80 (dois meses depois)
— Ordem! ORDEM NO TRIBUNAL! — berrava uma mulher, de cabelos curtos e tingidos de preto, que trajava uma roupa com a mesma cor além de grandes óculos quadrados. Sua aparência não denotava velhice. Depois do seu comentário rígido, todos os cochichos entre as pessoas do lugar bem iluminado, ao qual regia, cessaram em segundos. — Hoje, no décimo primeiro dia de março, eu, Rosalie Martin, Septuagésima Sétima Juíza da Suprema Corte de Maple, serei responsável por este julgamento.
Ela se assentava em uma grande poltrona de madeira, cercada por outras seis cadeiras do mesmo material, sendo três a cada lado, todas ocupadas por homens que trajavam uma roupa parecida com a da mulher em destaque.
Detrás dali, quatro colunas, posicionadas à frente de grandes cortinas vermelhas, sustentavam a maior parte da estrutura do local, composta por paredes de detalhes amarelados que lembravam o tom do nascer do sol.
A Juíza, antes de prosseguir com o seu discurso, pegou um fino papel que estava sobre uma mesa grossa a sua frente, que separava o comitê do restante das pessoas do dito salão. Depois, ela concentrou seu olhar nas informações contidas ali, que se referiam à um homem algemado e cabisbaixo diante de si.
— Hoje, realizaremos a última sessão do julgamento deste homem, sendo assim, determinando sua pena final — A fala de Rosalie tensionou todos os espectadores ao redor, até mesmo alguns dos profissionais que acompanhavam o caso. — O Réu, por favor, poderia dar um passo à frente?
Aquele mesmo homem cabisbaixo obedeceu à ordem, erguendo a cabeça logo em seguida e também encarando, com uma expressão de muita seriedade, todos ali.
A maioria das pessoas, que no total se aproximavam em cento e cinquenta, se levantaram, ansiosos pelas próximas palavras que determinariam o futuro daquele suposto criminoso até então.
Exceto pelos jurados, que estavam à lateral da Corte, algumas daquelas pessoas não conseguiam enxergar o julgamento por completo devido à posição da equipe de segurança que escoltava o dito acusado, formada por militares e já conhecidos: Slezzy, Jean, Kine, Shane e Helena. Todos de pé e armados apropriadamente.
A equipe militar também protegia o Advogado de Defesa daquele homem que, naquele ponto, suava bastante, mesmo com a maioria dos ventiladores apontados em sua direção.
Ao lado, um Promotor de Justiça, sem nenhuma escolta ou qualquer tipo de proteção, apenas aguardava a continuidade do discurso de Rosalie.
— Enion Miller. Acusado de participar da maior organização mafiosa de Maple, agora derrubada, e colaborar com parte de seus crimes diariamente, auxiliando a alta hierarquia da mesma, cooperando com a morte de diversos militares ao longo dos anos e, inclusive, no dia da sua apreensão, conhecido como o dia da “Invasão à Prisão Antiga”. Você pode confirmar se todas estas informações, acolhidas e revisadas estritamente pelo Departamento de Justiça de Maple, são verdadeiras?
O homem algemado girou sua cabeça, relanceando o olhar para o Advogado de Defesa e depois para o garoto espadachim, relembrando o momento icônico em que havia sido jogado do alto do prédio da FMA há alguns meses atrás.
A seguir, sem saída, Enion voltou a fixar seu olhar na Juíza, respondendo-a em alto e bom tom:
— Sim, Excelentíssima. Todas as acusações são verdadeiras.
Um burburinho se formou entre todas as pessoas, surpresas, forçando Rosalie a “martelar” por repetidas vezes no extenso balcão de madeira, recuperando a ordem do salão.
A Juíza ajeitou seus óculos, largou o papel que segurava em uma de suas mãos e logo as cruzou.
— Tendo em vista a confissão do Réu, além da sua contribuição às nossas forças militares enquanto ainda detido, fornecendo a localização da base da Sociedade Nobre, o Júri gostaria de alterar a sua posição final sobre o caso?
