era estranho pensar que ele treinou estes três adultos.

    Sean parecia ser um homem mais velho e mais experiente que ele, deveria ter cerca de sessenta anos. Nicollo também não tinha uma aparência tão jovem, e Zaina era como uma guerreira com décadas de experiência, com direito à cicatrizes de batalha.

    Mas pelo visto, as aparências enganam. Outra coisa deixou Luke em dúvida: qual o motivo para eles não terem enfrentado a astrobesta de Automatuz? Eles pareciam ser fortes o suficiente para atravessar o portal e sobreviver no combate mortal contra Astryx-X

    Então ele respirou fundo e se dirigiu a Sean, sem olhar para o homem:

    “Por que não enfrentaram Astryx-X? Vocês com certeza já estão prontos para isso.”

    Sean sorriu.

    “Não estamos com pressa, ainda nem conhecemos o planeta inteiro.”

    Luke ficou confuso.

    ‘Conhecer o planeta inteiro?…’

    Os autômatos finalmente chegaram com a comida, servindo a eles um grande banquete farto e esplêndido.

    Pawell olhou para Sean com uma certa desaprovação ao ouvir sua resposta.

    “Você e sua paciência, francamente…”

    Ele apontou para o banquete à mesa.

    “… Podem encher a barriga!”

    Então ele sorriu enquanto pegava uma bebida e brindava com Sean, Nicollo e Zaina, todos alegres e sorridentes.

    “Um brinde à paciência!” exclamou Sean.

    “Um brinde à paciência…” repetiram, não tão animados quanto ele.

    ***

    Um tempo se passou, Luke estava sentado na varanda em um dos andares superiores da casa de Pawell, era muito confortável respirar o ar da área nobre, era puro, fresco, até cheiroso. Ele se sentiu relaxado e calmo.

    Sua barriga estava bem cheia, ele realmente se fartou com o banquete oferecido pelo nobre, Clara e ele erradicaram os doces em uma velocidade impressionante.

    Clara, Kevin e Sam estavam espalhados pela casa, Luke sabia que Sam estava no teto, fazendo sabe-se lá o que…

    Kevin e Clara estavam na varanda do outro lado, e os adultos pareciam ter ido dormir, com exceção de Pawell e Sean, que permaneceram conversando na sala de jantar, como bons e velhos amigos.

    E Luke, sozinho. Mas ele não poderia se sentir mais feliz, afinal…

    … Agora era a oportunidade perfeita, sua barriga doía um pouco, ele estava se sentindo mais pesado devido à quantidade de comida em seu estômago, mas isso era bom -na verdade- isso era ótimo.

    Enquanto estava sentado, ele cruzou as pernas e fechou os olhos, relaxou seu corpo e se concentrou.

    ‘fluxo.’

    Dessa vez, demorou um pouco mais para ativar o fluxo, ele não estava tão confortável, não havia água quente, tinha roupas, dores de barriga e os sons da cidade. Mas isso não impediu ele de conseguir realizar a técnica.

    Ele começou a sentir seu corpo mais leve, a dor indo embora e o desconforto se retirando aos poucos, porém, no meio de sua meditação, algo aconteceu.

    Ele estava se concentrando apenas em sí mesmo, no seu corpo e na sua respiração, mas quando tudo parecia estar correndo bem, Luke sentiu um grande calafrio percorrer por sua espinha, era como sentir um choque que não estava em seu corpo, e sim ao seu lado, a poucos metros de distância, prestes a entrar na varanda.

    Ele se assustou e se virou imediatamente para a porta, o que ele estava sentindo não era apenas um calafrio, era outra concentração de rai que não era a dele.

    A porta dupla deslizou lentamente, revelando uma silhueta feminina, mais baixa que ele, de corpo atlético e cabelos lisos, os olhos claros e azulados da jovem, encontraram os sombrios olhos de Luke, e então foi como se os dois tivessem sentido uma fagulha de eletricidade. Luke conseguia ver o rai exalando do corpo de Yuri, assim como Yuri era capaz de ver o rai exalando do corpo de Luke. Ela se assustou e ele também, ambos sentiram um calafrio deslizar por seus corpos ao ressonar suas concentrações.

    ***

    Sean e Pawell – que estavam conversando na mesa – pararam sua conversa por um instante, os dois pareciam ter sentido a mesma coisa, se entreolharam e disseram simultaneamente:

    “Quem é aquela garota?”

    “Quem é aquele garoto?”

    ***

    Luke dissipou seu rai e saiu do fluxo, Yuri se recompôs e disse:

    “Você… você também sabe usar rai?”

    Luke demorou um pouco para responder, sua voz soava trêmula:

    “E-eu estou aprendendo, por enquanto só sei manifestá-lo e utilizar o básico do fluxo, nas não sei aprimorar e também não sei telecinese…”

    Yuri assentiu lentamente, compreendendo.

    “Entendo… eu também não sei utilizar as técnicas dele, para falar a verdade, eu acho difícil desativar.”

    Luke pensou por alguns segundos…

    ‘Difícil desativar? Ela mantém o rai ativo o tempo todo?’

    “Mantém ele ativo o tempo todo?” Luke perguntou.

    Yuri negou, balançando a cabeça.

    “Não, mas ele se manifesta sozinho quando eu sinto alguma emoção forte, ou quando me sinto em perigo ou coisa assim…” respondeu.

    Isso sim, era bem diferente. Luke demorou alguns dias para conseguir manifestar o rai e mantê-lo ativo, era muito estranho ver alguém que conseguia fazer isso sem querer.

    Ele ainda não conseguia sentir a concentração dos outros, mas agora, ele descobriu que na verdade ele consegue, mas aparentemente só funciona se ele estiver em fluxo, já que deixa seus sentidos mais sensíveis.

    Ou só funciona com pessoas cuja concentração seja anormalmente grande…

    ‘A concentração de rai dessa garota… é absurda.’

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