Capítulo 2 - Astralion
A escuridão se dissipou com um clarão tomando a visão de Luke, e imediatamente ele se viu em um lugar branco, sem nada nem ninguém por perto, sem contar que estava completamente despido.
“O que está acontecendo?”
Assustado, ele começou a correr para alguma direção aleatória, mas foi em vão, era como se nem tivesse saído do lugar.
“Oi! Tem alguém aqui?!”
Infelizmente não obteve nenhuma resposta. Mas, um som misterioso quebrou o silêncio do lugar, sua visão panorâmica pôde captar um brilho surgindo ao seu lado.
Luke se virou rapidamente para checar o que estava acontecendo, e diante dele, uma espécie de painel holográfico se materializou. Algumas letras começaram a surgir em desordem e rapidamente elas se ajustaram formando uma frase.
[ Seja muito bem-vindo à Astralion! Por favor, insira seu codinome no espaço abaixo:
Obs: você pode optar por adicionar o codinome mais tarde, e uma vez que tenha escolhido, não poderá alterá-lo.]
Luke olhou para o painel em completo choque e confusão.
“Codinome? Como assim? Eu não quero saber disso! Eu quero sair daqui.”
No painel, havia um botão verde escrito “avançar”, sem pensar duas vezes, Luke clicou no botão e de repente tudo ficou escuro novamente. Mas, dessa vez ele não sentiu como se tivesse apenas piscado os olhos, a escuridão durava mais tempo e ele começou a sentir sensações estranhas em todo seu corpo. Mas era bom, seu corpo foi tomado por um calor aconchegante e uma leveza que sequer lembrava se já chegou a sentir antes.
A cada segundo que se passava, sentia sua postura se ajeitando, sentiu que suas dores frequentes nas articulações sumiram e também sentiu como se seu corpo estivesse ficando mais forte, mais saudável.
[ Melhoria concluída! ]
A escuridão se dissipou, revelando um ambiente totalmente novo. Era uma espécie de plataforma bem grande que pairava sob o espaço.
Era possível ver as estrelas e outros astros. Mas, o que mais chamou a atenção de Luke, foi o fato de várias pessoas começaram a se materializar diante dele na plataforma, elas simplesmente começaram a aparecer como se estivessem sendo teleportadas. E estavam usando uma espécie de traje escuro e azulado com alguns detalhes em branco e cinza, a roupa parecia ser feita sob medida exata de cada pessoa que estava lá.
Luke ficou mais surpreso ainda ao reconhecer essas pessoas, o garoto alto de mechas roxas no cabelo e a menina parda que o acompanhava, o pequeno grupo de garotas esnobes, aquele que estava com o videogame na mão e todas as outras pessoas no ônibus, todos estavam lá.
O burburinho começou a tomar conta do lugar, obviamente, todos estavam perdidos e confusos. Algumas pessoas começaram a gritar e entrar em desespero.
A plataforma flutuante fora totalmente tomada pelo caos e desordem, no meio da movimentação toda, Luke sentiu uma pessoa se esbarrando nele e os dois quase caíram no chão, mas ele a segurou e manteve o equilíbrio para que não caíssem.
Olhando para a pessoa, Luke imediatamente a reconheceu, era Sam, a garota que se sentou ao seu lado no ônibus. Ele a pegou pela mão e se movimentou rapidamente, a levando para um espaço vazio da grande plataforma e afastado do tumulto.
“Luke? O que está acontecendo aqui? Que droga de lugar é esse?!”
Luke aparentava estar tão confuso e desesperado quanto ela.
“E-eu eu não sei! Aquele esquisito do motorista falou algo sobre abdução, não foi? Nós fomos abduzidos?!”
Samantha se assustou, ela estava olhando para o céu, logo atrás de Luke. Com sua mão trêmula, ela apontou o dedo para o local no qual estava olhando.
“E-ei, olha aquilo!”
Luke se virou rapidamente.
