“Um sonho nunca deixará de ser apenas um devaneio da realidade”
    — A. L.

    1.

    À medida que a conversa se aprofundava, Nicoli deslizava a fita métrica pelo corpo de Helena, medindo com precisão cada parte.

    — É isso mesmo — afirmou Alice, a voz firme.

    — Você sabe quem são meus pais? — perguntou Helena.

    — Sim e não… — Alice desviou o olhar — É complicado.

    — Ninguém nunca viu um Vrax meio Rys — comentou Nicoli, concentrada na cintura de Helena.

    — Boa pontuação, Nic — disse Alice.

    — Mas vocês estão me vendo agora — retrucou Helena.

    — Justamente. É difícil até imaginar que você exista — Alice complementou.

    Helena suspirou. — Seria mais agradável se você não me deixasse tão no escuro o tempo todo. Não tenho memórias sobre quase nada.

    — Temos tempo dessa vez — Alice respirou fundo antes de prosseguir. — rys e Vrax se odeiam, esse é o motivo, muito, no extremo.

    — Claro… por que não fico surpresa? — Helena desabafou.

    — Não sei o motivo é também não é contado nos livros de história, mas acho que pelo menos quer saber oque é cada um.

    — Sim, eu adoraria, na verdade — disse Helena.

    — Estelarys — explicou Alice — são seres meio humanos, com traços de animais.

    Helena balançou as orelhas, atenta.

    — Não sei muito deles, o mesmo para os Vrax, ninguém sabe, exceto a Nic — disse Alice.

    Nicoli levantou o olhar e sorriu meio sem jeito. — Eu não conheço nada deles. Só fui dama de companhia de uma princesa, que, por acaso, era dessa família. Sua família, Helena.

    — Isso já é mais do que a maioria sabe — retrucou Alice.

    — Conviver não é o mesmo que compreender, Alice.

    Helena as olhou, confusa. — Então… vocês sabem onde está minha família?

    As duas responderam quase juntas: Alice negou, Nicoli assentiu.

    Alice lançou um olhar cortante para Nicoli, que recuou, voltando à fita métrica.

    — Não, Helena. Não sabemos onde estão seus pais. Mas sua família é poderosa, sempre dá para saber onde cada integrante está — Alice respondeu.

    — Entã—

    — Exceto você — cortou Alice.

    Helena abaixou a cabeça. — Um problemão, pelo que vejo.

    — Nem tudo está perdido. Existe um rumor — disse Alice.

    — Rumor milenar — completou Nicoli, levantando o braço de Helena. — Pode ficar parada, por favor Helena?

    — Tem outra ideia, Nic? — perguntou Alice, impaciente.

    — Já discutimos isso, só acho difícil ela ser quem você acha que é.

    — Se não tem nada pra acrescentar, fica quieta.

    2.

    — Que rumor é esse? — perguntou Helena, ansiosa. — Se pode me ajudar, eu quero saber.

    Alice respirou fundo.

    — É uma história antiga — começou. — Antes de Velmora, antes do surgimento da fenda que cortou o continente… de qualquer coisa. Antes mesmo do norte congelar.

    Alice olhou para a janela, como se pudesse enxergar o passado através dela.

    — Dizem que, muito tempo atrás, existia um pequeno reino nas terras geladas do continente. Um reino tão belo que chamou a atenção do rei de Velmont, líder dos Vrax, que ofereceu a mão de uma das filhas das ramificações da sua família ao príncipe daquele reino. Um jovem considerado o ser mais perfeito que já nasceu.

    Alice se inclinou um pouco, e sua voz tornou-se tênue.

    — Parte da família viajou para o casamento: o pai, a filha prometida, sua irmã e três irmãos mais novos. Houve festas por semanas, banquetes, danças, oferendas. E então, das profundezas do castelo, algo começou a murmurar. Primeiro sons, depois coisas estranhas começaram a acontecer, desaparecimentos, coisas quebrando, mudando, tremendo. Pessoas sumiam sem ninguém perceber… até que, de repente, ela apareceu.

