Ambos saíram da loja, Clara se despediu da mulher que a atendeu e da garota que conversava com Luke, agradecendo a recepção com seu sorriso gentil.

    Luke também acenou para ambas.

    “Uh… acho que pintou um clima, hein!” Clara disse, provocando Luke e apontando sutilmente com a cabeça para a garota, que já estava distante.

    Havia um sorriso ridiculamente sarcástico em sua face, ela prosseguiu:

    “Olha só, ganhou até um presentinho!”

    Luke rangeu os dentes e virou o rosto, envergonhado.

    “Não começa! Nem vem, eu nem sei o nome dela.”

    Clara franziu a testa e lavantou os braços, claramente indignada.

    “Como assim? A primeira coisa que fazemos ao conhecer alguém é apertar as mãos e perguntar o nome, você é muito deselegante…”

    Luke revirou os olhos e suspirou:

    “Quanto exagero, isso nem é tão importante assim, talvez eu nem volte a vê-la mais, se nem eu estou me importando, por que você se importa? E se ela queria que eu soubesse o nome dela, era só ter falado.”

    Clara o encarou em silêncio, com indignação no olhar, ela bateu a mão na testa e respirou fundo..

    “Homens…”

    Ela fez uma pausa e prosseguiu:

    “Se bem que Dae não era tão diferente, por que vocês são tão cabeças ocas as vezes?”

    Luke apenas respirou fundo e desistiu de falar, ele já havia excedido sua cota de palavras diárias, não tinha mais energia.

    “Ei, não me ignora!” reclamou Clara.

    E então, ela deu de ombros e apenas aceitou.

    “Tá, entendi, o gato comeu sua língua, de novo…”

    Diferente de Sam, Clara já havia entendido como Luke funcionava, se acostumara com as vezes em que ele simplesmente parava de se comunicar. Ela sabia que não era por mal, nem por ignorância, ele apenas se cansava de interagir e precisava de alguns minutos para voltar ao normal. E então, ela sempre respeitava seu silêncio.

    Após alguns segundos de silêncio, ela voltou a falar:

    “Enfim, consegui comprar cinco componentes de gelo, três explosivos e dois de fumaça. Você ganhou um presente e comprou sua capa, então podemos ir atrás de Kevin e Sam agora, certo?”

    Luke assentiu.

    Clara sorriu e olhou para frente.

    “Perfeito. Me pergunto se aqueles dois conseguiram fazer o que precisavam…”

    ***

    Em outro lugar…

    “Sam, onde diabos você está me lavando?” Kevin reclamava.

    Automata era uma bela cidade, as máquinas sempre faziam um ótimo trabalho na limpeza e nos cuidados da cidade para a melhoria da qualidade de vida. Entretanto, nessa cidade colossal, havia alguns lugares esquecidos por tudo e todos. Kevin e Sam estavam em um desses locais.

    Era apertado, insalubre, o ar não era puro e fedia muito. Algumas pessoas estavam sentadas no chão, utilizando de substâncias ilícitas, algumas pessoas brigavam, e outras… bem, havia algumas pessoas que perderam totalmente o senso de vergonha e pudor.

    “Calma, Kevin, estamos quase chegando.” Sam respondeu, totalmente despreocupada.

    Ela caminhava logo à frente de Kevin, andava pelo beco escuro como se estivesse em casa, cumprimentava todo ser humano que via pela frente, sorria e mantinha o semblante despreocupado e relaxado.

    Kevin tentou permanecer neutro, afinal, o que poderia acontecer só de olhar feio para alguém neste lugar? Embora evitar isso, fosse uma tarefa um tanto quanto difícil…

    Ele já achava as pessoas de Astralion estranhas, mas aqui, estavam as piores. Eles se escondiam nesses becos para usar drogas e coisas do tipo, longe da guarda urbana.

    Kevin não sabia ao certo como eles conseguiam drogas e bebidas, mas sabia que eles não queriam ser pegos pela guarda urbana.

    No centro de Automata havia uma torre colossal, que era o maior edifício da cidade, a torre central. Lá era o lugar em que as pessoas compravam ou alugavam casas, se cadastravam na C.A.E, e depositavam salis para mantê-los guardados com segurança garantida e baixo rendimento.

    Porém, a torre central também era o local onde as pessoas se cadastravam para conseguir trabalhos públicos, e receber de lá mesmo. Esses trabalhos eram diversos: engenheiros, professores, médicos, e os guardas urbanos, que eram a polícia da cidade.

    Na medida do possível, Automata era organizada, mas apenas para quem vê superficialmente…

    Sam levou Kevin até uma porta metálica que ficava no fundo do beco, havia uma mulher vigiando o local. Era alta e magra, seus cabelos vermelhos estavam quase raspados e seus olhos eram escuros e caídos. Ela utilizava um traje avermelhado com ombreiras e manoplas mecânicas escuras.