Nenhuma das pessoas que compunham o corpo de jurados se manifestou, dentre olhares de fúria e sede de justiça.
— Sendo assim, Senhor Miller, eu o declaro culpado, o sentenciando a trinta e cinco anos de prisão… — A fala da Juíza começou, lentamente, a ser abafada pelas palmas de todos os espectadores do julgamento, que se levantaram, gritando e até assobiando. — …sem possibilidade de liberdade condicional até o cumprimento de oitenta e cinco por cento da pena.
O Advogado de Defesa aprontou as suas coisas, ajeitando-as na sua bolsa de trabalho, enquanto a equipe de escolta ia ao encontro do condenado.
— Esquadrão Setenta e Sete da FMA, responsável pela escolta deste homem, eu lhes concedo a permissão para que o conduzam até a Sede Governamental, onde o mesmo será encaminhado para uma de nossas prisões federais externas à cidade. Essa sessão está encerrada! — concluiu ela, chocando o martelo suavemente com o balcão mais uma vez.
Enion se virou e encarou os garotos. Logo, Shane se aproximou, com uma mão sobre a katana de sua cintura, encarando-o em meio aos gritos daquelas pessoas.
— Vamos. Quanto mais cedo passarmos por esses animais, melhor. Não estou suportando toda essa gritaria.
O menino espadachim, com a outra mão, agarrou o homem algemado pelo braço esquerdo, forçando-o a caminhar em direção a saída principal do salão, que estava cercado por todos aqueles que xingavam o condenado dentre palavras e gestos, comemorando sua sentença.
A Juíza, ainda ajeitando algumas de suas coisas sobre o balcão, percebeu todo o alvoroço, mas não interviu. O Comitê e os jurados ao lado fizeram o mesmo.
No caminho para a saída, que recebia um pouco da luz solar daquela polêmica manhã, Enion e Shane sussurravam algo entre si, enquanto Kine e Roy, à direita, e Slezzy e Helena, à esquerda, os protegiam.
— Eles não vão deixar que isso saia barato… — falava Enion, enquanto desviava de utensílios jogados pelas pessoas raivosas, dentre pares de botas, relógios e até chapéus. — Vocês precisam entender que… nenhuma traição é perdoada naquelas malditas máfias.
— Cale a merda da boca… e continue andando! — Shane o empurrou, fazendo com que Enion acelerasse seus passos.
Ao chegar na saída do salão, o esquadrão a atravessou, escoltando o condenado entre os próximos corredores de todo o gigante lugar dourado.
Algumas das pessoas revoltadas ainda insistiram em perseguir o esquadrão, sem nenhum medo.
Após descer por uma escadaria pouco movimentada, eles finalmente alcançaram a porta principal do Tribunal de Justiça de Maple, localizado na Região Sul. Ali, enfrentaram novamente um grupo de pessoas, cujo os olhares ferviam de fúria.
Por sorte, ou talvez apenas um planejamento prévio, o Capitão Roy e outras duas figuras o esperavam naquela entrada, prontos para os auxiliarem.
Com maior proteção desta vez, o Esquadrão Setenta e Sete caminhou em rápidos passos, descendo algumas pequenas escadarias de concreto que separavam o alto daquele lugar da calçada, em direção à um carro-forte que lhes aguardava do outro lado da rua.
As pessoas tentavam agarrar o condenado, mas eram alertadas constantemente, e em alguns momentos até empurradas.
Escapando do clima hostil, sob os raios solares daquela calorosa manhã, as duas figuras que acompanhavam Roy assumiram a parte da frente do carro, enquanto o restante da equipe adentrou a parte traseira, que era muito espaçosa.
Partindo dali eles ainda escutaram o barulho de socos e batidas sobre a carcaça do carro.
No trajeto para o centro da cidade, sentados sobre os bancos improvisados do carro, o esquadrão se debatia:
— Segundo a nossa mais nova celebridade criminal, sua traição vai custar muito caro… — provocou Shane, seriamente, lado a lado de Roy.