    Helena sentiu um arrepio subir pela nuca — Ela quem?

    — Uma criatura — respondeu Alice, sombria. — Um monstro indescritível. Ninguém conseguiu escapar. Uma barreira vermelha se ergueu ao redor do reino. Fora dessa barreira, uma nevasca colossal começou a se formar no norte. Ninguém podia entrar, ninguém podia sair, ninguém podia se aproximar. Em menos de um dia, toda a capital foi destruída, sabe-se lá pelo oque.

    Alice fez uma pausa.

    — Quando finalmente alguém ousou chegar perto da capital, oque havia acontecido veio a tona, não havia mais nada ali. Nenhum sobrevivente foi encontrado. O inverno tomou conta do norte, e no meio desse reino gélido uma primavera vermelha eterna permaneceu.

    O silêncio que seguiu pesou o ar.

    — Aquela ramificação da família Vrax desapareceu — prosseguiu Alice. — Encontraram apenas pedaços de corpos dos cidadãos daquele reino espalhados pelas casas, tavernas, bares e ruas. O rei estava morto, sua cabeça presa ao trono junto de sua coroa. A rainha, desmembrada nos aposentos. E o príncipe… ajoelhado diante do castelo, ainda segurando a espada.

    Helena manteve-se imóvel.

    Alice enfim concluiu sem enrolar: — E eu acredito que você seja uma das pessoas que desapareceram junto com esse reino, Helena.

    — Essa é uma história contada para crianças dormirem Helena — relatou Nicoli escrevendo algo em um caderninho.

    — Toda história tem um fundo de verdade, Nic — retrucou Alice.

    Nicoli ergueu o olhar. — Talvez.

    — “Talvez”? — repetiu Alice.

    — Talvez — reforçou, dando de ombros.

    — Aiai, se tem algo para dizer, fala logo Nic.

    — Não adianta dizer.

    — Se você não falar não vou saber.

    Nicoli largou a fita por um momento. — Alice, você realmente acha mesmo que com aquele frio mortal do norte, ela foi capaz de entrar em um estado de sono temporário e depois magicamente el—

    — Não foi mágica — Alice interrompeu.

    Nicoli baixou o tom — Alice… eu sei que está desesperada por causa do Gutav… mas talvez não seja essa a resposta.

    Alice fechou o punho, o rosto endurecendo. As palavras saíram frias, espaçadas: — Eu. Não. Quero falar sobre isso, Nic.

    Nicoli suspirou, rendida.

     — Tudo bem… — murmurou. E então, voltando ao trabalho, disse com delicadeza: — Pode levantar os braços um pouquinho, Helena?

    Helena obedeceu sem questionar. — Acho que entendi — disse Helena, pensativa. — Mesmo que seja só um rumor antigo, ainda assim vale a pena investigar.

    Ela olhou para baixo, observando Nicoli medir seu tronco com cuidado.

    — E por que estão me medindo, afinal?

    Alice se recostou na cadeira. — Nic se ofereceu pra fazer roupas novas pra você. 

    — Minhas roupas antigas estavam em perfeito estado, eu posso lavar elas.

    — Não estavam, quando voltei para o quarto, no dia que você apagou, percebi que suas roupas estavam um pouco rasgadas e seu manto também havia sumido, por sinal, oque você fez com ele?

    Helena desviou o olhar — Eh… Então… No meu sonho…

    Alice bufou — Bobagem, já disse que sonhos não são reais. — Logo em seguida se levantou da cadeira e saiu do cômodo — se divirtam as duas — finalizou com sua voz abafada pelo distância.

    — Ela nem me deixou terminar — disse estufando as bochechas.

    — Ela é sempre assim — Nicoli replicou tentando acalmá-la.

    — Eu sei que é, só que às vezes parece que ela me odeia, igual todo mundo.

    Nicoli riu — Acho que você está só pensando demais nisso.

    — Pode ser…

    — Enfim — completou batendo palma. — Vamos para a parte legal agora, que tipo de vestido você quer?

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