Um menino de cabelos negros andava lentamente sobre uma calçada, em uma rua barulhenta.

    Estava muito frio. A neve caía desenfreadamente sobre aquele lugar.

    Muitas pessoas agasalhadas com mais de duas blusas cada uma, transitavam sobre a tal rua.

    O menino, que só estava coberto por uma camisa rasgada e uma calça com furos na parte de seus joelhos, tentava se aproximar das pessoas que passavam por ali, pedindo ajuda.

    — Ei, Moço! Você viu a minha mãe? — O menino chorava em meio as suas palavras. — Ei, Moça! Me ajude!

    Todos ao redor ignoravam o menino, que continuou a caminhar sem rumo pelas próximas ruas. Ele desistia aos poucos de pedir ajuda à todas aquelas pessoas.

    Ele entrara em um bairro rodeado por prédios. A rua estava coberta de neve. Não havia trânsito de carros e poucas pessoas agasalhadas passavam por ali.

    Estava quase anoitecendo, mas a iluminação dos postes de luz contribuía para que o garoto não se perdesse em meio à escuridão.

    Naquele ponto, ele já tinha desistido de tudo.

    O menino se deparou com um beco entre aqueles prédios. Ali estavam alguns moradores de rua, debaixo de seus cobertores.

    Ele não pensou duas vezes e correu ao encontro daquelas pessoas:

    — Ei…! Ei! vocês podem me ajudar? — Sua voz estava trêmula. — Eu estou morrendo de sede!

    — Mas é claro! Venha pra cá! Você vai morrer congelado! — falou uma mulher de cabelos brancos, que estava enrolada sobre um cachecol.

    O menino se aproximou da mulher. Ela o enrolou com seu próprio cobertor.

    — Ei! Você vai morrer de frio se tirar o seu cobertor! — alertou o menino.

    — Está tudo bem! Eu já estou acostumada com isso! — disse a mulher; agora cutucando um homem ao seu lado, que dormia debaixo de um cobertor rasgado. — Ei, preste atenção! Pegue a nossa garrafa d’água!

    O homem, de tom de pele negra e também de cabelos brancos, acordou; e logo em seguida, assustado, começou a fuçar uma mochila azulada que utilizava como travesseiro.

    — Aqui! — Aquele homem entregou a garrafa, que só tinha apenas um terço de água a preenchendo.

    A mulher pegou a garrafa e a deu para o menino.

    — Tome, garoto! Você está pálido! Onde estão seus pais? — falou, assustada.

    Após um gole demorado, esvaziando quase toda a garrafa, o menino respirou profundamente e a respondeu:

    — Senhora, eu não me lembro de nada! Não sei como vim parar aqui!

    — Han!?

    A mulher notou que havia sangue, já seco, sobre a camisa rasgada do menino.

    — Eu não sei! Só me lembro do meu nome… e da minha idade, e de nada mais!

    — Vamos montar a barraca, já vai anoitecer! — comentou o homem de cabelos brancos. Sua voz estava rouca.

    A mulher concordou, sacudindo sua cabeça.

    — Ei, garoto! Pegue aqueles papelões… bem ali! — pediu a senhora, apontando para trás de uma lata de lixo que ficava no beco penumbroso.

    Eles montaram uma pequena barraca, utilizando dos papelões entre outras coisas daquela mochila.

    Após alguns minutos, os três estavam dentro daquela barraca. Todos cobertos e assentados sobre o papelão.

    A mulher acendeu uma vela, utilizando de um isqueiro de metal dourado, para que eles tivessem o mínimo de aquecimento possível perante o frio intenso.

    — Que bela… construção! Onde vocês aprenderam a fazer isso? — perguntou o menino, curioso.

    — Meu marido era engenheiro! — respondeu ela, sorrindo. — E inclusive, foi o gerente de obras… na construção da praça central da cidade! Então, no final das contas… acho que ainda sobrou alguma coisa aqui, dentro dessa cachola!

    A senhora chacoalhou levemente a cabeça do homem ao seu lado, provocando risadas do menino.

    — Engenheiro!? Como vocês vieram parar aqui?

    — É uma longa história, garotinho — comentou o homem.

    — Ah…! Tempo é o que temos de sobra! — retrucou o menino, animado.

    — Ele tem razão, querido! — disse a senhora. — Além disso, faz bastante tempo que não recebemos uma visita, não é?