Algo começou a se manifestar acima da plataforma, interrompendo o tumulto. Era uma espécie de criatura cósmica? Um ser desconhecido? Era um humanoide de pelo menos três metros de altura e de pele acinzentada, possuía seis braços e quatro membros que se assemelhavam a tentáculos escuros no lugar das pernas, seu corpo possuía uma anatomia exótica, uma cintura muito fina, mas o peitoral e as costas eram grandes e fortes.
Em seu rosto não havia boca nem nariz, era como se ele estivesse usando uma máscara branca e vazia, e o que era para ser um cabelo, era uma massa estranha que aparentava ser feito da mesma coisa que suas “pernas” eram feitas.
Ele utilizava uma espécie de manto que se movimentava de forma irregular e se desmanchava nas pontas. Era de certa forma desconfortável olhar para essa criatura, parecia que o cérebro tentava reconhecer aquilo mas nunca conseguia chegar no resultado. E por mais que fosse extremamente estranho, ele passava uma certa atmosfera de elegância, e as pessoas pareciam querer ficar olhando para ele.
A criatura olhou para todos na plataforma que estavam em completo choque.
“Olá a todos, sejam bem vindos à Astralion. Peço que se acalmem e prestem atenção em mim.”
Quase como se estivessem obedecendo uma ordem, todos engoliram seco e ficaram em silêncio olhando para a criatura, o medo que as pessoas ali presentes estavam sentindo as fez paralisar.
“Muito bem, obrigado pela compreensão. Bom, primeiramente, devo informá-los que, a partir de hoje vocês irão viver em Astralion. O corpo de vocês foi ajustado para conseguirem se adaptar com o ambiente, e lhes fora atribuído um traje especial que vocês podem substituir depois, mas é apenas para garantir conforto e proteção, na medida do possível, é claro. Vocês podem checar suas informações em seus próprios painéis quando desejarem, basta tocar duas vezes no aparelho conectado ao seu ouvido.”
Algumas pessoas começaram a fazer o que o alien disse, várias pessoas identificaram um pequeno aparelho conectado em seus ouvidos e deram dois toques rápidos nele, em instantes todos estavam checando seus painéis holográficos. Lá, havia um modelo 3D perfeito do corpo do indivíduo e todas as suas informações úteis, peso, altura, IMC, musculatura, etc…
O alien acrescentou:
“Vocês também podem deixar o painel visível apenas para vocês quando o convocarem. Basta clicar no ícone com formato de olho no canto superior esquerdo.”
O garoto do videogame levantou a mão, ele estava visivelmente… Alegre? Era nítido que ele estava adorando toda essa situação.
“Ei! Senhor alien, o que é Astralion?”
A criatura olhou para o garoto.
“Astralion é o lugar para onde vocês serão redirecionados. Lá existem seis planetas habitáveis que podem ser acessados por qualquer um. Mas só é possível acessar os planetas passando por portais que são abertos quando uma astrobesta morre.”
O garoto do vídeo-game estava com os olhos brilhando e um grande sorriso no rosto.
Após uma pausa, a criatura cósmica prosseguiu:
“Não posso dar informações específicas. Mas, o que vocês precisam saber é que em cada um dos mundos, há uma personificação viva da essência do mesmo, estas são chamadas astrobestas. Ao derrotar uma astrobesta, um portal será aberto no local de sua morte e então será possível realizar a travessia para o mundo seguinte. Também é possível retornar quando quiser para os mundos já visitados anteriormente.”
Ele fez mais uma pausa, esperou por perguntas, mas como todos estavam em silêncio, ele continuou:
“Quem derrotar a astrobesta do último planeta e atravessar o último portal, terá um desejo onipotente realizado, qualquer coisa que quiser, na escala que quiser. Mas, por hora, vocês serão colocados em Automatuz, o primeiro planeta. Lá vocês encontrarão a Cidade de Automatuz, uma cidade colossal que pode abrigar a todos. Procurem por pessoas experientes que possam os ajudar a entender este lugar e fiquem a vontade para decidir como vocês levarão suas vidas de agora em diante. Todos que estão presentes aqui aceitaram o convite por livre e espontânea vontade. Garanto a vocês que este lugar é seu verdadeiro lar, aqui vocês podem viver. E antes de vocês irem, eu lhes desejo boa sorte e boas vindas, e não se percam, não se neguem e não hesitem. Astralion é seu lar.”