— Han…!? — disse Helena, com um tom de deboche. — Enion, me responda… como você vai ser cobrado… por uma máfia que nem sequer existe mais!?
Enion, com as costas apoiadas sobre as portas traseiras do carro-forte, trêmulo e com o olhar fixado no chão, replicou a garota em baixo tom:
— Quem me dera… se fosse tão simples assim. Por todas essas ruas, corre uma regra que chamamos de Pacto de Lealdade. É o fundamento de todos aqueles que compactuam com suas facções. Todos aqueles que se alinharam a qualquer máfia são responsáveis pelo cumprimento dessa regra.
— O que você quer dizer com isso? — indagou Slezzy, apoiando os braços sobre seus joelhos.
— O fato de a Sociedade Nobre estar aos pedaços… hum… nada disso importa! Quando uma pessoa comete uma traição contra qualquer uma daquelas máfias, ela se torna inimiga de todas elas. Nessa hora, nenhuma rivalidade vem ao caso.
Todos se mantiveram em silêncio nos próximos segundos. Apenas o barulho do motor do carro-forte ecoava sobre seus ouvidos.
Roy abriu um grande e convincente sorriso, retrucando a fala de Enion a seguir:
— Toda história é realmente bonita em sua teoria. Quem diria… que até mesmo os criminosos podem compreender a lealdade entre si. Porém, é uma pena que eles jamais adentrariam essa área em suas atuais condições. Com a metade da cidade completamente dominada por nossas forças militares, é praticamente impossível de que você seja alvejado a este ponto… a não ser que algo estivesse muito errado.
A fala do Capitão reconfortou todos os outros, e até mesmo o tal condenado, por um pequeno momento.
Enquanto todos se encaravam entre sorrisos, uma enorme força colidiu com uma das laterais do carro-forte, os chacoalhando violentamente.
Mesmo pesando quase doze toneladas, o carro-forte sofreu uma sequência de capotes sobre uma esquina praticamente vazia.
À medida que o carro se virava, o asfalto e pequenas construções ao redor eram destruídos.
Ao colidir com uma grossa estrutura de um prédio em reforma, o veículo tombou pela última vez, ficando de cabeça para baixo.
Sobre um pequeno traço de fumaça originado pela queima daqueles pneus, três figuras negras se aproximaram lentamente da porta traseira, que logo foi aberta bruscamente por uma das pessoas que estavam ali dentro: Enion.
O criminoso, ferido e com uma perna quebrada, abandonou o carro-forte e se arrastou pelo asfalto, cercado por pequenas chamas, até chegar aos pés de uma das figuras negras.
Dentro do carro-forte, a maior parte dos membros gemiam de dor devido aos ferimentos causados pela colisão.
— Peguem ele — ordenou a figura do meio. Logo, os que lhe acompanhavam obedeceram a ordem, caminhando até Enion e o erguendo, mesmo que o mafioso gemesse constantemente. A lateral de seu rosto estava coberta por sangue.
De pé, Enion pôde visualizar o responsável pelo ataque diante de si: o Corvo.
Aquele homem mascarado não poupou tempo e logo direcionou seu olhar para um de seus capangas que erguiam Enion, como se repassasse algum comando.
O capanga fez um sinal com a cabeça.
O condenado não entendeu muito bem, e antes que pudesse pensar em reagir de alguma maneira, o mais forte dentre os capangas aplicou um golpe na direção da lateral da sua cabeça, desmaiando-o forçadamente.
A seguir, o mesmo capanga apoiou Enion sobre um de seus musculosos ombros, partindo dali juntamente com o Corvo e o outro.
Logo, eles foram surpreendidos por um forte grito que vinha da porta arrombada do carro:
— EI! — Era Slezzy.
Corvo interrompeu seu andar, se virando logo depois, junto com seus capangas.
O jovem, agora enfurecido, estancava um ferimento no seu abdômen com a mão esquerda sobre a parte rasgada de suas vestes.
Adiante, ele provocou o mascarado:
— Eu juro que você não vai escapar… NÃO ASSIM! Não… outra vez…


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