    Aquele homem sorriu discretamente. Logo depois, iniciou sua fala:

    — Trabalhei na gerência de obras durante a urbanização de toda essa cidade, há mais de vinte anos atrás. Durante esse período, conheci essa linda mulher ao meu lado. Era tudo… tão perfeito. Até que tudo aquilo… simplesmente aconteceu…

    — Han?

    — Há cinco anos atrás, descobri que tinha um tipo de leucemia grave. Foi uma notícia chocante na época. Infelizmente, os tratamentos eram muito caros… e por mais que meu salário fosse um dos melhores entre todos os empregados da época, não conseguiríamos cobrir todos os custos.

    O menino se paralisou, enquanto ouvia aquela história.

    — Nos afundamos em dívidas. Pegamos muito dinheiro emprestado na época. E como meu cargo era relevante, o banco aprovou aquilo facilmente.

    A cera que sustentava aquela vela, já estava pela metade.

    — Depois disso, consegui vencer aquela doença! Porém… nossas dívidas eram milionárias! O tratamento e tecnologia da época era muito pouco acessível. Logo depois, foi só ladeira abaixo — O tom de voz daquele senhor mudou de repente. Ele estava triste. — Quando a cidade estava totalmente urbanizada, todo meu sindicato de engenharia fora demitido. Eu não tinha mais estabilidade a partir dali; e consequentemente nenhuma fonte de renda para arcar com nossas dívidas.

    O homem pegou a garrafa d’água e tomou o último gole, zerando-a. Após isso, ele retomou suas palavras:

    — O banco começou a confiscar todos os nossos pertences. Chegamos a sofrer variados assaltos, no estopim da criminalidade na cidade, quando as instituições militares ainda não tinham controlado a região central. Fomos despejados de nossa casa, logo depois. Até chegarmos nesse estado deplorável, sobrevivendo com restos de garrafas d’água amassadas por aí, no meio do lixo.

    — Que saudade daquela época! Nós conseguíamos ver os tais fogos de artifícios de Maple, considerados os mais lindos do mundo, do topo de um dos mais altos edifícios dessa cidade! — comentou a senhora.

    Mesmo após aquela fala repleta de alegria e nostalgia, um clima tenso se formou naquele ambiente.

    — Acho que não foi uma boa ideia contar uma história dessas para uma simples criança — concluiu o homem, arrependido.

    — Um menino das ruas, não é mais uma criança — Falou a mulher, passando a mão sobre a cabeça do garoto. — Porém… esse não é o seu destino, querido!

    — Do que você está falando?

    — Nós precisamos levá-lo para um dos orfanatos da cidade, amanhã de manhã. — comentou o homem.

    — Não! — A mulher retrucou. — Os outros comentaram sobre um boato de que uma organização militar… estaria recrutando secretamente as crianças desses lugares! Sabe-se lá o que farão com esse menino! Antes que ele viva foragido a servir de escudo humano para aqueles incompetentes!

    — O que você sugere então? Que fiquemos com ele?

    A senhora repensou, e logo chegou a uma ideia:

    — Garoto, você precisa ir para a Região Norte!

    — Por que? Eu quase não sobrevivi chegando até aqui! Além disso… onde fica esse tal lugar? E aliás, por que ninguém dessa cidade me deu ouvidos durante todo esse tempo? — O menino os bombardeou de perguntas.

    — Entenda… garoto, é assim que essa cidade vai funcionar até seus últimos dias. Quanto mais próximo do centro da cidade, mais pessoas ricas, arrogantes e com um ego nas alturas você vai poder encontrar. Bom… pelo menos com duas dessas características — explicou o homem. — As pessoas das áreas mais pobres não te ajudam por que não conseguem alimentar nem mesmo suas próprias famílias, já as mais ricas… por extrema arrogância e nenhuma compaixão. É um beco sem saída.

    A senhora riu, e logo prosseguiu:

    — É por isso que você precisa ir para o Norte! Lá, você terá as maiores chances de reverter toda sua situação. Confie em mim, ainda existem pessoas boas naquela área!

    — E… por que… vocês não foram para lá até hoje?

    — Você tem uma grande vantagem, querido! Você é um jovem, apenas um pré-adolescente! Ao contrário de nós, além de bastante tempo, você ainda tem chances reais para ter um propósito em sua vida!