E tudo ficou escuro.
Luke abriu os olhos lentamente.
‘Já estou me acostumando com a tela preta…’
Se levantando do chão, Luke viu o ambiente em que estava. Era noite, mas não dava para saber se a noite estava começando ou se estava no final, a lua podia ser vista no horizonte, era difícil entender se ela acabara de chegar ou se estava indo embora, já que também não havia nenhum sinal do sol. O ar era gelado e tudo estava em silêncio. Ele parecia estar em uma espécie de lixão, havia montanhas de sucata para todos os lados e enormes poças e lagos feitos de um líquido escuro e malcheiroso.
“Que lugar é esse?… que fedor!”
Luke começou a andar pelo lugar insalubre, era um pouco difícil de se movimentar devido a enorme quantidade de sucatas, ele não conseguia reconhecer a maioria dessas coisas.
Havia pequenas peças de metal bem estranhas, algumas coisas que se pareciam telas, alguns cacos de vidro, fios e várias coisas relacionadas. Luke começou a caminhar pelo local a fim de encontrar alguém ou algum lugar habitável.
***
Já fazia algumas horas que ele estava caminhando, seu pé já estava doendo devido à quantidade de coisas que ele estava chutando para conseguir andar normalmente.
Havia uma carranca em seu rosto, ele estava constantemente puxando o traje a fim de tentar deixá-lo mais largo. Vez ou outra tropeçava em algo e quase caía no chão, também começou a reclamar em voz alta e às vezes se prendia num monólogo, já fazia um bom tempo em que estava caminhando e não encontrou nenhum sinal de vida, apenas lata velha, odor e suor.
Provavelmente ele não deve ter percorrido uma grande distância, já que a grande quantidade de sucatas tornava o ambiente extremamente difícil para locomoção.
“Que recomeço é esse? Cadê a tal cidade colossal? Porque fizeram uma droga de traje tão apertado? Alienígena filho da puta!”
Luke parou por um momento e começou a gritar.
“Oi! Tem alguém aqui?! Socorro!”
Ele tentou fazer isso algumas vezes, mas não conseguiu respostas. Se conformando que suas súplicas não adiantavam de nada, apenas desistiu e continuou caminhando. Porém, ele conseguiu ouvir algo diferente, eram sons de passos rápidos, pessoas?
‘não acredito, finalmente!’
Ele levantou as mãos e começou a olhar para os lados, tentando identificar de onde vinham os passos.
“Aqui! Eu estou bem aqui!”
Os gritos de Luke o ajudaram a ser localizado. Mas infelizmente, o que estava procurando ele não eram pessoas…
“Puta merda!”
Uma criatura se aproximava em uma velocidade perturbadora em direção ao jovem rapaz, se assemelhava a uma pantera, porém, era toda feita de sucata, estava suja e tudo que formava o corpo dessa coisa bestial poderia ser usado para matar alguém.
Suas garras eram desnecessariamente grandes e afiadas, e sua boca nem se fechava graças ao tamanho das presas que pareciam ser formadas por lâminas. Havia outro ponto de interesse nessa criatura, uma espécie de tela preta redonda em seu peito, as vezes essa tela piscava em vermelho. Mas isso não era importante no momento, esse monstro estava se aproximando cada vez mais!
Horrorizado com a abominação que avançava ferozmente em sua direção, Luke apenas deu às costas e começou a correr como nunca havia corrido antes em toda sua vida. Ele queria gritar, mas aparentemente seus gritos chamaram a atenção de um demônio de sucata que estava sedento para o fazer de banquete, ele não queria que outros surgissem.
‘merda, merda, merda! Se era para ser assim, era melhor terem me deixado morrer pulando daquele prédio!”
Luke não estava olhando para trás, mas os passos ferozes e rápidos da besta estavam cada vez mais próximos.
Ele estava conseguindo correr por muito tempo, talvez fosse aquela melhoria que aconteceu quando ele fora abduzido, mas não era o suficiente, a Besta estava a poucos segundos de o alcançar. Afinal, o ambiente em que ele se encontrava não o deixava correr livremente.
