Capítulo 9 - Fluxo
Luke, Sam e Clara estavam reunidos no refeitório, tomando o “café da manhã da noite”. Um nome dado por Clara. Kevin ainda não havia chegado, ele havia saído antes de Luke, mas fora para algum outro lugar.
Clara cumprimentou Luke e Sam com um belo sorriso no rosto e estava radiante como sempre, Luke não chegou a ver Clara triste ou nervosa nenhuma vez, ela sempre estava de bom humor. Ela também estava indo para missões com Kevin quase todos os dias. Desde o primeiro dia que chegou em Automatuz, ela acredita fielmente que seu namorado Dae – irmão de Kevin – também estava aqui.
Afinal, quais eram os motivos para Kevin e ela terem sido abduzidos? A maioria das pessoas em Astralion acreditavam que a abdução não acontecia sem um motivo, era de senso comum que se você foi abduzido, provavelmente os alienígenas, ou seja lá o que for que comanda este lugar, tem algum plano para você.
Mas, uma semelhança que quase todos os abduzidos tinham é que a maioria não sentia muita falta da terra, eram pessoas “desconexas” do mundo, por isso ninguém reclamava muito de Astralion e se adaptaram rapidamente.
Todos aqui são pessoas bem peculiares…
Finalmente a refeição dos três chegou, sendo entregue em suas mesas por um autômato.
“Boa noite, aqui está seu pedido!”
Sam assentiu sorrindo para o androide.
“Obrigada, robôzinho.”
Um rosto pixelado formado por apenas um par de olhos e uma boca sorridente apareceu na tela que servia como cabeça do autômato, e logo ele se retirou.
Luke olhou para Clara.
“Algum avanço nas buscas pelo Dae?”
Clara negou com a cabeça.
“Nada, só o mesmo de sempre.”
Luke e Sam estavam tentando ajudar ela o máximo que podiam, perguntando mercadores ou pessoas mais experientes em Automatuz se elas se lembram de ter visto algum garoto de cabelos longos, barbicha, olhos azuis e com uma grande cicatriz no pescoço.
Infelizmente eles nunca conseguiam respostas que realmente ajudassem, pois era uma descrição muito comum, e ninguém se lembrava de nenhum “Dae”, já que era bem difícil se lembrar de nomes de pessoas que você não tinha nenhuma ligação neste lugar, além de que, algumas pessoas preferiram usar o codinome de forma pública e esconder o nome verdadeiro.
Os codinomes eram algo estranho, não parecia servir para outra coisa além de entrar em guildas e esconder o verdadeiro nome, cada pessoa utilizava de uma forma diferente. Assim como algumas pessoas preferiram usar ele de forma pública e esconder o verdadeiro nome, algumas pessoas utilizavam o verdadeiro nome e revelavam o codinome apenas para pessoas mais próximas.
“Você vai encontrá-lo, eu sei que vai.” disse Sam, enquanto segurava a mão de Clara com um sorriso no rosto.
Clara concordou silenciosamente, após alguns segundos, ela se virou para Luke com uma expressão de dúvida.
“Ei, Luke, cadê o Kevin?”
Luke deu de ombros enquanto tomava mais sorvete.
“Não sei, ele saiu bem cedo, mas deve aparecer daqui a pouco.”
Sam olhou para algum lugar que estava atrás de Clara, e apontou o dedo na direção.
“Falando nele…”
Kevin acabara de chegar na praça de alimentação e se juntou a eles em sua mesa, lançou um olhar para todo mundo e disse com ânimo:
“Consegui uma missão, um grupo vai explorar a torre de prata e estão precisando de pessoas. Eles voltam ainda hoje, ou amanhã no início da puranoite, querem ir?”
Luke, Sam e Clara se entreolharam e responderam simultaneamente:
“Pagamento?”
“Setenta salis.” Respondeu Kevin.
Setenta salis era um bom pagamento, além disso, a torre de prata não ficava longe da cidade, era uma enorme torre de metal abandonada que foi tomada por algumas criaturas, porém, era perigoso ir para lá na corrolune. Várias criaturas voadoras se abrigavam naquele lugar, e elas eram um dos tipos mais irritantes de lidar.
Sam olhou para Luke.
“O que você acha?”
“Acho que devemos ir, eles estão pagando bem.” respondeu.
Clara assentiu.
“Verdade, contem comigo também.”
Kevin sorriu.
“Legal, se preparem então, saímos em três horas.”