    O menino se travou, enquanto ouvia aquelas palavras.

    — Temos comida suficiente para que você vá a pé… até lá. Posso desenhar um mapa em um pedaço de papel — propunha a senhora. — Amanhã cedo, podemos arrumar um pouco de água de alguma maneira. É melhor do que apodrecer sem um rumo. O que acha da ideia?

    A vela se apagou, com o esgotamento da cera. Ninguém se enxergava.

    — Amanhã… poderemos conversar mais sobre isso. Mas, por agora… vamos dormir, tudo bem? — falou a mulher.

    Os três se ajeitaram entre aqueles cobertores, adormecendo em seguida.

    *

       — Acorde, garoto! — era a voz daquela mulher.

    O menino se levantou lentamente, retirando aqueles cobertores de cima de si.

    — Preparamos um pacote de biscoitos e uma garrafa d’água pela metade! A água não está filtrada, mas é melhor do que nada, não acha?

    O dia ainda amanhecia. A sensação de congelamento diminuía a cada minuto, com o nascer do sol.

    O homem entrou na barraca, com uma espécie de bolsa em suas mãos.

    — Tome, garoto. Aí está tudo que precisa para chegar até lá… Comida, água e um mapa!

    — Muito… obrigado… sinceramente, estou sem palavras para agradecer… por tudo isso! — comentou o menino, em palavras tímidas.

    — Você não precisa. Sabemos que estamos fazendo a coisa certa!

    Os três saíram da barraca. O menino abraçou aquelas duas pessoas e logo depois caminhou para a saída do beco, enxugando as lágrimas de seus olhos.

    Quando chegou até a saída, ele se despediu novamente, acenando para o casal. Em seguida, abriu o mapa e começou a trilhar pela cidade.

    O jovem percebeu que naquele pedaço de papel, além do bonito desenho do trajeto correto até a ponte que permitia acesso à Região Norte, também estavam traçadas as assinaturas daqueles dois moradores de rua, que haviam o ajudado:

    “Kelda e James”

    *

       O menino havia acabado de atravessar uma enorme ponte. Devido aos fortes ventos daquela região, um pequeno acidente aconteceu: ele perdera aquele pedaço de papel que estava utilizando como mapa.

    A partir daquele momento, o garoto estava perdido.

    Ainda era dia. Carros e pessoas atravessavam as ruas daquela região.

    Os bairros eram perfeitos. Havia árvores dos mais diferentes tipos espalhados por aquele lugar.

    O garoto caminhou até ser dominado pelo cansaço. Ele chegou até uma praça, rodeada por árvores floridas e cantos de pássaros. E rapidamente usou suas últimas energias para correr em direção à um dos bancos dali.

    Ele se assentou e sentiu um grande alívio, mas que logo foi cortado, quando ele começou a repensar sobre o que havia feito.

    Ele estava sozinho e talvez teria que passar aquela noite sozinho; sem nenhum abrigo ou proteção. Aquele pensamento dominou sua cabeça.

    O menino começou a chorar de repente, cruzando suas pernas naquele banco e escondendo o rosto com seus braços.

    Ele já havia comido todos os biscoitos; além de sua garrafa d’água estar quase zerada.

    Repentinamente, o garoto ouviu uma voz:

    — Ei! O que uma criança faz aqui há essas horas? Você não deveria estar na escola?

    O menino, surpreso, levantou seu rosto, enxugando suas lágrimas.

    Um homem barbudo e sorridente, que utilizava um terno bege, estava diante de si. O restante de sua face era identificável por conta de seus óculos escuros e um chapéu marrom.

    — Na verdade, eu estou perdido, senhor — respondeu, engolindo o seco de sua garganta.

    — Agora, não está mais!  — retrucou o homem, estendendo sua mão para o garoto. — Venha comigo! Eu gostaria de lhe fazer uma proposta!

    O menino, desconfiado, não o cumprimentou inicialmente.

    — Ou… você tem uma alternativa melhor!? — complementou o barbudo.

    O garoto reconsiderou; e corajosamente, após alguns segundos de pensamentos, pegou na mão dura daquele homem, cumprimentando-o.

    Antes que o menino pudesse se levantar do banco, o homem o indagou:

    — Aliás, pode me chamar de Adam! Adam Cagliari! Qual é o seu nome, rapaz?

    — Slezzy. Slezzy Kaliman, senhor.

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