“Que se dane!”
Luke parou e pegou uma barra de ferro aleatória no meio da sucata que estava no chão, mesmo tendo uma noção muito básica de combate ou postura, ele se virou para a criatura, pronto para a encarar.
“Vem, cretina!”
Suas mãos estavam tão trêmulas que ele sequer tinha força para segurar a barra de ferro. A besta finalmente o alcançou e com um salto ela tentou o morder com suas presas laminadas.
Luke usou as duas mãos para pegar a barra de ferro e colocar na boca da criatura, ele conseguiu, mas ele se esqueceu que ela tinha braços longos e enormes garras.
A besta de sucata cravou suas garras na costela do garoto e as arrastou violentamente, fazendo sangue jorrar para o alto. Luke gritou de dor, era agonizante, sentiu sua respiração falhar e o desespero tomar conta. E sem esperar muito, a besta já preparava outro golpe com o outro braço.
“Droga!”
Luke conseguiu tirar a barra de ferro da boca da criatura e a usou para se defender do próximo ataque. Ele conseguiu evitar outro arranhão, mas foi jogado para longe e bateu em uma montanha de lixo que estava a poucos metros atrás dele.
Sua visão estava ficando cada vez mais escura, seus músculos enfraquecendo…
A fera rosnou e se preparou para dar uma última investida no garoto para finalmente o matar, Luke já estava muito cansado devido ao esforço de andar por este lugar e agora estava gravemente ferido, sua visão já estava turva, ele não tinha mais forças para se levantar e correr, sua respiração fazia seu corpo todo doer graças aos cortes profundos em sua costela. Ele não tinha tempo nem para pensar em algo.
“Fazer o que…”
A criatura saltou em sua direção, tudo parecia mais lento, agora, sim, era seu fim… Mas, no último segundo, Luke foi rapidamente puxado para o lado, deixando a besta bater contra a montanha de lixo e enterrando sua cabeça na mesma. Sua visão estava voltando ao normal e ele pôde ver o que o puxou no último instante.
Era uma figura alta, por cima do traje, ele utilizava uma grande capa cinza escura com um capuz cobrindo sua cabeça. Tinha uma espada cujo cabo e a guarnição possuíam vários cabos de aço que se envolviam em seu braço. A figura se virou para Luke e tirou seu capuz, era um rapaz.
Ele tinha cabelos castanhos, olhos âmbar e a pele parda. Parecia ser apenas um pouco mais velho que Luke. Em seu rosto havia uma expressão de preocupação e pressa.
“O que você está fazendo aqui? Não vê que já é quase corrolune?!”
“Corro- o que?..”
O rapaz olhou para os machucados na costela de Luke e apertou os dentes, ele olhou para trás e viu que a criatura estava com a cabeça presa na pilha de sucata mas não demoraria muito para se soltar.
“Consegue correr?”
Luke gemeu de dor enquanto se levantava lentamente.
“Andar sim, correr… Acho que não.”
O rapaz soltou um suspiro pesado, levantou-se e se virou para a criatura.
“Então vou ter que ser rápido…”
A fera finalmente havia terminado de se soltar, ela estava em um estado de confusão, mas se preparando para continuar sua caçada. O rapaz estendeu a mão que não segurava a espada e de repente um brilho surgiu na mesma, um pequeno objeto semelhante à um cantil de madeira envolvido por vinhas surgiu na palma de sua mão. Sem nem olhar para trás, o rapaz apenas o jogou para Luke.
“Beba isso e não faça nada, apenas fique parado, isso vai ajudar a curar a ferida.”
Luke pegou o cantil e bebeu sem pensar duas vezes, o líquido lá dentro tinha um gosto horrível, mas a sensação dele na boca era muito boa.
A besta soltou um rugido alto, o barulho das lâminas que formavam seus dentes roçando uma na outra era agonizante e ameaçador, ela curvou o corpo e entrou em posição de ataque, ao mesmo tempo, o rapaz também assumiu uma postura de luta e os dois avançaram um contra o outro.

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