    Ela lançou um olhar à Sam, sua voz desdenhosa e baixa:

    “Senha?”

    Kevin franziu o cenho.

    “Ah, claro!” respondeu Sam.

    Ela enfiou a mão em uma pochete que carregava em sua cintura, e de dentro dela, tirou um pequeno saco plástico com uma espécie de pó cinzento com pequenos pontos brilhantes.

    Antes mesmo de estender o braço para entregá-lo a vigia, a mulher simplesmente o tomou de sua mão, seus olhos – antes caídos e sem vida – brilharam. E então, ela deu dois socos fracos na porta, que abriu logo em seguida.

    “Obrigada!” Sam agradeceu.

    Kevin também caminhou em direção à porta, mas fora barrado pela vigia, que o encarou sem dizer nada.

    “Relaxa, ele está comigo.” Sam afirmou, enquanto colocava mais um saco plástico na mão da mulher.

    Os olhos da vigia brilharam, e rapidamente saiu do caminho de Kevin.

    Após entrarem, a porta se fechou.

    “Sam, que merda é essa?!”

    Sam lançou um olhar triunfante para Kevin, sorrindo.

    Fusha, o pessoal adora usar isso, te leva pra outro planeta, não literalmente, é claro.”

    Kevin encarou Sam por alguns segundos.

    “Sam… você está usando drogas? É sério isso?”

    Sam negou com a cabeça.

    “Claro que não! Eu já perdi amigos pelas drogas, e eu me recuso a usar. Porém, isso aqui, é tipo…. a moeda primordial do Submundo. Consegui algumas amostras com um cara que conhecia um cara.”

    Kevin estava tentando associar todas as informações, andar com Sam era sempre uma experiência ridiculamente estranha…

    Após descerem algumas escadas, ambos viram algo diferente… o lugar estava no subterrâneo, então era quente e tinha um cheiro não tão bom, devido à grande quantidade de pessoas duvidosas no local.

    Havia algumas centenas de pessoas, diversas lojas improvisadas com sucata, viciados, amantes, pessoas brigando e pessoas se divertindo enquanto bebiam.

    O lugar era como uma enorme caverna com inúmeros alojamentos feitos de sucata, era iluminado por um único solaris, que provavelmente fora roubado e levado para lá.

    No centro deste lugar, havia uma espécie de ringue, onde duas pessoas lutavam, enquanto outras torciam.

    Kevin ficou perplexo, e Sam, maravilhada.

    “Uau, Kevin, olha esse lugar!” disse, empolgada.

    Kevin engoliu seco enquanto lentamente se virava para Sam.

    “Samantha…” ele desistiu de continuar a frase.

    Bateu a mão em sua testa, e logo começou a rir.

    “Hahaha, sério, que lugar é esse? Quem te apresentou isso?”

    Sam riu de volta.

    “Ah, sei lá! Foi um cara aleatório que estava falando sobre isso com uns colegas na CAE, eu estava curiosa, escutei a conversa e aqui estamos.”

    Ela sequer olhava para Kevin enquanto respondia, estava analisando o local. E então, ela prosseguiu:

    “Eu passei por perto e entrei naquele beco algumas vezes, descobri que eles gostavam muito daquele tal de fusha. Aí eu descolei três pacotes de um otário na queda de braço, e apenas arrisquei utilizá-los para entrar aqui, e funcionou. Haha!”

    “Você não disse que conhecia um cara que conhecia um cara?” Kevin perguntou.

    Sam deu uma risada.

    “Ah, sim! Eu conheci um cara que conhecia esse cara da queda de braço, entendeu?”

    Kevin suspirou e passou as mãos em seu cabelo, passou mais alguns segundos em silêncio, analisando o local, e por fim, deu de ombros, enquanto dizia:

    “Bem, não tenho muito mais o que dizer, foi uma ótima aposta a sua. Enfim, agora que estamos aqui, vamos dar uma olhada.”

    Ele lançou um olhar para o ringue e disse baixinho.

    “Acho que dá para fazer uma grana boa aqui…”

    Sam também olhou para o ringue e franziu o cenho.

    “Ué, você vai lutar?”

    Kevin revirou os olhos.

    “Claro que não, eles que lutam por nós. Quem você acha que lucra nisso? Os apostadores, ou os lutadores bastardos? Eu acho que é a primeira opção…”

    Sam coçou a nuca, sorrindo.

    “É, você tem razão, mas eu prefiro lutar… enfim, vamos!”

    Kevin assentiu.

    “Vamos, mas não se esqueça, use apenas meu codinome em público, entendeu?”

    Sam fez um sinal positivo com a mão.

    “Como quiser, Kroupier.”

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