***
Luke havia saído da praça de alimentação e foi se banhar nos vestiários, ele foi até seu banheiro individual e esperou pacientemente sua banheira se encher com água quente e confortável.
Essa banheira, sem dúvidas, seria a coisa que ele mais sentiria falta quando saísse do hotel.
Ele se despiu e entrou nas águas, se sentou de pernas cruzadas no centro da banheira cheia de espumas e fechou os olhos enquanto posicionava seus braços de forma que seus cotovelos ficassem encostados em seus joelhos, era como se estivesse meditando.
Ele começou a se concentrar no som ambiente, os sons suaves que a água da banheira fazia, na torneira que ele deixou ligada, e na sua própria respiração. Com o tempo, ele conseguiu afastar seus pensamentos e se desconectar de certa forma.
Ele estava treinando o fluxo.
Alguns minutos se passaram, e rapidamente o RAI começou a se manifestar em pequenas partículas que saiam de seu corpo, Luke conseguia sentir a energia fluir por suas veias e por sua carne, sua concentração agora havia melhorado, nenhum pensamento indesejado passava pela sua mente.
Mais um tempo se passou, o que antes eram apenas partículas pequenas, agora se tornaram uma espécie de aura que contornava seu corpo, até a água da banheira parou de se movimentar tanto, e Luke passou a conseguir sentir o ambiente com base em seus sons, não era totalmente preciso, mas ele já estava em um ótimo nível de concentração.
Depois de mais alguns minutos, a aura que antes só o contornava, agora começava a soltar mais partículas, Luke nem sabia a quanto tempo estava em fluxo, na verdade, ele nem estava pensando nisso, ele não estava pensando em nada, estava apenas concentrado no som ambiente.
Porém, um som estridente da cortina de seu banheiro se abrindo o despertou imediatamente.
“Uh, você está pelado…” era a voz de Sam.
Ela rapidamente fechou a cortina, mas permanecia do outro lado.
Luke abriu os olhos lentamente enquanto via a silhueta da jovem garota de cabelos vermelhos e respondeu delicadamente.
“Sam, por que está no meu banheiro?…”
“Eu te chamei um monte de vezes, mas você não respondia, aí eu pensei que você poderia ter batido a cabeça e morrido aqui dentro e entrei para verificar, haha.” respondeu.
“Que exagero…” sussurrou Luke.
Ela suspirou.
“Mas pelo visto você só está transcendendo… Como consegue fazer isso?”
Luke permaneceu parado e com um semblante calmo, ele estava deixando o estado de fluxo de maneira lenta. Sam sempre fazia a mesma pergunta, na verdade, muitas pessoas faziam. Para alguém aprender a emanar o rai, demorava sempre em torno de um mês. Mas Luke conseguiu fazer isso na metade do tempo, apenas observando algumas pessoas fazendo e escutando seus ensinamentos.
E agora, ele estava aprendendo o fluxo, a técnica mais fácil do rai.
“É mais fácil utilizar o fluxo se eu estiver confortável, e a água parece ajudar a energia fluir.”
Sam ia dizer mais alguma coisa, mas foi interrompida por batidas na porta.
“Encontrou ele?” era a voz de Kevin do lado de fora.
Luke franziu o cenho.
“Há quanto tempo estou aqui?”
“Sei lá, umas duas horas, eu acho. Perdeu a noção do tempo?” respondeu Sam.
“Pior que sim.”
Sam suspirou.
“Enfim, coloca uma roupa e se arruma rápido, já está quase na hora de encontrar os nossos contratantes. Kevin está furioso por você ter desaparecido.”
Ela se retirou do banheiro, deixando o jovem rapaz sozinho.
‘Tsc, precisava violar minha privacidade? Como ela é inconsequente…’
Luke se levantou da banheira, se secou e vestiu seu traje novamente.
‘E lá vamos nós, de novo…’
Não era a primeira e nem a última missão que Luke participava, porém, ele estava um pouco insatisfeito…
Desde que chegou à cidade, Luke só saiu do hotel quando foi fazer missões. Ele gastava o resto de seu tempo treinando e estudando nas alas especializadas para isso. Sam e Clara sempre o chamavam para sair e passear pela cidade, mas ele sempre dizia que estava ocupado demais com seu treinamento.
Ele já conhecia muito sobre a cidade, ou pelo menos o que precisava conhecer. As vezes sentia vontade de sair para passear, mas sempre acabava procrastinando.
Luke secou seu rosto, respirou fundo, ajeitou sua postura e foi de encontro com seus amigos.

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